quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Perda histórica de confiança" - Carta aberta de Han Küng aos bispos (H. Küng é membro da Comissão de Honra da revista Cultura ENTRE Culturas)

Perda histórica de confiança

Uma carta aberta de Hans Küng

Igrejas vazias – e agora ainda por cima um escândalo: Cinco anos após Bento XVI ter sido eleito Papa, a Igreja Católica vê-se a braços com a maior crise de confiança desde a Reforma.

Venerados bispos,

Joseph Ratzinger, agora Bento XVI, e eu éramos em 1962-1965 os teólogos mais jovens do concílio. Agora somos os mais velhos e os únicos ainda em actividade. Entendi sempre o meu trabalho teológico como sendo também um serviço para a igreja. Assim, no quinto aniversário do pontificado do papa Bento XVI, escrevo-vos uma carta aberta, pois estou preocupado com a nossa igreja, que se debate com a crise de confiança mais profunda desde a Reforma. Não tenho outra maneira de chegar a vós.
Prezei muito o facto de Bento XVI me ter convidado para uma conversa de quatro horas, pouco depois da sua eleição, apesar de eu ser um crítico seu. A conversa foi amigável e deu-me esperança de que o meu antigo colega da Universidade de Tubinga encontrasse o caminho para o prosseguimento da renovação da igreja e do entendimento ecuménico, no espírito do Concílio Vaticano II.


Oportunidades perdidas
Infelizmente, as minhas esperanças, assim como as de tantos católicos e católicas empenhados, foram vãs e eu comuniquei isso ao papa Bento XVI em diversas cartas. Ele cumpriu sem dúvida conscienciosamente os seus deveres papais e até já nos deu três proveitosas encíclicas sobre a fé, a esperança e o amor.
Mas no que respeita aos grandes desafios do nosso tempo, o seu pontificado é cada vez mais caracterizado pelas oportunidades perdidas e não pelas ocasiões aproveitadas:
- Perdeu-se a oportunidade de aproximação com as igrejas evangélicas: não são entendidas como igrejas em toda a acepção da palavra, pelo que não é possível reconhecer os seus ministros e realizar celebrações conjuntas da eucaristia.
- Perdeu-se a oportunidade de diálogo com os judeus: o papa reintroduziu uma oração pré-conciliar pela iluminação dos judeus e abre as portas da igreja a bispos cismáticos notoriamente anti-semitas, beatificou Pio XII e entende o judaísmo somente como raiz histórica do cristianismo, e não como comunidade de fé existente com um caminho próprio de salvação. Irritação dos judeus em todo o mundo por causa da homília de 6ª Feira Santa do pregador da Casa Pontifícia, que comparou as críticas ao papa com ódio anti-semita.
- Perdeu-se a oportunidade de diálogo confiante com os muçulmanos: sintomático foi o discurso de Bento em Regensburgo, no qual, mal aconselhado, falou do Islão como uma religião da violência e da desumanidade, tendo provocado uma desconfiança duradoura entre os muçulmanos.
- Perdeu-se a oportunidade de reconciliação com os povos nativos colonizados da América Latina: o papa tem afirmado seriamente que eles “ansiavam” pela religião dos seus conquistadores.


Luta contra a SIDA
- Perdeu-se a oportunidade de ajudar os povos africanos: na luta contra a sobrepopulação através da aprovação de medidas de contracepção e na luta contra a SIDA através da autorização do uso do preservativo.
- Perdeu-se a oportunidade de selar a paz com a ciência moderna: através de um reconhecimento sem reservas da teoria da evolução e da aprovação diferenciada de novos campos da investigação, como a investigação sobre células estaminais.
- Perdeu-se a oportunidade de transformar finalmente o espírito do Concílio Vaticano II na bússola da Igreja Católica dentro do próprio Vaticano e de levar por diante as reformas nele preconizadas.
O último ponto, venerados bispos, é especialmente importante. Este papa tem vindo sempre a relativizar os textos do concílio e a interpretá-los contra o espírito dos pais do concílio, recuando em vez de avançar. Toma até uma posição expressa contra o concílio ecuménico que, segundo o direito canónico católico, constitui a autoridade máxima da igreja católica:
- Admitiu incondicionalmente na igreja bispos da tradicionalista Fraternidade Pio X, ilegalmente ordenados,à margem da igreja católica, que rejeitam o concílio nos seus pontos centrais.
- Promove com todos os meios a missa medieval segundo o rito tridentino e celebra ocasionalmente a eucaristia em latim de costas voltadas para o povo.
- Não cumpre o acordo delineado em documentos ecuménicos oficiais com a Igreja Anglicana (ARCIC), mas tenta atrair para a Igreja Católica Apostólica Romana religiosos anglicanos casados, libertando-os da obrigação do celibato.
- Fortaleceu globalmente as forças anticonciliares no interior da Igreja, através da nomeação para cargos de chefia (secretários de estado, congregação da liturgia, etc.) de pessoas com posições anticonciliares e bispos reaccionários.


Política de restauração falhada
O papa Bento XVI parece distanciar-se cada vez mais da grande maioria do povo católico, que se preocupa cada vez menos com Roma e, na melhor das hipóteses, se identifica apenas com a comunidade e o bispo local. Sei que muitos de vós também sofrem com isso: a política anticonciliar d o papa é inteiramente apoiada pela cúria romana. Esta procura sufocar as críticas no episcopado e na igreja, e desacreditar os críticos por todos os meios.
Através de uma renovada sumptuosidade barroca e de manifestações com impacto nos meios de comunicação social, Roma procura apresentar uma Igreja forte, com um “Vigário de Cristo” absolutista, que reúne nas suas mãos todo o poder legislativo, executivo e judicial.
No entanto, a política de restauração de Bento XVI fracassou. Todas as suas aparições, viagens e documentos não conseguiram alterar, no sentido da doutrina romana, as opiniões da maioria dos católicos acerca de questões controversas, principalmente em termos de moral sexual. E mesmo os encontros de juventude, frequentados sobretudo por agrupamentos carismáticos conservadores, não conseguiram travar o abandono da Igreja por parte de fiéis, nem despertar mais vocações para o sacerdócio.


Abandonados
Serão justamente os bispos quem mais profundamente lamentará este facto: desde o Concílio, dezenas de milhares de sacerdotes abandonaram o sacerdócio, sobretudo devido à lei do celibato obrigatório. A renovação não só de sacerdotes, mas também de congregações religiosas, freiras e irmãos laicos decaiu, tanto em quantidade como em qualidade. A resignação e a frustração alastram no seio do clero e entre os membros mais activos da igreja.
Muitos sentem-se abandonados nas suas necessidades e sofrem na Igreja. Em muitas das vossas dioceses deve acontecer isto: cada vez mais igrejas vazias, seminários vazios, residências paroquiais vazias. Nalguns países as comunidades católicas são fundidas, por falta de padres e frequentemente contra a sua vontade, em “unidades de assistência espiritual” gigantescas, nas quais os poucos padres disponíveis estão completamente sobrecarregados e que apenas servem para simular uma reforma da Igreja.
E eis que aos muitos factores de crise vêm ainda juntar-se escândalos que bradam aos céus: acima de tudo, o abuso de milhares de crianças e jovens por clérigos, nos Estados Unidos, na Irlanda, na Alemanha e noutros países - tudo isto ligado a uma crise de liderança e confiança sem precedentes.


Não ao silêncio
Não se pode calar o facto de que o sistema de encobrimento global de delitos sexuais de clérigos foi dirigido pela Congregação para a Doutrina da Fé do Cardeal Ratzinger (1981-2005), na qual, ainda no pontificado de João Paulo II, os casos foram compilados sob o mais estrito sigilo.
Ainda em Maio de 2001, Ratzinger enviou uma carta solene acerca dos delitos graves („Epistula de delictis gravioribus“) a todos os bispos. Nesse documento os casos de abuso eram colocados sob „Secretum Pontificium“, cuja violação pode implicar severas penas canónicas. É, pois, com justiça que muitos exigem do então prefeito e agora papa um „Mea culpa“ pessoal. Contudo, infelizmente este deixou passar a oportunidade de o fazer na Semana Santa. Em vez disso, fez atestar „urbi et orbi“ a sua inocência através do cardeal decano, no Domingo de Páscoa.
As consequências de todos estes escãndalos para o prestígio da Igreja Católica são devastadoras. Isto é confirmado também por titulares de altos cargos da Igreja. Inúmeros pastores e educadores irrepreensíveis e altamente empenhados são agora vítimas de uma suspeita generalizada.
É a vós, venerados bispos, que cabe perguntar como deve ser o futuro na nossa Igreja e nas vossas dioceses. Contudo, gostaria de vos esboçar um programa de reformas; é algo que fiz por várias vezes, antes e depois do Concílio.

Dêem uma perspectiva à nossa Igreja
Gostaria de fazer apenas seis sugestões, que é minha convicção serem comuns a milhões de católicos que não têm voz:

1. Não calar: O silêncio torna-vos cúmplices de tantos males graves. Muito pelo contrário, nos casos onde considerem determinadas leis, disposições e medidas como contraproducentes, devem dizê-lo publicamente. Não enviem declarações de submissão a Roma, mas sim reivindicações de reforma!

2. Ajudar as reformas: São muitos os que se queixam de Roma, na Igreja e no Episcopado, mas nada fazem. No entanto, quando, numa diocese ou paróquia, os serviços religiosos não são frequentados, a assistência espiritual é pobre, a abertura às necessidades do mundo é limitada, a colaboração ecuménica é mínima, então a culpa não pode ser assacada simplesmente a roma. Bispo, sacerdote ou leigo – cada um faça algo pela renovação da Igreja no âmbito maior ou menor da sua vida. Muitas coisas extraordinárias, tanto a nível paroquial como na totalidade da Igreja, começaram por iniciativas solitárias ou de pequenos grupos. Na vossa qualidade de bispos, há que apoiar e estimular essas iniciativas, e ir ao encontro das queixas fundamentadas dos fiéis, sobretudo agora.

