sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"Sempre fomos um povo de sonhos maiores do que nós"

“Sempre fomos um povo de sonhos maiores do que nós. E só por tê-lo sido, mesmo na aberração ou na vertigem, nos consolamos e nos orgulhamos, até ao absurdo, de ser quem somos. Nisto estão conformes Camões, Vieira e Pessoa, que nos ofereceram em verso os impérios da realidade, do sonho e da virtualidade. A lusofonia é hoje o nosso mapa cor-de-rosa onde todos esses impérios podem ser inscritos, invisíveis e até ridículos para quem nos vê de fora, mas brilhando para nós como uma chama no átrio da nossa alma”

– Eduardo Lourenço, A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia, p.177.

Cultura Lusófona, Cultura Universal


O projecto Cultura ENTRE Culturas prolonga-se na página Cultura Lusófona, Cultura Universal no Facebook, para a qual estão todos convidados: http://www.facebook.com/pages/Cultura-Lusofona-Cultura-Universal/172568096097549


Por uma Lusofonia universalista, aberta a Todo o Mundo

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

PALADAR DA LOUCURA - LANÇAMENTO DIA 18- 18HS. PRÍNCIPE REAL




 Prefácio
“A vida sem fim”

Conheci a poesia intensa de Ethel Feldman quando a sua paixão incendiária e luminosa visitou o meu blogue Serpente Emplumada e o da revista Cultura Entre Culturas. Porque a poesia de Ethel é isso: fogo e luz. Fogo de um amor cuja saudade o recria em tudo e luz de quem redescobre a eternidade dessa fusão a cada instante. Poesia de mulher total, que assume todas as possibilidades do feminino, da carne ao espírito, em seu âmago se celebra o encontro-beijo redentor que suspende a ilusão de haver dois:

“Sou a puta da esquina, sou a virgem Maria.
Se o teu tempo for só de um segundo será nele que inventarei a eternidade.
Se o teu tempo for de um compasso, que seja de pausa, porque urge o silêncio.
Se for um desenho que seja branco – tão intenso.
Eterno é o momento quando me beijas por dentro”

É esse o tempo “sem hora marcada”, o “tempo sem tempo” e por isso “com tempo de ser”, epifania que advém no seio da mais funda embriaguez, essa em que a amada se torna o vinho que o amante bebe, em versos cúmplices da atmosfera do grande Rumi:

“Dá-me vinho antes do amanhecer
Com o cálice a transbordar
Banha-me nele até que embriagada
Eu seja o vinho que agora bebes”

O beijo dos amantes culmina num “eterno abraço” que fulgura no “intervalo” do existir, vazio e espaçoso, “modo de ser sem ser”, pois esta poesia, de paixão e “fogo-posto” sob a pele, também o é de desprendimento, o sapiencial desprendimento da vida que, tal o poema, renasce a cada instante da própria morte e voa ainda para além de si, pela comunhão desse “presente” onde cessa todo o “enredo”:

“Como o poema que nasce em cada estrofe
Morrendo abro caminho à vida”

“Nascer e morrer no mesmo dia. Entre nascer e morrer – voar.
[…]
Qual é o enredo da vida quando se encontra o presente?”

Tal como a vida que há nela, também de si mesma esta poesia se evade, ciente de só se habitar o mundo a partir do tácito abandono das prisões do dizer:

“Se quiseres continuar a estar
Abandona a palavra que te prende”

            Unindo o que visões mais estreitas separam, aqui é a própria paixão que conduz ao cume meditativo em que a presença do mundo se avoluma na consciência de como é “preciosa” essa “vida” que nas mínimas coisas se agiganta, pelos silêncios intervalares que as fazem cintilar na plenitude do vazio que entremostram:

            “Parece que o mundo cresce dia após dia. Uma flor que nunca vi. Uma nota que passou desapercebida. A migalha de pão esquecida na mesa. Preciosa é a vida. Cada intervalo de silêncio ampliado até à plenitude deste imenso e fantástico vazio”

            Tudo isto porque Ethel, ou quem por seu nome assina, vem de “Outras Paragens”, esse “lugar desconhecido” que afinal todos trazemos “mesmo junto do coração”. Se “em cada homem o universo se exibe inteiro”, este belo e comovente livro é também de cada um e de todos nós. Assim nos deixemos adubar da consciência disso, para que, como diz a poeta, em nossa mão também possa nascer uma “flor”, a flor de na sua leitura nos lermos, desencantando esse mais fundo sem fundo que em tudo sem tardar nos espera.
            Obra cuja “façanha” é nascer do coração, bem entremostra toda a imensidade de onde tão singelas e fundas palavras brotam:

            “Quem dera a vida nascesse do fim
            E os que tudo esqueceram
            Amassem quem nunca aprendeu
            Quem dera a vida fosse
            Um leve calafrio na espinha
            Um beijo na boca
            Um tímido ai
            Um dia sem data
            A vida sem fim”

            A vida não é porventura senão isso, Ethel. E este Paladar da Loucura, tão “sem fim” como a vida que canta, confirma o que escreveu Platão:

            “[…] o delírio, segundo o testemunho da Antiguidade, é uma coisa mais bela do que o bom senso: o delírio que vem de um Deus é melhor que um bom senso cuja origem é humana” (Fedro, 244 d).

            Assim é. Assim seja.


Paulo Borges 

"Conhecermos não para sermos donos, mas para sermos mais companheiros das criaturas vivas e não vivas [...]"

"Há quem acredite que a ciência é um instrumento para governarmos o mundo, mas eu preferia ver no conhecimento científico um meio para alcançarmos não domínios mas harmonias. Criarmos linguagens de partilha com os outros, incluindo os seres que acreditamos não terem linguagens. Entendermos e partilharmos a língua das árvores, os silenciosos códigos das pedras e dos astros. Conhecermos não para sermos donos, mas para sermos mais companheiros das criaturas vivas e não vivas com quem partilharmos este universo. Para escutarmos histórias que nos são, em todo momento, contadas por essas criaturas"

- Mia Couto

Lugares onde pode encontrar ainda o nº1 da revista Cultura ENTRE Culturas

Lugares em Lisboa onde se pode encontrar ainda o nº1 da revista Cultura ENTRE Culturas, além do nº2, que está distribuído pelas principais livrarias do país:

Livrarias Letra Livre - Calçada do Combro, 139; Rua da Barroca, 57, na Galeria Zé dos Bois, (Bairro Alto).
Livraria do Instituto Franco-Português, na Av. Luís Bivar, 91.
Botequim da Graça (junto à Igreja da Graça)
Associação Agostinho da Silva, Rua do Jasmim, 11, 2º (ao Príncipe Real, da parte da tarde; contactar: 21 3422783 96 7044286)
Escola Superior de Educação Almeida Garrett - Largo do Sequeira, 7 (junto à Igreja de São Vicente, na Graça).
União Budista Portuguesa - Av. 5 de Outubro, 122, 8º esq. (a partir das 17h).

