sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Comunidade / O que é Tamera?




Tamera é uma oficina do futuro e um ponto de encontro internacional para trabalhadores pela paz de muitas partes do mundo.

Tamera fica no sudoeste de Portugal, foi fundada em 1995 num terreno de 134 ha e conta actualmente com mais de 200 colaboradores e estudantes. Com o seu centro de investigação para tecnologia energética descentralizada – a Aldeia Solar, com a sua paisagem de lagos de permacultura no meio do Alentejo seco, com a sua arquitectura experimental de construções leves e de terra, Tamera é um local dedicado a experiências e formação para a criação de Aldeias pela Paz pelo mundo afora.

No centro do seu trabalho de investigação encontram-se os temas interiores do ser humano: amor, sexualidade, relacionamento e comunidade. A Academia Erótica que se está a formar baseia-se em mais de 30 anos de experiência na área da arte e da cura, na criação de comunidades e na investigação da verdade no «Tema nº 1». Tamera associa o seu trabalho de investigação ao trabalho de rede político, a peregrinações, acções de apoio e de paz em áreas de crise. Tratam-se de acções exemplares cuja finalidade é contribuir para a comunicação e criação de comunidades, além de ajudar a preparar um campo morfogenético pela paz.

Desde 2006 Tamera oferece a possibilidade a pessoas do mundo inteiro de realizarem durante vários anos a formação pela paz «Monte Cerro Peace Education». Está em preparação um Campus Global: uma rede mundialmente interligada de iniciativas de formação de paz. O título para a postura fundamental ética de todas as actividades pela paz é a palavra «Grace», uma postura de solidariedade com todos os seres vivos, pelo perdão, pela ajuda mútua e pela orientação de cura.

Nasceu o plano das Aldeias pela Paz, ou Biótopos de Cura: em conjunto com parceiros internacionais, deveriam ser construídos modelos de futuro em diferentes partes do mundo – autosuficientes a nível regional, social- e ecologicamente sustentáveis, independentes das grandes indústrias e dos sistemas centrais de fornecimento: células germinativas de uma nova cultura pela paz.

As/Os colaboradoras/es de Tamera partem do princípio de que diversas destas Aldeias de Paz, com tamanho e complexidade suficientes em diferentes partes do mundo, serão suficientes para que o conhecimento abrangente nelas desenvolvido origine um efeito de cura global.

A eficácia deste plano resulta de uma combinação lógica entre os resultados da investigação do caos, holografia, ecologia profunda, investigação da consciência e da história. No contínuo infinitamente interligado do organismo Terra, uma alteração microscopicamente pequena num determinado local do planeta pode provocar um efeito que se reflecte no todo.

http://www.tamera.org/index.php?id=66&L=2

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"A vida passa como uma caravana veloz"

"A vida passa como uma caravana veloz. Detém o teu corcel e procura ser feliz! Jovem donzela, porque estás triste? Serve-te de um pouco de vinho. Já surgem os primeiros sinais da noite"

- Omar Khayyam, "Rubaiyat", LXVIII

terça-feira, 17 de agosto de 2010

escrever um poema é um acto de serenidade;
é como criar uma cidade, com os seus altos edifícios,
dentro de um simples pão

sábado, 14 de agosto de 2010

Quando te leio
aprendo um poema
quando dizes adeus
esqueço de mim

amanhã, se vieres
aprenderei outro
outro e outro
enquanto existir
amanhã.

hoje o caracol enrola-se
na parede do meu quarto
enquanto escreves
um outro poema.

