quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A vocação universal de Portugal segundo Agostinho da Silva


"Portugal, o grande, o todo, o de amarelos, brancos, pretos e vermelhos, o de islamitas, cristãos, judeus, animistas, budistas, taoistas, o da América, Europa, Ásia, África, Oceânia, o dos municípios, tribos e aldeias, o de monarquias e repúblicas, o dos grandes espaços conhecidos e o dos espaços ignotos ainda, dentro e fora do homem, o Portugal núcleo de formação de uma União Internacional dos Povos para o desenvolvimento, a liberdade e a paz, […] deve, audaciosamente, preceder os outros povos, estabelecendo ensino ou aprendizagem superior que estejam já encaminhados a uma era em que o homem seja plenamente criador e deixe como traço de sua passagem na vida esse aproximar-se cada vez mais da essência da criação divina"


- Agostinho da Silva, "Educação de Portugal [1970]", in Textos Pedagógicos II, pp.126-127.

the unveiled, between space and time

Apresentação de "Descobrir Buda", pelo Professor José Eduardo Reis



Apresentação de Descobrir Buda. Estudos e Ensaios sobre a via do Despertar (10 de Novembro, Colóquio "Oriente-Ocidente: Diálogos e Cruzamentos", Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Do livro de Paulo Borges que me é dada a honra de fazer a apresentação, gostaria de começar por dizer que no seu título – “Descobrir Buda. Estudos e Ensaios sobre a via do Despertar” – se inscreve uma subtil polarização e uma equivalência simétrica de sentidos, de que talvez não convenha hermeneuticamente abusar, mas que não deixa de fornecer uma via de acesso à leitura do conjunto de textos de que se faz anúncio. A equivalência simétrica de sentidos estabelecida entre o primeiro sintagma “Descobrir Buda” e o último “via do Despertar” é interpolada pela informação de que essa condição de revelação ontológica surge discursivamente reflectida sob a forma de uma subtil polaridade exegética “Estudos e Ensaios”, termos que, por sua vez, na sua simétrica oscilação, correspondem a diferentes ângulos – filosóficos, religiosos, espirituais, mais ou menos discretos, mais ou menos articulados ou mais ou menos convergentes entre si com variações de intensidade de cada um deles – ou seja, correspondem a diferentes vias de aproximação à possibilidade da auto descoberta de ser ou devir Buda, e que o autor se propõe intelectualmente cartografar. Mas se essa simetria de sentidos equivalentes entre o nome “Buda” e o verbo “Despertar” afasta qualquer dúvida quanto à geografia, digamos assim, cultural, intelectual, doutrinal em que se situam estes estudos e ensaios filosóficos, religiosos e espirituais, já o facto de a enunciação de Buda não ser precedida de um artigo definido indica que não estamos perante um livro de iniciação ao pensamento e acção de um venerável fundador de uma religião, nem face a uma descrição sistemática e analítica sobre o seu legado doutrinal e filosófico-religioso – o Buda histórico – mas diante de uma exposição que tem como propósito a auto-inquirição especular e ressonante – o descobrir-se Buda – quanto aos pressupostos, aos desenvolvimentos e os efeitos axiológicos do que assumidamente o autor considera ser uma virtualidade ou possibilidade ontognoselógica. Virtualidade ou possibilidade essa certamente remissível a quem pela primeira vez no tempo e no espaço a indicou por se descobrir e se dar a descobrir como o Buda, o Desperto, mas que neste livro não surge explicitada como um estado afim do da ideia comum de uma suprema realização ou proeza comandada pela consciência subjectiva e pessoal do sujeito biográfico que a manifestou, antes, e sobretudo, como uma condição existencial a um tempo rarefeita e concreta, ou como “um estado de consciência plenamente livre de todos os véus e condicionamentos”. Ora, é sobre as múltiplas formas de se aceder a um tal estado, que, no limite, é insusceptível de ser descrito, explicado e comunicado por via da razão discursiva – e não por acaso logo o segundo texto tem por título “o Silêncio de Buda” –, que Paulo Borges disserta e discorre com o conhecimento adquirido, enriquecido e legitimado pela sua experiência de praticante e discípulo, desde 1983, do corpo vasto de ensinamentos filosóficos, religiosos e espirituais das tradições do Grande Veículo (Mahayana) e do Veículo do Diamante (Vajrayana) do budismo tibetano. E disserta e discorre não só com erudita proficiência, minuciosamente explicitada nas 635 notas de pé de página disseminadas pelos 10 ensaios que constituem o livro, mas também com notável rigor e clareza de linguagem, muitas vezes enriquecida por reinvestimentos semânticos da língua portuguesa, seja por recurso à decomposição silábica de termos com um lastro conceptual originalmente inadequado à abertura