segunda-feira, 13 de setembro de 2010
"[...] o amor sem desejo de tudo o que existe no mundo"
- Agostinho da Silva, Alcorão.
O Outono do Cérebro
E. M. Cioran, Silogismos da Amargura, 2009, Letra Livre, Lisboa, p.33
domingo, 12 de setembro de 2010
Ave Maria in Syriac - Aramaic. Schlom Lecht Maryam
Schlom Lecht Maryam. Ave Maria in Syriac - Aramaic language.
Syriac belongs to the Semitic family of languages, and is a dialect of Aramaic.
The history of Aramaic goes back to the second millennium B.C. It was "first attested in written form in inscriptions of the tenth century B.C., it still continues to be spoken and written in the late twentieth century A.D. by a variety of communities in the Middle East and elsewhere. At various times over the course of these three thousand or so years of its known history.
The closest immediate predecessors of Syriac, were the languages used in Palmyra (in modern Syria) and Hatra (in modern Iraq) around the time of Jesus. Aramaic continued to be in use among the Assyrian populations of Syria and Mesopotamia despite being dominated by Greek and Parthian/Persian rulers. The majority of these Assyrians later embraced the Christian faith and, although there are a number of short pagan inscriptions.
sábado, 11 de setembro de 2010
Laú
Tuiavii de Tiavéa, O Papalagui, Antígona, Lisboa, p.40
"Nunca me tomei a mim mesmo por um ser."
E. M. Cioran, Do Inconveniente de Ter Nascido, Letra Livre, Lisboa, p.157
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Ser e estar
Internamente sentados somos, repousados na sede, no centro, sem qualquer estado/levantamento mental de apego ou aversão. Assim podemos contemplar-nos inseparáveis de tudo. E assim podemos levantar-nos, estar de pé, numa acção não dualista, para o bem de todos, sem preferências nem exclusões.
Uni-Verso
Nada impede que daqui a uns anos se descubram outros esqueletos, noutras regiões, que eventualmente, recuem mais ainda o início da aventura dos hominídeos na Terra. Mas hoje, em termos arqueólogicos, faz-se corresponder o berço da humanidade aquela região da África Oriental. Terá sido, dizem, a partir daí que se terá iniciado o povoamento do planeta. Ásia, Europa, Oceania e América, por esta ordem, terão sido a pouco e pouco, lentamente, ocupados por populações humanas.
Em cada uma das mais diferentes regiões desenvolveram-se estratégias de sobrevivência que corresponderam a outras tantas formas de organização social. Entre os inúmeros humanos que se disseminaram pelo planeta, foi-se assistindo a diferentes formas de organização da família, da política, de economia, da religião, naquilo a que a Antropologia designa por diversidade cultural. Por exemplo, em relação à organização da família referem-se vários tipos conhecidos como a monogamia, bigamia, poligamia, poliandria; ou quanto à religião, onde se podem falar de sistemas animistas, monoteístas, politeístas; e por aí fora.
Durante algum tempo, no século XIX, os autores evolucionistas classificaram as sociedades tecnologicamente menos desenvolvidas como povos mais atrasados, mais primitivos, quando comparados com as sociedades ocidentais. Depois a Antropologia concluiu pela falta de sustentação científica dessas ideias que afirmavam a superioridade de “uns” em relação a “outros”. Pensemos, por exemplo, na legitimação que algumas dessas ideias deram ao racismo, nazismo, etc. O que na Antropologia, hoje, corresponde mais à verdade científica é que as diferentes sociedades humanas em vez de avançadas ou primitivas, superiores ou inferiores, são simplesmente diferentes. Uma mesma travessia histórica através dos tempos, diferentes usos e costumes que se desenvolveram, diferentes padrões culturais, diferentes formas de organização social. Tantas formas de explicação da natureza e tantas outras possíveis, infinitas. Sempre a mesma incerteza, ou quase…
Hoje, vivemos tempos em que faz mais sentido a valorização da diversidade cultural, do que a afirmação etnocêntrica de universos singulares. O que nos deverá guiar é mais o estabelecimento de pontes, de diálogo, entre diferentes culturas, pela paz!, do que a afirmação desses modelos etnocêntricos. Será nessa abertura ao outro, nessa escuta do outro, em que assentaremos o nosso Estudo. Será a partir da soma das partes que partiremos para a valorização e construção da Unidade. Nada de falsas manipulações, nada de querermos o outro à nossa imagem. Liberdade até de não ser livre. Com regras, claro, até que uma plena emancipação social se instale, até à chegada de uma consciência plena.