Excerto de um texto de Matthieu Ricard a sair no nº2 da Cultura ENTRE Culturas

Os meditantes experientes possuem a capacidade de gerar estados mentais precisos, direccionados, firmes e duradouros. As experiências demonstraram, nomeadamente, que a zona do cérebro associada a determinadas emoções, como a compaixão, por exemplo, apresentava uma actividade consideravelmente maior nas pessoas que tinham uma longa experiência meditativa. Estas descobertas indicam que as qualidades humanas podem ser deliberadamente cultivadas mediante um treino mental. Outras experiências científicas igualmente demonstraram que não é necessário ser um praticante altamente exercitado para beneficiar dos efeitos da meditação, e que vinte minutos de prática diária contribuem significativamente para a redução da ansiedade e do stress, da tendência para a cólera (cujos efeitos nefastos para a saúde estão já claramente reconhecidos) ou dos riscos de recaída em caso de depressão grave. Oito semanas de meditação sobre a consciência plena (do tipo Mindful Based Stress Reduction), praticando cerca de trinta minutos por dia, dão azo a um notável reforço do sistema imunitário, das capacidades de atenção, à diminuição da tensão arterial nos indivíduos hipertensos e à aceleração da cura da psoríase.

O que é indispensável na prática não é meditar durante períodos longos, mas sim fazê-lo com regularidade. Se o cérebro é regularmente solicitado, bastam cerca de trinta dias para constatar que se começam a modificar as funções neuronais.

O estudo da influência dos estados mentais sobre a saúde, outrora considerado fantasioso, faz, cada vez mais, a actualidade da investigação científica.

O Largo da Graça

Segundo a "Chronica del Rei D. Joam I de boa memória. Terceira parte em que se contam a Tomada de Ceuta" (Lisboa, 1644), escrita por Gomes Eanes de Zurara em 1450, a autorização do rei para a conquista de Ceuta, primeiríssima etapa da expansão ultramarina portuguesa, foi dada aqui em Alhos Vedros, no Palácio da Graça(?), onde D. João I se refugiou durante o período de nojo pelo falecimento de sua mulher, a rainha D. Filipa de Lencastre, que sucumbira perante a terrível peste que terá assolado o país e dizimado uma parte muito significativa da população.

Aqui vieram os príncipes irmãos, Duarte, Pedro, Henrique, João e Fernando, e talvez também a princesa Isabel, a ínclita geração, conversar com Senhor, seu pai, sobre os planos para a tomada de Ceuta. Como é sabido, o infante D. Henrique foi o principal impulsionador dos descobrimentos portugueses.

Tudo terá decorrido, então, ali entre o Largo da Graça e a Quinta da Graça, a meio caminho quando se vai para a Quinta do Império (não confundir com Quinto Império), dizíamos, Largo da Graça onde, eventualmente, terá nascido ainda um nosso respeitado conterrâneo e contemporâneo, o Sr. Mário da Graça, e terá vivido o avô de um nosso companheiro de “Estudo Geral”, extraordinário escritor e pessoa de admirável cultura. Foi ali também que em criança, depois de atravessado o dito Largo de mão dada com a avó Aura, comprávamos o leite extraído directamente da teta da vaca, não sem que a Dona Albertina, a fazendeira, nos oferecesse um copinho do precioso(?) líquido ainda quentinho.

Naturalmente que tudo isto não tem mais que um significado simbólico para o nosso “Estudo”. Foi aqui como podia ser noutro lugar qualquer… Mas não foi. E a verdade é que, à sombra disso o Largo da Graça fez, e continua a fazer, história. Ainda hoje quando pensamos na força que a Língua Portuguesa granjeou nestes últimos séculos e naquilo que ela vai fazendo, esperemos, pelo bem dos mundos, não podemos deixar de achar Graça ao facto da sua expansão ter passado por aqui, lugar onde os nossos avós viveram.

E quando dizemos os nossos avós estamos, evidentemente, a generalizar.

Luís Santos

Traz-me

a música que habita em ti

beija-me até que ela seja eu

ensina-me, amor a melodia

que desaprendi antes de ti

às seis da manhã

o galo canta

o beija-flor acode feliz

e eu ainda estou a dormir

amanhã, antes do sol nascer

eu ainda sou criança

fala-me dos dias

quando despertas

e o verde é igual ao azul

mas antes, amor

cobre meu corpo

com a melodia do teu.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Pássaro da Alegria


O que guardavas dentro do olhar de gaio assustado
Dormiram-no as rosas,
Sabiam-no as corças
E o coração da montanha e das estátuas silentes;
Trazidas à cintura
Atadas com um nó de nós
Uma corda, uma roda,
Uma mó.
Uma espada plantava na fundura da terra
um grito, um som:
Cantava e dançava de olhos fechados
A flor em botão dos lírios
Como quem desenrola um fio de ouro
Do perfil do pulso do rio
E da sombra da árvore do bosque.