da significação pretendida, seja pela tentativa da criação de novos termos vernáculos derivados da terminologia filosófica budista. Disserta e discorre, portanto, a partir da sua experiência de praticante espiritual budista e com a inteligência do estudioso e do ensaísta que, trabalhando criativamente com o quadro de referências que lhe servem de fundamento e orientação, sabe evitar excursos dogmatizantes ou abordagens em tom proselitista dissuasoras da recepção dialogante e crítica das teses que enuncia e problematiza sobre a via do despertar ou do descobrir-se Buda. Disserta e discorre enfim, praticando e tendo em atenção como escreve no prefácio, a “própria exortação do Buda a que as suas palavras não sejam aceites irreflectida e acriticamente”.
Como apreciação geral poderíamos dizer, assim, que estamos perante uma obra que, apesar de coligir um conjunto tematicamente diversificado de textos, na sua maioria escritos para atender a diferentes solicitações académicas e pedagógicas, apresenta uma coerente articulação de propósitos e de sentidos. Articulação de propósitos que se projectam como sendo simultaneamente divulgadores e problematizadores de aspectos fundamentais da filosofia e da prática meditativa budista, derivados quer dos postulados base e “provisórios” associados à verdade relativa das “quatro nobres verdades”, quer das “abissais” e desconcertantes formulações sobre a verdade absoluta reveladas pela sabedoria prática do Buda, transmitidos em obras fundamentais do multiforme e multilingue universo espiritual, intelectual e doutrinário budista e conforme aos seus três ciclos ou veículos de ensinamentos do Hinayana, do Mahayana, do Vajrayana. Aspectos fundamentais esses competentemente processados por uma notável capacidade de assimilação e de explanação sintética do autor, certamente aprofundada e autenticada pela sua própria experiência meditativa e pela sua disponibilidade em aprender de fonte directa com qualificados e reconhecidos professores da tradição budista tibetana, a quem, aliás, presta reverencial tributo no prefácio do livro
Mas articulação também de sentidos, dos mais acessivelmente compreensíveis, como os que são elementar, concisa e claramente comunicados no texto de abertura “Budismo”, aos mais complexos nas suas formulações temáticas e nas aplicações e desenvolvimentos heurísticos, digamos assim, dos operadores conceptuais inferidos da “Via do Buda”, ou do “dharma do Buda” – expressões que, pela abertura supra religiosa e supra eclesiástica que evocam, Paulo Borges considera serem mais adequadas e correctas do que o termo “Budismo” para definir o legado do Buda histórico. Tais formulações, aplicações e desenvolvimentos são vertidos em textos de teor contra-intuitivo, negadores de pontos de vista comuns e perturbadores de consagradas proposições filosóficas, como, por exemplo, o que aborda o conceito budista de karma aplicado à ordem natural e à experiência mental e ética do mundo, ou o que incide sobre a visão búdica da identidade pessoal. Articulação de sentidos que nos parece assim ordenada segundo o princípio do mais simples para o mais complexo, em diferentes planos, e de algum modo seguindo a lógica dos três ciclos ou veículos de ensinamentos do Hinayana, do Mahayana e do Vajrayana, e aparentemente assumida por Paulo Borges como testemunhando níveis de aprofundamento e de progresso espiritual na experiência do desvelamento da condição de Buda. Se bem que essa mesma lógica seja por vezes aplicada ao desenvolvimento do argumento central de cada um dos estudos e ensaios, ela não visa, porém, demonstrar uma hipotética superioridade doutrinal ou eficácia espiritual de um sistema sobre outro, mas tão somente ilustrar a aplicação daquilo que na tradição búdica se designa por “meios hábeis” ou meios de instrução que, visando o despertar das consciências para a verdadeira realidade de si e das coisas, tomam em linha de conta as circunstâncias, os contextos e os níveis de compreensão e de empenhamento dos destinatários a que se dirigem esses meios desbaratadores da “ignorância” e da “ilusão”.
Tendo, portanto, sempre como nexo fundamental de ligação entre os estudos e ensaios o tema da “via do despertar”, este livro aborda essa possibilidade em vários planos, correspondentes a diferentes matérias da filosofia relativos ao ser e agir (os já referidos ensaios sobre a identidade pessoal e sobre as implicações éticas da experiência do mundo) ao conhecer e ao devir (os ensaios com os títulos, respectivamente, “Budismo, ciência e realidade” “o Silêncio de Buda” são disso exemplo), mas também a matérias do domínio do pensamento e da prática religiosa afins do da escatologia e da soteriologia (A morte no Budismo. Da contemplação da impermanência à vida pós-morte e à descoberta da imortalidade), ou do sentido da experiência espiritual, tal como esta se pode comparativamente inferir da noção de vacuidade, explicitada pelo filósofo e místico budista Nagarjuna (século II), e da visão apofática de Deus, de Pseudo-Dionísio Areopagita.
