sábado, 30 de outubro de 2010

Mesmo que seja de noite!

Conheço a fonte que mana e se espalha,
Mesmo que seja de noite!

Esta fonte eterna está escondida,
Mas como sei bem onde está,
Mesmo que seja de noite!

Nesta noite escura desta vida,
Como a conheço bem, pela fé, a fonte,
Mesmo que seja de noite!

A sua origem, ignoro-a: não a tem,
Mas sei que todos os seres tiram dela a sua origem
Mesmo que seja de noite!

Sei que não pode haver coisa mais bela,
Que a terra e os céus aí se vão dessedentar,
Mesmo que seja de noite!

Sei bem que é um abismo sem fundo
E que ninguém aí pode passar a vau,
Mesmo que seja de noite!

A sua claridade nunca é obscurecida
E sei que toda a luz vem dela,
Mesmo que seja noite!

- São João da Cruz

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

TÃO PERTO, PARTO



tão perto de mim
confundo o espaço
assim quase eu
confundo o tempo
Depois
Sou dois de novo

Neve tão branca, que se confunde na cor

Quando abre os braços
Veleja
Quando adormece
Viaja
Por cada poro uma gota transparente
convida-me
inspira-me em cada beijo 
que dou

tão perto
parto 
sem dor

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

VERDE

Verde te sinto/suado, molhado em mim
Terra húmida que acolhe a semente/esperança de vida
Verde, tão verde te sinto/molhada, suada em ti
Molhada, suada /Verde, tão verde que sou
Pulsa a vida sem corpo/tão verde somos

Amor

Bandos de outros pássaros

«todos estes pássaros intrépidos»
«que rumo ao longínquo mais longínquo voando se vão»
«por certo algures não mais para longe voar conseguirão»
«e sobre algum mastro ou estéril rochedo se aninharão»

«A quem, porém, seria permitido depreender daí que diante deles uma rota livre sem medida não há ainda, que voaram já tão longe como é possível voar?! Todos os nossos grandes mestres e precursores por fim se detiveram: e não é exactamente o mais nobre e mais galante gesto esse com que a fadiga se detém. Também comigo e contigo as coisas se passarão assim. Mas que importa?! Outros pássaros voarão mais longe!»

«bandos de outros pássaros muito mais poderosos do que nós, que se encaminharão para onde nos encaminhávamos e para onde tudo é mar, mar e nada mais do que mar»
Nietzsche

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

No surprises

Passo todos os dias nesta esquina. Conheço-a de cor, desde menina. Já passei criança, adolescente, mais tarde enamorada, depois casada. Noutro dia, voltei descasada. É a esquina conhecida. Tem um angulo recto. Volto à direita, retono à esquerda. No passado não lhe deslumbrava o vértice, agora perco-o de vista. É a esquina que tudo conta em silêncio. Memória viva dos meus passos enquanto viva.

Tudo mudou. A barbearia agora é um bar de gente culta. A mercearia hoje vende papel reciclado. A padaria ainda vende pão pelas mãos das netas da Dona Virginia, já morta.

Tudo muda, menos a esquina sempre bonita. Alí, naquele canto é o único lugar que conheço que faz um ângulo recto.

Não importa quantos passos. Se dez ou mil chega um momento que devo virar à esquerda e se quero voltar viro de novo à direita, certa de que saí do lugar.

Vinha aqui para contar do amor que acabo de fazer. Escrever um poema molhado de poesia, repleto de beijos roubados que silenciam o passado. Vinha aqui timidamente falar de como acariciei o corpo suado do meu amado. Minha boca perdida em seus lábios, meu ventre vivo sem limites a ditar que existo.

Acabo de chegar quase pronta para outra viagem onde invento o amor amado sem vírgulas onde tropeçar.

Vinha a isto que é bonito de se contar, mas só me lembro da esquina - a minha conhecida, onde viro à esquerda e retorno à direita. Aquí nesse canto onde desenho o triângulo da minha existência.

