segunda-feira, 13 de setembro de 2010

"[...] o amor sem desejo de tudo o que existe no mundo"

"Dizemos que alguma coisa é má apenas porque a nossa visão limitada do mundo a faz aparecer como má, isto é, como oposta ao que seria nosso desejo; as coisas deixarão de ser más (ou boas, como oposto a más), no momento em que transcendermos a nossa visão particular do Universo. (…). Todas as religiões são verdadeiras como linguagem; mas o verdadeiro templo de Deus está na alma do homem que atingiu a felicidade; e o seu verdadeiro culto é o amor sem desejo de tudo quanto existe no mundo"

- Agostinho da Silva, Alcorão.

O Outono do Cérebro

Mais do que uma vez aconteceu entrever o Outono do cérebro, o desfecho da consciência, a última cena da razão, e depois uma luz que me gelava o sangue!

E. M. Cioran, Silogismos da Amargura, 2009, Letra Livre, Lisboa, p.33

domingo, 12 de setembro de 2010

Ave Maria in Syriac - Aramaic. Schlom Lecht Maryam

Schlom Lecht Maryam. Ave Maria in Syriac - Aramaic language.

Syriac belongs to the Semitic family of languages, and is a dialect of Aramaic.

The history of Aramaic goes back to the second millennium B.C. It was "first attested in written form in inscriptions of the tenth century B.C., it still continues to be spoken and written in the late twentieth century A.D. by a variety of communities in the Middle East and elsewhere. At various times over the course of these three thousand or so years of its known history.

The closest immediate predecessors of Syriac, were the languages used in Palmyra (in modern Syria) and Hatra (in modern Iraq) around the time of Jesus. Aramaic continued to be in use among the Assyrian populations of Syria and Mesopotamia despite being dominated by Greek and Parthian/Persian rulers. The majority of these Assyrians later embraced the Christian faith and, although there are a number of short pagan inscriptions.

sábado, 11 de setembro de 2010

Laú

Laú quer dizer, na nossa língua, «meu», e também «teu», o que, por assim dizer, vai dar ao mesmo. Pelo contrário, na língua do Papalagui [Branco, Senhor] não há palavras mais diferentes do que «meu» e «teu». «Meu» designa algo que é minha pertença, e so minha. «Teu» designa algo que só a ti pertence. Diz pois o Papalagui, a respeito de tudo quanto se encontre nas imediações da sua cabana: isto é meu. Ninguém, a não ser ele, tem direito àquilo. Por toda a parte onde vás, e tudo quanto vejas junto do Papalagui, seja fruto, árvore, ribeiro, floresta ou um monte de terra, sempre ele te dirá: «Isto é meu! Toma cautela, não toques no que te não pertence!» E se tu, mesmo assim, tocares, desata a gritar, a chamar-te ladrão, o que é um termo particularmente humilhante, e tudo isso só porque te atreveste a tocar no «meu» do teu próximo. Então, os seus amigos, e bem assim os servos dos chefes de tribo de mais alta estirpe acorrem, acorrentam-te, levam-te para o fale pui pui, e eis-te proscrito para o resto dos teus dias.

Tuiavii de Tiavéa, O Papalagui, Antígona, Lisboa, p.40

"Nunca me tomei a mim mesmo por um ser."

Nunca me tomei a mim mesmo por um ser. Um não-cidadão, um marginal, um zero à esquerda que só existe pelo excesso, pela superabundância do seu nada.

E. M. Cioran, Do Inconveniente de Ter Nascido, Letra Livre, Lisboa, p.157

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Não há entes, apenas entres.

Ser e estar

Em português e castelhano o verbo “ser” vem do latino “sedere”, que significa estar sentado, residir, ficar tranquilo, pousar, etc. “Ser” vem de “sedere”, “estar” de “stare”, estar de pé, que também significa estar a favor de ou contra alguém.

Internamente sentados somos, repousados na sede, no centro, sem qualquer estado/levantamento mental de apego ou aversão. Assim podemos contemplar-nos inseparáveis de tudo. E assim podemos levantar-nos, estar de pé, numa acção não dualista, para o bem de todos, sem preferências nem exclusões.