Uma revista de Todo o Mundo

NEVE


Neva na montanha. Em cada vale o abismo tenta a felicidade de quem se perde pelo caminho.
Gritam as gaivotas no alto mar.  Fogem as raposas do caçador.
O Outono ambienta o Inverno. Um colibri descobre-se fora da estação. Perdido, alivia o canto.
Na casa amarela o branco dá conta da cor. Dentro dela, um homem sozinho lamenta o engano. 
Adormece, alivia a dor.  
Acorda, pede socorro.
Lá fora, neva. 
Em cada vale, um rio congelado.
Rema o pescador contra corrente, inventa o isco, mata o peixe.
Fogem as raposas, silencia o colibri.
Uma folha amarela molhada de neve.
Uma flor que não se descobre. Nasce o sol em cada manhã. 
Escorrega a neve, pesada de tanto nevar.
Excesso que atormenta.
Foge o peixe da morte certa.
Uiva o lobo com fome.
Uma ovelha desgarrada, grita.
Nascem  meninos com frio.
Primavera que tarda.
Monta o cavalo a fémea em hora de fome.
Relincha a égua a violência.
Nasce o pobre.
Sacrifício que não se sustenta.
Na beira da estrada, uma vala.
Em todas descobre-se lama.
Na beira do rio um barco sem dono.
Abandonado
Um homem morre.
Desperta na Primavera.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A vocação universal de Portugal segundo Agostinho da Silva


"Portugal, o grande, o todo, o de amarelos, brancos, pretos e vermelhos, o de islamitas, cristãos, judeus, animistas, budistas, taoistas, o da América, Europa, Ásia, África, Oceânia, o dos municípios, tribos e aldeias, o de monarquias e repúblicas, o dos grandes espaços conhecidos e o dos espaços ignotos ainda, dentro e fora do homem, o Portugal núcleo de formação de uma União Internacional dos Povos para o desenvolvimento, a liberdade e a paz, […] deve, audaciosamente, preceder os outros povos, estabelecendo ensino ou aprendizagem superior que estejam já encaminhados a uma era em que o homem seja plenamente criador e deixe como traço de sua passagem na vida esse aproximar-se cada vez mais da essência da criação divina"


- Agostinho da Silva, "Educação de Portugal [1970]", in Textos Pedagógicos II, pp.126-127.