Três traços, porém, me parecem ser os dominantes e comuns a todos os ensaios orientados para a caleidoscópica possibilidade do Despertar: (i) o da compreensão budista, (e cito) “mais de dois mil anos antes de Kant, das ciências cognitivas e da física quântica”, da inseparabilidade entre a realidade e a consciência, entre o mundo e a sua determinação pela actividade mental dos seres que o constituem (o ensaio Budismo, Ciência e Religião, funciona como uma propedêutica a este tópico recorrente); (ii) o da explicitação da noção de vacuidade como se reportando ao ensinamento do Buda sobre a verdadeira natureza, fluida, impermanente e interdependente dos fenómenos materiais e mentais; (iii) o relativo à maneira de se proceder visando a aplicação das terapias adequadas à extinção do sofrimento causado pela incompreensão prática daquelas duas subtis evidências, a da interdependência entre mundo e consciência, e a da vacuidade dos fenómenos. E neste ponto há a salientar que a exigente prática dos ensinamentos budistas visando o “despertar”, inclui também, tal como se pode inferir da leitura de alguns destes estudos e ensaios, a sua própria auto-desconstrução, a sua própria evacuação. É esse aliás o procedimento inscrito na própria estrutura do livro, cujo ensaio axial, inserido a meio da sua ordenação, leva por título ‘“Se vires o Buda, mata-o!’ Ensaio sobre a essência do budismo”, e cujo final se conclui com dois textos sobre o Dzogchen. Sobre esse corpo subtilíssimo e polémico de ensinamentos que, numa perspectiva gradual e no âmbito do budismo tibetano, situando-se para além do radical desconstrutivismo lógico do sábio budista Nagarjuna (século II) e da escola do Madhyamika do Mahayana, se propõe fornecer como instrução última o reconhecimento de que a agitação dualista mental, “tal uma brisa movendo-se através do céu”, é experienciável como manifestação indissociável “da perfeição natural e absoluta de todas as coisas”. Particularmente nestes ensaios se assoma, por mais de uma vez, a tese fundamental de que o “descobrir-se Buda” ou o “despertar” é um estado de consciência que na sua radical inefabilidade só pode ser intelectualmente traduzido e descrito como libertador e liberto dos constrangimentos emocionais e obscurecimentos mentais, como superador das quatro possibilidades de predicação lógica A, não A, A e não-A, nem A nem não-A, ou seja do tetralema necessariamente evocado na própria construção argumentativa da possibilidade desse estado de consciência. Estado que se desvela como uma espécie de retorno ou de reencontro com o fundo sem fundo espiritual da condição da experiência de nós e dos outros, sem pontos de apoio ou de discernível categorização. Fundo sem fundo diante do qual a erudição paciente e pedagógica e a capacidade intelectual e filosófica de Paulo Borges, animada por uma determinação vocacional de generosa partilha do seu saber, se auto-suspende nos limites da funcionalidade e da verdade relativa e dualista em que comummente se situa porque hiperconsciente dos efeitos insidiosos do ensinamento iconoclasta de Nagarjuna – que, mais que uma vez, surge citado no corpo do livro: “Aqueles que mantêm discursos sobre o Buda, o qual transcende todo o discurso, toda a modificação, todos, extraviados pelos seus próprios discursos, não vêem o Tathāgata”
Neste sentido, e como última consideração, gostaria apenas de acrescentar, que talvez o termo mais adequado para sintetizar a modalidade de trabalho que presidiu à composição destes estudos e ensaios de Paulo Borges foi o da tradução: tradução da búdica e experiencial verdade absoluta para a intelectual e humana verdade relativa; tradução de expressões várias da sabedoria budista de origem oriental para o contexto do pensamento, da religiosidade e da espiritualidade ocidental, tradução para a língua, cultura e discurso académico portugueses dessa mesma sabedoria.
Trabalho de tradução esse que, quando bem executado como é o caso, é sempre uma forma de “dizer quase a mesma coisa” na expressão de Umberto Eco, sendo que o dizer aqui é quase o mesmo que não dizer, ou os dois simultaneamente, ou nem um nem outro, ou seja um dizer que se articula como uma espécie de música executada por uma orquestra oculta, e que Paulo Borges traduz como tendo a sua origem neste “espaço livre e absoluto” aquele que fazemos “de conta que não o vemos, que não o somos” e que nos leva geralmente a pensar, a sentir e a agir “que a Liberdade e a Luz não são o nosso Bem mais íntimo e inalienável…”