Uni-Verso

Em 1974 foi encontrado na Etiópia parte do esqueleto de uma mulher que representava o hominídeo mais antigo conhecido até então. Esse nosso antepassado comum baptizado com o nome de “Lucy” terá existido há aproximadamente 3,2 milhões de anos e o seu nome, é sabido, deve-se a no momento da descoberta ter passado na rádio uma música dos Beatles, intitulada “Lucy in the Sky with Diamonds”. Mas alucinação é que a revelação não terá sido, porque em investigações arqueológicas posteriores, nessa mesma região, já foi descoberto um esqueleto que fez recuar os vestígios dos nossos mais velhos ancestrais para 4,4 milhões de anos. Aos mais antigo de todos deu-se o nome de “Ardi”. E, afinal, o que serão 4,4 milhões de anos na existência do planeta, do Universo?

Nada impede que daqui a uns anos se descubram outros esqueletos, noutras regiões, que eventualmente, recuem mais ainda o início da aventura dos hominídeos na Terra. Mas hoje, em termos arqueólogicos, faz-se corresponder o berço da humanidade aquela região da África Oriental. Terá sido, dizem, a partir daí que se terá iniciado o povoamento do planeta. Ásia, Europa, Oceania e América, por esta ordem, terão sido a pouco e pouco, lentamente, ocupados por populações humanas.

Em cada uma das mais diferentes regiões desenvolveram-se estratégias de sobrevivência que corresponderam a outras tantas formas de organização social. Entre os inúmeros humanos que se disseminaram pelo planeta, foi-se assistindo a diferentes formas de organização da família, da política, de economia, da religião, naquilo a que a Antropologia designa por diversidade cultural. Por exemplo, em relação à organização da família referem-se vários tipos conhecidos como a monogamia, bigamia, poligamia, poliandria; ou quanto à religião, onde se podem falar de sistemas animistas, monoteístas, politeístas; e por aí fora.

Durante algum tempo, no século XIX, os autores evolucionistas classificaram as sociedades tecnologicamente menos desenvolvidas como povos mais atrasados, mais primitivos, quando comparados com as sociedades ocidentais. Depois a Antropologia concluiu pela falta de sustentação científica dessas ideias que afirmavam a superioridade de “uns” em relação a “outros”. Pensemos, por exemplo, na legitimação que algumas dessas ideias deram ao racismo, nazismo, etc. O que na Antropologia, hoje, corresponde mais à verdade científica é que as diferentes sociedades humanas em vez de avançadas ou primitivas, superiores ou inferiores, são simplesmente diferentes. Uma mesma travessia histórica através dos tempos, diferentes usos e costumes que se desenvolveram, diferentes padrões culturais, diferentes formas de organização social. Tantas formas de explicação da natureza e tantas outras possíveis, infinitas. Sempre a mesma incerteza, ou quase…

Hoje, vivemos tempos em que faz mais sentido a valorização da diversidade cultural, do que a afirmação etnocêntrica de universos singulares. O que nos deverá guiar é mais o estabelecimento de pontes, de diálogo, entre diferentes culturas, pela paz!, do que a afirmação desses modelos etnocêntricos. Será nessa abertura ao outro, nessa escuta do outro, em que assentaremos o nosso Estudo. Será a partir da soma das partes que partiremos para a valorização e construção da Unidade. Nada de falsas manipulações, nada de querermos o outro à nossa imagem. Liberdade até de não ser livre. Com regras, claro, até que uma plena emancipação social se instale, até à chegada de uma consciência plena.

Coisa tão estonteante tem sido esta aventura pelo espaço-tempo. Meu Deus…

Luis Santos

"O homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar" - Agostinho da Silva

Eduardo Lourenço, em "O Labirinto da Saudade", escreveu o seguinte:

"Colectiva e individualmente, os Portugueses habituaram-se a um estatuto de privilégio sem relação alguma com a capacidade de trabalho e inovação que o possa justificar, não porque não disponham de qualidades de inteligência ou habilidade técnica análoga à de outra gente por esse mundo, mas porque durante séculos estiveram inseridos numa estrutura em que não só o privilégio não tinha relação alguma com o mundo do trabalho mas era a consagração do afastamento dele."

Também José Gil, em "Portugal, Hoje O Medo de Existir", registou:

"Se o (actual) povo português fosse um povo de intensidades e não de sentimentos e de medo (como Fernando Pessoa caracterizava o povo espanhol contrapondo-o ao português), há muito que teríamos saído do estado de iliteracia e de fragilidade económica em que vivemos. Em vez disso, sofremos de muitos defeitos próprios das sociedades do terceiro mundo: absentismo no trabalho, inércia, dificuldades na formação e na aprendizagem, lentidão, falta de competitividade. Como se tivéssemos sido atingidos por uma doença que nos deixa diminuídos, meio exangues, com um défice de força vital."

