segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A vida a sério e a morte da (na) seriedade


“Nada há mais lisonjeiro para os amadores do génio do que conceber o génio como todo-poderoso senhor da vida dos homens. Mas quem zela mais a verdade do que os senhores homens de génio sabe que o génio ou é espírito ou nada é. Se é espírito, ele não pode conduzir, dirigir, guiar, coisas estas que o espírito ignora (o espírito verdadeiro mostra, não conduz). Muitos homens puseram, certamente, o seu génio a servir as próprias ambições. Eles quiseram conduzir, dirigir, guiar, acabaram por ser conduzidos, dirigidos, guiados para o que muitas vezes não esperavam, e não poucas vezes para a morte ou para a ignomínia. Os séculos volvem uns atrás dos outros e os homens de espírito vão atraiçoando a sua missão continuam a pregar que conduzem, que dirigem, que guiam. Ora quando todos os homens compreenderem o não-sentido disto e se convencerem de como cada um cumpre guiar-se a si mesmo, convicção que não seja mera convicção externa, mas que traga consigo o sentido da necessidade de transmutação profunda dos valores do sentir, saber e julgar nela implicados, o sentido do esforço pessoal e de incomunicáveis resultados a realizar para atingi-lo, começará a vida sobre a terra. Até isso só poucos vivem, até lá está-se na fase de preparação da vida, não na vida.”

|José Marinho, “Sociedade e rebanho”, in Ensaios de Aprofundamento e Outros Textos, INCM, 1995, pp.123-124.

"... é respeitando a diversidade em que tudo se manifesta, que podemos verdadeiramente afirmar a unidade para que tudo tende"

"O pensamento político tem como o religioso o grave escolho do dualismo. Mas há para além do pensamento dualista um pensamento unitário, como há para além do ser dicotómico um ser uno. No desenvolvimento da existência do homem singular ou do homem em sociedade se vão estabelecendo distinções entre alma e corpo, espírito e matéria, ideal e real, bem e mal, verdadeiro e falso, sábio e ignorante, governante e governado, nacionalismo e internacionalismo… Mas o homem que em cada uma delas se manifesta não está em qualquer delas inteiramente: assim numa ideia ou num sistema de ideias não está todo o pensamento do homem, assim num acto de amor ou numa vida de amor não está esgotado o amor.

Importa, pois, caminhar para além das opiniões, não por um desejo de que a unidade fosse, mas pela certeza de que existe. O sentimento de sermos implica unidade, mas uma é a unidade que nos é dada com o ser, e esta é obscura, precária, e para manter-se solicita o seu contrário; outra é a unidade pura e inalterável. Para ela a verdadeira vida é incessantemente caminhar, pois por ela tudo existe. Mas não é unidade absorvente, não é qualquer pálida e majestosa uniformidade. Realizamo-la não negando o que somos, mas procurando cada vez mais pura consciência do que tendemos a ser. E assim não há um partir para a unidade suprimindo a diversidade. Mas antes é respeitando a diversidade em que tudo se manifesta, que podemos verdadeiramente afirmar a unidade para que tudo tende"

- José Marinho, "Sociedade e Rebanho", in Ensaios de Aprofundamento e outros textos, Lisboa, INCM, 1995, p.127.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Nómada

Para a Isabel Santiago,

A Saudade

India 2005 - "Namasté! " - Fotografia de Teresa Lamas Serra

Pois que a saudade vence a irreversibilidade do tempo e a distância do espaço, efectua a síntese, ou mais a união do espaço e do tempo, anulando sua aparente diferença e desunião: e anulando-os finalmente como forças terrenas.
Se quisermos apontar na espiritualidade mundial outro princípio semelhante e inserto numa dada filosofia, lembremos o ioga na filosofia indiana. A saudade é, tal o ioga, na sua vera tradução, união. E ambos como dimensões específicas de duas grandes espiritualidades mundiais; situadas, uma num extremo atlântico da Europa, outra no centro da Ásia. E duas formas diferentes que tomou o mito da reintegração, o que está primordialmente na saudade e no ioga. E ambos como disciplinas de ascese, visando a perfeição do ser e estar no mundo, num estado de consciência superior.
Digamos ainda que a saudade, tal como o ioga, é uma experiencia metafísica e um método do homem ultrapassar seus próprios limites.
E ambos uma via tradicional da sua cultura, abrindo novas e insuspeitas perspectivas e possibilidades ao ser humano. Oposta no espaço terreno ao ioga na Índia, a saudade demonstra-se semelhantemente como meio de libertação do humano à medida cósmica. Mas, notável diferença, a saudade, pelo homem português, levou esse princípio à sua manifestação na História pela Descoberta da terra e do céu. Embora haja também no ioga esta dimensão cósmica, ela não se projectou num acto histórico realizado efectivamente na realidade. Na introversão da alma indiana e não-vontade de intervenção no mundo alheio, mas voluntariamente limitando-se sobre si, não houve essa outra projecção no plano histórico, tal como a nação portuguesa; uma concepção espiritual traduzida extrovertidamente num feito à medida universal, abrindo novo ciclo, a Idade Moderna.
Dizíamos que a saudade e o ioga, são duas vias tradicionais de suas culturas, pois ambos detendo raízes duma outra cultura arcaica, de povos indígenas, antecedendo a vinda dos indo-europeus: na Índia, dravidianos, na Galécia, lígures. Heranças pré-arianas, tal como seu culto comum da Grande-Mãe (…)

COSTA, Dalila Pereira da – As Margens Sacralizadas do Douro através de vários Cultos. Lello Editores, 2006, p.101.