Um ângulo recto. Sem surpresas, por vezes.

"Por todas as partes os teus lábios absorvem as criaturas e as tuas flamígeras fauces tudo devoram"

"Por todas as partes os teus lábios absorvem as criaturas e as tuas flamígeras fauces tudo devoram. O universo inteiro está cheio desse ardor, Vishnu, e em teus feros raios se abrasa"

- Bhagavad-Gîtâ, XI, 30.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

water lily

"[...] embarcar, embarcar sempre, acreditando cada vez menos nos portos de chegada"

"Já você outro dia se revoltou perante o meu prazer de embarcar, embarcar sempre, acreditando cada vez menos nos portos de chegada; […] continuo […] a ter como mais firme dentro em mim a aspiração de que um atinja o heroísmo de me atirar a todas as batalhas em que não haja esperança de vitória. […] Não me tentam nada as estradas que vão de um ponto a outro, de que sabemos, à partida, a quilometragem e a direcção; tentam-me as estradas que não vão dar a nenhum ponto. […]
[…] embarcar num navio que nunca chegará, rumar por mapa e bússola ou goniómetro para o porto que não existe"

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp.246-247.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

para entrares na casa do poema-mãe
tens de construir versos com alicerces de solidão
tirar os sapatos como numa mesquita
olhar os espaços brancos
e os silêncios que fazem teias
a partir do centro
para depois sonhar com o amor
como sonha o filho de ninguém

"É perfeito quem considera igual o benfeitor, o amigo e o inimigo [...]"

"É perfeito quem considera igual o benfeitor, o amigo e o inimigo, o indiferente e o árbitro, os que provocam ódio e os parentes, os bons, por fim, e os maus"

- Bhagavad Gîtâ, VI, 9.

domingo, 24 de outubro de 2010

Colóquio Fiama Hasse Pais Brandão


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO: ESPLENDOR E INTENSIDADE DA IMAGEM POÉTICA

Nos dias 29 e 30 de Outubro, terá lugar, na Casa Fernando Pessoa, o Colóquio Fiama Hasse Pais Brandão, em que participará um largo número de poetas, críticos e professores universitários.


Trata-se de homenagear e de estudar uma das vozes mais representativas da nossa poesia da segunda metade do século XX, um dos autores que levaram mais longe a profunda renovação do discurso poético português, no seguimento das experiências modernista e surrealista.


A linha poética em que se insere a poesia de Fiama Hasse Pais Brandão é a da revalorização da palavra, como lugar denso, no qual reside, em todo o seu esplendor e intensidade, a imagem.
Iniciando-se com um poema que é uma espécie de enunciação da natureza metafórica da poesia (“Água significa ave // se //a sílaba é uma pedra álgida / sobre o equilíbrio dos olhos // se // as palavras são densas de sangue / e despem objectos”), a obra (Obra Breve) de Fiama, depois de passar por uma fase de atenção ao momento histórico e político, nomeadamente à guerra colonial (Barcas Novas, 1967), dirige-se para a criação de um espaço poético em que, como assinala Luís Miguel Nava no importante ensaio que dedicou ao livro Área Branca (1978), “é posta em causa a existência de qualquer demarcação (...) entre um sentido literal e um sentido figurado”.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Biblioteca Digital (Casa) Fernando Pessoa


«Sê plural como o universo!»