Coisa tão estonteante tem sido esta aventura pelo espaço-tempo. Meu Deus…
Luis Santos
"O homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar" - Agostinho da Silva
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Ser é outrar-se
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Entre
Onde está o sonho?”
“Entre o que vive e a vida
Para que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?”
“Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?”
– Fernando Pessoa, excertos de "Além-Deus", V.
O significado da queda de D. Sebastião no inter-valo
D. Sebastião
Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal, a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
O segundo poema que tem como título “D. Sebastião” é o primeiro dos cinco “Símbolos” que abrem a terceira parte, “O Encoberto”, da Mensagem de Fernando Pessoa. Nele o poeta volta a dar voz a um rei que – falando sempre como esse ser “que há” e não “que houve”, ou seja, como imortal já dotado da “grandeza” de ser livre da “Sorte” [1] - exorta a que esperem pelo seu regresso aqueles que ainda permanecem escravos da comum condição mortal e humana, reproduzindo a sua submissão ao Destino enquanto cadáveres adiados que procriam [2]. D. Sebastião continua a ser aqui, numa coerência rigorosa, a figura de um rei-Outro, de uma consciência livre e desperta que exorta os que esperam o seu regresso ao mundo dos homens a que não esperem que regresse o mesmo que partiu. Efectivamente, tendo-se convertido No que se sonhou, tendo-se tornado Naquele que se desejou, um ser emancipado do Destino, e sendo isso “eterno”, não pode senão ser “Esse” que regressará. Não faz sentido assim que o esperem com uma expectativa adequada ao que foi e já não é nem poderá jamais tornar a ser, não faz sentido que o esperem com a predominante expectativa sebastianista sobrevivente à possibilidade de regresso físico do rei desaparecido em Alcácer-Quibir e convertida num paradigma da mentalidade portuguesa em épocas de profunda crise e insatisfação, fruto da laicização da esperança messiânica: a expectativa de que surja um mero líder político, redentor da pátria oprimida e decadente, restaurador da ordem e estabilidade ameaçadas e condutor da nação em períodos de incerteza a respeito da identidade e sentido da sua vida histórica. O D. Sebastião de Pessoa exorta a que o esperem, mas não como o Mesmo, antes como Outro: não como mortal, antes como imortal.
D. Sebastião exorta ao fim do sebastianismo comum, recordando que o seu fracasso humano, pessoal e histórico não foi senão o reverso do divino dom de uma oportunidade superior a todo o triunfo bélico e a todo o poder e glória mundanos e temporais, necessariamente fugazes. Caindo “no areal e na hora adversa”, segundo a percepção mundana e exterior, D. Sebastião na verdade acedeu ao “intervalo” da imersão da “alma” “em sonhos que são Deus”, concedido pelo divino aos “seus”, ou seja, aos que o buscam acima de tudo, aos seus amigos [3].