the unveiled, between space and time

Apresentação de "Descobrir Buda", pelo Professor José Eduardo Reis



Apresentação de Descobrir Buda. Estudos e Ensaios sobre a via do Despertar (10 de Novembro, Colóquio "Oriente-Ocidente: Diálogos e Cruzamentos", Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Do livro de Paulo Borges que me é dada a honra de fazer a apresentação, gostaria de começar por dizer que no seu título – “Descobrir Buda. Estudos e Ensaios sobre a via do Despertar” – se inscreve uma subtil polarização e uma equivalência simétrica de sentidos, de que talvez não convenha hermeneuticamente abusar, mas que não deixa de fornecer uma via de acesso à leitura do conjunto de textos de que se faz anúncio. A equivalência simétrica de sentidos estabelecida entre o primeiro sintagma “Descobrir Buda” e o último “via do Despertar” é interpolada pela informação de que essa condição de revelação ontológica surge discursivamente reflectida sob a forma de uma subtil polaridade exegética “Estudos e Ensaios”, termos que, por sua vez, na sua simétrica oscilação, correspondem a diferentes ângulos – filosóficos, religiosos, espirituais, mais ou menos discretos, mais ou menos articulados ou mais ou menos convergentes entre si com variações de intensidade de cada um deles – ou seja, correspondem a diferentes vias de aproximação à possibilidade da auto descoberta de ser ou devir Buda, e que o autor se propõe intelectualmente cartografar. Mas se essa simetria de sentidos equivalentes entre o nome “Buda” e o verbo “Despertar” afasta qualquer dúvida quanto à geografia, digamos assim, cultural, intelectual, doutrinal em que se situam estes estudos e ensaios filosóficos, religiosos e espirituais, já o facto de a enunciação de Buda não ser precedida de um artigo definido indica que não estamos perante um livro de iniciação ao pensamento e acção de um venerável fundador de uma religião, nem face a uma descrição sistemática e analítica sobre o seu legado doutrinal e filosófico-religioso – o Buda histórico – mas diante de uma exposição que tem como propósito a auto-inquirição especular e ressonante – o descobrir-se Buda – quanto aos pressupostos, aos desenvolvimentos e os efeitos axiológicos do que assumidamente o autor considera ser uma virtualidade ou possibilidade ontognoselógica. Virtualidade ou possibilidade essa certamente remissível a quem pela primeira vez no tempo e no espaço a indicou por se descobrir e se dar a descobrir como o Buda, o Desperto, mas que neste livro não surge explicitada como um estado afim do da ideia comum de uma suprema realização ou proeza comandada pela consciência subjectiva e pessoal do sujeito biográfico que a manifestou, antes, e sobretudo, como uma condição existencial a um tempo rarefeita e concreta, ou como “um estado de consciência plenamente livre de todos os véus e condicionamentos”. Ora, é sobre as múltiplas formas de se aceder a um tal estado, que, no limite, é insusceptível de ser descrito, explicado e comunicado por via da razão discursiva – e não por acaso logo o segundo texto tem por título “o Silêncio de Buda” –, que Paulo Borges disserta e discorre com o conhecimento adquirido, enriquecido e legitimado pela sua experiência de praticante e discípulo, desde 1983, do corpo vasto de ensinamentos filosóficos, religiosos e espirituais das tradições do Grande Veículo (Mahayana) e do Veículo do Diamante (Vajrayana) do budismo tibetano. E disserta e discorre não só com erudita proficiência, minuciosamente explicitada nas 635 notas de pé de página disseminadas pelos 10 ensaios que constituem o livro, mas também com notável rigor e clareza de linguagem, muitas vezes enriquecida por reinvestimentos semânticos da língua portuguesa, seja por recurso à decomposição silábica de termos com um lastro conceptual originalmente inadequado à abertura da significação pretendida, seja pela tentativa da criação de novos termos vernáculos derivados da terminologia filosófica budista. Disserta e discorre, portanto, a partir da sua experiência de praticante espiritual budista e com a inteligência do estudioso e do ensaísta que, trabalhando criativamente com o quadro de referências que lhe servem de fundamento e orientação, sabe evitar excursos dogmatizantes ou abordagens em tom proselitista dissuasoras da recepção dialogante e crítica das teses que enuncia e problematiza sobre a via do despertar ou do descobrir-se Buda. Disserta e discorre enfim, praticando e tendo em atenção como escreve no prefácio, a “própria exortação do Buda a que as suas palavras não sejam aceites irreflectida e acriticamente”.
Como apreciação geral poderíamos dizer, assim, que estamos perante uma obra que, apesar de coligir um conjunto tematicamente diversificado de textos, na sua maioria escritos para atender a diferentes solicitações académicas e pedagógicas, apresenta uma coerente articulação de propósitos e de sentidos. Articulação de propósitos que se projectam como sendo simultaneamente divulgadores e problematizadores de aspectos fundamentais da filosofia e da prática meditativa budista, derivados quer dos postulados base e “provisórios” associados à verdade relativa das “quatro nobres verdades”, quer das “abissais” e desconcertantes formulações sobre a verdade absoluta reveladas pela sabedoria prática do Buda, transmitidos em obras fundamentais do multiforme e multilingue universo espiritual, intelectual e doutrinário budista e conforme aos seus três ciclos ou veículos de ensinamentos do Hinayana, do Mahayana, do Vajrayana. Aspectos fundamentais esses competentemente processados por uma notável capacidade de assimilação e de explanação sintética do autor, certamente aprofundada e autenticada pela sua própria experiência meditativa e pela sua disponibilidade em aprender de fonte directa com qualificados e reconhecidos professores da tradição budista tibetana, a quem, aliás, presta reverencial tributo no prefácio do livro
Mas articulação também de sentidos, dos mais acessivelmente compreensíveis, como os que são elementar, concisa e claramente comunicados no texto de abertura “Budismo”, aos mais complexos nas suas formulações temáticas e nas aplicações e desenvolvimentos heurísticos, digamos assim, dos operadores conceptuais inferidos da “Via do Buda”, ou do “dharma do Buda” – expressões que, pela abertura supra religiosa e supra eclesiástica que evocam, Paulo Borges considera serem mais adequadas e correctas do que o termo “Budismo” para definir o legado do Buda histórico. Tais formulações, aplicações e desenvolvimentos são vertidos em textos de teor contra-intuitivo, negadores de pontos de vista comuns e perturbadores de consagradas proposições filosóficas, como, por exemplo, o que aborda o conceito budista de karma aplicado à ordem natural e à experiência mental e ética do mundo, ou o que incide sobre a visão búdica da identidade pessoal. Articulação de sentidos que nos parece assim ordenada segundo o princípio do mais simples para o mais complexo, em diferentes planos, e de algum modo seguindo a lógica dos três ciclos ou veículos de ensinamentos do Hinayana, do Mahayana e do Vajrayana, e aparentemente assumida por Paulo Borges como testemunhando níveis de aprofundamento e de progresso espiritual na experiência do desvelamento da condição de Buda. Se bem que essa mesma lógica seja por vezes aplicada ao desenvolvimento do argumento central de cada um dos estudos e ensaios, ela não visa, porém, demonstrar uma hipotética superioridade doutrinal ou eficácia espiritual de um sistema sobre outro, mas tão somente ilustrar a aplicação daquilo que na tradição búdica se designa por “meios hábeis” ou meios de instrução que, visando o despertar das consciências para a verdadeira realidade de si e das coisas, tomam em linha de conta as circunstâncias, os contextos e os níveis de compreensão e de empenhamento dos destinatários a que se dirigem esses meios desbaratadores da “ignorância” e da “ilusão”.
Tendo, portanto, sempre como nexo fundamental de ligação entre os estudos e ensaios o tema da “via do despertar”, este livro aborda essa possibilidade em vários planos, correspondentes a diferentes matérias da filosofia relativos ao ser e agir (os já referidos ensaios sobre a identidade pessoal e sobre as implicações éticas da experiência do mundo) ao conhecer e ao devir (os ensaios com os títulos, respectivamente, “Budismo, ciência e realidade” “o Silêncio de Buda” são disso exemplo), mas também a matérias do domínio do pensamento e da prática religiosa afins do da escatologia e da soteriologia (A morte no Budismo. Da contemplação da impermanência à vida pós-morte e à descoberta da imortalidade), ou do sentido da experiência espiritual, tal como esta se pode comparativamente inferir da noção de vacuidade, explicitada pelo filósofo e místico budista Nagarjuna (século II), e da visão apofática de Deus, de Pseudo-Dionísio Areopagita.
Três traços, porém, me parecem ser os dominantes e comuns a todos os ensaios orientados para a caleidoscópica possibilidade do Despertar: (i) o da compreensão budista, (e cito) “mais de dois mil anos antes de Kant, das ciências cognitivas e da física quântica”, da inseparabilidade entre a realidade e a consciência, entre o mundo e a sua determinação pela actividade mental dos seres que o constituem (o ensaio Budismo, Ciência e Religião, funciona como uma propedêutica a este tópico recorrente); (ii) o da explicitação da noção de vacuidade como se reportando ao ensinamento do Buda sobre a verdadeira natureza, fluida, impermanente e interdependente dos fenómenos materiais e mentais; (iii) o relativo à maneira de se proceder visando a aplicação das terapias adequadas à extinção do sofrimento causado pela incompreensão prática daquelas duas subtis evidências, a da interdependência entre mundo e consciência, e a da vacuidade dos fenómenos. E neste ponto há a salientar que a exigente prática dos ensinamentos budistas visando o “despertar”, inclui também, tal como se pode inferir da leitura de alguns destes estudos e ensaios, a sua própria auto-desconstrução, a sua própria evacuação. É esse aliás o procedimento inscrito na própria estrutura do livro, cujo ensaio axial, inserido a meio da sua ordenação, leva por título ‘“Se vires o Buda, mata-o!’ Ensaio sobre a essência do budismo”, e cujo final se conclui com dois textos sobre o Dzogchen. Sobre esse corpo subtilíssimo e polémico de ensinamentos que, numa perspectiva gradual e no âmbito do budismo tibetano, situando-se para além do radical desconstrutivismo lógico do sábio budista Nagarjuna (século II) e da escola do Madhyamika do Mahayana, se propõe fornecer como instrução última o reconhecimento de que a agitação dualista mental, “tal uma brisa movendo-se através do céu”, é experienciável como manifestação indissociável “da perfeição natural e absoluta de todas as coisas”. Particularmente nestes ensaios se assoma, por mais de uma vez, a tese fundamental de que o “descobrir-se Buda” ou o “despertar” é um estado de consciência que na sua radical inefabilidade só pode ser intelectualmente traduzido e descrito como libertador e liberto dos constrangimentos emocionais e obscurecimentos mentais, como superador das quatro possibilidades de predicação lógica A, não A, A e não-A, nem A nem não-A, ou seja do tetralema necessariamente evocado na própria construção argumentativa da possibilidade desse estado de consciência. Estado que se desvela como uma espécie de retorno ou de reencontro com o fundo sem fundo espiritual da condição da experiência de nós e dos outros, sem pontos de apoio ou de discernível categorização. Fundo sem fundo diante do qual a erudição paciente e pedagógica e a capacidade intelectual e filosófica de Paulo Borges, animada por uma determinação vocacional de generosa partilha do seu saber, se auto-suspende nos limites da funcionalidade e da verdade relativa e dualista em que comummente se situa porque hiperconsciente dos efeitos insidiosos do ensinamento iconoclasta de Nagarjuna – que, mais que uma vez, surge citado no corpo do livro: “Aqueles que mantêm discursos sobre o Buda, o qual transcende todo o discurso, toda a modificação, todos, extraviados pelos seus próprios discursos, não vêem o Tathāgata”
Neste sentido, e como última consideração, gostaria apenas de acrescentar, que talvez o termo mais adequado para sintetizar a modalidade de trabalho que presidiu à composição destes estudos e ensaios de Paulo Borges foi o da tradução: tradução da búdica e experiencial verdade absoluta para a intelectual e humana verdade relativa; tradução de expressões várias da sabedoria budista de origem oriental para o contexto do pensamento, da religiosidade e da espiritualidade ocidental, tradução para a língua, cultura e discurso académico portugueses dessa mesma sabedoria.
Trabalho de tradução esse que, quando bem executado como é o caso, é sempre uma forma de “dizer quase a mesma coisa” na expressão de Umberto Eco, sendo que o dizer aqui é quase o mesmo que não dizer, ou os dois simultaneamente, ou nem um nem outro, ou seja um dizer que se articula como uma espécie de música executada por uma orquestra oculta, e que Paulo Borges traduz como tendo a sua origem neste “espaço livre e absoluto” aquele que fazemos “de conta que não o vemos, que não o somos” e que nos leva geralmente a pensar, a sentir e a agir “que a Liberdade e a Luz não são o nosso Bem mais íntimo e inalienável…”