3. Agir em colegialidade: O Concílio decretou, após um debate intenso e contra a oposição persistente da cúria, a colegialidade do papa e dos bispos , no sentido da história dos apóstolos, na qual Pedro não agia sem o colégio dos apóstolos. Mas, no período pós-conciliar, os papas e a cúria têm vindo a ignorar esta decisão conciliar central. Desde que o papa Paulo VI, apenas dois anos depois do Concílio, publicou uma encíclica em defesa da controversa lei do celibato, sem ter consultado o episcopado, o magistério e a política papais regressaram ao velho estilo não colegial. Até na liturgia o papa se apresenta como autocrata, perante o qual os bispos, de que ele gosta de se rodear, surgem como meros comparsas, sem direitos nem voz. Por isso, venerados bispos, há que agir não apenas individualmente, mas em comunidade com os outros bispos, os sacerdotes e o povo da Igreja, homens e mulheres.

A obediência é devida apenas a Deus
4. A obediência incondicional é devida apenas a Deus: Na sagração solene como bispos, todos fizeram um voto de obediência incondicional ao papa. Mas também todos sabem que a obediência incondicional nunca é devida a uma autoridade humana, mas apenas a Deus. Assim, o vosso voto não deve impedir-vos de dizer a verdade acerca da actual crise da Igreja, da vossa diocese ou do vosso país. Em absoluta conformidade com o exemplo do apóstolo Paulo, que „resistiu [a Pedro] frente a frente, porque merecia censura“ (Gal 2, 11)! Pressionar as autoridades romanas no espírito da fraternidade cristã pode ser legítimo, quando estas não correspondem ao espírito do Evagelho e à sua missão. A utilização das línguas nacionais na liturgia, a alteração das disposições relativas aos casamentos mistos, a aceitação da tolerância, da democracia, dos direitos humanos, do entendimento ecuménico e tantas outras coisas, apenas foram conseguidas graças a uma perseverante pressão vinda de baixo.

5. Procurar soluções regionais: O Vaticano mostra-se frequentemente surdo às reivindicações do episcopado, dos sacerdotes e dos leigos. Tanto mais necessária é, pois, a procura inteligente de soluções regionais. Um problema particularmente delicado, bem o sabeis, é a lei do celibato, oriunda da Idade Média, que está a ser justificadamente posta em causa no contexto dos escândalos de abusos sexuais. Uma alteração contra a vontade de roma parece quase impossível. No entanto, isso não significa que se esteja condenado à passividade: um sacerdote, que após madura reflexão pensa em casar, não teria de renunciar automaticamente ao seu cargo, se o bispo e a comunidade o apoiassem. As várias conferências episcopais poderiam avançar com soluções regionais. Mas o melhor seria procurar uma solução para toda a Igreja. Portanto:

6. Exigir um concílio: Tal como foi necessário um concílio ecuménico para alcançar a reforma litúrgica, a liberdade religiosa, o diálogo ecuménico e interreligioso, o mesmo acontece para a resolução dos problemas que agora eclodem de modo tão dramático. O Concílio de Constança, no século anterior à Reforma, determinou a convocação de um concílio a cada cinco anos, mas essa decisão tem sido ignorada pela cúria romana. Sem dúvida que esta também agora fará tudo para evitar um concílio do qual tem a recear uma limitação do seu poder. É responsabilidade de todos vós levar a cabo a realização de um concílio ou, pelo menos, de uma assembleia representativa do episcopado.

Enfrentar os problemas com sinceridade

É este, venerados bispos, o apelo que vos faço perante uma igreja em crise, pôr na balança o peso da vossa autoridade episcopal, revalorizada pelo Concílio. Nesta difícil situação, os olhos do mundo estão postos em vós. Inúmeras pessoas perderam a confiança na Igreja Católica. Só uma abordagem aberta e séria dos problemas e a adopção das reformas indispensáveis pode ajudar a recuperar essa confiança. Peço-vos com todo o respeito, que cumpram a vossa parte, sempre que possível em colaboração com os outros bispos, mas em caso de necessidade também sozinhos, com „desassombro“ apostólico (Act 4, 29.31). Dêem sinais de esperança e coragem aos vossos fiéis e uma perspectiva à nossa Igreja.

Saúdo-vos na comunhão da fé cristã
Vosso
Hans Küng

terça-feira, 20 de abril de 2010

Lançamento da revista Cultura ENTRE Culturas e do livro Uma Visão Armilar do Mundo

O IADE CHIADO CENTER convida para o lançamento da revista Cultura ENTRE Culturas, apresentada por Frei Bento Domingues e Miguel Real, e do livro Uma Visão Armilar do Mundo, de Paulo Borges, apresentado por Paulo Teixeira Pinto, no próximo dia 27 de Abril, 3ª feira, pelas 18.30, na Rua do Alecrim, nº 70, em Lisboa.



segunda-feira, 19 de abril de 2010

´Colóquio Internacional "Do diabólico ao simbólico: a filosofia de Vilém Flusser"

Colóquio Internacional
Do Diabólico ao Simbólico:
A Filosofia de Vilém Flusser


Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Segunda-Feira, 3 de Maio

14:30 ABERTURA

15:00 - 15:30 Gustavo Bernardo Krause. - “MEU BEM, VOCÊ NÃO ENTENDEU NADA.” A DUVIDA DE VILÉM FLUSSER.

15:30 – 16:00 Joaquim Domingues. - O MUNDO NOVO DA LÍNGUA - HOMENAGEM A VILÉM FLUSSER,

16: 00 – 16:30 Jorge Leandro Rosa. - A RELAÇÃO COM O INARTICULÁVEL. LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E ONTOLOGIA EM VILÉM FLUSSER.

16:30 – 17:00 – Debate

17:00 – 17: 15 - Intervalo

17:15 – 17:45 José Bragança de Miranda. - A NOÇÃO DE APARATO EM VILÉM FLUSSER

17:45 – 18:15 Jorge Rivera. - SUPERFÍCIES, LINHAS, NÓS: AS OPERAÇÕES DA IMAGINAÇÃO E O PENSAMENTO DE VILÉM FLUSSER.

18:15 – 18:45 Louis Bec. - LE VAMPYROTEUTHIS INFERNALIS: UNE PREUVE D’AMITIÉ (PROJECTION, IMAGES ET VIDÉOS)

18:45 – 19:15 – Debate e encerramento.


Terça-Feira, 4 de Maio

11:00 – 11:30 Rui Lopo. - A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE VILÉM FLUSSER

11:30 - 12:00 Dirk-Michael Hennrich. - A “COISA”, EM VILÉM FLUSSER E EUDORO DE SOUZA

12:00 - 12:30 Rainer Guldin. - ACHERONTA MOVEBO: DO MEFISTOTÉLICO NA OBRA DE VILÉM FLUSSER

12:30-13:00 – Debate e Intervalo para almoço

15:00 – 15:30 – Jacinto Godinho. - O ESPECTADOR DE FLUSSER

15:30 – 16:00 - Paulo Borges. - O DIABÓLICO EM VILÉM FLUSSER

16:00 – 16:30 António Braz Teixeira. - O SAGRADO E A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA EM VILÉM FLUSSER

16:30 – 17:00 - Debate

17:00 – 17:15 – Intervalo

17:15 – 17:45 - Apresentação da revista Cultura ENTRE Culturas, com um inédito de Vilém Flusser. Encerramento.

18:30 Louis Bec – ARTAXONOMIQUE ET HYPOZOOLOGIE (na Livraria do Instituto Franco-Português)

sábado, 17 de abril de 2010

Serge Latouche e a filosofia do decrescimento

Poucas pessoas gostam de ouvir falar em decrescimento ou diminuição do consumo, pois associam-nos a uma diminuição dos prazeres. Não obstante um número cada vez maior de pessoas infelizes e insatisfeitas na nossa sociedade, ainda acreditamos, porque é isso que nos é dito diariamente, que se não consumirmos o bastante, muito e mais ainda, nada somos. O Outro já ouviu comentários como: "Estou-me perfeitamente a borrifar para o que vai acontecer ao planeta ou às gerações futuras, pois não estarei cá para ver." Também existe disto, sim, e não é tão raro como alguns de nós, mais ingénuos, possamos pensar. No entanto, aqueles entre nós, e somos muitos, que se preocupam sim, talvez possam reflectir um pouco sobre o que tem a dizer sobre isto Serge Latouche, um economista e filósofo francês, com a sua filosofia do decrescimento. Segundo Latouche, é preciso descolonizar nosso imaginário. Em especial, desistir do imaginário económico (...) Redescobrir que a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio em um mundo são, e que esse objetivo pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo em uma certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram sob o slogan gandhiano ou tolstoísta de "simplicidade voluntária".

Por: Esther Mira

Amor de Marinheiro e de Fadista


terça-feira, 13 de abril de 2010

"a Matéria é a menor das Ilusões, a mais fraca das mentiras"

A partir do sétimo ponto do Tratado da Negação encontramos mais uma consequência da heterodoxa singularidade da visão pessoana. Considerando o "Ser"-"Deus"-"Único" como "essencialmente Ilusão e Falsidade" e "Mentira Suprema", e considerando a manifestação-emanação desse princípio como sua progressiva determinação e negação, natural é que a "Matéria", nível inferior da hierarquia ontognosiológica na perspectiva que lhe aponta um princípio espiritual, surja afinal, enquanto "a maior das negações do Ser" e "o estado [...] mais próximo [...] do Não-Ser", como o nível superior dessa mesma hierarquia ou aquele onde ela mais regressa à fonte indiferenciada de onde procede, nela se dissolvendo. (...) Sendo na "Matéria" que, segundo Baldaya, o "Ser" acede ao estado de maior negação de si e mais se despe da ilusão pensante que o separa do "Não-Ser" primordial, "a Matéria é a menor das Ilusões, a mais fraca das mentiras", de onde proviria a sua maior evidência.

Paulo Borges, O Jogo do Mundo, 2008, Portugália Editora, pp.96-97

O diabólico em Vilém Flusser (início da comunicação no Colóquio Internacional de 3-4 de Maio, Anf. IV, Fac. Letras da Univ. Lisboa

O diabólico em Vilém Flusser

Vilém Flusser é um pensador do diabólico e um pensador diabólico. Enquanto pensador do diabólico, Flusser pensa aquilo que a tradução grega da Bíblia designou como diabolé, o “espírito que semeia a divisão”, de diaballein, lançar de lado, de través [1]. No pensar original de Flusser, o diabo é a própria temporalidade, também histórica, sendo “«influência diabólica» tudo aquilo que tende para a preservação do mundo no tempo”. Pelo contrário, “influência divina” é “tudo que tende para a superação do tempo”. O divino é o que age no “mundo fenomenal” para o “dissolver”, “salvar” e intemporalizar, convertendo-o em “puro Ser”, ao passo que o diabólico é o que o procura manter na sua fenomenalização temporal. Dependendo do ponto de vista, será o divino criador e o diabólico aniquilador ou o divino destruidor e o diabólico conservador [2].