Da nervura finíssima da luz, bico de escrita
na palavra adubada do jardim.
Era a dança.
As nuvens suaves a entreabrir o dia, a soltar véus
velas sobre o suave colo dos céus.
Era o Dia
O bico da luz
Sob o azul das luzes
E das fitas dos cabelos da rapariga.

Trago a pérola do sorriso das rosas,
No bico estonteado das horas;
Trago o laço de cetim atado à cor azul dos lírios;
Trago, soltas, as asas de um jardim de sombra;
E trago, dentro da arca da boca, um beijo
Para acender uma pérola
Na barca que do céu a vista cega;
Arde a barca, o barqueiro e o pescador de espuma
E de luar.

Trago soltos os cabelos e a flor dos olhos
Aberta como o som de sinos verdes no bronze das manhãs
Ramos e pinheirais onde o mar aflora
e à flor do riso roça a asa azul de uma tão frágil dança;
Que o manso dedo se sustem no ar
No bico da luz
De tão espantada face de alarme e de alegre tristeza.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Intransmissível por e a outrem, pacífico, fora de discurso, fora de conceito, sem diversidade: outros tantos modos de indicar o que verdadeiramente é

- Nāgārjuna, Estâncias do Meio por Excelência, 18, 9.

‎"Nada há fora da mente; nada também a encontrar na mente. Que procurais vós pois?" - Lin-Tsi

Eu só sei que sou

Eu só sei que sou!
O resto eu não sei
Eu só sei que sou!
Se os outros são ou não são,
Eu não sei
Eu só sei que sou!
Se os outros são mais ou menos que eu,
Mais ou menos o quê?
Isto eu também não sei,
Pois eu só sei que sou
O que será que será?
Eu não sei
Eu só sei que sou
O que eu quero é bom ou ruim?
Eu não sei
Eu só sei que quero
E se quando quero
Acho que devo deixar de querer
Eu deixo de querer
Querer o quê?
Isto eu não sei
Eu só sei que sou!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Entre Tantos


Tende para o Caos
Está Lá
Está Aqui
Em toda a Parte
Está
Ordem
Aqui e lá.
Não guardo
Vejo
O
Não visto.

Não tem forma
Em nenhuma se move
Por todas as direcções
Caminha e espalha:
Espelha (se)
Replica (se)

Não tem Se:

Incondicional.


Ele é o Tao da Água
Inominado.
Ele é o Centro
Sem centro.
Ele é a fuga
Para além do limite
O ilimitado
É entre.gar
O peito azul ao ar
E perder peso
Até entrar
A luz pela pupila
Pela tela

pon-tear
Entre-telas
Entre-orar.

É Outra Ordem
De Caos
É de outra imobilidade.
De Outro Silêncio.
O Corpo do pensamento
Mais o corpo
Físico
Pescadores de salmão
Peixes no Oceano
Imóvel.

Medito com os joelhos cruzados
Contrario o que se fixa.
Passeio pela mente
Assisto.
Tudo o que não é flexível
Separa
Agarra:
Corpo e mente.
O que é flexível
Também.

Não sendo nem não sendo
Posso ouvir
Ver
Sem ser visto
Incapturável
Não capturável
Pela escrita
O movimento imóvel
Deambulador de ideias
O pastor da Paradoxia.
Entre Eternos

Entre-teceres

Entre Seres.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

"Como poderia então haver vazio?"

“Se houvesse o quer que seja que fosse não-vazio, poderia também haver alguma coisa de vazio. Mas não há nada que seja não-vazio. Como poderia então haver vazio?”

- Nāgārjuna, Stances du Milieu par Excellence [Madhyamaka-kārikās], 13, 7.

Alquimia da Raiz

“É exactamente através do processo de repouso que se retorna à raiz.”
Mestre Wu Jyh Cherng


Vai-se à Raiz
Pelo repouso
Vai
Bebe
Desce
Sobe
Escava
Dorme
Vai
Estás a Nascer
Outro.
Estás
És.