José Eduardo Reis

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

No nº 2 da revista Entre: "Em que medida é que é possível formar o seu espírito para que funcione de forma construtiva, substituindo a obsessão pela satisfação, a agitação pela calma, o ódio pela benevolência? " (Matthieu Ricard)

"Há cerca de vinte anos, a afirmação de que, na hora do nascimento, o cérebro já contém todos os seus neurónios, e que este número não é alterado pelas experiências vividas, constituía um dogma genericamente aceite pelos investigadores das neurociências. Actualmente, sabemos, pelo contrário, que até ao momento da morte se verifica a produção de novos neurónios, difundindo-se até o conceito de neuroplasticidade que dá conta do facto de o cérebro evoluir continuamente em função das nossas experiências, podendo ser profundamente transformado na sequência de um treino específico, como a aprendizagem de um instrumento musical ou de um desporto, por exemplo. Ora, a atenção, o altruísmo e outras qualidades humanas fundamentais podem também ser cultivadas, dependendo igualmente de um saber-fazer que é possível adquirir.
Um dos grandes dramas da nossa época consiste em subestimar consideravelmente a capacidade de transformação do nosso espírito. Os nossos traços de carácter perduram enquanto não fizermos nada para os transformar, ou enquanto deixarmos que as nossas disposições e automatismos não só se mantenham mas até que se reforcem, pensamento após pensamento, dia após dia, ano após ano."
Hoje, dia 7, às 18.30h, no Botequim da Graça, Paulo Borges faz,  com Dirk Hennrich e Rui Lopo, mais uma apresentação do nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas, em tertúlia subordinada ao tema Encontro Oriente-Ocidente.  A não perder !!