Num heterodoxo mito das origens, que recorda o drama da cisão cosmogónica em Teixeira de Pascoaes e Sampaio Bruno, Flusser concebe a criação de “céus e terra” como o divino arrancar de “um pedaço do “ser em si”, do “puro ser”, para mergulhá-lo na correnteza do tempo”, a qual o altera e fenomenaliza, arrastando-o consigo em “modificações sucessivas”, que são a sua própria irrealização. Esta temporalização é o próprio “diabo” e a sua “queda” é o “progressivo afastar-se do mundo das suas origens”. Nessa medida, o “diabo” é a “criação principal do criador”, a sua “obra-prima”. “Idêntico ao tempo” e inspirador do “espaço”, é ele que configura a experiência do mundo e, nessa medida, identifica-se com o próprio mundo. Sendo aquilo que, na criação, “torna sensível o mundo”, o princípio diabólico é, todavia, “mera parte” dessa criação”, em conflito com o princípio divino [3]. Definido, “no seu aspecto externo”, como “o fluxo do tempo, graças ao qual os fenómenos nos aparecem”, revela-se “o caráter ilusório, enganador, o caráter «maia»”, tradicionalmente atribuído ao diabo [4]. A leitura flusseriana do mito bíblico das origens incorpora assim a noção indiana de maya, configurando o diabo como uma prestidigitação ou i-lusão transcendental que emerge do divino e se lhe opõe, em mais uma flagrante convergência com uma das intuições axiais de Teixeira de Pascoaes. É essa i-lusão que cria os céus para criar a terra, a terra para criar a vida, a vida para criar a humanidade e a humanidade para criar o espírito humano, ou seja, o “espírito que conhece o Bem e o Mal” e assim se institui como “o campo do pecado”. O objectivo ideal da evolução criadora é a produção do “espírito humano perfeitamente diabólico”, mediante o abrasivo dos “pecados capitais” [5].

Considera assim Flusser que “o diabo é-nos muito mais próximo que o Senhor” e que segui-lo é “muito mais cómodo e simples do que perseguir os obscuros caminhos divinos”. “Toda a sinfonia da civilização”, toda a “luta prometéica” da humanidade contra os limites divinos, toda a “evolução como história do progresso” são a própria “história do diabo”, são a sua “obra majestosa” – cujos “exemplos mais nobres” são “ciência, arte e filosofia” - ou, noutro ponto de vista, a “ilusão” por ele criada [6].

O protagonismo diabólico tem portanto origens mais fundas que a mera história dos homens, enraizando-se por um lado na “evolução da vida” – que coliga “o protoplasma quase inerte”, a “formiga devoradora e a humanidade especulante” – e surgindo, por outro, como a “força motriz” da maioria das acções e desejos humanos [7]. Com efeito, o filósofo, num dos lances mais originais e polémicos da obra, recorre à doutrina eclesiástica dos “sete pecados capitais”, mantendo mas reinterpretando a sua nomenclatura tradicional, para designar as potências diabólicas que movem a vida e a humanidade nos diferentes domínios da sua actividade e da sua evolução. Constituindo-se A História do Diabo como uma filosofia do pecado e dos pecados, convém recordar o significado original desta palavra assaz incómoda para a consciência ocidental.

O peccatum latino, do verbo peccare, dar um passo em falso, traduz o grego amartia, que significa “falhar um alvo ou um objectivo”, o qual, por sua vez, traduz o hebreu pâcha, que expressa “o facto de se revoltar” [8]. O engano, o desvio e o fracasso, presentes nas expressões grega e latina, convergem com o sentido de uma projecção oblíqua e dia-bólica, de diaballein, que se desvia e transvia de um rumo certeiro, directo ao objectivo. Se o objectivo é a realização plena de si, por integração na plenitude divina, compreende-se que Jean-Yves Leloup interprete a amartia, a partir de Evagro Pôntico, como o estado em que se está “ao lado de si mesmo”, patente nos vários pecados capitais, entendidos como “sintomas de uma doença do espírito ou doença do ser” [9].

Flusser renova e amplia a tradição das paixões da alma, dando-lhe uma dimensão cosmogónica e cosmológica. Os pecados descrevem uma patologia bio-antropológica, como “sete aspectos de uma mesma atitude” [10].

[1] Cf. Odon Vallet, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, p.61.
[2] Cf. Vilém Flusser, A História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.21 e 23 24 [manteremos a grafia do português do Brasil, língua em que Flusser escreveu a obra].
[3] Cf. Ibid., pp.33-34.
[4] Cf. Ibid., p.34.
[5] Cf. Ibid., p.45.
[6] Cf. Ibid., pp.22-24.
[7] Cf. Ibid., p.25.
[8] Cf. Odon Vallet, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, pp.178-179.
[9] Cf. Jean-Yves Leloup, Écrits sur l’Hésychasme. Une tradition contemplative oubliée, Paris, Albin Michel, 1999, p.53. Simone Weil esclarece que “O pecado não é uma distância. É uma má orientação do olhar” – L’amour de Dieu et le malheur (1942), in Oeuvres, edição estabelecida sob a direcção de Florence de Lussy, Paris, Gallimard, 1999, p.697.
[10] Cf. Vilém Flusser, A História do Diabo, p.26.

sábado, 10 de abril de 2010

Palavras-ovo


Há palavras como missais de neve ou erva
Que vão direitas ao coração da energia
Que entram no pulso da vida:
Plenas,redondas como frutos
Nuas, brilhantes como fogos.
São as palavras da vastidão
São os pólos que acendem a verdade
E essa verdade é a absoluta presença
Do Ausente eterno.
A essas palavras chamo Sagradas,
Nascidas dos lábios do Significador
Pois não pertencem senão à Fonte originária.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cursos Livres na Associação Agostinho da Silva

Caros Amigos, começa já na próxima 2ª feira, dia 12, um Curso de Introdução ao Pensamento de Agostinho da Silva, dado por vários membros da Direcção da Associação Agostinho da Silva e investigadores da sua obra. No dia 21 começa outro curso, dado por mim, Uma Visão Armilar do Mundo: a vocação universal de Portugal em Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva, baseado no livro com o mesmo título, que acabo de publicar.
Sempre ao fim da tarde, na Rua do Jasmim, 11, ao Princípe Real, em Lisboa.
Caso queiram participar convém fazerem desde já a inscrição. Podem obter todas as informações na página da AAS: www.agostinhodasilva.pt

Saudações agostinianas

Paulo Borges

quarta-feira, 7 de abril de 2010

"Viver é fazer de conta que não há morte"

"Viver é fazer algo a despeito da evidente futilidade de tudo. Viver é portanto tentar negar a futilidade evidente de tudo. E por que é evidente essa futilidade? Pela morte. Viver é tentar negar a morte. Viver é fazer de conta que não há morte. Mas há. Não é isto espantoso?"

- Vilém Flusser, "O tema exclusivo", in "Da religiosidade".

O minimalismo doutrinal de toda a saudade

«No es lo que nos homologa en la normalidad lo que nos hace semejantes. Es porque estamos solos, porque la noche reina, y porque no sabemos, por lo que cabe al hombre mirarse en los ojos de otro hombre como en un espejo.»
Miguel Morey, «Pequeñas doctrinas de la soledad», Sexto Piso, México D. F. / Madrid, 2007.

COLECÇÃO _ BERARDO












terça-feira, 6 de abril de 2010

CURSO DE INTRODUÇÃO ÀS GRANDES RELIGIÕES (entrada livre)

Programa

7 de Abril - Hinduismo
Saroj Parshotam

14 de Abril - Budismo
Paulo Borges

28 de Abril - Judaismo
Alan Hyat

5 de Maio - Cristianismo
Fr. Bento Domingues

12 de Maio - Islamismo
Sheik David Munir

19 de Maio - Fé Bahá’i
Ivone Félix Correia

Das 18,30 às 20,00h

Contactos: Manuel Lancastre: 91.450.5775 / luisa.lancastre@gmail.com

Centro Nacional de Cultura

Rua António Maria Cardoso, 68, ao Chiado (Lisboa)

ENTRADA LIVRE
...

O diálogo entre culturas e religiões é reconhecidamente um dos grandes desafios do mundo actual e das nossas sociedades multiculturais e multi-religiosas, dependendo dele que a globalização económica e tecnocientífica se acompanhe da promoção de uma cultura da compreensão, da paz e da fraternidade à escala planetária.

Verifica-se, todavia, que tradicionalmente as grandes tradições religiosas não privilegiaram o conhecimento mútuo e o diálogo entre si, não acompanhando as mutações sociais e mentais nem os progressos de disciplinas como a História, a Filosofia e as Ciências das Religiões, que parecem mostrar que as religiões não surgem e não existem como entidades independentes e separadas, participando antes de uma profunda interacção que faz com que o aprofundamento do conhecimento de uma implique o conhecimento de outras.

Esta situação reflecte-se nos encontros inter-religiosos, onde – apesar da boa vontade dos intervenientes, que dão o passo extremamente positivo de se juntarem para se ouvirem – se sente que há ainda um grande desconhecimento da religião que cada um professa e pratica, o que torna difícil aprofundar o diálogo e a compreensão mútua. Isto torna-se particularmente sensível em Portugal, onde, por vários motivos e em contraste com a nossa experiência histórica, não tem havido um grande investimento no conhecimento da diversidade cultural e religiosa do mundo.

Por estas razões tomámos a iniciativa de realizar um Curso de Introdução às Grandes Religiões, onde responsáveis e praticantes das seis grandes tradições religiosas exponham os fundamentos históricos, espirituais e doutrinais das vias religiosas que seguem e as suas singularidades mais salientes. Pretende-se com isto dar a conhecer as grandes religiões, não só naquilo que as faz convergir, mas também naquilo que as diferencia, sem que as separe.