Um Jardim na Neve

Quando anoitecia, a menina saía de casa, abria a porta, depois de ter fechado todas as janelas e ía ver anoitecer sentada na neve. Em cada dia de Inverno a menina, desde que houvesse neve, semeava sentada na neve os seus sentimentos mais fundos. A menina via o sol escurecer a neve como o carvão e fechava, como a luz do sol, os olhos. Fechava-os e chorava. Não se sabe por que chorava, nem o que pensava. Pela manhã, tudo estava liso no chão branco. No jardim nada revelava do que havia sido guardado naquele solo branco. E todas as noites a menina voltava, e sentada chorava. Chorava sem ruído. Pela manhã a neve estava branca e lisa. E a menina não pisava, quando saía, a neve onde estivera sentada. Rodeava o chão branco e havia até quem dissesse que voava. A menina regressava à neve desde muito pequenina, ali descansava e repousava o segredo que de dia a agitava. A menina repetia esse gesto desde cedo e por isso já todos julgavam que seria para sempre. Nesse sítio do jardim onde sentada chorava nunca nada despontara. Uma flor, uma erva, uma árvore de fruto. Solo infértil, solo de segredo e não solo de semente, ali a terra permanecia fechada e nada abria, nada se revelava para além do imenso silêncio da cor escura, da cor calada da terra desolada. Um dia um nómada, vendo o jardim tão florido, perguntou, quando passava, ao jardineiro da casa: “olha lá, por que razão nada há no meio do jardim?” O jardineiro respondeu, com uma rosa aberta na mão, “por causa do segredo de que a terra não quer abrir mão.” O jardineiro continuou: “deves estar bem habituado homem que anda de terra em terra, deves estar bem habituado a ouvir contar histórias assim, por isso, e se é segredo, nada perguntes, nada indagues. O segredo é aquilo que não pode ser depositado sequer na nossa mão. Queres pão dar-te-ei que comer, queres vinho, dar-te-ei de beber, tens frio, dar-te-ei de vestir, mas não te posso dar que contar o que não cabe na tua mão.”
O nómada aceitou o pão, o vinho e a roupa. Um capote parecido com o que havia num velho livro que um dia recebeu de uma menina que, para encher os dias de mérito e poesia, leu tudo o que havia para ser contado. Mas nunca tinha encontrado nada como aquilo. Um jardim sem centro, um jardim abandonado em torno de uma coroa de flores e de cheiros, de borboletas e pássaros cantantes! Que jardim seria aquele sem meio e por tanta beleza e abundância circundado? Tentou distrair-se com outras coisas da aldeia. Conheceu o moleiro, o pastor, o professor, as crianças, e de todos acabava por ouvir as mais belas histórias mas ninguém contava a razão de ser daquele jardim. Como estava a chegar o Inverno, e temendo ser apanhado nas montanhas altas que separavam a aldeia das outras aldeias, resolveu esperar. Dormia debaixo de uma oliveira que se curvava e exalava já o cheiro do seu néctar que ele tão bem conhecia das lamparinas de Inverno, quando à mesa recebia o acolhimento dos que naquele tempo ainda davam, a troco de nada, a ceia, a companhia, o tempo, a disponibilidade. Depois o pastor ofereceu a oficina onde guardava as ovelhas mais pequenas e a criança mais nova a sua casa pendurada na árvore. O nómada pensava que era bom ter tantas casas e não ter nenhuma, que era bom não ter nome em vez de só ter um, que era bom conhecer em vez de ser só conhecido. Pensava até que estava a aprender a distinguir o bem do mal. Os bons do mal. Talvez um dia quando encontrasse o que tanto procurava lhe pudesse dizer: eis o que foi amado sem rosto, o sem nada. O que foi amado e que era Ninguém. Nada tinha e tudo procurava.
Mas numa madrugada ainda de Outono, tendo arrefecido muito nessa noite e por isso tendo começado a nevar, viu levantar-se do chão a menina coberta de branco pelos ombros do centro fechado do jardim. Nada disse e ficou apenas a olhar. A Menina não chorava mas caminhava de olhos fechados. Os lábios continuavam em silêncio a falar, mas de nada adiantaria tentar escutar. Os lábios falavam uma língua sem som. Uma língua só com movimentos de quem tem um dom. Mas que dom seria o dela que a fazia chorar? Pela manhã viu-a sair de casa, coberta de roupa quente e sem chorar. A menina amava os meninos que chegavam sem pais ao orfanato. Como não se podia entrar por ali adentro, ninguém sabia ao certo o que fazia a Menina que chorava e semeava o seu sentir no chão branco da neve. Às vezes os meninos contavam que ela os amava de uma maneira sem igual. Que andava com eles ao colo até os ensinar a andar e depois lhes contava histórias para os ensinar a caminhar por dentro. Muitos anos depois quando voltavam, os meninos procuravam-na para lhe dizerem que eram felizes. A Menina recebia-os com o seu tom suave e pedia ao jardineiro que ensinasse a arte de construir um jardim. Os rapazes aprendiam a arte e partiam. Nenhum deles pode também semear o que quer que fosse no centro fechado do jardim. Como passou a seguir a Menina, de modo discreto e sem curiosidade ostensiva, o nómada viu chegar muitos meninos e partir meninos partirem muitos rapazes. Aprendeu ele mesmo, por detrás das sebes, a arte de semear e colher. Mas não aprendeu a semear na neve. Tentou um dia, já depois da Menina se ter recolhido, semear na neve rosas de cor carmim. Mas o tempo passou e nada ali despontou. As rosas não se manifestaram. Ficaram presas na terra. Que estranha Perséfone seria aquela? Que estranha beleza cativa daquele ritual seria aquela? Quem era esta Menina? Que nome o seu? Foi perguntando às crianças, aos mais velhos, ao sábio, ao sacerdote. Ninguém sabia o seu nome. Ela parecia ser da aldeia desde sempre. O sábio sabia que ela tinha vindo mais o jardineiro, mas não sabia ao certo quando, a data, o início. Nada sabia da chegada, da entrada. O nómada percebeu que a Menina era aquela que por onde passava apagava os nomes, por onde passava apagava o tempo, que onde se sentava apagava o espaço. O nómada sabia que ela só fundava o amor com gestos e histórias sagradas. Os meninos contavam que ela falava com o tom bíblico de uma voz esperada. Que ela nunca contou nada por si criado, nada que tivesse a ver consigo, nada de pessoal, nada de seu. Uma experiência, um desejo, uma memória, uma esperança. E, no entanto, diziam “fala de tudo o que a nossa alma sente e tem falta e sabe a morada dos nossos desejos, o sentido das nossas experiências, recupera as nossas memórias e activa as nossas esperanças. Havia quem dissesse que ela era Maria. Que ela era como Maria. Que Deus para ali enviara uma mãe para aqueles que não a tinham, que Deus enviara para a aldeia a mulher que ainda falava a sua linguagem. E só a linguagem de Deus. O nómada acolheu a ideia com alegria. Num certo sentido parecia que até ele estava mais próximo do que procurava. Que a ser verdade ele só ali permanecia por ser filho de Maria. Mas a ser verdade que esta Menina era Maria, que chorava ela na neve? Que língua falaria ela no centro puro e virgem da terra por onde nada despontava para além do enraizado silêncio de uma terra que não mostra, não dá a ver o segredo da sua potência, da sua bondade criadora e geradora? E assim, todas as noites de Inverno sentia as lágrimas da Menina, via-as na neve como cristais breves, efémeros e pedia: “dai-me senhor a sabedoria para escutar esta Menina!” Mas Deus não parecia escutar este pedido, não parecia acolher esta prece.