José Eduardo Reis

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

No nº 2 da revista Entre: "Em que medida é que é possível formar o seu espírito para que funcione de forma construtiva, substituindo a obsessão pela satisfação, a agitação pela calma, o ódio pela benevolência? " (Matthieu Ricard)

"Há cerca de vinte anos, a afirmação de que, na hora do nascimento, o cérebro já contém todos os seus neurónios, e que este número não é alterado pelas experiências vividas, constituía um dogma genericamente aceite pelos investigadores das neurociências. Actualmente, sabemos, pelo contrário, que até ao momento da morte se verifica a produção de novos neurónios, difundindo-se até o conceito de neuroplasticidade que dá conta do facto de o cérebro evoluir continuamente em função das nossas experiências, podendo ser profundamente transformado na sequência de um treino específico, como a aprendizagem de um instrumento musical ou de um desporto, por exemplo. Ora, a atenção, o altruísmo e outras qualidades humanas fundamentais podem também ser cultivadas, dependendo igualmente de um saber-fazer que é possível adquirir.
Um dos grandes dramas da nossa época consiste em subestimar consideravelmente a capacidade de transformação do nosso espírito. Os nossos traços de carácter perduram enquanto não fizermos nada para os transformar, ou enquanto deixarmos que as nossas disposições e automatismos não só se mantenham mas até que se reforcem, pensamento após pensamento, dia após dia, ano após ano."
Hoje, dia 7, às 18.30h, no Botequim da Graça, Paulo Borges faz,  com Dirk Hennrich e Rui Lopo, mais uma apresentação do nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas, em tertúlia subordinada ao tema Encontro Oriente-Ocidente.  A não perder !!

Hoje, dia 7, 18.30, no Botequim da Graça (junto à Igreja da Graça)


Hoje, dia 7, 18.30, apresento no Botequim da Graça, com Dirk Hennrich e Rui Lopo, o nº2 da revista «Cultura ENTRE Culturas», numa tertúlia com o tema "Encontro Oriente-Ocidente". A revista e o projecto "Cultura ENTRE Culturas", com colaboração internacional, visam promover o diálogo intercultural como um dos grandes desafios do nosso tempo, em prol de um universalismo autêntico, via do meio entre nacionalismo cultural e globalização homogeneizadora.

Uma revista de Todo o Mundo.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Hoje, Domingo, 15.30, "Do sofrimento à felicidade pela sabedoria e pela compaixão"

Encerrarei hoje, às 15.30, o Ciclo de Conferências “Da Dor à
Redenção” com uma palestra intitulada “Do Sofrimento à
Felicidade pela Sabedoria e pela Compaixão”. Apresentarei também o livro Descobrir Buda e o nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas.