Hoje, dia 7, 18.30, no Botequim da Graça (junto à Igreja da Graça)


Hoje, dia 7, 18.30, apresento no Botequim da Graça, com Dirk Hennrich e Rui Lopo, o nº2 da revista «Cultura ENTRE Culturas», numa tertúlia com o tema "Encontro Oriente-Ocidente". A revista e o projecto "Cultura ENTRE Culturas", com colaboração internacional, visam promover o diálogo intercultural como um dos grandes desafios do nosso tempo, em prol de um universalismo autêntico, via do meio entre nacionalismo cultural e globalização homogeneizadora.

Uma revista de Todo o Mundo.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Hoje, Domingo, 15.30, "Do sofrimento à felicidade pela sabedoria e pela compaixão"

Encerrarei hoje, às 15.30, o Ciclo de Conferências “Da Dor à
Redenção” com uma palestra intitulada “Do Sofrimento à
Felicidade pela Sabedoria e pela Compaixão”. Apresentarei também o livro Descobrir Buda e o nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas.

Sala anexa à Igreja de Santo António de Campolide. Entrada livre.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Visitante

Abriu a porta. Do lado de lá um sorriso deixava adivinhar boa gente.Abriu a janela para arejar a sala. Ofereceu a poltrona do avô. Pediu que se acomodasse enquanto ia à cozinha buscar chá quente do Himalaya. Aquelo rosto era familiar. Reconhecia em seu corpo, abrigo. 
Todos as manhãs preparava um chá para quem pudesse aparecer no fim da tarde com frio. Anos a fio, bebeu o chá sozinha.
Sentada em frente à poltrona vazia, aquecia as mãos na chávena de chá. Olhava o vazio. Enrolada na manta, lembrava de nada. Não conheceu o dono da casa, seu avô. Inventou que a poltrona teria sido dele  e respeitou essa propriedade sem nunca lá se sentar.
A despensa estava cheia de bolachas de canela e gengibre. Quando saía para as compras comprava sempre um pacote, não fosse a casa ficar cheia de gente e faltarem as bolachinhas na hora do chá. Abriu um pacote, esqueceu de verificar que a data de expiração já era de há cinco anos. Pouco importa a data agora. As bolachinhas velhas ainda estavam crocantes.
O tempo dita o limite da vida. É tão curto o tempo de agora. Já quase nascemos fora de prazo.
Da janela da cozinha sentiu a brisa fria do mar. As gaivotas anunciavam peixe morto na beira-mar. A noite estava próxima e corria o risco de passar a hora do chá.
Numa bandeja de prata colocou o bule herdado da casa, as chavenas brancas a lembrarem papel de arroz, um pratinho sem cor repleto de bolachinhas. Umas mais doces, outras picantes. 
Ajoelhou-se delicadamente como se seu corpo tivesse perdido o peso. Serviu o chá. Ofereceu ao visitante uma bolacha fora de prazo.
Em frente, sentou-se. Abraçou com as mãos a sua chávena. Enrolou-se na manta velha da casa. Esperou.
Sorriu. Largou a vontade. Notou o cansaço. Sentou-se criança. Partiu.
Dizem que a morte aparece sem avisar.

Poesia do Eu

A neve tomou conta da minha rua.  Abro a janela, deixo que o frio abrace meu corpo. No céu o fumo é testemunha de outrora. Esvazia a memória, morre a poesia.  Entre a dor que foi e volta, um sorriso intervala o eu.

oh blame not the bard

oh blame not the bard - if he fly to the bowers

where pleasure lies carelessly smiling at fame

he was born for much more and in - happier hours

his soul might have burnt with a holier flame

the string that now languishes loose - over the lyre

might have bent the proud bow of a warrior's dart

and the lip which now breathes - but the song of desire

might have poured the full tide - of a patriot's heart

[...]

Thomas Moore, in Irish Melodies, in Elegant Extracts [...], in Caves do Vinho do Porto, Gaia, 1963 & ss..