Se o primeiro associa a inactividade característica do Português a um estatuto de privilégio desejado, o segundo equipara-a a doença letárgica. Por que é nós, portugueses, não gostamos de trabalhar? Por que é que relacionamos o trabalho com sofrimento, tortura, fadiga, como se este fosse um dever e não um querer? E mesmo quando é um querer, por que é que não o encaramos como um fim em si, mas sim como um meio doloroso, de sacrifício, uma via para atingir um determinado tipo de fim, quer material ou espiritual?

É provável que a palavra trabalho seja proveniente do termo latino tripalium, instrumento romano de tortura. Já os gregos denominavam o acto de criar, agir, confecionar, fabricar, de poiesis que, como sabemos, hoje significa a arte de criar poesia. É interessante constatar que se para os gregos, o acto de fazer está conotado com a poesia, para os romanos o mesmo relaciona-se com tortura. Talvez haja alguma relação entre tripalium e actividade, assim com há entre poiesis e agir. Osho, em "Tantra A Compreensão Suprema" diz o seguinte:

"Lembre-se de duas palavras: uma é «acção», outra é «actividade». Acção não é actividade; actividade não é acção. As suas naturezas são diametralmente opostas. A acção é quando a situação assim o exige; você age, você responde. A actividade é quando a situação não importa, não é uma resposta; você está tão agitado por dentro que a situação não é mais que uma desculpa para estar activo.
A acção vem de uma mente silenciosa - é a coisa mais bela do mundo. A actividade vem de uma mente agitada - é a mais feia. A acção é quando há uma relevância; a actividade é irrelevante. A acção é momento a momento, espontânea; a actividade está carregada com o passado. Não é uma resposta ao momento presente, pelo contrário, está a escoar a agitação que você trouxe do passado para o presente. A acção é criativa. A actividade é muito, muito destrutiva - ela destrói-o a si, ela destrói os outros."

Se para Eduardo Lourenço e  José Gil, o Português não gosta ou não é apto para o trabalho, não será por este ser tripalium, a actividade descrita por Osho como agitada, irrelevante, imbuída de passado, destrutiva, reflexo de uma mente que pode ser conotada com as mesmas características? Se a acção é criativa, espontânea, bela, fruto de uma mente silenciosa que responde momento a momento, não será esta poiesis e não deveria o homem no dia-a-dia fazer da vida uma criação (não um trabalho), como nos diz Agostinho da Silva? Talvez a "consagração do afastamento do trabalho" seja uma tentativa de retorno ao pomar divino, Éden, Terra Pura, sem  véus obscurecedores e dualistas que torturam. Talvez a "doença" portuguesa seja contemplação lusa desse último raio de Sol, que os romanos tanto temiam e que todos os dias se afunda no oceano fazendo o ocaso surgir sentimentos, medo - medo de existir - pois o que é a frágil existência perante o esplendor da morte? Como agir? Como criar? Como penetrar na mente e desvendar os seus mistérios silenciosos, vislumbrantes da saudade arrebatadora de raios impregnados de saúde, de vida(!), regeneradores do estado mórbido que fatalmente se desenha na nossa face?  Como ser poesia e não poeta?

Julgo que é agora oportuno escutar Tilopa:
"Cesse toda a actividade, abandone todo o desejo, deixe os pensamentos erguerem-se e baixarem como as ondas do oceano. (...) Aquele que abandona o desejo e não se agarra a isto e àquilo, apreende o sentido real dado nas escrituras."

Qual o real sentido das escrituras? Não é isso que incessantemente buscamos e ignorantemente apelidamos de trabalho? Não será havermo-nos poema o real da Vida?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entre

“Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?”

“Entre o que vive e a vida
Para que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?”

“Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?”

– Fernando Pessoa, excertos de "Além-Deus", V.