O que são este “intervalo”, esta imersão e estes “sonhos que são Deus”? “Intervalo”, do latim intervallum, é o espaço ou distância entre dois pontos ou lugares, que etimologicamente são duas paliçadas ou trincheiras (vallum), também com o sentido de baluartes, defesas, protecções. O “intervalo”, ainda segundo um dos sentidos da palavra latina, sugere-se assim como o repouso ou descanso da “alma” em algo que não a (pré-)ocupa com a construção de limites e muros autoprotectores, o repouso ou descanso da “alma” a respeito de toda a (pré-)ocupação - mental, emocional, verbal ou física - com a separação entre uma coisa e outra, a divisão entre si e o outro, a indiferença, a defesa e o ataque, a dualidade, o medo e a (in)segurança. Livre de tudo isso, é no intervalo disso tudo, na pausa (outro sentido do intervallum latino) de toda essa agitação, que se pode abrir e absorver plenamente “em sonhos que são Deus”. Ou seja, no contexto da Mensagem, viver a “loucura” daquela ânsia de “grandeza” trans-mundana e transcensão de toda a “Sorte” / condição mortal que se converte nisso e é já isso mesmo a que ardentemente aspira. O desejo veemente dessa “grandeza” insuperável é já a vibrante e imanente epifania do divino. Como escreve Pessoa no poema dedicado a D. Fernando: “E esta febre de Além, que me consome, / E este querer grandeza são seu nome / Dentro em mim a vibrar”. É isso que torna o sujeito “cheio de Deus” [4] e é isso, e apenas isso, que o pode ressuscitar, já em vida, de ser a “besta sadia” e “cadáver adiado que procria” [5], vergado pelas indomadas “forças cegas” ao triste contentamento com a vida doméstica e vegetativa. É isso, e apenas isso, que o pode ressuscitar do tempo dos quatro impérios e operar a sua superação no Quinto, a “verdade” pela qual “morreu D. Sebastião” [6], que obviamente já nada tem a ver com qualquer domínio mundano, seja temporal e político, seja de língua e cultura (o que confirma que o Pessoa da Mensagem vai muito mais longe que o dos textos em prosa sobre Portugal e o Quinto Império). Do mesmo modo que em D. Sebastião o ser “que há” transcende o “que houve”, assim também o Quinto Império transcende o plano onde decorre e se dissipa o sonho dos quatro períodos civilizacionais referidos – Grécia, Roma, Cristandade, Europa - , já não podendo propriamente dizer-se que venha temporalmente após eles, enquanto símbolo de uma possibilidade que transcende o tempo e o espaço e que é a própria possibilidade do homem ou da consciência despertar e se imortalizar.
A alma de D. Sebastião está pois “imersa / Em sonhos que são Deus”. O que é, todavia, “Deus”? A palavra procede da raiz indo-europeia dei, que significa “tudo o que brilha”, donde vem o sânscrito deva (deus), o iraniano daeva (demónio) e o português dia [7]. Deus indica não um ser ou um ente, algo que exista e possa ser objecto ou sujeito perante objectos, algo que possa ser visto por alguém ou que veja alguém, mas antes a própria luz invisível que torna todas as coisas visíveis, em termos inteligíveis ou sensíveis, o ilimitado espaço luminoso que é matriz de todas as possibilidades de manifestação e consciência, o fundo sem fundo de todos os fenómenos, o nada inerente ao aparecimento de tudo [8]. É aí que verdadeiramente cai, imerge e reside o D. Sebastião transfigurado, que realiza a suma potencialidade de todo o homem. É nisso que se guarda, baluarte sem defesas e assim inexpugnável pela derrota no “areal”, “a morte e a desventura”. É Isso, afinal, que se sonhou e tornou, num sonho / desejo / imaginação criadora (ou desveladora) que converte o amante na coisa amada, ou seja, que, “por virtude do muito imaginar” (Luís de Camões), realiza isso que imagina, em tudo distinto daquele sonho ilusório e irreal que preside à história do mundo e dos homens e à sucessão dos quatro impérios mundanos, histórico-civilizacionais [9]. “O” que se sonhou, esse “Deus”/matriz intemporal de toda a manifestação, transcende a consciência temporal e a sua ilusão intrínseca, sendo da ordem do eterno. É só “Esse” que D. Sebastião pode regressar, não o rei humano morto ou desaparecido no areal, ou um seu substituto, mitificado pelo sebastianismo e esperado pelos sebastianistas de todos os tempos, mas o sujeito transfigurado em Deus, dei-ficado, ou seja, iluminado. Desperto e livre, em nada se distingue desse espaço primordial, anterior a todas as coisas e de todas envolvente como a matriz que as possibilita, mas que, na experiência mundana e condicionada, apenas se abre nos inter-valos entre uma coisa e outra, entes, pensamentos, palavras e acções.