Depois de muito ter repetido este pedido e sem perceber a razão de ser desta recusa de Deus, de Deus que tudo lhe dava na abundância certa que pedia, na simplicidade extrema que requeria, não percebia o nómada por que razão Deus não lhe concedia a verdade da Menina.
Foi ela quem um dia respondeu a esta pergunta e não Deus.
Quando um dia e mais outro me segues, e perguntas a Deus o que queres saber Deus recusa-te a resposta. A verdade não nos chega pela resposta. A verdade vem pelo olhar. A verdade é aletheia. O nómada passou a olhar atentamente para a terra escura, para a terra branca. Mas nada descobria. Nada aparecia escrito ou tingindo de cor ou sombra para que pudesse ler, decifrar, ver, olhar.
Desalentado, mas não impaciente, foi acompanhando a Menina todas as noites. Era nas noites de neve que parecia estar guardado o seu mistério e o seu dom. Parecia tudo igual em cada noite. A Menina sentava-se, a Menina chorava, a Menina erguia-se ao fim de algum tempo e durante esse tempo em que estava sentada, a Menina parecia mexer suavemente os lábios como se recitasse algo inaudível. Mas onde lia ela o que recitava? Onde estava escrito isso que entoava? O nómada não encontrou resposta para as perguntas, e continuava, aliás, a perguntar. Mas ver o quê, para além desses movimentos suaves e lentos, demorados e quase indescritíveis? Esta já era, de novo, outra pergunta. Embaraçado no círculo do seu pensamento, nas zonas de sombra em que o mesmo se fechava não podia deixar de pensar na Menina fechada, também ela, no círculo da neve. A Menina pensaria? De facto, pensar é estar de olhos fechados e enraizado nisso que se pensa, num cenário branco e frio, porque pensar é estar arrefecido para o mundo. Nisto, reparou em algo que não conseguia deixar de ver, agora sim, pela primeira vez: os pés da Menina. Os seus pés, depois de enterrados na neve, vinham deformados, traziam atrás de si formas de gelo como se estivessem, quando imersos na neve, liquefeitos e em água. Reconquistavam a sua forma de pés, apenas e só à medida que o tempo passava e entravam em contacto com o ar, a temperatura ambiente, solidificando e reconfigurando a sua forma perdida. Só então a Menina se levantava e entrava na casa.
Nessa noite, reparara em alguma coisa que lhe tinha escapado das restantes vezes em que tentara ver e nada reparava de novo. Acalentado com a descoberta prometeu a si mesmo que na noite seguinte mais haveria de descobrir e tentar ver. Sentia que aquela poderia ser a noite em que aprendeu a ver e a pensar. O dia seguinte não foi fácil de passar. E, até se perguntou por que razão nunca ninguém falara da casa da Menina. Perguntou aos velhos e às crianças, perguntou ao jardineiro que tinha sementes na mão, “como é a casa da Menina?” Todos responderam não saber, menos o jardineiro. Esse sabia e só sorriu. O jardineiro sabia, e era o único que lá entrava. O jardineiro respondeu ao nómada que “não tardaria muito para que ao olhar para o jardim descobrisse a forma da casa, o seu cheiro, as suas cores e percebesse quem eram os habitantes da casa.”
O nómada esperou perto do muro das rosas. Elas floriam sem porquê, mas eram as mesmas. As mesmas desde que tinha chegado. Eram ainda as mesmas! Eram eternas as rosas. Aquele jardineiro, daquela casa, aquele jardineiro era o responsável por ensinar a todas as crianças que passavam pelo orfanato! Essa consciência tornou tudo muito mais ardentemente desejável. Muito mais próximo do sentimento que orientou a sua demanda, a sua passagem e impermanência pelas terras, pela Terra. O seu contacto com os Homens e o seu desejo de abandonar os caminhos que conduzem a parte alguma. O nómada tinha esquecido o nome do seu nome, a idade da sua idade, a sua origem e o seu destino. O nómada estava em errância e não à procura de si mesmo, ou de qualquer coisa para a qual tivesse nome, ou procurasse uma outra finalidade. Nesse sentido, as rosas eternas do muro e daquele jardineiro pareciam ser o sinal de estar mais perto desse sentimento vago e imperceptível nos seus actos, semelhantes aos de qualquer outro nómada. Esse sentimento sem acontecimento até esse instante, e todavia dava-se também conta da sua permanência dentro de si, encontrava algo afim fora de si, uma correspondência entre o sentimento interno e o real. Não um real qualquer, mas um real eterno. O nómada suspirou e ficou abraçado e enlevado no perfume das rosas e na correspondência entre parte de si e uma parte do real. Havia, e havia sobretudo que reconhecê-lo uma coincidência entre a eternidade daquelas rosas e uma eternidade dentro de si. Já ao final da tarde, quando a menina regressava do orfanato, e ao vê-la mover-se e voltar-se na direcção da Lua ainda encoberta pelas nuvens e pela claridade a rarefazer-se, percebeu que havia mais semelhanças entre a Menina e as rosas. A pele da Menina era da cor das pétalas do roseiral, a Menina tinha o mesmo perfume das flores e tinha uma saia com as mesmas dobras e pregas das rosas. “A Menina seria eterna?” – perguntou-se. Para logo de seguida se recriminar e dizer “não devo perguntar, devo ver!” A Menina não tem pés quando está na neve, porque como as rosas, se alimenta pela mesma água e pelo mesmo rio que corre debaixo da terra húmida. Já não se perguntou que rio. Intuitivamente percebeu que rosas eternas se alimentavam do rio da Memória e não bebiam água no rio da Morte. A Menina seria eterna. Descobriu e viu muito mais coisas nesse instante. E que instante tão fulgurante e quente dentro de si! Que felicidade sem alegria, que exaltação sem objecto, que agitação sem movimento, que fragrância sem limite o trespassou… e que frémito invulgar e irreprimível tocou as suas mãos para a escrita! Saltou o muro para dentro do jardim, esse jardim que sentia como extensão do seu pensamento, um reino que alcançou por ter aprendido a ver as relações invisíveis entre as coisas, por pensar pertencer ao seu ser, e estar em condições de o tocar com a dignidade que todas os corpos imperecíveis merecem. Aquele jardim era a casa do seu pensamento, e só o pensamento tem morada. Se tinha sido nómada até ali, devia-se exactamente ao facto de nunca o seu pensamento ter repousado num lugar em que se descobria e descobria a essência do [ser] descoberto. Aquela era, também, a morada do Amor. Mas isso o nómada ainda não sabia, não podia saber. O Amor só vem depois do reconhecimento, e o rapaz estava ainda e só tomado pelo entusiasmo das ideias poderosas que fazem o eu quebrar a sua vinculação com o vazio, o disperso, o indiferenciado e o anónimo.
Dentro dos muros, e vigiado sem perceber pelo jardineiro e pela Menina, fez com os dedos as seguintes inscrições na neve.