Sala anexa à Igreja de Santo António de Campolide. Entrada livre.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Visitante

Abriu a porta. Do lado de lá um sorriso deixava adivinhar boa gente.Abriu a janela para arejar a sala. Ofereceu a poltrona do avô. Pediu que se acomodasse enquanto ia à cozinha buscar chá quente do Himalaya. Aquelo rosto era familiar. Reconhecia em seu corpo, abrigo. 
Todos as manhãs preparava um chá para quem pudesse aparecer no fim da tarde com frio. Anos a fio, bebeu o chá sozinha.
Sentada em frente à poltrona vazia, aquecia as mãos na chávena de chá. Olhava o vazio. Enrolada na manta, lembrava de nada. Não conheceu o dono da casa, seu avô. Inventou que a poltrona teria sido dele  e respeitou essa propriedade sem nunca lá se sentar.
A despensa estava cheia de bolachas de canela e gengibre. Quando saía para as compras comprava sempre um pacote, não fosse a casa ficar cheia de gente e faltarem as bolachinhas na hora do chá. Abriu um pacote, esqueceu de verificar que a data de expiração já era de há cinco anos. Pouco importa a data agora. As bolachinhas velhas ainda estavam crocantes.
O tempo dita o limite da vida. É tão curto o tempo de agora. Já quase nascemos fora de prazo.
Da janela da cozinha sentiu a brisa fria do mar. As gaivotas anunciavam peixe morto na beira-mar. A noite estava próxima e corria o risco de passar a hora do chá.
Numa bandeja de prata colocou o bule herdado da casa, as chavenas brancas a lembrarem papel de arroz, um pratinho sem cor repleto de bolachinhas. Umas mais doces, outras picantes. 
Ajoelhou-se delicadamente como se seu corpo tivesse perdido o peso. Serviu o chá. Ofereceu ao visitante uma bolacha fora de prazo.
Em frente, sentou-se. Abraçou com as mãos a sua chávena. Enrolou-se na manta velha da casa. Esperou.
Sorriu. Largou a vontade. Notou o cansaço. Sentou-se criança. Partiu.
Dizem que a morte aparece sem avisar.

Poesia do Eu

A neve tomou conta da minha rua.  Abro a janela, deixo que o frio abrace meu corpo. No céu o fumo é testemunha de outrora. Esvazia a memória, morre a poesia.  Entre a dor que foi e volta, um sorriso intervala o eu.

oh blame not the bard

oh blame not the bard - if he fly to the bowers

where pleasure lies carelessly smiling at fame

he was born for much more and in - happier hours

his soul might have burnt with a holier flame

the string that now languishes loose - over the lyre

might have bent the proud bow of a warrior's dart

and the lip which now breathes - but the song of desire

might have poured the full tide - of a patriot's heart

[...]

Thomas Moore, in Irish Melodies, in Elegant Extracts [...], in Caves do Vinho do Porto, Gaia, 1963 & ss..

Lotus

Chove no pantanal, 
molha o rio,
abraça o lodo

Joga a noiva
arroz semeado
Povoa a colónia 
enquanto for viva


Chora a viúva atrasada
Diz ao amante, 
amo-te  agora que és pó

Voa a borboleta
Encontra o dia
tempo de estar

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

“Examples gross as earth exhort me” (William Shakespeare)



Alternativas para o estado do mundo - unir meditação, política e economia

Vivemos numa era de incertezas e perplexidades. O sonho de progresso da humanidade desde a Revolução Industrial converte-se num pesadelo e o paradigma da nossa civilização entra em colapso, com a ameaça de uma catástrofe ecológica e o sofrimento crescente de homens e animais. Uns vêem a única solução na espiritualidade, outros na política e na economia. Porque não uni-las, coisa que nunca foi tentado à escala global? Porque não investir numa nova geração de políticos e homens de acção que façam da meditação laica, enquanto treino mental para só pensarem no bem de todos, o seu alimento quotidiano e constante? Não será o momento de introduzir exercícios meditativos, que tornem a mente calma, lúcida e sensível, sem qualquer acrescento religioso, em todas as esferas da nossa existência, desde a saúde e a educação à vida empresarial e política? Sinceramente, não vejo outra solução e alternativa para a crescente barbárie em que já nos encontramos.

Muito problema se tenta resolver por meio da política: a chave, no entanto, a tem a santidade"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p.152.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

vou fazer muitos poemas e engatar muitas raparigas. e fazê-las
pensar que sou daqueles que passo horas em frente ao mar, a estudar
o voo ascendente dos peixes, a deitar gotas de
cio nas palavras para
que se sintam desejadas. vou fazer muitos poemas de amor, tantos
quantos possíveis para engravidar todas as raparigas solteiras do
mundo que me queiram ler. e ter filhos
que mais tarde vêm ter
à minha porta e ver que eles são aquilo que inventei para serem.
ter nos versos um certo desgosto para que tenham pena e me
atirem beijos do mar em que estão. quando me sentar para
escrever quero ser homem aos poucos, ter a felicidade de uma
rameira ao finalmente chegar a casa, pôr o fogão no mínimo,
abeirar-se da cama e sonhar com o milagre das coisas boas.
vou fazer muitos poemas, tantos que a minha mãe me dirá
para parar se não quiser enlouquecer. mas eu digo-lhe, que
assim seja, que me afunde contra as palavras e o mundo seja
apenas um verso
em que arrisco a vida.
as raparigas solteiras vão ficar palermas ao ler os meus poemas
que falam e soletram
aquilo que elas escondem debaixo das suas saias. vão querer
tatuar frases minhas no fundo das costas para que junto delas
reclame direitos de autor.
e vou rimar fogo e água no mesmo coração,
e vou tirar as botas às letras
maiúsculas, depois abrir a torneira aos dias claros e existir longamente.

as raparigas solteiras não vão querer ficar menstruadas no dia em
que fizer poemas, e o meu pai bater-me-á
se cometer uma qualquer discordância ortográfica, e nem me deixará mudar de linha
enquanto a noite tiver escárnio na língua. as casadas que me perdoem
mas vou fazer muitos poemas para as raparigas solteiras, tirar-lhes
as medidas letra a letra e acabar nos seios delas com uma
menção honrosa. quando escrever quero mijar no tempo
para não perder demora, fazer de conta que a vida me fascina
e ser a terra onde o cão esconde o osso.
inventarei um morto
e roubarei ao Herberto Hélder sangue e luz dos seus livros
para assim cantar como canta o fogo

Vou fazer muitos poemas, tantos que a caneta ejaculará a
sua tinta azul fluorescente por toda a página e as raparigas
solteiras pensarão que a proeza foi toda minha, e
perguntarão à minha mãe onde vou morrer esta noite,
onde guardo o nome dos remédios valiosos
vou escrever nos bilhetes de comboio,
nos manuais de instruções,
nos peitos das aves,
nos sinais de trânsito,
no coração da luz,
no cu do judas,
no céu do meu quarto,
vou ter grandes erecções
só de pensar que nenhum crítico me vai ler, que nas estantes
bibliotecárias só os poetas loucos me dirão, podes vir.
ah, vou fazer tantos poemas que os animais vão querer provar desse pasto,
a lua vai-se algemar e a solidão vai fugir com um italiano.
vou dar cabo das religiões,
entrar no fogo da simbologia,
abrir o túmulo do Fernando Pessoa e sacar-lhe inéditos. e as raparigas
solteiras vão-me admirar toda a eternidade, vão querer casar com
todos os meus eus, os meus mins que andam de cá para lá algures
entre o crânio e os carpos. e eu, assombrado como um deus
a aprender o instinto, a ter amor em cada palavra
e matar
a anterior.
E as raparigas solteiras que não sabiam que matar
era morrer, choram, ao perceberem que o poema afinal, acaba mal

"Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem"

"Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno"

- Agostinho da Silva, “O Terceiro Caminho”, Diário de Alcestes [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 217.