Fernando Pessoa


A Casa Fernando Pessoa possui um tesouro único no mundo: a biblioteca particular desta figura maior da literatura. É muito raro conseguir-se encontrar a biblioteca inteira de um escritor com a dimensão universal de Pessoa. Os livros tendem a mover-se muito depressa: emprestam-se, perdem-se, vendem-se. Pessoa também vendeu alguns – mas deixou-nos 1142 volumes, de todos os géneros e em vários idiomas, densamente anotados e manuscritos.Entendemos que uma biblioteca desta importância devia tornar-se património da humanidade – e não apenas dos que podem deslocar-se a esta Casa onde Fernando Pessoa viveu os últimos quinze anos da sua vida.Graças à dedicação de uma equipa internacional de investigadores coordenada por Jerónimo Pizarro, Patricio Ferrari e Antonio Cardiello foi possível digitalizar, na íntegra, toda a biblioteca. Graças ao apoio da Fundação Vodafone Portugal foi possível colocar online cada uma das páginas digitalizadas. Deste encontro de entusiasmos generosos resultou a disponibilização gratuita da preciosa biblioteca do autor de O Livro do Desassossego, que agora pertence aos leitores em qualquer parte do globo. Procurámos tornar acessível e simples a compreensão da biblioteca no seu todo – que está classificada por categorias temáticas – e a consulta de cada livro. Destacámos páginas que incluem manuscritos do próprio Pessoa – ensaios e poemas escritos nas páginas de guarda dos livros.Trata-se de uma biblioteca aberta ao infinito da interpretação – bela, surpreendente e instigante, como tudo o que Fernando Pessoa criou. Usufruam-na.


Inês Pedrosa
Outubro 2010

Ideias e palavras que escorrem sangue

"Os animais não têm consciência de si mesmos e não são por conseguinte senão meios em vista de um fim. Esse fim é o homem. Por isso este não tem nenhum dever imediato para com eles"
- Emmanuel Kant, Leçons d'Éthique, Paris, Livre de Poche, 1997, p.391.

Eis a clara formulação do antropocentrismo e do especismo que regem a actual civilização e que convertem o homem no predador descontraído e autojustificado do mundo animal, reduzido a um imenso campo de concentração para seu usufruto. É esta ética (!?) e esta estupidez filosófica que predomina nos Códigos Civis, nomeadamente no português, onde os animais são reduzidos ao estatuto de coisas. É esta a mentalidade responsável pelo que se passa nos canis, nas praças de touros, nos matadouros, na indústria da carne, na experimentação animal, nos circos, na caça, na pesca, no uso das peles, etc., etc. É esta mentalidade que é preciso denunciar e extirpar pela raiz. Porque estas ideias e palavras escorrem sangue.

"É inútil a sabedoria estudada mas não aplicada." - Bhagavad-Gita

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

"É preciso ter-se separado de muitas coisas que nos pesam, que nos entravam, nos mantêm curvados, nos tornam pesados, a nós, europeus de hoje"



- Caspar David Friedrich, O viajante acima dos nevoeiros, 1817-1818.

"Fala o "viajante" - Para poder examinar de longe a nossa moralidade europeia, para a medir pelo escalão de outras moralidades passadas ou futuras, é preciso fazer como um viajante que quer conhecer a altura das torres de uma cidade: para isso, deixa essa cidade. Para reflectir nos "preconceitos morais" é preciso, sob pena de emitir novos preconceitos, colocarmo-nos fora da moral, subir, trepar, voar até qualquer ponto de vista para além do bem e do mal, na ocorrência passar para além do nosso bem e do nosso mal e libertarmo-nos da totalidade da "Europa", devendo esta Europa entender-se como uma soma de juízos despóticos que nos entraram no sangue. [...] É preciso ser extremamente leve para poder levar tão longe a vontade que se tem de conhecer, para a levar de qualquer forma acima do seu tempo, criar olhos cujo olhar possa abraçar milénios e que neles reine um céu claro! É preciso ter-se separado de muitas coisas que nos pesam, que nos entravam, nos mantêm curvados, nos tornam pesados, a nós, europeus de hoje" - Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, III, 380.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ciclo Agostinho da Silva no Botequim da Graça



Ciclo de Palestras/Tertúlias Sobre Agostinho da Silva:

. 20 de Outubro (22h): Noite de Folia, com o Grupo de Teatro TapaFuros - Inauguração do ciclo;
. 22 de Outubro (18h): 1.ª sessão: A Educação Hoje, com Christopher Auretta;
. 29 de Outubro (18h): 2.ª sessão: Univers(al)idade, com António Nunes dos Santos;
. 5 de Novembro (18h): 3ª sessão:As Ideias nas Palavras, com Jorge Menezes e Rui Lopo;
. 12 de Novembro (18h): 4.ª sessão: Quinto Império, com Paulo Borges;
. 19 de Novembro (18h): 5.ª sessão:Cultura Portuguesa, com Miguel Real;
. 26 de Novembro (18h): 6.ª sessão: Europa, com António Cândido Franco e Dirk Hennrich

Colóquio Internacional Oriente-Ocidente (com a presença de François Jullien): 10-11 de Novembro


Retiro de Meditação na Cidade - 24 de Outubro - pelo bem de todos os seres e pela Paz no Mundo

Retiro de Meditação na Cidade – 24 de Outubro

Pelo bem de todos os seres e pela Paz no Mundo, na abertura do programa de actividades da Exposição de Relíquias do Buda e de outros grandes mestres budistas, que terá lugar de 6 a 14 de Novembro, no mesmo espaço.

Mais informações sobre esta Exposição:
http://maitreyaproject.org/en/relic/media-links.html

Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa
Palácio da Estefânia – Rua D. Estefânia, 175 - Lisboa

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Este Retiro é uma oportunidade de conhecer ou aprofundar a experiência meditativa, oferecendo-nos um espaço de encontro connosco próprios que permita a descoberta de quem realmente somos, para além de qualquer pressuposto moral, filosófico ou religioso. O Retiro inspira-se na via do Buda, enquanto via terapêutica e experimental que conduz ao despertar da consciência para o conhecimento de si e o amor-compaixão universal.

O retiro será facilitado por Paulo Borges, professor de Filosofia na Universidade de Lisboa e Presidente da União Budista Portuguesa.

Programa

10-13 h (com intervalos de meditação em andamento)

Porque meditar e como meditar? A motivação amorosa-compassiva, a purificação dos canais energéticos e os sete pontos da postura.
Shamatha: estabilização da mente na atenção às sensações físicas, à respiração e ao fluxo das emoções e dos pensamentos.

13 h - Almoço

15-18 h (com intervalos de meditação em andamento)

Troca/Tonglen – Transformação das emoções e abertura do coração a todos os seres.
As quatro meditações ilimitadas: amor, compaixão, alegria e imparcialidade.
Meditação com mantras.

Contribuição: 40 euros

O Retiro abre o programa de actividades associado a RINGSEL – Exposição de Relíquias do Buda e de outros grandes mestres budistas, que terá lugar de 6-14 de Novembro no mesmo espaço. Parte das verbas são destinadas a custear as despesas deste evento.

Organização: União Budista Portuguesa / Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa
Apoio: revista Cultura ENTRE Culturas

Ver no agir o não-agir e no não-agir a acção

Aquele que sabe ver no agir o não-agir e no não-agir a acção, esse, entre todos os homens possui a vigilância do espírito, esse está unificado em yoga, esse cumpre todos os seus deveres.

Bhagavad Guitá, IV, 18

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Oração Islâmica

Ó meu Deus! Põe uma luz no meu coração, uma luz no meu túmulo, uma luz no meu ouvido, uma luz na minha vista, uma luz nos meus cabelos, uma luz na minha pele, uma luz na minha carne, uma luz no meu sangue, uma luz nos meus ossos, uma luz à minha frente, uma luz atrás de mim, uma luz debaixo de mim, uma luz por cima de mim, uma luz à minha direita e uma luz à minha esquerda.

Ó meu Deus! Aumenta a minha luz, dá-me luz, faz-me Luz, ó Luz da luz, pela Tua misericórdia, ó Misericordioso!

Oração Islâmica