Quando os teus pés tocam a água funda da Memória
Tu sabes, ó Menina, o ritmo dos textos sagrados
Tu soletras a força dos textos ditados pelos lábios divinos
Para as tábuas imemoriais da escrita e das escritas,
Tu reconheces os alfabetos e as grafias múltiplas depois de Babel.
Tu ouves os deuses a forjar os nomes, o fogo a atear as relações entre as coisas e as palavras, tu perscrutas as pausas intermináveis e brevíssimas entre as palavras na leitura e reconstituis o sentido de tudo: da primeira à última das sílabas. Tu rasgas o véu opacizante do tempo e vês a juventude perene dos nomes e da árvore, da árvore cujos frutos são nomes. Nomes para o existente e para o inexistente, o presente e o porvir, nomes para o que se não pode esquecer e tu guardas. O que é semear na neve?

Tinha terminado com uma pergunta. Mas não se deu conta. O nómada adormeceu antes dessa consciência de ter violado a única regra que conduzia à casa. Nessa noite não acordou para ver nem a reacção da Menina, e muito menos se a Menina semeava na neve e nela chorava como nas outras noites e nas outras madrugadas de Inverno, no eterno Inverno daquela terra. Sobretudo daquele jardim.
Não pode assim ver, como afinal tinha desaprendido, o que aqui se revela. A Menina saiu de casa e abriu as portas da casa. Nela entraram todas as crianças e todos os velhos, e todos contemplaram os livros e livros sobre livros que naquela casa forravam as paredes. A Menina folheava para cada um o seu, os seus, e contava partes do que lá estava escrito e que os homens já não sabiam ler. Depois de todos terem ouvido parte de uma história que era a sua e não sabiam ter sido contada e embelezada por Alguém, a Menina sentou-os em circulo no jardim e foi colhendo rosas para oferecer a cada um dos habitantes da terra, daquela terra onde os homens não sabiam ler e não entravam em casas chamadas bibliotecas. As rosas colhidas não morriam e não secavam. As rosas colhidas deixavam outras atrás de si. O roseiral não ficou morto nem sem rosas. Cada uma dava lugar a uma nova rosa, a um novo botão.
Seguramente mais felizes do que nunca, por terem percebido que as suas vidas tinham sido contadas e nelas não havia a miséria que o silêncio e a ignorância podem significar no coração esvaziado dos homens. Todos sentiram necessidade de semear na neve, no manto branco que cobre o rio da Memória que os homens perdem mas a Terra não, e todos guardaram, no canteiro das suas casas, no pomar dos seus campos e nos recantos dos bosques e caminhos, todos guardaram, um circulo fechado para semearem rosas, as rosas da sua vida reproduzível, narrável e florescente. Os homens tinham percebido que nada do que é humano é silencioso e mortal. Tinham percebido que a Palavra é a rosa sem porquê, floresce para perfumar e lembrar que o humano está capacitado para o divino, para salvar as suas vidas do esquecimento e da perda. Da incomunicabilidade entre a vida interior e a vida exterior, entre a bondade da alma e a bondade dos gestos. Mas não tinham percebido aquilo que o nómada leu, quando reconstitui pelos sinais espalhados pela Terra, depois daquela noite de deslumbramento e natal, que os livros são rosas sem porquê, florescem porque florescem, porque são filhos de uma eternidade que nos atravessa e recompensa pelas perdas, dores, medos e sonhos irrealizados. Os livros são como as rosas, o perfume sem velhice e decadência, que transformam a ruína em luminescência, a experiência em ideia, o olhar em visão. E a Menina era, afinal, a leitora de todos os livros e por isso de todas as almas. Chamou, como se gritasse nessa e em todas as noites, pela “ME-NI-NA”, mas ela já não podia escutá-lo. A Menina só sabia escutar os que falavam a partir do branco da página e com os lábios fechados. Escutava livros e vidas que tinham sido deixadas emudecidas pela vergonha e pela culpa, por uma sempre consciência de que somos demasiado pobres para sermos contáveis pelo mistério da Palavra, peregrina contingente das nossas almas, talvez por estarmos demasiado habituados a ser contáveis pela necessidade do número que nos agrupa nas classes de toda a subserviência e determinação. A Menina era a leitora e Eva. A que nua se aproxima da árvore e aprende agora a vencer a serpente não pelo discurso, mas pela leitura. Essa é a sua arma para não trair de novo o Paraíso: enquanto a serpente a desafia, a incita, ela não desvia o olhar das folhas e espera pelo fruto que virá e não já pelo que despontou. Adia o desejo e lê os sinais. Atrai a si os nómadas que, tocados pela sua beleza e silêncio, abandonam a Terra em direcção ao Jardim de Deus. Porque Deus, o Jardineiro, não pode responder às nossas inquietações. Deus só pode cuidar daqueles, que como a Menina foram tocados pelo seu mutismo e o aprenderam a ler nas páginas brancas da vida que são alimentadas pela Memória.
O nómada, não obtendo resposta ao chamamento e ao grito, converteu-se ao mutismo e foi viver na casa que tinha sido da Menina. Estava a preparar-se para começar a iniciação. Pegou num livro e nunca mais adormeceu.