Cabe a este respeito recordar um fundamental poema inglês de Pessoa, “The King of Gaps”, “O Rei das fendas / brechas / aberturas / hiatos / lacunas / vazios / intervalos / abismos”, que muito ajuda a compreender o “intervalo” em que está imerso o D. Sebastião pessoano. Este “rei desconhecido”, senhor de um “estranho Reino dos Vazios” com o qual coincide, figura isso que há “entre” uma “coisa” e outra “coisa”, o intervalar e não entificado espaço vazio que se desvela entre as entidades, o fundo informe onde as formas se recortam e definem, bem designado como “entre-seres”. Se num sentido parece assumir a função de um Mesmo indiferenciado, perante o qual tudo o que nele se delimita surge como as múltiplas formas da sua alteridade, ou se noutro sentido podemos pensá-lo como o Outro enquanto transcende e envolve todas as formas do mesmo, num outro sentido podemos reconhecer-lhe uma transcensão mais radical, tanto do mesmo como do outro, tanto do idêntico como do diferente, na medida em que estes se constituam no âmbito de uma relação mútua entre formas e entidades que só se torna possível por haver esse espaço não-entitativo do “estranho Reino dos Vazios” que permite a constituição e o reconhecimento da relação e do relacionado. Não-ente que se entremostra no intervalo dos entes, ou seja, das definições do isto e daquilo, “todos pensam que ele é Deus, excepto ele próprio” [10].
[1] Cf. Id., “D. Sebastião, rei de Portugal”, Mensagem, Obras, I, p.1152.
[2] Ibid.
[3] Usamos o termo no sentido que tem na tradição espiritual e mística ocidental: cf. Jean Tauler, Aux “amis de Dieu”, Paris, Le Cerf, 2001; Bernard Gorceix, Amis de Dieu en Allemagne au siècle de Maître Eckhart, Paris, Albin Michel, 1984.
[4] Cf. Fernando Pessoa, “D. Fernando, Infante de Portugal”, Mensagem, Obras, I, p.1151.
[5] Cf. Id., “D. Sebastião, rei de Portugal”, Ibid., p.1152.
[6] Cf. Id., “O Quinto Império”, Ibid., pp.1161-1162.
[7] Cf. Odon Vallet, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, pp.63-64.
[8] Cf. Jean-Yves Leloup, “Notre Père”, Paris, Albin Michel, 2007, pp.173-174. Agostinho da Silva designa-o como “nada que é tudo” – Quadras Inéditas, s.l., Ulmeiro, 1990, p.88. Cf., entre outros estudos, Paulo Borges, “Mestre Eckhart e Longchenpa: do fundo sem fundo primordial como nada e vacuidade”, in AAVV, A Questão de Deus na História da Filosofia, I, organização de Maria Leonor L. O. Xavier, Sintra, Zéfiro, 2008, pp.567-579.
[9] Cf. Fernando Pessoa, “O Quinto Império”, Obras, I, p.1162.
[10] Cf. Fernando Pessoa, Poesia Inglesa, I, edição e tradução de Luísa Freire, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, p.280.
Paulo Borges, in Uma Visão Armilar do Mundo, Lisboa, Verbo, 2010.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Como todos os dias me sento neste banco
De encosto perfeito e quatro pernas
Como podia só ter três pernas
Ou duas
Ou nenhuma
Um banco é uma força construída
Por alguém que imaginou
E eu imagino-me
Sentado
Nas calmas de uma poeira a assentar no chão
A puxar pela cabeça
A ver se estico o pescoço
Para ver o seguimento deste mundo
Mas nada disso acontece
Porque estou sentado
E o sangue estabilizou
Na estrada nacional do silêncio
Às vezes ponho-me a olhar os peixes
Que pairam sobre mim
E a forma como dançam aos pares
E piscam os olhos uns aos outros
Mas sempre sentado nesta cadeira
Que é do tempo do meu avó
Em que também ele se sentava
A atirar pequenas pedras ao infinito
Para que a morte não lhe trouxesse a dor
O meu avô morreu sentado nesta cadeira
Que tem quatro pernas mas não anda
Pois o que anda é o pensamento
E o desejo de construir um lugar
Onde o amor é tão real que parece pessoa
Mas na verdade
Sentei-me num banco vazio
Para assistir ao fim do mundo
E, o que é triste,
é que daqui a nada batem-me à porta
Filosofia no Oriente - Curso Livre - Inscrições abertas na Fac. Letras da Univ. Lisboa

FILOSOFIA NO ORIENTE - CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO: 2010/2011
Inscrições abertas a todos (Informações: 217920000 - pedir para ligar à Secretaria da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Sempre às 5ªs feiras, das 17-20h
Introdução ao Budismo (1ºsemestre) - Prof.Doutor Paulo Borges
I: 1. A vida e o Despertar do Príncipe Siddhartha Gautama. O Sermão de
Benares e as Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, sua origem, sua extinção e
a via que aí conduz (o Óctuplo Caminho). O sentido terapêutico, experimental e
não dogmático da via e ensinamento do Buda. Os quatro selos. Atman e
anatman. O debate entre as escolas budistas e bramânicas. Os Três Cestos:
Vinaya, Sutra e Abhidharma. A tradição dos três ciclos de Ensinamento e dos
três níveis da Via: Hinayana, Mahayana e Vajrayana. Arhats, Bodhisattvas e
Mahasiddhas. Vacuidade e interdependência: os doze factores da coprodução
condicionada. A via do meio entre eternalismo e niilismo. A literatura da
Prajnaparamita: O Sutra do Coração e o Sutra de Diamante. Vacuidade e
natureza de Buda: As Estâncias da Via do Meio (Nagarjuna) e o Mahayana
Uttaratantra Shastra (Maitreya/Asanga). A Via do Bodhisattva (Shantideva).