Cremos ser urgente ultrapassar o medo e o incómodo de nos confrontarmos com a diferença no plano religioso e ser apenas o conhecimento das diferenças que permite compreender, aceitar e respeitar plenamente o outro como outro, além de nos permitir esclarecer e aprofundar mais o sentido das nossas próprias experiências e opções espirituais e religiosas. Cremos ser a partir de um sólido conhecimento dos fundamentos da diversidade religiosa que se torna possível estabelecer a base de um verdadeiro diálogo inter-religioso e reconhecer o que afinal não deixa de unir as religiões e fazer delas os ingredientes da maravilhosa polifonia do humano na busca e no encontro do divino ou inefável.

A Comissão Organizadora

Saroj Parshotam (Comunidade Hindu de Portugal)
Paulo Borges (União Budista Portuguesa)
José Carp (Comunidade Israelita de Lisboa)
Manuel Lancastre (Comunidade Mundial de Meditação Cristã)
Sheik David Munir (Comunidade Islâmica de Lisboa)
Ivone Félix Correia (Comunidade Bahá’i de Portugal)

Uma iniciativa com o apoio da revista Cultura ENTRE Culturas:
arevistaentre.blogspot.com

segunda-feira, 5 de abril de 2010

"Toda palavra é uma espada flamejante do diabo"




"A língua é o inimigo visceral da fé, e tudo o que por ela for tocado ficará imune à intervenção do divino. Toda palavra é uma espada flamejante do diabo, e a língua como um todo é um único protesto contra as limitações do intelecto, um grito de articulação contra o inefável, um brado de guerra contra a divindade, uma expressão da inveja do intelecto humano dirigida contra Deus.

[...]

Somos indivíduos, somos intelectos individuais, porque consistimos de palavras (expressões da inveja diabólica contra Deus) consolidadas pela gramática (expressão da avareza diabólica que tenta preservar a realidade por ele criada). A mente humana, essa suprema ilusão de realidade, é a obra mais perfeita do diabo, e é neste sentido que a nossa insistência avarenta na manutenção da nossa individualidade é o triunfo supremo do diabo. O nosso empenho em prol da língua (que é o empenho em prol do nosso intelecto), e nosso empenho em prol da propagação do enriquecimento da língua (que é o empenho em prol da imortalidade do nosso intelecto), é o ponto culminante da carreira gloriosa do diabo. A superação da língua, que seria o abandono do intelecto, implica a perda da nossa individualidade, e, do ponto de vista oposto ao diabo, a salvação da nossa alma"

- Vilém Flusser, A História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.149-150.

Colóquio Internacional: "Vilém Flusser: do diabólico ao simbólico", Anf. IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 3 e 4 de Maio.

Publicado em: vilem-flusser.blogspot.com

Desigualdade ou emancipação?





Jacques Rancière. O mestre ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. 2ed. Trad. Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. 192p.



Partindo de uma experiência insólita em sua longa carreira de pedagogo, Joseph Jacotot, professor francês do início do século XIX, apercebeu-se de que o processo de aprendizagem pode não consistir naquilo em que o senso comum e a teoria então vigente (e vigente até hoje, temos que reconhecer) haviam consagrado. O que Rancière denomina de “aventura intelectual” aconteceu-lhe quando, exilado por motivos políticos nos Países-Baixos, Jacotot ocupava o posto de leitor de literatura francesa em meio período. Ignorando o holandês, o mestre não teria como responder às dúvidas de seus alunos sem que alguma coisa em comum o ligasse a eles como canal de comunicação eficiente o bastante. Esse canal se apresentou sob a forma de um livro – o Telêmaco em edição bilíngüe publicada em Bruxelas. Por meio de um intérprete, ele indicou o livro aos estudantes, recomendando que aprendessem, com o auxílio da tradução, o texto francês.



“Quando eles haviam atingido a metade do livro primeiro, mandou dizer-lhes que repetissem sem parar o que haviam aprendido e, quanto ao resto, que se contentassem em lê-lo para poder narrá-lo. Era uma solução de improviso, mas também, em pequena escala, uma experiência filosófica, no gosto daquelas tão apreciadas no Século das Luzes. E Joseph Jacotot, em 1818, permanecia um homem do século passado.”



Esperando um resultado desastroso, o mestre pediu então aos alunos que escrevessem em francês o que achavam do texto lido. Era uma avaliação necessária da experiência totalmente empírica imposta pelo acaso. A surpresa no entanto foi das melhores: “seus alunos, abandonados a si mesmos, se haviam saído tão bem dessa difícil situação quanto o fariam muitos franceses”. Constatou que haviam sido capazes de entender o texto e com isso aprender francês o bastante para escrever na nova língua sobre o que haviam lido.



A experiência, capaz de revolucionar seu espírito, levou o pedagogo a desenvolver uma reflexão crítica sobre qual seria de fato a grande tarefa dos mestres. A conclusão a que chegou constitui a heterodoxa teoria, inaceitável para a época, de que ensinar à maneira tradicional – um mestre que “sabe” liberando frações de seu saber para alunos ignorantes – é perpetuar a distância que faz da sociedade (e da escola, seu símbolo) um lugar estruturado em torno de fossos intransponíveis a separar mestre e aluno, quem sabe mais e quem sabe menos, quem manda e quem obedece, quem tem mais ou menos poder. Em resumo: os “melhores da turma” sempre deteriam o poder e a regência dos outros, os que ignoram, os que não conseguiram ser bem-sucedidos e nunca chegariam a sê-lo se não lhes ocorresse o “clique” que permite o acesso a sua verdade mais subjetiva, onde se encontra a fonte dos melhores recursos e o caminho aberto às aptidões intelectuais de cada um.



O esforço para seguir os passos do mestre e assim transpor a distância que separa o aluno dele é um enganoso método de progresso pessoal, segundo o ponto de vista de Jacotot. Porque esse esforço roubará dos discípulos a energia e a espontaneidade de que necessitam para descobrir por si mesmos o que convencionalmente aprendem a ver com os olhos de outros, acumulando saberes parcelados, muitas vezes impossíveis de reter. A experiência era de ordem cartesiana: teria que envolver mais que informações acumuladas. O exercício da curiosidade natural e a vontade genuína de conhecer suprem métodos sofisticados e elaborados que chegam de fora, pelo pensamento arbitrário dos que detêm o poder de ensinar.



A esse processo espontâneo de aprendizagem, Jacotot atribui como resultado um saber que é necessariamente também conhecimento, no sentido de que aquilo que assim se aprende é compreendido e incorporado a um acervo pessoal sob a forma de experiência vivida e indelével.



Por essa e outras razões conexas, Rancière percorre propositadamente um conjunto de atalhos e caminhos que examinam a teoria pedagógica convencional. Sem utilizar conceitos consagrados ou idéias que são pontos pacíficos para os defensores da escola que conhecemos, busca em cada capítulo e em cada item do livro revisitar o processo de aprendizagem com a liberdade de quem descobriu uma nova vertente. A novidade era abolir-se a noção segundo a qual “há seres inferiores e superiores; os inferiores não podem o que podem os superiores”. Essa “hierarquia das inteligências” perpetuaria as desigualdades que beneficiam os detentores do poder.



“Não há inteligência onde há uma agregação, ligadura de um espírito a outro espírito. Há inteligência ali onde cada um age, narra o que ele fez e fornece os meios de verificação da realidade de sua ação.”



A veracidade está no cerne dessa experiência. Assim, é a experiência de cada um – que ele chama “seu próprio negócio” – que o levará ao conhecimento. Um pai ignorante pode levar o filho a adquirir conhecimento, contanto que dê a ele a oportunidade de descobrir por si só esse conhecimento, não como “um pedagogo gentil”, mas como “um mestre intratável” que levará o filho a querer se emancipar. Para isso, todas as faculdades são chamadas: atenção, determinação, persistência, curiosidade. Quando alguém efetivamente aprende alguma coisa, aprende porque quer aprender; e para isso está acima de tudo sozinho, interessado e entregue a sua experiência. Ele quer “adivinhar”, está atento aos indícios e à tradução do que lê, do que vê e analisa.



O traço socrático dessa atitude é bem visível: na base de tudo está o “conhece-te a ti mesmo”. Assim como no caso de Sócrates, que a seu tempo deu origem a uma escola com reflexos políticos em seu meio, o Ensino Universal, como foi chamado mais tarde o pensamento gerado pela aventura intelectual de Jacotot, não conseguiria manter sua força original. Mas na verdade, jamais morreria.

domingo, 4 de abril de 2010

"Estamos emergindo sempre do silêncio primordial e ingênuo que é o paraíso"

"Voltemos, para interpretar a teia lingüística que é o pensamento, ao mito da expulsão do paraíso. Essa expulsão é portanto equivalente a uma expressão, a um grito. Cada palavra é um grito assim, e com cada palavra que pensamos, com cada conceito que formulamos, estamos sendo expulsos do paraíso. A corrente das palavras, a conversação, é o rio que nos arrasta das nossas origens, e pelo indizível que se esconde entre as palavras estamos sempre nas proximidades das nossas origens. Desse indizível, dessas aberturas que a língua conserva para o nada, é que brotam sempre novas palavras, novos pensamentos. Estamos emergindo sempre do silêncio primordial e ingênuo que é o paraíso. Com efeito, essas nossas aberturas para o silêncio ingênuo, essa nossa capacidade para o espanto ante o nada, essa nossa capacidade de gritar o nosso espanto, é sinal da nossa autenticidade. É sinal que ainda estamos na proximidade misteriosa do nada"

- Vilém Flusser, "Pensamento e Reflexão", Da Religiosidade. A literatura e o senso da realidade, São Paulo, Escrituras, 2002, pp.43-44.