Cultura

Portugal projecta-se como um espaço de convivialidade cultural (inter-entre-pan/cultural) a partir do qual a experiência da identidade pode assumir-se como uma via de consumação do Universal na individuação espiritual, ou seja, na abertura ao abissal da com-vivência, no qual o que se descobre limitado procura a completude e a superação da cisão, existencial, territorial, grupal, etc.

A individuação espiritual, apesar de paralela ao egotismo, ao nacionalismo, ao internacionalismo totalitário, não se confunde com estas formas de deturpação do sentido e da finalidade da vida espiritual. Seria sempre terrível vivermos a limitação como o próprio do Espírito, quando Este se oferece na liberdade irrestrita, sempre como absolução do relativo, como sublimação da concretude solidamente fechada em si, como, enfim, emancipação através da qual os simples gestos da existência assumem um significado plenificante.

Se nos descobrimos como seres com múltiplas limitações físicas, psíquicas, noéticas, práxicas… é porque estamos a tomar consciência das nossas ferramentas agápicas (e eróticas, Eros absolutiza-se em Agapê), do nosso manancial de recursos inerente à nossa condição de seres capazes de amar, de seres que no Amor encontram a sua mais viável e sólida capacitação.

Assim, tanto os dons como os bens que possuímos ao nível da existência material, são inerentes à nossa condição de conviventes, de seres de expressão e conversão, de conversação. Há uma filologia vital que nasce da descoberta do Espírito como o que rasga o hábito (a rotina) e a descrença na vida sem limitações extrínsecas. Isto é válido também para os povos: as fronteiras são pontes, são instâncias de abertura.

O Outro só existe como o que se opõe ao Mesmo se não acedermos ao que é próprio: o que é próprio é que cada ser é único e na sua irrecusável liberdade não tem que ser conforme a nada de exterior ao seu fluxo vital, ao seu sopro insubstante, à sua realeza sobre este mundo.

Não há estrangeiro, nem nacional. No mundo do Espírito não há máquinas totalitárias de criação de espaços de contenção da convivialidade fraterna. Por isso as Línguas são a manifestação mais pura do fogo do Espírito. Uma Língua não é uma entidade fechada, não é um dispositivo de sujeição espiritual, antes um território utópico que está continuamente, enquanto for vivo, animado por um influxo de transubstanciação, de transmutação, de abdicação de si numa projecção para a universal entre-expressão que, se alguma vez atingida, tornará as Línguas e os seus falantes capazes de tudo dizer e de tudo entender, com ou sem palavras, pelo Amor.

Uma Língua não é uma mercadoria, nem deve servir para criar ‘mercados’ de desumanidade. Porque aos não falantes duma Língua não lhes falta nada, em nada são menos ou mais que os outros. E só haverá Paz no mundo através da vida do Espírito. Isto quer dizer que tudo o que servir para discriminar os seres uns em relação aos outros, enquanto existir, será um obstáculo à Paz.

Nada existe que não seja resultante da co-presença de tudo em tudo.

Daqui resulta que a nossa apropriação do mundo deve ser ética. Antes de tudo o mais o que importa é a nossa abertura compassiva em relação ao que de nós poderá ser requisitado pela patência do Amor. É no ser-com que o nosso ser assume a sua verdade existencial.

A Cultura irrompe deste espaço de disponibilidade grácil, desta exuberância radical de que tudo nasce e que permite a criatividade como o que brota da mente, vindo de além e indo para além dela. Aquilo a que comummente se chama “cultura” surge quase sempre sem nascer, não ‘brota’ do sem fundo, é produzido, surge no mundo investido daquela dispersividade egolátrica que gera a inveja, a arrogância, a consciência alienada para a qual o mundo só pode ser um concurso de aves canoras sem a possibilidade de consonância. É a concorrência das máquinas cadavéricas que adiaram sine die o seu Encontro com a vida para, na certeza da morte, erigirem o seu mausoléu, recheado com tudo o que em si mataram de belo e de bom, em nome da ‘fama’, da ‘posteridade’, da ‘notoriedade’.