Idêntico a si Próprio
Nem na Poesia
Tão bem na Vida.
A Vida
O Templo
Do Outro
Em Todos.
Escava
Cava
Vai
Desce à Raiz
Que sobe
Pelo Repouso.
Alma
Vem
Vai
Ao Sem repouso.

À Essência
Ao Nada.
Raiz sem raiz
Invertida
Tábua de Esmeralda:
O que está em cima
É como o que está em baixo

Por um Milagre
De Passagem
Um Entre
Um Intervalo
Pleno de Nada.
Plano.
Transições
Chama eterna.
Dança.

domingo, 8 de agosto de 2010

Entre


Estar
Só no que está
Ouvir o que ouve
Com a atenção toda
No que é
Fora de nós
Uma corrente
Uma porta
Um entre
Que nos faça
Desaparecer
Des –
Aparecer
De Ser.

Aí, aí, aí!
Aí não há
Aí tudo é ausente
Como nascente
Corrente
Que não prende
Desaprende
Des –
Aprende
De Ser
De Ter
De Haver.

Mesmo que cante
O pássaro se expande
Em Silêncio
Que des –
Interroga
O Tempo
O Espaço
O Ente
Ver
Des –
Integra
A continuidade.
Tudo
É
Novo
Nada.
Ovo
Primeiro
Órfico
Or –
Fico.

domingo, 1 de agosto de 2010

O verdadeiro milagre...

... é a vida. Fogueira que se acende, fogueira que se extingue. O verdadeiro milagre é a flor que desabrocha e depois se transforma no grau zero do perfume.
O verdadeiro milagre não é o fenómeno, nem a vida é um circo. O milagre é respirar e integrar o ar na fogueira e na flor.
Milagre é sentir ainda em cada fogueira extinta a respiração quente dos avós sentados ou acocorados junto ao lume do calor, da transformação e da protecção. O milagre é reproduzir esse gesto e sentir na nuca o amor antigo dos que já partiram mas continuam a velar para que o fogo permaneça intenso e vivo. Como possibilidade. Acima ou sob todas as fogueiras extintas, existe um lume eterno cujo nome cada um guarda no coração como o único e precioso fósforo. De ouro.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Rio, cidade ambígua



News BBC Co. UK Media Image.


O Rio tem um quê de inesperado. Aqui acontecem coisas difíceis de encontrar em outras cidades do mundo. Até mesmo coisas desabonadoras acontecem por aqui com certa naturalidade. São traços de personalidade que os cariocas e seus amigos de fora vão absorvendo, à medida que se acostumam às ruas, bairros urbanos ou da periferia. São cenas típicas, sentimentos que se instalam na gente que vive aqui; paisagens que incorporamos ao dia-a-dia; costumes que se adotam sem saber bem por quê. Nada mais característico do Rio do que essa sensação de gratuidade, esse contágio fácil que vai generalizando um jeito de viver e agir; que inventa hábitos, expressões, gírias que acabam incorporadas ao carioquês. O jeito de vestir irreverente, a informalidade. A vivacidade, uma espécie de astúcia malandra de procurar o que fica mais simples, mais à mão, o que soa mais despreocupado e casual. A alegria de viver que chega às raias da inconsequência. Um certo atrevimento. E mesmo no inverno, o descaramento de sair sem casaco num frio de dez graus. Ou de casaco e sandália havaiana. Só um carioca pode fazer questão de ignorar o guarda-chuva, faça o tempo que fizer. E as (poucas) cotias do Campo de Santana, ao que parece, são as únicas no mundo que não fogem das pessoas. Passa-se pela lagoa e lá está uma ave desafiadora na proa de um barco, e a gente para só para ver seu voo se desenhar no meio do céu. O carioca, do mais sofisticado ao mais simples, é um contemplativo.
De repente, um poodle miniatura chama para a briga os pés de quem passa e todos se encantam por ele, enquanto sua dona segue adiante e deixa na calçada os dejetos do bichinho como se não tivesse notado. Ninguém como um carioca sabe se fazer de desentendido, quando lhe interessa. Ninguém desconversa melhor. E ninguém liga pra isso; há uma ética do desinteresse que sustenta a infinita tolerância carioca para com a contravenção, o crime, a bandalha, o relaxamento. O carioca é um leniente que perdeu o freio. 
São cariocas os motoristas machões e marrentos e o poder desassombrado dos pivetes de qualquer idade. Carioca é cheio de saídas criativas. Improvisa, programa só pra não cumprir e não cumpre horários, a não ser que o emprego seja dos bons (aqui é preciso abrir uma exceção para os políticos de assembleias legislativas, que também não cumprem horários nem calendários, embora o emprego seja dos melhores de que sem tem notícia). Carioca pode conviver com o caos e a promiscuidade das ruas, dos bares, das boates sem perder uma ponta de compaixão e uma leveza que recria pessoas e ambientes, mas de repente se invoca (se irrita) por qualquer bobagem e parte para a briga.
É bem a nossa cara virar padrinho de um garoto de rua, ficar inteiramente eufórico por isso e depois perder o afilhado de vista. Acreditar cegamente em alguém só porque tem uma boa conversa. Apaixonar-se de repente por alguém que nunca viu. Fazer amizades instantâneas como se morasse no paraíso.
E no entanto o paraíso carioca é cada vez mais apenas uma linda paisagem. Parece que as virtudes desse povo criaram raízes tão enormes que, com o passar do tempo, viraram um cipoal em que se tropeça a toda hora. Porque uma virtude é o extremo oposto de um defeito, e acontece que os extremos sempre se tocam.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