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

A propósito da Páscoa


Num tempo em que as ressurreições já não são espectaculares como no tempo de Jesus, porque também as crucificações já não o são, é preciso, cada vez mais, procurar no céu, os sinais.
E tal como são os pássaros os que melhor nos podem observar na terra, é da terra que melhor se observam os sinais no céu.
Os anjos partiram com os deuses, os pássaros têm a vista cansada e os astros já não são o que eram, cansados do mau ambiente que criámos para eles.
Todos nos abandonam nesta tarefa de olhar o céu.
Mas como fazê-lo sem implantar bem os pés na terra, este imenso hangar?
E como fazê-lo se não aprendemos ainda a soletrar a mais básica linguagem da terra com seu elementar alfabeto de apenas quatro letras?
Quando a terra, a água, o ar e o fogo significarem, para nós, a estabilidade, a mudança, a inteligência e o amor, quando no fruto que mordermos soubermos ler sem hesitações esta cartilha maternal, quando a escrita das nuvens se tornar eloquente como um anúncio de televisão, quando os braços abertos de todos os Cristos nos falarem de abraços e os pés na cruz nos lembrarem o abandono a que temos votado os nossos próprios pilares, bem podem passar Páscoas pelos nossos cabelos cada vez mais embranquecidos, continuaremos a ser os pilatos que lavam as mãos na água cada vez mais suja.
Mas desconfio que o tempo dos olhos fechados e dos pés ignorados está para acabar. Segreda-mo um Cristo que acaba de passar. Tão rápido, que apenas ficou na fotografia a nuvem que o seguia.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

...o mais cruel de todos os animais

"[...] o homem é o mais cruel de todos os animais.
Nada no mundo lhe deu jamais tanto prazer como as tragédias, as corridas de touros e as crucificações; e no dia em que inventou o inferno, teve o seu paraíso na terra"

- Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

terça-feira, 30 de março de 2010

"Para as pessoas, tal como se apresentam hoje, existe apenas uma novidade radical, que é sempre a mesma: a morte"

- Walter Benjamin

"Morte e Re-nascimento de Cristo", por Isabel Rosete

Isabelrosete@gmail.com

Não há propriamente uma data determinada nem para o morrer, nem para o re-nascer de Cristo – essa ex-traordinária e iluminada figura que a História nos doou, como uma benção – para além das convencionadas no calendário católico/religioso.
Não obstante estarmos bem perto de comemorar o re-nascimento desde judeu amaldiçoado pela vileza dos homens e, por extensão, a Paz, a Solidariedade, a Luz, a Verdade, o Bem, o Amor, a Justiça..., não devemos esquecer, caro leitor, que o Mundo continua a sofrer, a ser martirizado e crucificado como Cristo o foi, um dia, pela histeria colectiva das multidões enfurecidas, alucinadas pela sede do sangue, fresco e quente, de um Homem que tinha tão-só por missão salvar a Humanidade de si mesma e dos seus próprios perigos e erros
Iludir a realidade a reboque das comemorações convencionais, só porque são convenções (cada vez mais minadas pelo exacerbado consumismo que nos esgota as bolsas) não faz, jamais, a Humanidade crescer, pensar ou reflectir sobre esse sofrimento, físico e psíquico, de que ela mesma é vitima, a partir das suas próprias mãos maculadas, amiúde, pelo sangue jorrado das Almas e dos corpos inocentes.
Enquanto uns estão à mesa a confraternizar com as suas famílias (mesmo que sobre as franjas da hipocrisia, todos o sabemos!), em serenidade e alegria, deliciando-se com o mais requintado dos manjares, especialmente organizado para a Páscoa celebrar (mas que Páscoa!? Mas que celebração!?), outros morrem de subnutrição, aí mesmo ao nosso lado, espalhados por esse mundo imenso, sem dó, são vítimas de balas perdidas, da má fé, das guerras infundadas e da violência gratuita.
O tormento, a amargura, dessas gentes vexadas na sua humanidade pela malvadez, pela violência, pela crueldade... não se exaure pelo simples facto de o dia de Páscoa estar quase a chegar, não se extenua durante uns escassos momentos de tréguas. Lamentavelmente, tudo permanece do mesmo modo, em alguns casos, camufladamente, noutros claramente visíveis, apenas ocultos para aqueles que, por conveniência, não querem ver.
Recuso-me, por conseguinte, a ludibriar a realidade; recuso-me a compactuar com a hipocrisia dos homens, que só se lembram que há mendicantes, crianças e velhos, moribundos e desamparados, povos em guerra…, quando a Páscoa é, oficialmente, solenizada.
A memória dos homens, seja a curto ou a longo prazo, não deve continuar minguada; a memória dos homens não deve somente ser testada, assim como a sua humanidade (ou pseudo-humanidade), quando o socialmente instituído é festejado.
Torna-se óbvio que o Espírito da Páscoa jamais se deve restringir ao dia de Domingo, pelo calendário determinado. O Espírito da Páscoa deve, ao invés, estar presente, sempre, em todas as mentes e em todos os dias das nossas vidas, tão efémeras quanto a de Cristo.
O tinir do sino, que pelas ruas e praças difunde o seu som de apelo, anunciando a chagada, a cada casa, da cruz de Cristo, nunca é capaz de eliminar ou de abafar o som da miséria humana, pelo menos para aqueles que escutam todos os ecos, para além dos ensurdecedores ruídos, que enxergam mais longe, para além das aparências, dos convénios, dos pré-conceitos, ou do chamado politicamente correcto (odeio esta expressão!).
Urge, estimado leitor, abanar as consciências, incitar as mentes à mais profunda reflexão; é imperativo fazer renascer, em todo o seu fulgor, o Espírito Crítico, por detrás de todas as máscaras, de todos os discursos vazios de conteúdo, meramente convenientes para uma escassa minoria.

Isabel Rosete

“A PAIXÃO DE CRISTO” REVISITADA, por Isabel Rosete

“A PAIXÃO DE CRISTO” REVISITADA


Se atentarmos nas passagens da Bíblia em que Gibson se inspirou para realizar A Paixão de Cristo, é isso mesmo que se sente, vê, escuta e vivencia: violência, crueldade, muito sangue derramado, inocentemente.
Todos os relatos da época confirmam, sem reservas, essa atrocidade, essa des-humanidade, essa insensata histeria colectiva, movida pelo gosto da agressividade e pelo prazer do ódio.
O realizador, frisemo-lo, não enfatizou ou empolou a contextura epocal, como sustentam os espíritos menos esclarecidos. Apenas a mostrou, na sua plena autenticidade.
A humanidade é assim mesmo: bárbara, violenta, vil... Toda a História o mostra. Só que nem sempre o vemos. Nem sempre o queremos ver. Ou, simplesmente, não convém que o vejamos. É mais cómodo compactuar com o regime, mesmo que, literalmente, o abominemos.
Cristo foi tão-só mais um, entre tantos outros, mártire dessa bestialidade, insensibilidade e leviandade exacerbada dos Homens.
Cristo não convinha ao sistema instituído. Foi um revolucionário. Um verdadeiro rebelde. A sua Filosofia, obviamente contestatária. Naturalmente, teve de ser morto, como também o foi Gandhi, por razões idênticas, só para dar mais um exemplo histórico da Intolerância des-medida.
Assim é a postura de todos os regimes políticos totalitários, os de ontem, os de hoje, os de sempre! Dogmáticos, inflexíveis, intocáveis, pretensos donos da verdade absoluta, não admitem, outras verdades, outras visões do mundo, ou, apenas, uma outra ordem.
É preciso mostrar a todos os olhares dis-persos, do modo mais realista possível, o que o Mundo é na sua essência, sem pré-conceitos, sem falsos moralismos. Este Mundo – o de Cristo e o nosso – não é um mar de rosas, mas, sobretudo, uma imensidão de espinhos, camuflados por belas, cheirosas e aveludadas pétalas.
Devemos observá-lo, clara e distintamente, por detrás de todos os véus, de todas as máscaras que ludibriam as mentes ex-traviadas. Devemos pensá-lo, profundamente; analisá-lo, criticamente, com os olhos da razão, que ultrapassa a vulgaridade das opiniões comuns.
Urge não esquecer que vivemos, tal como o experienciou “O Messias”, minados pelo fingimento, pela dissimulação, pela inveja, pela violência gratuita, pela guerra, entre alguns escassos momentos de paz e de enaltecimento dos valores que efectivamente devem prevalecer no coração dos homens: a Verdade, a Honestidade, o Bem, a Solidariedade, a Tolerância, o Respeito pelas Diferenças fundamentais e pela Liberdade essencial de todos os Povos, Estados, Nações…, independentemente dos credos religiosos, das facções político-partidárias, das cores, das raças, das religiões ou das dissemelhanças culturais. Assim o consagrou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, só em tese, aceite, porque raramente cumprida pelos pretensos detentores do poder.
Urge, ainda e sempre, re-nascer, para uma Outra Idade, para um outro Mundo, onde a Racionalidade paute os pensamentos e as acções do Homens, onde o Bom-Senso impere, definitivamente, para além de todos os paradoxos ou contra-sensos.

quinta-feira, 25 de março de 2010

ENTRE! Torne-se assinante e viabilize uma revista-ponte ENTRE todas as coisas





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Tema do número 1: Que diálogo entre culturas?
Tema do número 2: Fernando Pessoa; Encontro Ocidente/Oriente

quarta-feira, 24 de março de 2010

As Índias Espirituais



No próximo dia 25 de Março (quinta-feira), pelas 17h, Duarte D.Braga dará uma prelecção sobre o seguinte tema: "A noção de 'Índias Espirituais' na Cultura Portuguesa primonovencista" (Anf.IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).

O amor como caminho - revisitar as memórias

O amor como caminho é o título escolhido para um conjunto de reflexões, sobre diferentes temas, orientado pelo princípio da aproximação/união não (só) ao outro, mas ao Outro.
O amor que aqui se apresenta é um conceito plural e dinâmico que transcende o individual: um caminho composto por sete degraus, anunciado por Platão na obra “O Banquete” que, embora se inicie no amor pela particularidade da beleza do Outro, se expande e alcança a beleza em termos abstractos, enquanto princípio eterno do Universo, nas suas múltiplas expressões. E o movimento evolui e encontra o amor pela ética, o amor pelas práticas belas – a integridade, justiça, bondade…-, o amor pelas instituições (pelo seu equilíbrio, harmonia, bem comum), pela ciência e pelo conhecimento, na compreensão do que é universal. Por último, no sétimo degrau, este amor alcança e comunga com a beleza, para além da sua manifestação, autotranscende-se e une-se à origem do Ser – é o caminho entre o amor individual, materializado e particular e um amor expandido como princípio universal e cósmico - esse amor que é congénere da transcendência (Bauman, 2006).
É este caminho do encontro, da compreensão da beleza do Outro, na diversidade das suas expressões, que permite transcender as concepções individuais, imediatas e de satisfação particular e se torna num movimento criador, que une e que amplia, se aproxima da beleza, da ética e do conhecimento, que preserva e cuida.