A Cultura, no seu sentido autêntico, é a convivência dos criadores na liberdade sem limites do Espírito. Criadores são todos os que se descobrem em ruptura com o viver domesticado, tornado mercadoria, esventrado de todas as entranhas de onde a insubmissão pode ganhar forças e voz. Criadores são os que assumem a patência do Infinito no finito. Podem ser pintores, escritores, sem-abrigo, crianças a brincar na rua, idosos a jogar às cartas no jardim, mulheres, homens, pássaros, cães, cientistas, malabaristas, inventores… Entre uns e outros venha o diabo e escolha. A escolha diabólica nunca é criativa, a criatividade é simbólica, por isso os seus frutos (o termo ‘obra’ está demasiado contaminado pela sujidade da Razão Pura) são sempre maduros, ou seja, nunca estão acabados porque abrem sempre para o que deles poderá nascer, resultado de germinação ou contaminação.

Não faz sentido preterirmos este ou aquele indivíduo em nome do que quer que seja que nos permita compreender o incompreensível. Embora tenhamos que nos manter inamovíveis na imensidade. Não significa isto, portanto, que tudo é aceitável. Há um combate radical a empreender em qualquer via espiritual, um combate afirmativo, de fidelidade à verdade da vida uni-multímoda. Cada acto de criação instaura uma fonte de sentido que pode elevar quem dela beba ao estatuto de criador. Criar nunca é um acto isolado, é uma ferida na pele coriácea do mundo da oferta e da procura. A doação e a aceitação em (com) reconhecimento, isso deveria ser a base da divina economia do mundo, da eudemonia política.

Possam os dons da Cultura ser gráceis. E que o sermos em sociedade possa expandir-se no Reconhecimento e na aspiração à disponibilidade para o Imprevisto.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Livros do Mundo: uma ponte em escultura com livros




Brian Dettmer World Books 2009 Altered set of Encyclopedias

A arte de Brian Dettmer pode ser vista aqui: http://www.flickr.com/photos/briandettmer/

entretanto, no dia da passagem


No dia da passagem
Das palavras
Deponho uma coroa de silêncio
Para te vestir.
Abrem-se os poços dágua fria, transparente
Os ferrolhos das portas saltam
Passados pelo fogo no dia da rejeição
Ficará vazia a balança
Enquanto conversamos
No caminho já e ao fundo
Os amigos comem bolos de cereais e bebem cerveja
Barata no dia da pesagem
Das palavras enquanto caminhamos ao fundo
Longe tão longe que já deixaram de nos ver
O barco sagrado à vista dos senhores de Tuat
Leões e touros hieráticas sombras
O deserto à vista dos livros com os nomes
Primogénitos, varinhas de condão
Aceites ao convívio pela senhora da Casa
Ao convívio mesmo com o nome que se esconde
Um nome como um país com milhões de anos
Ó criaturas de barro
Ao qual regressaremos
Filhos que amamos o pai, filhos terrenos.
Caminharemos portanto sobre as águas
A estrela matutina cintila nas prateadas ondas
Saídos de dentro de um pano para um canto divino
Palavras escondidas que germinam continuamente
Palavras que não foram pesadas na balança
Em que depus o silêncio
Ventos favoráveis vamos a passos largos
No tempo ilimitado
Centelhas múltiplas de muitos caminhos
O manto sagrado sobre as cabeças
Um deus na proa servos resplandescentes
Avançando pela noite como remos de prata
Peixe das águas-turquesa
Sairemos à luz e não nos reconhecerão
Seja feita a Sua vontade
Pela porta oculta do silêncio
Na passagem sibilina das palavras
Onde sem querer nem saber nós vivemos.

Se tivesse três centimetros de cera negra encontraria a forma. Modelaria a existência. De olhos fechados saberia se é amorosa a curva de cada sentir.

Bastaria sentir o pulsar para eu saber se é branca a cor daquele que respira.

Se eu tivesse três centimetros de cera preta eu ouviria o silêncio e saberia a hora de partir.

Parece que a neve se instalou na montanha. Tão longe.

UM PEIXE FORA DO AQUÁRIO

Todos os anos a família comemora o seu aniversário. Meu pai diz que a família é uma coisa que sempre existiu, minha mãe afirma que a família é mais que uma coisa mas concorda com seu tempo de vida. Numa data ao acaso festejamos o nosso aniversário.
Houve um tempo em que os velhos eram os responsáveis pelos festejos. Bons vinhos, queijos e presuntos eram escolhidos com todo requinte. Uma prima austríaca, obesa pela ausência da nicotina, trazia o esperado bolo moca como se este fosse o seu ingresso na festa.
Dos funerais lembro de dois, os dos últimos personagens que zelaram pelas nossas risadas. Os mesmos que reclamavam cansados dos nossos excessos. Depois deles as festas foram ganhando a cor da saudade. O vinho descobria sem vergonha a amargura das nossas risadas teimosas. O bolo que é agora comprado na pastelaria da esquina é tão indigesto como o resto da refeição.
Esperançados do sabor do passado a família reúne-se teimosamente todos os anos.
Enquanto a risada corre à solta nervosa, um grita EXISTO! o outro questiona DESDE QUANDO?
Ninguém dá pela tristeza, ninguém dá pela dor porque a vontade de outrora inventa a verdade. Se no fim da noite precisamos de um antiácido é somente porque abusamos do álcool.
Este ano acreditei na festa. Passei o dia a preparar um sorriso. Acordei a lembrar-me criança – um tempo que perco todos os dias.
Mal passava das oito quando meu pai telefonou:
- Já cá estamos todos filha! Estás atrasada ...
Minha irmã telefonou bem cedo avisando que o jantar seria num restaurante indiano. Lembrei com saudade a casa da minha avó. Lá ninguém vendia flores no meio da refeição.
Peço desculpas explicando que me perdera pelo caminho. Dei várias voltas à praça sem nunca encontrar a saída. Afinal bastava virar o rosto para a esquerda. Uma casa iluminada como se fosse Natal convida sem pudor quem passa na rua.
Uma sala vazia de gente. No canto esquerdo várias mesas esperam os clientes. À direita dois sofás para quem venha necessitado de algum descanso.
Pergunto pela reserva da família Alcobia. Um rapaz tímido aponta para o centro da sala. Espantada reclamo:
- Lá onde você aponta só tem um aquário...
O indiano teimoso repete:
- A família Alcobia está a jantar ali...
Julguei ser o português enviesado do simpático indiano responsável pela minha dificuldade de entendimento. Certa de esclarecer o equívoco corro para o centro da sala.
Não sei como explicar mas a verdade é que a minha família jantava no interior de um enorme aquário. Timidamente soco uma das paredes. Todos me acenam contentes.
Ninguém dá conta porque não entro, nem eu consigo descobrir como transpor o obstáculo. Quando o vinho aparece encho o copo. Na hora do brinde meu cálice encontra a parede de vidro num dó sustenido que contrasta com o eco surdo dos copos do lado de dentro.
O empregado de mesa sabe como entrar e sair, enquanto eu brigo com uma galinha massala no meu prato.
Será que mataram os peixes? Não consigo entender o que faz aquele carangueijo abraçado ao pescoço do meu primo...
Despeço-me mais cedo. Abro um sorriso. Volto a pedir desculpas pelo meu atraso.
Meu pai solta uma gargalhada sonora (uma daquelas quase igual as de antes)
- Pois, se fosses pontual não jantavas do lado de fora...