16 de Dezembro, 19h - Debate com o Dr. Defensor Moura, candidato presidencial, sobre Direitos dos Animais e Equilíbrio Ecológico



A exemplo do que aconteceu em 24 de Junho, com o Dr. Fernando Nobre, a revista Cultura ENTRE Culturas promove agora um debate público com o Dr. Defensor Moura, enquanto candidato à Presidência da República, sobre os direitos dos animais e a questão ecológica. Serão dirigidos convites aos outros candidatos.

O moderador será Paulo Borges e a organização é da revista Cultura ENTRE Culturas, com o apoio do Partido pelos Animais e pela Natureza e do Movimento Outro Portugal, respectivamente representados na mesa por Paula Pérez (Conselho Nacional do PAN) e Luís Miguel Dantas (Comissão Coordenadora do MOP).

Empenhada em trazer estes temas para a agenda política nacional, a organização agradece ao Dr. Defensor Moura ter aceite o coinvite.

A revista Cultura ENTRE Culturas, dedicada ao diálogo intercultural e ao despertar da consciência cívica para as grandes questões planetárias, estará à venda no evento.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

génese

6ª feira, 3, 19h - Tertúlia "Educar para quê?" e apresentação da "Cultura ENTRE Culturas" na Escola Superior de Educação Almeida Garrett



Abertura das actividades do Centro de Estudos da Lusofonia Agostinho da Silva, na Escola Superior de Educação Almeida Garrett, Largo do Sequeira, 7 (Junto à Igreja de São Vicente, a seguir à Voz do Operário, na Graça)

1 de Dezembro - Dia da interindependência



Nunca houve nações independentes. Todas foram, são e serão interdependentes, ou, quando muito "interindependentes", como gostava de dizer, de nós todos, Raimon Pannikar.

Todavia, nesta interindependência, há que assumir a responsabilidade de a gerir, orientando-a na melhor direcção possível para todos. Sem uma ideia e um projecto não existe uma comunidade, uma nação, um povo. Mas essa ideia, esse projecto, devem ser hoje trans-nacionais, gerando um novo sentimento de comunidade: para além das diferenças nacionais, culturais e linguísticas, a comunidade daqueles que visam um mundo melhor para todos os interindependentes e se decidem a realizá-lo desde já nas suas vidas, sem esperar pelo Estado, sempre ocupado com o que menos importa.

É este o projecto de um Outro Portugal, dimensionado à escala planetária, que se especialize no universal, no abraço ao mundo e a todos os seres vivos.

É este o Portugal que urge fundar, por sobre as ruínas do velho Portugal e do velho mundo que agonizam.

Valete, Fratres!

Agostinho da Silva e Portugal como mediador da interculturalidade

"Portugal descobriu, quase sempre por fora, o Oriente, a África, a América Latina e o de fora trouxe à Europa; precisa agora de os descobrir por dentro e de a eles, neles se dissolvendo, levar a Europa"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 151.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Dá-me os óculos..." - últimas palavras de Fernando Pessoa, que partiu há 75 anos



"Dá-me os óculos..." - foram estas, segundo João Gaspar Simões, as últimas palavras de Fernando Pessoa, que partiu a 30 de Novembro de 1935.

A revista e o projecto Cultura ENTRE Culturas prestam a sua homenagem a quem viu o nada-tudo que há em nós e que, na linha de Camões e Vieira, seguido por Agostinho da Silva, semeou um Portugal-universo, cosmopolita e armilar, um Portugal trans-moderno livre da história e da geografia, refundado nas consciências e aberto a todos os que, portugueses, lusófonos ou não, se deixem inquietar pela terrível e esplendorosa estranheza de existir.

O 3º número da Cultura ENTRE Culturas ser-lhe-á dedicado.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

semente

natureza apetecida,
doce, molhada
semente somente

natureza reconhecida
no teu corpo presente
suado, molhado
semente somente

entre nós e ela
o oceano índico
o Tejo somente
semente

alonga-se o tempo
na esperança 
de outra esperança
semente
Quem sou? Muitos eus, muitos mins, muita variedade
de procurar, achar, traduzir a morte mais bela

Amanhã, 14.30-16h, Cultura ENTRE Culturas na Escola Superior de Educação de Setúbal

Estarei amanhã, dia 30, entre as 14.30 e as 16h no Anfiteatro da Escola Superior de Educação, do Instituto Politécnico de Setúbal, para apresentar a revista Cultura ENTRE Culturas e os meus livros "Uma Visão Armilar do Mundo" e "Descobrir Buda".

domingo, 28 de novembro de 2010

Maitreya Project



Maitreya Project is based on the belief that inner peace and outer peace share a cause and effect relationship and that loving-kindness leads to peace at every level of society — peace for individuals, families, communities and the world.

The Maitreya Buddha statue is being designed to last for at least 1,000 years. Through this entire new millennium and into the next, it will effect positive change within the hearts and minds of people all over the world and benefit the people of India through its social and economic activities.

Maitreya Project's vision includes schools that focus on ethical and spiritual development as well as academic achievement, and a healthcare network based around a teaching hospital of international standard to provide healthcare services, particularly for the poor and underprivileged.

Maitreya Project is working with local, regional and state governments in Uttar Pradesh, India, where the Kushinagar Special Development Area Authority will support the planned development of the area surrounding the Project.

The Maitreya Buddha statue is being built to bring as much benefit as possible, for as long as possible, so that loving-kindness will eventually arise in the hearts of all beings.

BAIXIO

cala a gargalhada, solta o pranto, soluça baixo o escárnio, dança sem modos o canto.
desagua o rio quando nasce. ri quando chora, cala o pranto.
grita em silêncio o  engano.

voa a gaivota outro canto. branco tão branco
mar ou rio, salgado ou doce, nada o peixe
não ri
não chora
nada

nada/oco/vazio
espanto/branco
dor/sem cor/sabor
amargo/azia/azedo
medo/começo/morto
terra/semen/fértil-estéril
ventre/entre/mente/
vazio/oco/nada

cala a gargalhada - nada
solta o pranto - oco
Soluça baixo o escárnio - vazio
dança sem modos - branco
nada o peixe - ventre
caminha - mente


nada/oco/vazio

grita em silêncio o engano
lodo/lama/lótus


nasce a lua na noite

despe o sol o dia

morre a poente

no colo do ausente

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ela pediu-lhe que pusesse as mãos no fogo,
e ele pegou numa agulha em cada mão
e pôs-se a bordar pássaros de água

Somos isto ou aquilo?