Neste movimento de aproximação ao Outro subsistem resistências originadas pela leitura do mundo, compostas pelas memórias, vivências e experiências individuais. Desta circunstância emerge, em cada declaração e acção realizada, um conteúdo residual de tempos pretéritos, do qual o indivíduo não se apercebe, pois se confunde com o tempo presente, através do qual representa, simboliza e organiza o mundo que o rodeia mas que contêm aspectos da memória do grupo social onde o indivíduo foi socializado, em que se estabelece uma versão acordada do passado, inserido numa memória oficial da sociedade. Como refere Walter Benjamin é um contínuo “escovar a História a contrapelo”, ou seja, recuperar, através das condições do momento presente (concretas e emocionais), o passado, num permanente movimento de memória em construção. Esta concepção de memória (processo e não produto) não a desvirtua, pois o presente não é solitário nem original – porquanto evoca continuamente tudo aquilo que experienciamos ao longo da vida, na nossa forma pessoal de relacionamento social (Janeirinho, 2003).
A Histórica transmitida traduz-se, muitas vezes, no retrato da memória oficial, filtrada e interpretada por interesses e ideologias dominantes, em cada época, e expressa a versão consolidada de um passado colectivo de uma dada sociedade, com os seus valores, mitos, arquétipos, uniformizadora de lembranças. Uma História construída e protagonizada por uma ocidentalidade que interpretou e registou memórias que urge hoje revisitar, pela impossibilidade de conhecer os Outros (e Nós), mantendo silêncios!
No caso português, este movimento de aproximação e conhecimento ao Outro não conduz à rejeição da nossa História. Pretende, antes, acolher outros valores e processos diferentes, fazer uma abordagem ao incompreensível, através de um método mais sensível, intuitivo e por isso mais subjectivo, pois a História é composta por factos reais (relações de produção, economia, política…) e, também, por um sentido profundo em torno do qual esses factos se organizam e extraem sentido - a produção e troca de Mitos e Ideias. Revisitar a nossa memória individual e colectiva é, também, dar entrada a outras Histórias, repensar outros dados, não tanto em termos dos feitos, do conhecimento das técnicas de combate, de navegação, de mercadorias transaccionadas, mas sobre as motivações mais profundas, aquelas que se enraízam no imaginário dos homens e dos povos. Como refer, ainda, Lima de Freitas, os factos, antes de se tornarem visíveis na História, começam por medrar no imaginário de homens - o sonho, o desejo, a visão.

Cabe aqui reflectir e analisar a nossa construção de ver o mundo, os outros e nós - a cultura portuguesa e suas múltiplas interrelações com outras realidades que edificaram esta e as outras identidades - entrelaçar relatos de outros universos culturais e atribuir sentido a uma identidade que não é fixa e a outras identidades que não são produto. Como refere Valleriani, somos entidades históricas concebidas em termos de viagem, fruto de negociação de culturas em viagem (travelling cultures), em que a nossa identidade cultural é habitada por outras culturas, um produto nunca acabado (Valleriani, 2008).

No amor como caminho em direcção ao Outro é urgente uma visão mais holística da História onde sejam costuradas memórias emergentes, não monumentalizadas, e valorizados os mitos, os sonhos, os desejos e a cultura empírica (sem descurar as formas de circulação, recepção/apropriação) dos colectivos envolvidos, como factores fundamentais dos seus percursos e marca das suas identidades. É revisitar a memória através de uma abordagem etnográfica aos registos do passado (tangíveis e intangíveis), de uma leitura hermenêutica das fontes, em que se expressam e manifestam narrativas culturais locais e se integram significados e sentidos do Outro numa conexão entre memória, acção presente e projecto de futuro (Escolano, 2002).

Referências Bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt (2006), Amor Liquido, Relógio d´Agua, Portugal;
BENITO, Agustin Escolano; Diaz Jose Maria, coords (2002), La memoria y el desejo – la cultura de la escuela y educacion deseada, Ceince, Espanha;
FENTRESS, James (1992), Memória social, novas perspectivas sobre o passado, Colecção Teorema, Lisboa;
JANEIRINHO, Luisa (2003), Dar voz aos objectos - contributos dos documentos de vida na construção de um museu de escola, tese de mestrado, Universidade de Évora;
VALLERIANI, António (2008), Por una hermenêutica de perfil híbrido, Universidad Europea Miguel de Cervantes.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Dormir é existir

Hoje apetece-me viajar, ou não serei eu viajante, em todo o mundo começa a nascer a sede de uma viajem qualquer. A cada esquina estendem-se diálogos com que se reflecte a dádiva que é estar vivo e assistir ao sol a nascer e morrer todos os dias escolhendo aparecer e desaparecer através das nuvens.
Por consequência e por acaso ele agora encontra-se condicionado por pequenas nuvens negras, mas não é nada que impeça aos homens de existir, apesar de encontrarem o tormento na sua ausência.
Estando eu presente no café pensando como quem gosta de dormir tapado no inverno, atrai-me a natureza de que sou feito em qualquer estação do ano. Sou um homem julgo, crescendo e sentindo todo o tempo a passar por metamorfoses nas quatro fases do ano. Com sentido aquilo que se apresenta ao meu olhar diverte-me como uma bebedeira sem pés nem cabeça, em que as cores brincam ao sabor do vento e a imaginação transcende com elas o outro mundo que a matéria não consegue alcançar.
A existência é a vida de um ser com alma e quando se tem alma já se é tudo podendo também ser nada em que o seu sentido é a biografia que a morte escreve de quem morreu.

- Quanto é o café? – Pergunto ao empregado – um euro por favor, saio e deixo gorjeta. Ao sair do café tenho a sensação de que meu corpo pede que o tempo acalme e que a chuva se contenha, pois quem anda á chuva molha-se, e um corpo coberto de roupa molhada incomoda-se reclamando.
Nisto ando mais uns metros e a chuva pára, dando lugar a que o meu ouvido ouça uma melodia breve que me acaba de chegar de qualquer incerto sítio, como se aquela melodia fosse um rasto da chuva que passou. Cada vez mais perto dela reconheço-a: “um trompete”, ando uns passos dobro a esquina, e eis que me aparece um trompete suspenso por uma força humana sem ver qualquer tipo de ser humano manipulando-o, mas na verdade ele está a ser manipulado por alguém, tento ver melhor e continuo a não ver ninguém, fica assim a levitar no espaço produzindo a tal melodia que contamina agora a cidade.
- Onde está a nossa cidade? – Pergunto, não há ninguém na nossa cidade, ninguém á esquerda, á direita, em baixo e em cima. A melodia do tal trompete tinha acabado de quebrar todo o quotidiano citadino, fazendo com que todas as pessoas caminhem para lá do real imaginário. Assim desapareceram todas as pessoas, excepto eu, ser, corpo, alma e razão.
Isto é a consciência utópica desaguando sobre mim pensei, aquilo a que a psicanálise chama de sonho. Esta sensação é-me familiar e de alguém que liberta as suas fantasias dormindo, que em determinado momento está-se em lado nenhum, mas em simultâneo encontramo-nos a contornar todas as esquinas do universo.
OOOOHHHH que na minha cabeça o desejo quebra-se, e a náusea matinal ergue-se perante o corpo que acaba de despertar.

Cultura ENTRE Culturas: uma revista diferenTre (a sair em final de Abril)





Cultura ENTRE Culturas - Apresentação

Cultura ENTRE Culturas é uma revista semestral dedicada ao diálogo intercultural e a estabelecer pontes e mediações entre todas as disciplinas, saberes e tradições. Publica ensaio, poesia e fotografia e elege-se pelos seguintes propósitos:

1. Contribuir para o desenvolvimento de uma consciência-experiência integrais, multidimensionais, inter e trans-disciplinares do real e do que possa haver além-aquém do que como tal se designa, enriquecendo criativamente a vida e a existência mediante a compreensiva realização das suas supremas possibilidades.

2. Explorar antigas e novas possibilidades espirituais, mentais, éticas, artísticas, científicas, educativas, ecológicas, comunicacionais, sociais, políticas e económicas, alternativas à crise e declínio do paradigma civilizacional ainda dominante e que obedeçam ao soberano critério do melhor possível para todos os seres sencientes, humanos e não-humanos.

3. Promover o conhecimento e diálogo entre culturas, civilizações, religiões e espiritualidades, bem como entre estas, o ateísmo e o agnosticismo, no espírito da mais ampla imparcialidade e universalismo.

4. Contribuir para a harmonia e a não-violência na relação do homem consigo, com a natureza e com todos os seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor, prazer e emoções.

5. Despertar e orientar para estes fins a cultura e a sociedade portuguesas, bem como a comunidade lusófona, valorizando e promovendo as tendências nelas latentes que mais apontem neste sentido.

A revista Cultura ENTRE Culturas tem na Comissão de Honra alguns dos pensadores mais influentes e representativos do diálogo intercultural, integra no Conselho de Direcção destacadas figuras públicas e da academia portuguesa e internacional e conta no Conselho Editorial com alguns dos mais jovens valores da cultura portuguesa e não só.

ficha técnica

direcção
Paulo Borges

comissão de honra

François Jullien
Hans Küng
Jean-Yves Leloup
Raimon Pannikar
Matthieu Ricard
Agostinho da Silva (In Memoriam)

conselho de direcção

Pe. Anselmo Borges
Constança Marcondes César (Brasil)
Carlos João Correia
Frei Bento Domingues
António Cândido Franco
Markus Gabriel (Alemanha)
Dirk-Michael Hennrich (Alemanha)
Rui Lopo
Amon Pinho (Brasil)
Andrés Torres Queiruga (Galiza)
Miguel Real
José Eduardo Reis
Luíz Pires dos Reys
Adel Sidarus
Francisco Soares (Angola)

conselho editorial

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Fabrizio Boscaglia (Itália)
Duarte Drumond Braga
António Cardiello (Itália)
Paulo Feitais
Miguel Gullander
Cem Komürcu (Turquia)
José Lozano (Galiza)
Rui Matoso
Jorge Telles de Menezes
Rodrigo Petrónio (Brasil)
Romana Pinho (Brasil)
Cinzia Russo (Itália)
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Maurícia Teles da Silva
Ricardo Ventura

tradução e revisão de texto

Dirk-Michael Hennrich
Rui Lopo
Jorge Telles de Menezes
Luíz Pires dos Reys
Martina Weitendorf

comunicação e imagem

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direcção de arte

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edição

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telefone + 351 918 113 021
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quinta-feira, 18 de março de 2010

Fundação Kangyur Rinpoche - 2010

No âmbito da sua primeira visita à Europa Dilgo Khyentse Yangsi Rinpoche estará em Lisboa para Ensinamentos e Iniciações entre 27 e 29 de Julho 2010 no Hotel Marriott em Lisboa.