II: 2. Meditação analítica e contemplativa. Calma mental (samatha) e visão
penetrante (vipashyana). As quatro meditações fundamentais: 1 - o valor da
preciosa existência humana, rara e difícil de obter; 2 - a impermanência e a
morte; 3 - a acção (karma) e a lei da causalidade; 4 - os sofrimentos dos seis
mundos do ciclo da existência (samsara). O Refúgio nas Três Jóias, Buda,
Dharma e Sangha. O Bodhicitta, ou espírito de Iluminação, relativo – em
aspiração e em acção – e absoluto. As quatro meditações ilimitadas: amor,
compaixão, alegria e equanimidade. A “troca” e outros exercícios de meditação.
As seis paramitas, virtudes ou perfeições transcendentes: generosidade, ética,
paciência, diligência, concentração e sabedoria.
Filosofia e Mitologia na Cultura Tradicional Indiana (1ºsemestre) -
Prof.Doutor Carlos João Correia
Sinopse: Este curso tem como objectivo analisar os princípios das escolas
filosóficas desenvolvidas na Índia antiga, entre o séculos VI a.C. e XII d.C.
(sāṃkhya, yoga, vedānta, mīmāṃsā, vaiśeṣika, nyāya, buddha dharma e
jainismo). Será igualmente seu propósito estudar as concepções filosóficas que
envolvem os textos védicos - em particular, as Upaniṣads - assim como obras de
índole poético-mitológica, com especial relevo dado ao Mahābhārata e ao
Rāmāyaṇa.
Mística Cristã e Gnose Oriental (2ºSemestre) – Professor Carlos H. do C.
Silva
Ponto introdutório: Actualidade do “diálogo de espiritualidades” e perspectiva
crítica da Filosofia da Religião.
1. Origens helénicas da mística e ‘categorias hebraicas’ na ulterior síntese cristã
da ‘Teologia Mística’.
2. Dos Mistérios gregos à tradição indo-ária: paralelos na gnose oriental,
sobretudo no hinduismo (Upanixadas, Yoga, também Budismo- Prajñapâramitâ…).
3. Principais configurações da espiritualidade cristã e sua releitura gnóstica,
também comparada com o pensamento oriental.
4. Confronto entre a transcendência e o carácter dialógico da «experiência
mística» na tradição cristã e o sentido imanentista e sobretudo gnóstico da unio
mystica ‘oriental’.
Ponto conclusivo: Natureza da experiência espiritual e a definição da “gnose”:
unidade ou união; enstasis ou êxtase; absolvição ou libertação…
Oriente/Ocidente: diálogos e cruzamentos (2ºsemestre)
- (Coord. Prof.Doutor Paulo Borges e Carlos João Correia).
Este curso tem como seu objectivo investigar a presença da filosofia e da cultura
oriental na filosofia ocidental (Neoplatonismo, Renascença e Filosofia Moderna,
Idealismo e Romantismo Alemão, Filosofia Contemporânea) e no pensamento
português. Em cada sessão será convidado um docente ou investigador para
apresentar as suas conclusões sobre o tema em análise.
http://www.carlosjoaocorreia.com/oriente
domingo, 5 de setembro de 2010
Sonhando com Alberto Caeiro
Não sinto nada, se nada sinto, enquanto sinto. Não sei a cor do poema, nem a tonalidade da cor. Se o que que sinto fosse sentido, tudo teria feito sentido.