No próximo ano, quando a minha irmã telefonar não posso esquecer de perguntar se me dão umas garrafas de mergulho caso eu chegue a horas.
Tenho medo que me falte o ar.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

vai...mas volta

Sem dizer porquê vai ao princípio da terra banhar o teu coração
Torna-o quente para que se entenda ao falar
Depois volta com a luz sobrante dos relâmpagos
Acende os bagos que jazem na terra derramada
Toca nos homens pela raiz
Dá-lhes a força de uma casa cheia
E por fim faz cair sobre este mundo
Um poema sem vontade de dormir

Escola Aberta Agostinho da Silva, em Alhos Vedros

Tormenta Adulta

Em aliança com a natureza;
O menino brinca criando,
Em seu quarto fica sonhando,
É feliz não acorda tristeza.

Mãe de que o criaste?
Seus sonhos são efeitos celestes,
A paixão da essência que lhe deste,
Criança guerreira de um futuro agreste.

Ao mundo, ingénuo desabrochou;
Uma realidade em criação natural,
Vê-de menino, nos teus olhos o céu chorou.

Que fantasia transcendental!!!
Espelho presente, a minha face mudou,
Espera criança pelo teu vendaval.

poema enviado pelo Companheiro Diogo Correia

Teresa Balté: As aves que evoluem não regressam

Não o pombo futurista mas a sombra
no ângulo vazio a folha de hera
e as orquídeas brancas na garganta
a vertigem do grito o labirinto a lâmina

as aves que evoluem não regressam
devoraram o espaço onde existiam
assinalam agora outras galáxias
cicatrizes rosáceas

a asa é o recanto da memória
o vértice onde o corpo não pesou
agora só gorjeio a harpa morna
musgo nos olhos o anjo de granito


Poema Anjo de Teresa Balté

Escultura Eternity de Derrick Ivey

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

"O inferno é uma ideia de alquimista"

"O inferno é uma ideia de alquimista: os pecados serão transformados em fogo; também o homem será mudado. Segundo os alquimistas, mais importante do que a transmutação da matéria é a própria mudança do homem que age sobre ela"

- Murilo Mendes, Conversa Portátil

jorge de lima invenção de orfeu

canto III / poema XVIII

No dia seguinte:
chamados da terra,
o poema de leva,
te dana, te agita,
te vinca de cruzes,
te envolve de nuvens.
Quem sabe aonde vai
parar no outro dia?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

HEIDEGGER: ARTE, OBRA, ORIGEM, MISTÉRIO E ENIGMA, por Isabel Rosete

I.