“O que tu és, eu sou ! / E tu, tu és o que eu sou ! / Eu sou o Céu, tu és a Terra ! / Tu és a Estrofe, eu sou a Melodia !”

(fórmula ritual do casamento védico)



Qual o sentido espiritual da união sexual? Duas dicas da Índia:

“Neste mundo, o resultado do amor é não haver mais que um só pensamento. Quando o amor deixa diferentes os pensamentos (de cada um), é como se houvesse a união de dois cadáveres” - "Centúria da Paixão Amorosa" (tratado erótico indiano);

“Quando o pensamento não é reabsorvido no acto amoroso e na concentração yógica (samadhi), de que serve o recolhimento (dhyana) ? De que serve o acto amoroso ?” - "Sarngadharapaddhati".

domingo, 25 de julho de 2010

"A união da quietude e do movimento"

"Quaisquer tipos de pensamentos que surjam, sem os suprimir, reconheçam de onde emergem e onde se dissolvem; e permaneçam focados enquanto observam a sua natureza. Fazendo isto, por fim o movimento dos pensamentos cessa e há quietude... De cada vez que observarem a natureza de quaisquer pensamentos que surjam, eles desvanecer-se-ão por si mesmos e a seguir uma vacuidade aparece. Do mesmo modo, se também examinarem a mente quando ela permanece sem movimento, verão uma vacuidade não obscurecida, clara e vívida, sem qualquer diferença entre o primeiro e o último estado. Isso é bem conhecido entre os praticantes de meditação e chama-se "a união da quietude e do movimento"

- Panchen Lozang Chökyi Gyaltsen (1570-1662, Tibete).

Revólver (poema de Sylvia Beirute)


























REVÓLVER

                                  {ao josé ferreira}

por fim: entre desejos lindos, estrita-
-mente prováveis, e contra-impulsos no
dorso, dia sim dia não, como que
numa mistura clássica e fascinante,
substituo o corpo na competência
de parir o tempo que resta
no rebentar das águas de um
instante principal em forma de
edema e américas;
e entre desejar e não desejar, o vazio
de cordas deseja e consegue: a certeza
de não cabermos numa
única possibilidade, o saber que há
um inverno de grande razão
na carne fria do nosso cesariny,
o ter o coração em riste no diadema
solitário sob os olhos dos mi-
-nutos emperrados em direcção a meca,
o supor que a morte já
não admite exemplos
e um excesso de memória
adivinha o futuro.

Sylvia Beirute
inédito