Kyabje Tenga Rinpoche, que esteve entre nós em Maio passado, dará Ensinamentos e Iniciações, em Lisboa, nos dias 18 e 19 de Junho 2010 no Hotel Marriott em Lisboa.

Matthieu Ricard estará em Lisboa para uma Conferência Pública, entre 22 e 27 de Maio.

Fundação Kangyur Rinpoche

http://www.krfportugal.org/ <http://www.krfportugal.org/

Gravações:
Jigme Khyentse Rinpoche fala de Kyabje Kangyur Rinpoche

www.chagdudrinpoche.com/podcast/lamatseringpod20.mp3

Yoga, Sufismo e Alquimia




No próximo dia 18 de Março, às 17h., Paula Morais, Mestre e Doutoranda em Filosofia, dará uma prelecção sobre "Yoga, Sufismo e Alquimia" (Anf. IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).

terça-feira, 16 de março de 2010

A liberdade doente



* Imagem selecionada da Internet. Sem menção de autor.




Os convites para sites de relacionamento e chat, que chegam todo dia à caixa de e-mail, em geral vêm em nome de alguém de nossa lista, que no entanto pode não ser o autor da mensagem. Não só os vírus e spams nos chegam desse modo. Os convites vêm em tom invasivo e falsamente descontraído, mas não passam de marketing, já tão incorporado a nosso dia-a-dia que às vezes nem nos damos conta. Por que estranhos a léguas de distância estariam preocupados em nos trazer de volta amigos extraviados ou antigos colegas de escola e de trabalho? Sempre o mesmo pretexto para oferecer produtos supérfluos, serviços que ninguém pediu e outras mercadorias perfunctórias, esse tipo de mídia eletrônica onde piscam mil e um patrocínios de construtoras, lojas, hotéis, carros, utilidades, inutilidades, garotos(as) ou amigos de programa, que em certos casos pagam para se oferecer via internet.

Cada vez mais forças externas tentam dirigir os atos que deveriam ser de iniciativa exclusiva de cada um. Isso lembra muito 1984, de George Orwell, ou Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Outro dia, revendo Zorba, o Grego (grande filme!), e vendo os camponeses de Creta esperando a morte de Hortense para saquear sua casa, pensava na analogia entre aquela cena e a constante intrusão de empresas e pessoas que insistem em nos convencer de que o melhor para nós é o que eles querem. E o que pretendem com isso? Empurrar-nos alguma coisa em troca de dinheiro e/ou submissão para fomentar seu poder.

Por conta dessa luta de interesses, o mundo às vezes parece um grande manicômio. O inconsciente coletivo virou um amontoado de noções sem fundamento e preconceitos distorcidos explorados por aventureiros. Diante desses, os sofistas da antiga Grécia eram seres sem malícia. Nos anos 1960 passamos por um período em que as ideologias se digladiavam e geravam debates e contendas sem fim. Agora porém as ideias e visões de mundo chegam aos pedaços, mal assimiladas e achacadas pelo mercado, pelos políticos e por aquele tipo de gente que corre atrás da fama a qualquer preço.

O lado virtuoso da comunicação em tempo real, que chega da televisão e da internet, traz em seu bojo dois vícios capazes de neutralizar grande parte dessa eficiência e rapidez: a informação chega muitas vezes mal elaborada e quem a recebe na outra ponta quase sempre deturpa seu sentido, por estar mal preparado ou desinformado de dados anteriores, sem os quais a notícia perde seu sentido principal. Diante disso, a mentalidade do público flutua entre juízos precipitados e dúvidas sem resposta; e grande parte das pessoas desiste de entender e se acomoda na alienação, ou então assume uma atitude irracional diante dos acontecimentos.

Talvez tenha chegado a hora de reunir de novo na praça os pensadores, os artistas e o povo, como faziam os antigos gregos na ágora. Quem sabe ainda se consegue plantar em nossas cabeças a semente de uma reflexão sem compromisso com os interesses do dinheiro, do poder e da violência? A liberdade humana é um conceito pouco claro, porque, em qualquer caso, é sempre muito limitada. Mas sem essa reflexão, a liberdade de cada um de nós se reduz a miragem, palavra vazia e imediatista do vocabulário politicamente correto, e só.

Estudo Geral

Uma outra vez, fomos visitar o Professor Agostinho da Silva a sua casa. Gentilmente recebidos, mandou-nos entrar para a sala de conversas. Uma meia dúzia de cadeiras estavam dispostas em círculo e em cima duma delas, sentado, um livro do cronista do reino, Rui de Pina, intitulado justamente Crónica de D. Dinis.

Já não nos recordamos quantas pessoas estavam presentes, mas a imagem do livrinho que acompanhou todo o encontro, e ali pousado nos olhava, não mais nos abandonou. Acabámos por adquiri-lo assim que surgiu a oportunidade.

É sabido que D. Dinis e, sobretudo, a sua esposa, Rainha Santa Isabel, têm lugar de destaque na abordagem que o Professor faz à história e à cultura portuguesa, desde logo, pela introdução no país do culto popular do Espírito Santo, feito pela princesinha de Aragão.

Mas que mais? Porque seria tão importante o reinado do Lavrador, ou do "plantador das naus a haver", como lhe chamou Fernando Pessoa na sua resumida e iniciática História de Portugal, a singela Mensagem?

Sabemos das suas significativas reformas agrícolas, onde, por exemplo, ganhou evidência a plantação do Pinhal de Leiria. Ganhámos um meio de expressão próprio com a instituição da Língua Portuguesa em substituição do galaico-português. Conseguimos prolongar a existência da Ordem do Templo (Templários), depois destes terem sido cruelmente excomungados, perseguidos e, muitos deles, assassinados, alterando-lhe o nome para Ordem de Cristo, a tal onde se desenvolveu o nobre Projecto da Expansão Ultramarina. E foi também por Ele que ganhou vida a primeira Universidade Portuguesa chamada de Estudo Geral.

Hoje os tempos são outros. Mas a pujança da Língua Portuguesa no mundo, a necessidade de bons estadistas em prole de uma organização social de excelência e a necessidade de uma sublimação espiritual constante, aconselham-nos a perscrutar os ecos da nossa história que muito bom legado nos deixou.

No Rei Poeta reconhecemos um conjunto de inovadoras medidas que nos permitiram avançar no tempo, como se houvesse tempo, construindo uma história digna de valor que, ainda hoje, pode ajudar a conduzir-nos universo fora, irmãos entre irmãos.

Fica, assim, feita justiça aquele enigmático livrinho que sentado nos olhava, como uma outra das inúmeras razões de estarmos aqui.

Bem hajam.

Luís Santos
Estudo Geral (clique aqui)

domingo, 14 de março de 2010

Setembro dos Desgarrados - onde não se vai em busca de nada

Sonhei com ela vezes sem conta. Lá o céu seguia colado ao meu coração. Os filhos eram de todos. E todos cuidavamos de todos. Era Setembro e eu sonhei com ela. A terra perdida - sempre a poente. O amor era salgado e salgava a nossa boca. Era Setembro e eu sonhei com ela. A terra dos desgarrados - de quem fugiu sempre a poente. Sonhei com ela tanto, que acreditei viver onde Canela e Petrónio descobriram como amam os casais apaixonados. Todos tinham filhos que eram de todos. Todos comiam o pão que era de todos. Em Setembro dos Desgarrados o céu segue colado ao coração - como se fosse um sonho.
Sonhei com ela - a terra onde existo.
Onde não se vai em busca de nada. Lá, onde tudo faz sentido.

Uma Visão Armilar do Mundo - Auditório da Biblioteca Nacional (Campo Grande), 3ª feira, 16, 18.30



Car@s Amig@s

Tenho o prazer de vos convidar para o lançamento do meu último livro, Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva (Lisboa, Verbo, 2010), que será apresentado pelo escritor e ensaísta Miguel Real.

Além de ensaios sobre o tema e os autores referidos no título, o livro inclui alguns dos textos mais interventivos que tenho ultimamente produzido, nomeadamente o Manifesto "Refundar Portugal", que deu origem ao Movimento Outro Portugal, um movimento informal de reflexão e acção cívica e cultural que visa reinventar um Portugal melhor para todos e mais conforme aos grandes desafios do século XXI: o pleno desenvolvimento humano, um novo e melhor paradigma educativo, social, económico e político, o diálogo intercultural e inter-religioso, a harmonia ecológica e o bem de todos os seres sencientes. Desde Novembro de 2009 o MOP conta com mais de 1300 adesões.

Segue uma breve apresentação da obra.

Conto com a vossa presença e a extensão deste convite a todos: amigos, indiferentes e inimigos! A Vida é Festa para a qual todos são convidados.

Saudações cordiais

Paulo Borges

..........................

Este livro é uma reflexão acerca da vocação universal de Portugal, em diálogo com alguns dos seus maiores poetas, profetas e pensadores: Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
Este Portugal e esta vocação designam, num sentido, a predisposição para uma convivência planetária, mediadora de um novo ciclo cultural e civilizacional, sob o signo de uma globalização ético-espiritual, contrastante com a económico-tecnológica. Noutro sentido, esta visão de Portugal assume-o como símbolo do próprio homem em busca de se realizar plenamente.