Um dia se não me faltar coragem
Digo a ele que quero casar. Por detrás de uma coluna, escondida, acompanho-o todos os dias. Chega às nove, pede um café. Enrola um cigarro. Quando tira a caneta estremeço.
- Uma aguardente José...
Com o copo na mão esquerda, no bloco de notas escreve um verso. Se a minha sombra tocasse seus pés sentiria de leve o seu pulsar. Quando cruzasse as pernas saberia se era feliz a rima.
- Mais um café...
No almoço ele se vai. No jantar sonho que come o dia.
Quando me deito ajoelho, junto as mãos em respeito a Nosso Senhor e prometo:
- Amanhã Senhor, digo ao senhor Caeiro que é de Sua vontade que eu seja sua esposa até que a morte nos separe.
Se me beijar vou beber todas suas palavras já escritas. Quando suspirar vou sentir seu coração inquieto.
Ah, Senhor o amor terá o tempo da borboleta que ele escreve em seus versos.
Se o senhor Caeiro hesitar abro meus braços, dou de boa vontade um abraço. Peço em segredo mais um poema.
Amanhã Senhor, amanhã.
Sinto a noite agora noite, tão noite, que noite me sinto
A Esfinge
As tuas mãos são como asas de corvo, jazem sobre o vestido enlutado de uma imagem que te lê. A morte penetra nos teus olhos, como peixe nas águas frias de Inverno. O teu seio é belo e redondo como um fruto de neve. Não cantas, escurece. Falas e matas.
A Saudade é um frio e um vento que sopra os passos passados, escutados desde o princípio do que não tem Princípio. Do que é sem tempo, do que é Origem. Não tem templo o teu deserto. As imagens são ícones lembrando vagamente o ter havido Origem.
Descias ao jardim como quem sobe a imensa escadaria em caracol que conduz à torre de onde saíste. As paredes da casa abatem-se sobre uma tempestade de real. Avistas os melros, e ouves, sonolenta, o teu choro vindo de longe. Desde que a tua cabeça se transformou em gaivota que o mar te estranha o nome e a pálida feição.
Tens na mão a cabeça que te hão-de cortar para que a pedra não entre no tumultuoso mar e petrifique o líquido espumoso de uma antiga espera. Levas no frio dos braços o véu que te tapa o rosto. Ficarás a olhar o mar pelo hialino olhar das corças que tornam à terra e aí ficam até saírem dos seus olhos flores de pedra. Flores, rosas mergulhadas em pensamento e terra.
O Outono despirá os teus véus. As raparigas tocarão violino à sombra dos rios. À sombra dos rios, o sol se deitará para repousar: gigante saudoso dos dias! Setembro enterrará as romãs no poço do jardim. Os dedos. De lá avistaremos a Saudade a futurar-se Dia, de novo.
O colo da esfinge, guardiã do silêncio e do grito, é um banco de pedra onde todos estamos sentados a olhar o infinito. A olhar o Sol. Tantos pássaros lhe poisarão nos olhos! Seshey! Guarda o enigma dentro do olhar! Medusa! guarda o olhar dentro do enigma. Serás mais útil aos mortos do que aos vivos!
sábado, 4 de setembro de 2010
Alcançou tua voz a natureza
Fazendo de ti amigo
do peixe que te vence
Pode a loucura matar-te
Tua lonjura será alívio
dos homens bem comportados
que surdos, perderam há anos
o som que os rodeia
Entre o velho e o mar
Nasces tu desencontrado
na cidade que não te acolhe
e gritas sem educação:
Sinto-me bem na natureza
Que ela não fala!
Grito contigo em surdina
o que não se explica
ancas generosas
desejo que se transcende
silenciosa é a poesia
amor que se sente
um olhar fugaz
fazendo do tempo
nosso presente.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Um breve relâmpago
ilumina a escuridão:
garça gritando a noite.
O grito da noite
Esgarça-se branco
Num breve relâmpago.
- Matsuo Bashô