O significado da queda de D. Sebastião no inter-valo

D. Sebastião

Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal, a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

O segundo poema que tem como título “D. Sebastião” é o primeiro dos cinco “Símbolos” que abrem a terceira parte, “O Encoberto”, da Mensagem de Fernando Pessoa. Nele o poeta volta a dar voz a um rei que – falando sempre como esse ser “que há” e não “que houve”, ou seja, como imortal já dotado da “grandeza” de ser livre da “Sorte” [1] - exorta a que esperem pelo seu regresso aqueles que ainda permanecem escravos da comum condição mortal e humana, reproduzindo a sua submissão ao Destino enquanto cadáveres adiados que procriam [2]. D. Sebastião continua a ser aqui, numa coerência rigorosa, a figura de um rei-Outro, de uma consciência livre e desperta que exorta os que esperam o seu regresso ao mundo dos homens a que não esperem que regresse o mesmo que partiu. Efectivamente, tendo-se convertido No que se sonhou, tendo-se tornado Naquele que se desejou, um ser emancipado do Destino, e sendo isso “eterno”, não pode senão ser “Esse” que regressará. Não faz sentido assim que o esperem com uma expectativa adequada ao que foi e já não é nem poderá jamais tornar a ser, não faz sentido que o esperem com a predominante expectativa sebastianista sobrevivente à possibilidade de regresso físico do rei desaparecido em Alcácer-Quibir e convertida num paradigma da mentalidade portuguesa em épocas de profunda crise e insatisfação, fruto da laicização da esperança messiânica: a expectativa de que surja um mero líder político, redentor da pátria oprimida e decadente, restaurador da ordem e estabilidade ameaçadas e condutor da nação em períodos de incerteza a respeito da identidade e sentido da sua vida histórica. O D. Sebastião de Pessoa exorta a que o esperem, mas não como o Mesmo, antes como Outro: não como mortal, antes como imortal.

D. Sebastião exorta ao fim do sebastianismo comum, recordando que o seu fracasso humano, pessoal e histórico não foi senão o reverso do divino dom de uma oportunidade superior a todo o triunfo bélico e a todo o poder e glória mundanos e temporais, necessariamente fugazes. Caindo “no areal e na hora adversa”, segundo a percepção mundana e exterior, D. Sebastião na verdade acedeu ao “intervalo” da imersão da “alma” “em sonhos que são Deus”, concedido pelo divino aos “seus”, ou seja, aos que o buscam acima de tudo, aos seus amigos [3].

O que são este “intervalo”, esta imersão e estes “sonhos que são Deus”? “Intervalo”, do latim intervallum, é o espaço ou distância entre dois pontos ou lugares, que etimologicamente são duas paliçadas ou trincheiras (vallum), também com o sentido de baluartes, defesas, protecções. O “intervalo”, ainda segundo um dos sentidos da palavra latina, sugere-se assim como o repouso ou descanso da “alma” em algo que não a (pré-)ocupa com a construção de limites e muros autoprotectores, o repouso ou descanso da “alma” a respeito de toda a (pré-)ocupação - mental, emocional, verbal ou física - com a separação entre uma coisa e outra, a divisão entre si e o outro, a indiferença, a defesa e o ataque, a dualidade, o medo e a (in)segurança. Livre de tudo isso, é no intervalo disso tudo, na pausa (outro sentido do intervallum latino) de toda essa agitação, que se pode abrir e absorver plenamente “em sonhos que são Deus”. Ou seja, no contexto da Mensagem, viver a “loucura” daquela ânsia de “grandeza” trans-mundana e transcensão de toda a “Sorte” / condição mortal que se converte nisso e é já isso mesmo a que ardentemente aspira. O desejo veemente dessa “grandeza” insuperável é já a vibrante e imanente epifania do divino. Como escreve Pessoa no poema dedicado a D. Fernando: “E esta febre de Além, que me consome, / E este querer grandeza são seu nome / Dentro em mim a vibrar”. É isso que torna o sujeito “cheio de Deus” [4] e é isso, e apenas isso, que o pode ressuscitar, já em vida, de ser a “besta sadia” e “cadáver adiado que procria” [5], vergado pelas indomadas “forças cegas” ao triste contentamento com a vida doméstica e vegetativa. É isso, e apenas isso, que o pode ressuscitar do tempo dos quatro impérios e operar a sua superação no Quinto, a “verdade” pela qual “morreu D. Sebastião” [6], que obviamente já nada tem a ver com qualquer domínio mundano, seja temporal e político, seja de língua e cultura (o que confirma que o Pessoa da Mensagem vai muito mais longe que o dos textos em prosa sobre Portugal e o Quinto Império). Do mesmo modo que em D. Sebastião o ser “que há” transcende o “que houve”, assim também o Quinto Império transcende o plano onde decorre e se dissipa o sonho dos quatro períodos civilizacionais referidos – Grécia, Roma, Cristandade, Europa - , já não podendo propriamente dizer-se que venha temporalmente após eles, enquanto símbolo de uma possibilidade que transcende o tempo e o espaço e que é a própria possibilidade do homem ou da consciência despertar e se imortalizar.