Ao nascer e morrer, na alegria e na dor, no medo e no desespero, no amor e na revolta, na generosidade e no egoísmo, ao dormir e acordar, ao comer, beber e defecar, somos portugueses, ingleses ou marroquinos, mexicanos, chineses ou tibetanos, cristãos, islâmicos ou budistas, de esquerda, centro ou direita, do Porto, Benfica ou Sporting, cultos ou incultos, ricos ou pobres, famosos ou desconhecidos, modernos ou tradicionais, velhos ou novos, homens ou mulheres?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

6ª feira, 26, Botequim da Graça: Agostinho da Silva e a Europa




6ª feira, dia 26, estarei a partir das 18.30 com o Dirk Hennrich no Botequim da Graça, para animar a tertúlia com o tema "Agostinho da Silva e a Europa". Agostinho via o abraço ao mundo como a vocação e o destino de Portugal e da lusofonia, que não deveria ficar refém da velha civilização europeia, devendo antes trazer até ela o melhor de todas as culturas planetárias, de modo a regenerá-la da sua decadência. O mesmo já pensava Fernando Pessoa. Na verdade, o paradigma ferozmente antropocêntrico e produtivista-consumista da nossa civilização está a arruinar o planeta ao qual se estendeu.

Apareçam para arejar ideias, que este país estagnado bem precisa!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

José e Pilar - Trailer



José e Pilar

Sinopse

A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo -- ou, pelo menos, em torná-lo melhor.

José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado de outra maneira".

música do trailer: noiserv - "Palco do Tempo" [noiserv.net]

não questiones a sintaxe
olha-te para lá do verbo
sê livre como um livro a galgar caminhos
como as águas rebentadas de uma gravidez

não queiras ser suporte de uma lâmpada
nem a luz redonda que fica no chão do teatro
escreve o nós como se o nós
fosse a vida diante do espelho
ou como aquele profeta que foi à morte e voltou
apenas com o pretexto de repetir a cena

caminha para o poema
pelo centro da dor das palavras
agita-as numa vontade de mar
até veres no fundo da música
os pássaros brancos

GREVE GERAL

24 de Novembro é dia de Greve Geral. Sim, façamos Greve Geral. Paralisemos todas as nossas actividades, como protesto contra um país mal organizado, mal governado, eticamente decadente e social e economicamente injusto, cada vez mais vergado à grande finança internacional, à ganância dos especuladores e ao consequente desprezo pelas necessidades básicas da população. Paremos totalmente, como protesto contra um país refém dos grandes grupos e potências económico-financeiras em todas as áreas, do trabalho à saúde, educação e política.

Façamos pois Greve Geral, em protesto contra todos os governos e oposições que, não só agora, mas desde a fundação de Portugal, contribuíram para o estado em que estamos. Todavia, façamos Greve Geral sobretudo em protesto contra nós próprios, que maioritariamente votamos sempre nos mesmos ou nos abstemos de votar e, principalmente, de criar alternativas à classe política e aos partidos em que desde há muito não acreditamos. Façamos Greve Geral, sim, mas também à nossa passividade e conformismo cívicos, à nossa preguiça e indolência, à nossa tremenda indiferença. Façamos Greve Geral ao nosso hábito inveterado de criticar tudo e todos e nada fazer, ficando sempre à espera que alguém faça, que os outros resolvam, que D. Sebastião apareça. Façamos Greve Geral à ideia de que basta fazer um dia de Greve Geral exterior, em prol de mudanças sociais, económicas e políticas, deixando tudo igual nos outros dias e dentro de cada um de nós. Sim, façamos definitivamente Greve Geral à demissão de sermos desde já, sempre e cada vez mais a diferença que queremos ver no mundo, em todas as frentes, sem exclusão de nenhuma: espiritual, cultural, ética, social, económica e política.

Façamos pois Greve Geral à nossa cumplicidade com o rumo de uma civilização que caminha aceleradamente para a sua perda, à nossa colaboração com a ganância e futilidade da hiperprodução e do hiperconsumo que violam a natureza e instrumentalizam e escravizam os seres vivos, homens e animais, em nome de um progresso e de um bem-estar que é sempre apenas o de uma pequena minoria de senhores do mundo. Façamos Greve Geral à intoxicação quotidiana de uma comunicação social que só deixa passar a versão da realidade que interessa aos vários poderes e contrapoderes. Façamos Greve Geral à imbecilização colectiva de muitos programas de televisão e seus outros avatares informáticos, que nos deixam pregados no sofá e nos ecrãs quando há crianças a morrer de fome, mulheres apedrejadas até à morte, velhos abandonados, defensores dos direitos humanos torturados e a apodrecer nas prisões, trabalhadores explorados, povos vítimas de agressão militar e genocídio, animais produzidos em série para os nossos pratos e a agonizar nos canis, matadouros, laboratórios e arenas, a natureza e o planeta a serem devastados… Façamos Greve Geral a todas as nossas ilusões e distracções, a todo o fazer de conta, a toda a conversa fútil no café, telemóvel, blogues e facebook, a todo o voltar a cara para o lado ante a realidade profunda das coisas e toda a nossa hipócrita cumplicidade com o que mais criticamos e condenamos.

Sim, e sobretudo façamos Greve Geral à raiz de tudo isso, a todos os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções iludidos, inúteis e nocivos a nós e a todos. Greve Geral a todos os juízos e opiniões que visam sempre autopromover-nos em detrimento dos outros. Greve Geral a colocarmo-nos sempre em primeiro lugar, a nós e aos “nossos”, familiares, amigos, membros da mesma nação, clube, partido, religião ou espécie, em detrimento dos “outros”, sempre a menorizar, desprezar, combater, dominar ou abater. Pois façamos Greve Geral, total e radical, não só um dia, mas para sempre, a toda a ignorância dualista, apego e aversão e à sua combinação em todo o egocentrismo, possessividade, orgulho, inveja e ciúme, avareza e avidez, ódio e cólera, preguiça e torpor. Paremos para sempre de produzir e consumir isto, cessemos de poluir mental e emocionalmente o planeta e deixemos espaço para que em nós floresça e frutifique a sabedoria, o amor, a compaixão imparciais e incondicionais, a paz e a alegria profundas e duradouras.