Lotus

Chove no pantanal, 
molha o rio,
abraça o lodo

Joga a noiva
arroz semeado
Povoa a colónia 
enquanto for viva


Chora a viúva atrasada
Diz ao amante, 
amo-te  agora que és pó

Voa a borboleta
Encontra o dia
tempo de estar

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

“Examples gross as earth exhort me” (William Shakespeare)



Alternativas para o estado do mundo - unir meditação, política e economia

Vivemos numa era de incertezas e perplexidades. O sonho de progresso da humanidade desde a Revolução Industrial converte-se num pesadelo e o paradigma da nossa civilização entra em colapso, com a ameaça de uma catástrofe ecológica e o sofrimento crescente de homens e animais. Uns vêem a única solução na espiritualidade, outros na política e na economia. Porque não uni-las, coisa que nunca foi tentado à escala global? Porque não investir numa nova geração de políticos e homens de acção que façam da meditação laica, enquanto treino mental para só pensarem no bem de todos, o seu alimento quotidiano e constante? Não será o momento de introduzir exercícios meditativos, que tornem a mente calma, lúcida e sensível, sem qualquer acrescento religioso, em todas as esferas da nossa existência, desde a saúde e a educação à vida empresarial e política? Sinceramente, não vejo outra solução e alternativa para a crescente barbárie em que já nos encontramos.

Muito problema se tenta resolver por meio da política: a chave, no entanto, a tem a santidade"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p.152.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

vou fazer muitos poemas e engatar muitas raparigas. e fazê-las
pensar que sou daqueles que passo horas em frente ao mar, a estudar
o voo ascendente dos peixes, a deitar gotas de
cio nas palavras para
que se sintam desejadas. vou fazer muitos poemas de amor, tantos
quantos possíveis para engravidar todas as raparigas solteiras do
mundo que me queiram ler. e ter filhos
que mais tarde vêm ter
à minha porta e ver que eles são aquilo que inventei para serem.
ter nos versos um certo desgosto para que tenham pena e me
atirem beijos do mar em que estão. quando me sentar para
escrever quero ser homem aos poucos, ter a felicidade de uma
rameira ao finalmente chegar a casa, pôr o fogão no mínimo,
abeirar-se da cama e sonhar com o milagre das coisas boas.
vou fazer muitos poemas, tantos que a minha mãe me dirá
para parar se não quiser enlouquecer. mas eu digo-lhe, que
assim seja, que me afunde contra as palavras e o mundo seja
apenas um verso
em que arrisco a vida.
as raparigas solteiras vão ficar palermas ao ler os meus poemas
que falam e soletram
aquilo que elas escondem debaixo das suas saias. vão querer
tatuar frases minhas no fundo das costas para que junto delas
reclame direitos de autor.
e vou rimar fogo e água no mesmo coração,
e vou tirar as botas às letras
maiúsculas, depois abrir a torneira aos dias claros e existir longamente.

as raparigas solteiras não vão querer ficar menstruadas no dia em
que fizer poemas, e o meu pai bater-me-á
se cometer uma qualquer discordância ortográfica, e nem me deixará mudar de linha
enquanto a noite tiver escárnio na língua. as casadas que me perdoem
mas vou fazer muitos poemas para as raparigas solteiras, tirar-lhes
as medidas letra a letra e acabar nos seios delas com uma
menção honrosa. quando escrever quero mijar no tempo
para não perder demora, fazer de conta que a vida me fascina
e ser a terra onde o cão esconde o osso.
inventarei um morto
e roubarei ao Herberto Hélder sangue e luz dos seus livros
para assim cantar como canta o fogo