A alma de D. Sebastião está pois “imersa / Em sonhos que são Deus”. O que é, todavia, “Deus”? A palavra procede da raiz indo-europeia dei, que significa “tudo o que brilha”, donde vem o sânscrito deva (deus), o iraniano daeva (demónio) e o português dia [7]. Deus indica não um ser ou um ente, algo que exista e possa ser objecto ou sujeito perante objectos, algo que possa ser visto por alguém ou que veja alguém, mas antes a própria luz invisível que torna todas as coisas visíveis, em termos inteligíveis ou sensíveis, o ilimitado espaço luminoso que é matriz de todas as possibilidades de manifestação e consciência, o fundo sem fundo de todos os fenómenos, o nada inerente ao aparecimento de tudo [8]. É aí que verdadeiramente cai, imerge e reside o D. Sebastião transfigurado, que realiza a suma potencialidade de todo o homem. É nisso que se guarda, baluarte sem defesas e assim inexpugnável pela derrota no “areal”, “a morte e a desventura”. É Isso, afinal, que se sonhou e tornou, num sonho / desejo / imaginação criadora (ou desveladora) que converte o amante na coisa amada, ou seja, que, “por virtude do muito imaginar” (Luís de Camões), realiza isso que imagina, em tudo distinto daquele sonho ilusório e irreal que preside à história do mundo e dos homens e à sucessão dos quatro impérios mundanos, histórico-civilizacionais [9]. “O” que se sonhou, esse “Deus”/matriz intemporal de toda a manifestação, transcende a consciência temporal e a sua ilusão intrínseca, sendo da ordem do eterno. É só “Esse” que D. Sebastião pode regressar, não o rei humano morto ou desaparecido no areal, ou um seu substituto, mitificado pelo sebastianismo e esperado pelos sebastianistas de todos os tempos, mas o sujeito transfigurado em Deus, dei-ficado, ou seja, iluminado. Desperto e livre, em nada se distingue desse espaço primordial, anterior a todas as coisas e de todas envolvente como a matriz que as possibilita, mas que, na experiência mundana e condicionada, apenas se abre nos inter-valos entre uma coisa e outra, entes, pensamentos, palavras e acções.

Cabe a este respeito recordar um fundamental poema inglês de Pessoa, “The King of Gaps”, “O Rei das fendas / brechas / aberturas / hiatos / lacunas / vazios / intervalos / abismos”, que muito ajuda a compreender o “intervalo” em que está imerso o D. Sebastião pessoano. Este “rei desconhecido”, senhor de um “estranho Reino dos Vazios” com o qual coincide, figura isso que há “entre” uma “coisa” e outra “coisa”, o intervalar e não entificado espaço vazio que se desvela entre as entidades, o fundo informe onde as formas se recortam e definem, bem designado como “entre-seres”. Se num sentido parece assumir a função de um Mesmo indiferenciado, perante o qual tudo o que nele se delimita surge como as múltiplas formas da sua alteridade, ou se noutro sentido podemos pensá-lo como o Outro enquanto transcende e envolve todas as formas do mesmo, num outro sentido podemos reconhecer-lhe uma transcensão mais radical, tanto do mesmo como do outro, tanto do idêntico como do diferente, na medida em que estes se constituam no âmbito de uma relação mútua entre formas e entidades que só se torna possível por haver esse espaço não-entitativo do “estranho Reino dos Vazios” que permite a constituição e o reconhecimento da relação e do relacionado. Não-ente que se entremostra no intervalo dos entes, ou seja, das definições do isto e daquilo, “todos pensam que ele é Deus, excepto ele próprio” [10].