Façamos Greve Geral, agora e para sempre! E deixemo-nos contaminar pela Revolução doce e silenciosa de uma mente desperta e sensível ao Bem de todos os seres sencientes, que nada pense, diga e faça que não o vise, a cada instante, seja em que esfera for, também na economia e na política. Desta Greve Geral sai um Homem e um Mundo Novo.

Paulo Borges
23.11.2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

conferência de Paulo Borges em Barcelos

Mente, meditação e despertar da consciência: a redescoberta de um intemporal paradigma". Apresentação também do livro "Descobrir Buda" e o nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas.


domingo, 21 de novembro de 2010

3ª feira, 23, 21.30, Clube Literário do Porto, "Descobrir Buda" e nº2 da revista Cultura Entre Culturas





Estarei no Clube Literário do Porto, na Rua da Alfândega, 22, na 3ª feira, dia 23, pelas 21.30, para uma conferência com o tema "Descobrir Buda" e para apresentar o meu último livro, com o mesmo título (Lisboa, Âncora, 2010), bem como o nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas, dedicada ao tema "Encontro Ocidente-Oriente".
Perdida de paixão, a cor inventa o carmim. Azul, adormece serena. Negra, a cor se perde
Livre ama a cor o branco. Sem cor

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O diagnóstico que Erich Fromm fez, já em 1976, do “fracasso” e do “fim de uma ilusão”

“A Grande Promessa de Progresso Ilimitado – a promessa de domínio da Natureza, de abundância material, de maior felicidade para o maior número de indivíduos, e de liberdade pessoal irrestrita – alimentou a esperança e a fé de inúmeras gerações desde o início da Revolução Industrial”; “A trindade da produção ilimitada, liberdade absoluta e felicidade irrestrita formaram o núcleo de uma nova religião”; “É importante visualizar a imensidão da Grande Promessa, as maravilhosas conquistas materiais e intelectuais da Revolução Industrial para podermos compreender o trauma que a constatação do seu fracasso está a produzir nos dias de hoje. Porque a Revolução Industrial falhou efectivamente no cumprimento da sua Grande Promessa”

- Erich Fromm, Ter ou Ser?, Lisboa, Editorial Presença, 1999, pp.13-14.

Filosofia: Mente, meditação e despertar da consciência

Filosofia: Mente, meditação e despertar da consciência: "O Ciclo de Conferências 'Consciência e Religião: perspectivas' prossegue no próximo dia 19, 6ª feira, pelas 21.30, no Auditório da Câmara Mu..."
pediram-lhe que amasse, e ele amou
pediram-lhe que sofresse, e ele sofreu
perguntaram-lhe quem era Deus, e ele sangrou pelas narinas

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Para download: Extractos do nº 2 da revista - pdf

Quem pretenda, antes de comprar, dar uma olhadela no conteúdo do número dois da revista Cultura Entre Culturas, poderá fazê-lo clicando sobre a imagem da capa que se encontra imediatamente abaixo do título deste blog. 
Acederá assim a um link que lhe permite fazer o download gratuito de um documento, em formato pdf, com destaques do conteúdo do último número da revista.
O mesmo pode fazer-se ainda em relação ao primeiro número, quase esgotado neste momento.
Divulguem e disseminem esta informação a quem entendam que interesse. Todos os meios são poucos.

As Bufónias, o sacrifício e a queda pelo alimento animal, segundo Agostinho da Silva

"É possível que a princípio o sacrifício simbolizasse a queda por um alimento animal, a expiação da morte da primeira rês; por qualquer circunstância, o homem, primitivamente frugívoro, teria sido obrigado a alimentar-se com a carne de animais, até aí sagrados para ele; abatera o primeiro e logo sentira todo o horror do seu crime: matara um companheiro, um amigo, e o seu primeiro movimento foi de fuga; depois, para que os deuses lhe perdoassem, fazia-os tomar parte no festim. O rito estranho das Bufónias, antiquíssimo, reproduzia com pormenorização a cena primitiva: havia a fuga do sacrificador, a acusação de todos os que tinham tomado parte na cerimónia; finalmente, a condenação dos instrumentos que tinham servido para cometer o crime"

- Agostinho da Silva, A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 165.

"O animal é o futuro do homem" - Dominique Lestel, um etólogo e filósofo que repensa o homem a partir da sua relação com o animal


Dominique Lestel, L'animal est l'avenir de l'homme
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"[...] a etologia e a psicologia comparadas, apesar das suas manifestas insuficiências, mostraram de forma indubitável que o animal é um sujeito complexo, frequentemente um indivíduo e por vezes uma pessoa. Em todos os casos, trata-se de um interlocutor e por vezes de um companheiro, o que já justifica plenamente a vontade de o proteger contra a violência dos humanos. Nesta perspectiva, é interessante constatar que o humano é a única espécie predadora em que certos indivíduos protegem as presas contra os seus congéneres. É também a única espécie, infelizmente, que se pode caracterizar como uma espécie predadora universal, susceptível de destruir tudo o que é vivo.

[...]

"Aqueles que se preocupam hoje com os animais [...] [são] indivíduos que constituem a vanguarda de uma nova cultura em gestação. Pois quem ataca os animais agride também o homem. [...]

Os humanos que se preocupam com os outros animais constituem um movimento de vanguarda chamado a crescer e a transformar a consciência da época"

- Dominique Lestel, L'animal est l'avenir de l'homme, Paris, Fayard, 2010, pp.8, 10 e 12.

http://fr.wikipedia.org/wiki/Dominique_Lestel

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

a vida é um escândalo e a morte é pornográfica, disse o poeta mudo

Dia 19, 21.30, em Barcelos: "Mente, meditação e despertar da consciência", apresentação da Cultura ENTRE Culturas 2 e de "Descobrir Buda"




Estarei no dia 19, 6ª feira, pelas 21.30, no Auditório da Câmara Municipal de Barcelos, para uma conferência com o tema "Mente, meditação e despertar da consciência: a redescoberta de um intemporal paradigma". Na mesma ocasião apresentarei o nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas, bem como o meu último livro: Descobrir Buda (Lisboa, Âncora Editora, 2010). O evento integra-se no Ciclo de Conferências "Consciência e Religião: perspectivas" e a entrada é livre.