A isto se chama Uma Visão Armilar do Mundo, conforme o símbolo que tremula na nossa bandeira: a perfeição, plenitude e totalidade da esfera e, nas suas armilas, a interconexão de todos os seres e coisas, tradições e culturas, artes e saberes. Muito antes de ser o emblema de D. Manuel I, é essa a maior fecundidade simbólica da Spera Mundi, Esfera e/ou Esperança do Mundo: ao invés do nacionalismo ou patriotismo comuns, a cultura portuguesa e lusófona tenderia a converter muros em pontes, fronteiras em mediações, limites em limiares, numa abertura ao planeta e ao universo, a todos os povos, nações e seres, a todas as línguas, culturas, religiões e irreligiões. Uma visão armilar do mundo é uma visão-experiência integral e holística do mundo, sem cisões, exclusões ou parcialidades.

Numa era celebrada como multicultural, mas ainda tão cega para o entre-ser universal, aqui se invoca a Esfera Armilar como actual paradigma da reinvenção de Portugal como nação de todo o mundo, que vise o melhor para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, que não separe o bem da espécie humana da preservação da natureza e do bem-estar de todas as formas de vida senciente.

Paulo Borges

umoutroportugal.blogspot.com
jornaloutro.blogspot.com

sábado, 13 de março de 2010

"Ulisses e Abraão", um artigo de Anselmo Borges no DN de hoje

Um artigo no espírito da nova revista Cultura ENTRE Culturas, publicado por um distinto membro do seu Conselho de Direcção:

"Pode discutir-se, mas é sugestiva, a comparação feita pelo célebre filósofo E. Levinas entre Ulisses e Abraão como figuras paradigmáticas da relação com o outro.

Ulisses, depois da Guerra de Tróia, de volta a casa, vive a aventura de encontros múltiplos com outros, experiências variadas. Travou combates, enfrentou obstáculos sem fim, conheceu o diferente. Coberto de vitórias e glória, regressa. Mas, chegado a casa, mesmo disfarçado, "diferente" do Ulisses que partira, é ainda o "mesmo", que o seu cão, pelo faro, e Penélope, pelo amor, reconhecem. Ulisses representa o herói do regresso, que contactou com o diferente apenas para, num mundo domesticado e assimilado, o reduzir ao mesmo.

Abraão ouviu uma voz que o chamava, e partiu da sua terra, para nunca mais voltar. A sua viagem vai na direcção do novo, do não familiar, do diferente, do Outro. Ninguém o espera num regresso ao ponto de partida. Há só uma palavra de promessa que o chama para um futuro sempre mais adiante. Abraão ouve, caminha, transcende. A sua identidade transfigura-se a cada passo, é processual, histórica. Rompe com o passado, e o seu êxodo vai no sentido de um futuro imprevisível e novo.

A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. Claro que cada um, cada uma é ele, ela, de modo único e intransferível - a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: "ai que me roubam o meu eu!", clamava Unamuno -, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas.

É, portanto, preciso pensar a unidade na diferença e a diferença na unidade. A unidade sem diferença é a mesmidade morta, mas a diferença sem unidade é o caos sem sentido. O mesmo se deve dizer da identidade: ser si mesmo na relação, mas sem se deixar absorver pelo outro.

Descartes acentuou o primado da subjectividade, do eu, contrapondo-lhe Levinas, em antítese, o primado da alteridade, do tu. Mas, afinal, se não se pode prescindir da alteridade, caindo no perigo do solipsismo, também é necessário evitar a tentação daquela afirmação do outro que parece prescindir do eu, caindo numa espécie de alterismo. Como escreveu M. Moreno Villa, a verdade não se encontra nem no solipsismo nem no alterismo, mas na subjectividade e na alteridade, "afirmadas ambas simultaneamente no círculo ontológico interpessoal".

Há várias imagens para esta afirmação simultânea da identidade e da diferença. Por exemplo, na música - o famoso compositor e dirigente de orquestra Daniel Barenboim apresenta precisamente a música como a grande imagem do que deve ser o diálogo intercultural -, há múltiplos instrumentos (de corda, de percussão, de sopro, podendo a orquestra ser ainda acompanhada por um coro de vozes) - e, de todos juntos, até em contraponto, resulta uma sinfonia: a unidade de diferentes. Num tecido, há múltiplos fios, que se entretecem de diferentes modos, configurando uma unidade. Numa rede - e cada vez mais é preciso pensar em rede -, há múltiplos nós. Ora, os nós, que significam a identidade própria, só existem precisamente na rede, de tal modo que não há rede sem os nós nem os nós sem a rede.

Num mundo global cada vez mais multicultural e multirreligioso, é urgente repensar a identidade sempre a caminho, no quadro de múltiplas pertenças, e, para lá do multiculturalismo e do multirreligioso, que sublinham o "multi", avançar para o diálogo intercultural e inter-religioso, sublinhando o prefixo "inter", que implica um caminho de interacções múltiplas, sendo a identidade mais uma meta do que um ponto de partida, num horizonte que sempre se desloca na medida em que se marcha para ele. O seu símbolo é mais Abraão do que Ulisses".

Publicado em:
arevistaentre.blogspot.com

terça-feira, 9 de março de 2010

Aung Kyaw Htet







Religião e Ciência



Serei um dos conferencistas, junto com José Augusto Mourão e Celeste Natário, do painel "Religião e Ciência", na 5ª feira, 11 de Março, pelas 21.30, na Reitoria da Universidade do Porto. Esta é a penúltima sessão do ciclo "Diálogos com a Ciência".

domingo, 7 de março de 2010

A procura do essencial: crónica de Frei Bento Domingues no "Público"

(Frei Bento Domingues deu-nos a honra de aceitar pertencer ao Conselho de Direcção da revista Cultura ENTRE Culturas)


1.O maior inimigo do cristianismo é a ocultação do essencial. Todos os textos do Novo Testamento – cada um com o seu estilo – são narrativas de rupturas, de processos de transformação, de actuações escandalosas, para tocar no que há de mais decisivo na prática de Jesus, que saltou as barreiras das convenções sociais, culturais e religiosas em que nasceu. Hoje, alguns historiadores parecem apostados em mostrar que não há rupturas. Fazem um esforço espantoso de investigação para reduzir Jesus e a sua mensagem a uma das correntes do mundo judaico. Se, antes, certa apologética e certas elaborações cristológicas faziam de Jesus uma figura celeste caída do céu no seio da Virgem Maria, sem história nem geografia terrestres, hoje, procura-se explicar tudo pela sua condição judaica e pelas ideias correntes no judaísmo plural do seu tempo. Para eliminar falsas rupturas, acabam por não explicar como é que Jesus se tornou, por um lado, uma figura tão polémica no interior do judaísmo e, por outro, uma figura universal, interpretada por S. Paulo como não cabendo nos limites do judaísmo. É certo que Jesus não deixou nada escrito acerca das suas experiências, das suas perplexidades e das suas opções. Se eliminarmos, porém, a originalidade inconfundível da sua personalidade e da sua mensagem, dentro e fora do judaísmo, de quem falam os textos do Novo Testamento, tanto os canónicos como os apócrifos? Haverá, dentro dessas narrativas, alguma outra personalidade que o possa substituir e a quem possam ser atribuídas as acções e as palavras de Jesus?
Comecemos pelo princípio. Jesus levou muitos anos a encontrar o seu caminho. Quando julgou que o tinha encontrado guiado por João Baptista – o seu baptismo, de tão incómodo para o seu prestígio, deve ser um facto histórico – tem uma experiência que o afasta deste mestre para seguir o seu próprio caminho. Essa experiência vem narrada em todos os Evangelhos, embora segundo a perspectiva de cada um. O céu abriu-se e a sua voz era diferente da pregação avinagrada de João Baptista: és um filho muito amado. A partir daí, sentiu a necessidade de fazer um longo retiro para tudo rever. Foi tentado, nesse retiro, pelas figuras do messianismo do seu tempo e, no fundo, pelas maiores e constantes tentações humanas.
2. Um messias verdadeiro tinha de se apresentar com uma solução clara para os problemas económicos, políticos e religiosos do seu tempo e do seu povo. Jesus, no retiro, foi atormentado por essas expectativas, que ele interpretou como tentações diabólicas, isto é, tentações que o desviavam, radicalmente, daquilo que pretendia fazer e daquilo que lhe parecia mais importante.
Conta o Evangelho de Marcos que até os discípulos que escolheu não compreendiam o seu caminho. Entre o capítulo quatro e o capítulo dez, isto é repetido oito vezes. Jesus vê-se obrigado a dizer a Pedro, figura destacada do grupo: arreda-te de mim Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas dos homens (Mc 8, 33).
Donde vinha este desentendimento? Os discípulos não queriam abandonar a teocracia implicada na noção de Reino de Deus. Julgavam que tinham sido chamados por Jesus para participarem no reino do poder da dominação divina, segundo os modelos dominantes do messianismo. Esta obsessão era tão grande e tão persistente, colocando os discípulos numa vergonhosa luta interna pelo poder, que Jesus sentiu a necessidade de os reunir a todos para lhes mostrar que estavam completamente enganados. Na sua proposta não havia “tacho” para ninguém. Quem quisesse ser o primeiro que se colocasse ao serviço de todos: o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos (Mc 10, 45).
Mateus (23, 8-11) não atenua o combate ao carreirismo na comunidade cristã: Quanto a vós, não vos deixeis tratar por “mestre”, pois um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis “Pai”, porque um só é o vosso “Pai”: aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por “doutores”, porque um só é o vosso “Doutor”: Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo.
3. Chegados a este ponto, fica claro que nenhuma teocracia se pode reclamar de Jesus nem ele propôs qualquer modelo económico, político, cultural ou religioso. Não por indiferença, mas porque pertence aos seres humanos, dos diferentes povos e culturas, elaborá-los. Fica, porém, um critério e um fermento: só vale, do ponto de vista humano, aquilo que se fizer para serviço de todos, não para dominação de uns pelos outros, sabendo que cada um se considera demasiado grande para ser, apenas, um bom irmão.
Tocámos no essencial. Jesus, a partir de uma experiência divina, vinha revelar que todos os seres humanos estão inscritos no coração de Deus e que a tarefa de cada um é inscrever os outros, mesmo os inimigos, no seu próprio coração. Neste reino não há excluídos. Quando fez esta revelação, narrada por S. Lucas, o próprio Jesus se comoveu e exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo (Lc 10, 17-22). Era a primeira vez na história humana que se ouviam estas palavras.
A Quaresma, como retiro, destina-se a rever tudo e a ficar com o essencial. Que Deus nos perdoe a todos.