[1] Cf. Id., “D. Sebastião, rei de Portugal”, Mensagem, Obras, I, p.1152.
[2] Ibid.
[3] Usamos o termo no sentido que tem na tradição espiritual e mística ocidental: cf. Jean Tauler, Aux “amis de Dieu”, Paris, Le Cerf, 2001; Bernard Gorceix, Amis de Dieu en Allemagne au siècle de Maître Eckhart, Paris, Albin Michel, 1984.
[4] Cf. Fernando Pessoa, “D. Fernando, Infante de Portugal”, Mensagem, Obras, I, p.1151.
[5] Cf. Id., “D. Sebastião, rei de Portugal”, Ibid., p.1152.
[6] Cf. Id., “O Quinto Império”, Ibid., pp.1161-1162.
[7] Cf. Odon Vallet, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, pp.63-64.
[8] Cf. Jean-Yves Leloup, “Notre Père”, Paris, Albin Michel, 2007, pp.173-174. Agostinho da Silva designa-o como “nada que é tudo” – Quadras Inéditas, s.l., Ulmeiro, 1990, p.88. Cf., entre outros estudos, Paulo Borges, “Mestre Eckhart e Longchenpa: do fundo sem fundo primordial como nada e vacuidade”, in AAVV, A Questão de Deus na História da Filosofia, I, organização de Maria Leonor L. O. Xavier, Sintra, Zéfiro, 2008, pp.567-579.
[9] Cf. Fernando Pessoa, “O Quinto Império”, Obras, I, p.1162.
[10] Cf. Fernando Pessoa, Poesia Inglesa, I, edição e tradução de Luísa Freire, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, p.280.

Paulo Borges, in Uma Visão Armilar do Mundo, Lisboa, Verbo, 2010.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sento-me num banco
Como todos os dias me sento neste banco
De encosto perfeito e quatro pernas
Como podia só ter três pernas
Ou duas
Ou nenhuma

Um banco é uma força construída
Por alguém que imaginou
E eu imagino-me
Sentado
Nas calmas de uma poeira a assentar no chão
A puxar pela cabeça
A ver se estico o pescoço
Para ver o seguimento deste mundo
Mas nada disso acontece
Porque estou sentado
E o sangue estabilizou
Na estrada nacional do silêncio

Às vezes ponho-me a olhar os peixes
Que pairam sobre mim
E a forma como dançam aos pares
E piscam os olhos uns aos outros
Mas sempre sentado nesta cadeira
Que é do tempo do meu avó
Em que também ele se sentava
A atirar pequenas pedras ao infinito
Para que a morte não lhe trouxesse a dor

O meu avô morreu sentado nesta cadeira
Que tem quatro pernas mas não anda
Pois o que anda é o pensamento
E o desejo de construir um lugar
Onde o amor é tão real que parece pessoa
Mas na verdade
Sentei-me num banco vazio
Para assistir ao fim do mundo
E, o que é triste,
é que daqui a nada batem-me à porta

Filosofia no Oriente - Curso Livre - Inscrições abertas na Fac. Letras da Univ. Lisboa



FILOSOFIA NO ORIENTE - CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO: 2010/2011

Inscrições abertas a todos (Informações: 217920000 - pedir para ligar à Secretaria da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Sempre às 5ªs feiras, das 17-20h

Introdução ao Budismo (1ºsemestre) - Prof.Doutor Paulo Borges

I: 1. A vida e o Despertar do Príncipe Siddhartha Gautama. O Sermão de
Benares e as Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, sua origem, sua extinção e
a via que aí conduz (o Óctuplo Caminho). O sentido terapêutico, experimental e
não dogmático da via e ensinamento do Buda. Os quatro selos. Atman e
anatman. O debate entre as escolas budistas e bramânicas. Os Três Cestos:
Vinaya, Sutra e Abhidharma. A tradição dos três ciclos de Ensinamento e dos
três níveis da Via: Hinayana, Mahayana e Vajrayana. Arhats, Bodhisattvas e
Mahasiddhas. Vacuidade e interdependência: os doze factores da coprodução
condicionada. A via do meio entre eternalismo e niilismo. A literatura da
Prajnaparamita: O Sutra do Coração e o Sutra de Diamante. Vacuidade e
natureza de Buda: As Estâncias da Via do Meio (Nagarjuna) e o Mahayana
Uttaratantra Shastra (Maitreya/Asanga). A Via do Bodhisattva (Shantideva).
II: 2. Meditação analítica e contemplativa. Calma mental (samatha) e visão
penetrante (vipashyana). As quatro meditações fundamentais: 1 - o valor da
preciosa existência humana, rara e difícil de obter; 2 - a impermanência e a
morte; 3 - a acção (karma) e a lei da causalidade; 4 - os sofrimentos dos seis
mundos do ciclo da existência (samsara). O Refúgio nas Três Jóias, Buda,
Dharma e Sangha. O Bodhicitta, ou espírito de Iluminação, relativo – em
aspiração e em acção – e absoluto. As quatro meditações ilimitadas: amor,
compaixão, alegria e equanimidade. A “troca” e outros exercícios de meditação.
As seis paramitas, virtudes ou perfeições transcendentes: generosidade, ética,
paciência, diligência, concentração e sabedoria.