Vou fazer muitos poemas, tantos que a caneta ejaculará a
sua tinta azul fluorescente por toda a página e as raparigas
solteiras pensarão que a proeza foi toda minha, e
perguntarão à minha mãe onde vou morrer esta noite,
onde guardo o nome dos remédios valiosos
vou escrever nos bilhetes de comboio,
nos manuais de instruções,
nos peitos das aves,
nos sinais de trânsito,
no coração da luz,
no cu do judas,
no céu do meu quarto,
vou ter grandes erecções
só de pensar que nenhum crítico me vai ler, que nas estantes
bibliotecárias só os poetas loucos me dirão, podes vir.
ah, vou fazer tantos poemas que os animais vão querer provar desse pasto,
a lua vai-se algemar e a solidão vai fugir com um italiano.
vou dar cabo das religiões,
entrar no fogo da simbologia,
abrir o túmulo do Fernando Pessoa e sacar-lhe inéditos. e as raparigas
solteiras vão-me admirar toda a eternidade, vão querer casar com
todos os meus eus, os meus mins que andam de cá para lá algures
entre o crânio e os carpos. e eu, assombrado como um deus
a aprender o instinto, a ter amor em cada palavra
e matar
a anterior.
E as raparigas solteiras que não sabiam que matar
era morrer, choram, ao perceberem que o poema afinal, acaba mal

"Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem"

"Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno"

- Agostinho da Silva, “O Terceiro Caminho”, Diário de Alcestes [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 217.

16 de Dezembro, 19h - Debate com o Dr. Defensor Moura, candidato presidencial, sobre Direitos dos Animais e Equilíbrio Ecológico



A exemplo do que aconteceu em 24 de Junho, com o Dr. Fernando Nobre, a revista Cultura ENTRE Culturas promove agora um debate público com o Dr. Defensor Moura, enquanto candidato à Presidência da República, sobre os direitos dos animais e a questão ecológica. Serão dirigidos convites aos outros candidatos.

O moderador será Paulo Borges e a organização é da revista Cultura ENTRE Culturas, com o apoio do Partido pelos Animais e pela Natureza e do Movimento Outro Portugal, respectivamente representados na mesa por Paula Pérez (Conselho Nacional do PAN) e Luís Miguel Dantas (Comissão Coordenadora do MOP).

Empenhada em trazer estes temas para a agenda política nacional, a organização agradece ao Dr. Defensor Moura ter aceite o coinvite.

A revista Cultura ENTRE Culturas, dedicada ao diálogo intercultural e ao despertar da consciência cívica para as grandes questões planetárias, estará à venda no evento.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

génese

6ª feira, 3, 19h - Tertúlia "Educar para quê?" e apresentação da "Cultura ENTRE Culturas" na Escola Superior de Educação Almeida Garrett



Abertura das actividades do Centro de Estudos da Lusofonia Agostinho da Silva, na Escola Superior de Educação Almeida Garrett, Largo do Sequeira, 7 (Junto à Igreja de São Vicente, a seguir à Voz do Operário, na Graça)

1 de Dezembro - Dia da interindependência



Nunca houve nações independentes. Todas foram, são e serão interdependentes, ou, quando muito "interindependentes", como gostava de dizer, de nós todos, Raimon Pannikar.

Todavia, nesta interindependência, há que assumir a responsabilidade de a gerir, orientando-a na melhor direcção possível para todos. Sem uma ideia e um projecto não existe uma comunidade, uma nação, um povo. Mas essa ideia, esse projecto, devem ser hoje trans-nacionais, gerando um novo sentimento de comunidade: para além das diferenças nacionais, culturais e linguísticas, a comunidade daqueles que visam um mundo melhor para todos os interindependentes e se decidem a realizá-lo desde já nas suas vidas, sem esperar pelo Estado, sempre ocupado com o que menos importa.

É este o projecto de um Outro Portugal, dimensionado à escala planetária, que se especialize no universal, no abraço ao mundo e a todos os seres vivos.

É este o Portugal que urge fundar, por sobre as ruínas do velho Portugal e do velho mundo que agonizam.

Valete, Fratres!

Agostinho da Silva e Portugal como mediador da interculturalidade

"Portugal descobriu, quase sempre por fora, o Oriente, a África, a América Latina e o de fora trouxe à Europa; precisa agora de os descobrir por dentro e de a eles, neles se dissolvendo, levar a Europa"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 151.