Filosofia e Mitologia na Cultura Tradicional Indiana (1ºsemestre) -
Prof.Doutor Carlos João Correia

Sinopse: Este curso tem como objectivo analisar os princípios das escolas
filosóficas desenvolvidas na Índia antiga, entre o séculos VI a.C. e XII d.C.
(sāṃkhya, yoga, vedānta, mīmāṃsā, vaiśeṣika, nyāya, buddha dharma e
jainismo). Será igualmente seu propósito estudar as concepções filosóficas que
envolvem os textos védicos - em particular, as Upaniṣads - assim como obras de
índole poético-mitológica, com especial relevo dado ao Mahābhārata e ao
Rāmāyaṇa.

Mística Cristã e Gnose Oriental (2ºSemestre) – Professor Carlos H. do C.
Silva

Ponto introdutório: Actualidade do “diálogo de espiritualidades” e perspectiva
crítica da Filosofia da Religião.
1. Origens helénicas da mística e ‘categorias hebraicas’ na ulterior síntese cristã
da ‘Teologia Mística’.
2. Dos Mistérios gregos à tradição indo-ária: paralelos na gnose oriental,
sobretudo no hinduismo (Upanixadas, Yoga, também Budismo- Prajñapâramitâ…).
3. Principais configurações da espiritualidade cristã e sua releitura gnóstica,
também comparada com o pensamento oriental.
4. Confronto entre a transcendência e o carácter dialógico da «experiência
mística» na tradição cristã e o sentido imanentista e sobretudo gnóstico da unio
mystica ‘oriental’.
Ponto conclusivo: Natureza da experiência espiritual e a definição da “gnose”:
unidade ou união; enstasis ou êxtase; absolvição ou libertação…

Oriente/Ocidente: diálogos e cruzamentos (2ºsemestre)
- (Coord. Prof.Doutor Paulo Borges e Carlos João Correia).

Este curso tem como seu objectivo investigar a presença da filosofia e da cultura
oriental na filosofia ocidental (Neoplatonismo, Renascença e Filosofia Moderna,
Idealismo e Romantismo Alemão, Filosofia Contemporânea) e no pensamento
português. Em cada sessão será convidado um docente ou investigador para
apresentar as suas conclusões sobre o tema em análise.

http://www.carlosjoaocorreia.com/oriente

domingo, 5 de setembro de 2010

Sonhando com Alberto Caeiro

Não sinto nada, se nada sinto

Não sinto nada, se nada sinto, enquanto sinto. Não sei a cor do poema, nem a tonalidade da cor. Se o que que sinto fosse sentido, tudo teria feito sentido.

Um dia se não me faltar coragem
Digo a ele que quero casar. Por detrás de uma coluna, escondida, acompanho-o todos os dias. Chega às nove, pede um café. Enrola um cigarro. Quando tira a caneta estremeço.
- Uma aguardente José...
Com o copo na mão esquerda, no bloco de notas escreve um verso. Se a minha sombra tocasse seus pés sentiria de leve o seu pulsar. Quando cruzasse as pernas saberia se era feliz a rima.
- Mais um café...
No almoço ele se vai. No jantar sonho que come o dia.
Quando me deito ajoelho, junto as mãos em respeito a Nosso Senhor e prometo:
- Amanhã Senhor, digo ao senhor Caeiro que é de Sua vontade que eu seja sua esposa até que a morte nos separe.
Se me beijar vou beber todas suas palavras já escritas. Quando suspirar vou sentir seu coração inquieto.
Ah, Senhor o amor terá o tempo da borboleta que ele escreve em seus versos.
Se o senhor Caeiro hesitar abro meus braços, dou de boa vontade um abraço. Peço em segredo mais um poema.
Amanhã Senhor, amanhã.


Sinto a noite agora noite, tão noite, que noite me sinto 

A Esfinge

Porque olhas, com olhar esfíngico, o mar que levanta e move, como um cavalo de Pégaso, as montanhas dos dias que passaram? A Saudade olha-te nos olhos, mas tu olhas o Oceano, a janela de onde vês o dia e a noite. Imóveis. Tornados pedra de lua. Mar de pedra azul, arrefecida.

As tuas mãos são como asas de corvo, jazem sobre o vestido enlutado de uma imagem que te lê. A morte penetra nos teus olhos, como peixe nas águas frias de Inverno. O teu seio é belo e redondo como um fruto de neve. Não cantas, escurece. Falas e matas.

A Saudade é um frio e um vento que sopra os passos passados, escutados desde o princípio do que não tem Princípio. Do que é sem tempo, do que é Origem. Não tem templo o teu deserto. As imagens são ícones lembrando vagamente o ter havido Origem.

Descias ao jardim como quem sobe a imensa escadaria em caracol que conduz à torre de onde saíste. As paredes da casa abatem-se sobre uma tempestade de real. Avistas os melros, e ouves, sonolenta, o teu choro vindo de longe. Desde que a tua cabeça se transformou em gaivota que o mar te estranha o nome e a pálida feição.

Tens na mão a cabeça que te hão-de cortar para que a pedra não entre no tumultuoso mar e petrifique o líquido espumoso de uma antiga espera. Levas no frio dos braços o véu que te tapa o rosto. Ficarás a olhar o mar pelo hialino olhar das corças que tornam à terra e aí ficam até saírem dos seus olhos flores de pedra. Flores, rosas mergulhadas em pensamento e terra.

O Outono despirá os teus véus. As raparigas tocarão violino à sombra dos rios. À sombra dos rios, o sol se deitará para repousar: gigante saudoso dos dias! Setembro enterrará as romãs no poço do jardim. Os dedos. De lá avistaremos a Saudade a futurar-se Dia, de novo.

Impermanentes, os dias, escreverão versos em folhas brancas que não terão medo das palavras dos poetas. Folhas lisas para escorregarem crianças nos jardins que alimentam uma vontade de existir, apesar do olhar sombrio do rios, com as sombras que há em cada coisa que existe nelas.
Tornados pedra, em pleno Verão, os jardins são a memória que se abriga debaixo das árvores. Tocaremos o silêncio com um olhar sem rosto. Um olhar que está atrás do rosto. Chamaremos por um qualquer lugar onde adormecer.
A esfinge, imóvel, cegará sob o olhar esquecido dos ramos. Tapam-na o musgo e as folhas no chão e na corrente. Háo-de varrer a memória como às folhas. A esfinge reconhece o olhar penetrante das pontes e das montanhas. Mas isso é depois do antes, depois de ser cortada a vide e o rosto das manhãs se encolher no silêncio de nenhum verso.

O colo da esfinge, guardiã do silêncio e do grito, é um banco de pedra onde todos estamos sentados a olhar o infinito. A olhar o Sol. Tantos pássaros lhe poisarão nos olhos! Seshey! Guarda o enigma dentro do olhar! Medusa! guarda o olhar dentro do enigma. Serás mais útil aos mortos do que aos vivos!

sábado, 4 de setembro de 2010

Brilharam teus olhos
Alcançou tua voz a natureza
Fazendo de ti amigo
do peixe que te vence

Pode a loucura matar-te
Tua lonjura será alívio
dos homens bem comportados
que surdos,  perderam há anos
o som que os rodeia

Entre o velho e o mar
Nasces tu desencontrado
na cidade que não te acolhe
e gritas sem educação:
Sinto-me bem na natureza
Que ela não fala!

Grito contigo em surdina
o que não se explica
ancas generosas
desejo que se transcende

silenciosa é a poesia
amor que se sente
um olhar fugaz
fazendo do tempo
nosso presente. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Um breve relâmpago

Um breve relâmpago
ilumina a escuridão:
garça gritando a noite.

O grito da noite
Esgarça-se branco
Num breve relâmpago.

- Matsuo Bashô

Não sei a cor do poema, nem a tonalidade da cor.
Se o que que sinto fosse sentido, tudo teria feito sentido. 

Sinto a noite agora noite, tão noite, que noite me sinto.

E agora que sinto, sem tudo sentir,
diz-me poeta o que faço com este sentir