Partimos do texto Der Ursprung des Kunstwerkes, escrito por Heidegger em 1935/1936 no intuito de pensar, com o autor, a complexa problemática que gira em derredor da Arte, da obra, da origem e do enigma, ou por outras palavras, quisemos reflectir sobre a origem da obra de arte e o enigma que a arte é em si mesma.
Se Heidegger é o filósofo por nós eleito para apresentar e quiçá ilustrar estes pontos fundamentais de toda a compreensão onto-artística contemporânea, Van Gogh e as suas múltiplas versões do tema «Um Pares de Sapatos», a que Heidegger indiscriminadamente se refere sem a precisão adequada – o comentário do filósofo dos caminhos que enigmaticamente não conduzem a parte alguma, é tão generalista que se pode aplicar a qualquer uma das obras realizadas pelo artista, sobre este tema, em períodos diferentes – é o pintor escolhido, esse autor consagrado da “Grande Arte”, como meio de mostração do “pôr-em-obra da verdade”.
É esta a tese central do pensamento heideggeriano que coloca a verdade como categoria estética fundamental, ao destruir, por um lado, o império fugaz do Belo inteligível, universal, pelo qual se todas as coisas são belas são-no apenas porque nele participam, ou então, porque este é uma propriedade do objecto, ou porque reside no sujeito que põe por si mesmo a beleza na coisa contemplada; e, por outro, ao destronar o reinado da emoção, da experiência-vivida (Erlebnis) como características fundamentais da criação e da contemplação estética.
A Arte e a obra no seu dar-se primordial mantém-se sempre envolvida no enigmático mistério que é próprio do dar-se do Ser no espaço vazio da tela na partitura sem notas do compositor musical, na pedra informe do escultor ou no papel em branco do poeta.
Movendo interiormente o texto em estudo e a reflexão heideggeriana sobre a arte, está a convicção de que uma interpretação metafísica da obra de arte, longe de a esclarecer na sua essência e origem, antes a perverte na sua constitutiva realidade. Correlato da nossa postura filosófica ocidental, este tipo de perspectivação metafísica da arte, que o autor, aliás, sem suficiente problematização, identifica com Estética, procuraria fazer da arte uma manifestação cultural sem mais, sempre reconduzível ao homem, procurando dilucidar-lhe uma criteriologia que afinal mais não é, para Heidegger, do que a aplicação de valores de civilização, de padrões de auto-avaliação importados do saber teórico, que em nada esclarecem a essencial radicação da obra de arte, de todo descurando a sua fundamentação na problemática ontológica, verdadeiro nexo dinâmico da reflexão heideggeriana.
A Estética procura esclarecer as modalidades de patenteação e juízo do Belo, bem como a relação intrínseca e insuperável entre os termos autor – obra de arte – espectador, descentrando, deste modo, a reflexão da própria realidade da obra, e esquecendo a sua ancoração fundamental ao plano de fundo despoletador da existência da mesma. É assim que Heidegger afirma em Einführung in die Metaphysique: «Devemos dar ao termo ‘arte’ e àquilo que ela quer designar um novo conteúdo, em encontrando primeiro uma posição fundamental originária quanto ao Ser» .
O modo de apresentação da nossa investigação poderá sugerir que a tematização heideggeriana, enquanto procura relevar a temática ontológica necessariamente subjacente à questão da obra de arte, é, neste intuito mesmo, uma reflexão sem falhas.
Porém, adiante o veremos, a reflexão do filósofo sobre a essência da arte antes desemboca na impossibilidade de superar a mútua implicação metafísica. Permanecemos com o primado da questão ontológica, enquanto postura interpretativa, sendo a arte um dos horizontes de reflexão em que se repõe inevitavelmente a questão do homem e da sua proventualidade historial, esses dois termos que mais unidamente se imbricam.
Se Heidegger utiliza a sua própria reflexão sobre a arte como momento privilegiado da própria des-construção dos pontos nodais do seu pensar – questão do Ser e da diferença ontológica – parece-nos que tal abordagem não perde por isso a sua pertinência.
Se a questão da arte, e a da obra de arte, ela própria, perdem algo da sua autonomia e não são perspectivadas como absolutos, na sua postura pura e simples, é, por outro lado, patente, a relevância que o filósofo assigna à arte como momento instaurador, e à obra de arte como lugar de presentação dos dilemas insuperáveis da dinâmica do Ser, e como in-stância mostrante, quiçá mais do que qualquer outra, do referente enigmático da questão ontológica.
Mesmo enquanto momento lateral da reflexão de Heidegger sobre o Ser, e apontando justamente para ela, o texto que aqui comentamos não deixa, por isso, de ser extraordinariamente significativo. Se a arte perde, inevitavelmente, horizonte hermenêutico próprio, a sua relevância no pensar heideggeriano não é por isso menor.
Antes relevando a proximidade da questão da origem da arte e do seu carácter enigmático com a fonte originária e indizível do brotar do ser para a patenteação que se dá como a própria obra de arte, ao  do homem, na sua postura a um tempo historial e de Dasein. Trata-se, pois, de relevar que enigma é esse que a arte acolhe.

II.

Se se procura descortinar a origem da obra de arte, a sua proveniência essencial, então o que indubitavelmente se persegue é o modo próprio de desdobramento do ser da obra enquanto ente (Seiend) que é.
Por sua vez, se a tríade obra de arte – artista – arte não torna a inquirição futurível, pois que inevitavelmente se recai em círculo vicioso, e nem a determinação da essência da arte é possível através da contemplação comparativa de distintas obras ou da dedução do que a arte seja a partir de conceitos superiores, inevitável é o procurar deslindar o que a obra de arte é na sua pura realidade.
Trata-se de procurar destilar as propriedades da obra de arte em relação aos outros entes, pois o horizonte em que primariamente a obra nos surge é o das coisas que são, havendo que relevar se a obra é coisa (Ding), se diz outra coisa além da coisa que é ( ), e é então alegoria, ou se, sendo coisa, a ela está reunido, adstrito, algo de outro, caso em que a podemos caracterizar como símbolo.
Relevando agora a dimensão de tudo o que é de algum modo ‘aparente’, e fazendo-o procurando conectar os termos obra-coisa, num percurso que não vamos aqui pormenorizar, cedo a reflexão heideggeriana estabelece que o que na obra de arte se joga não cabe na caracterização tradicional do conceito de coisa em sua tríplice dimensão: enquanto suporte de qualidades marcantes, como unidade de uma multiplicidade sensível, ou, ainda, nessa concepção mais usual de coisa como matéria informada.
Se estas três determinações insultam a coisa mais do que a captam na sua ‘coisidade’, pois que não a apreendem na sua própria incontornabilidade, isto é, no facto de brotar originariamente para a patência a partir do ser, trata-se agora de enveredar por outro caminho e descortinar se o ser-coisa da obra pode apreender-se no ser do utensílio (Zeug), esse ente particularmente mais próximo do homem porquanto advém à patenteação por nossa própria produção.
Porém, a essência do produto, não reside na sua produção, aspecto pelo qual se assemelharia inevitavelmente à obra de arte, mas na sua utilidade, conferida pela sua solidez intrínseca, a sua ‘fiabilidade’ (Verlässlichkeit). O próprio do utensílio é ser fiável, poder contar-se com ele, assumi-lo como o ente à mão que é, disponível para o uso do homem. Transparece, pois, que a essência do utensílio não repousa no ser do mesmo mas na sua reportação à postura existencial do Dasein, enquanto ser-no-mundo.
Se a obra de arte por si própria tem suficiência, segue-se que a sua essência não é determinável a partir do ser do produto, sujeito à usura que lhe confere a submissão da sua essência às finalidades do homem. De facto: «A obra de arte, por esta presença bastando-se a ela-mesma que é o próprio da arte, assemelha-se mais à simples coisa repousando plenamente nesta espécie de gratuitidade que o seu brotar natural lhe confere. Todavia não classificamos as obras entre as simples coisas» .
Para evitar que a perspectivação do que seja a obra de arte, a partir da des-construção do conceito de coisa, constitua um insulto (Ueberfall) à obra, trata se de eliminar tudo o que susceptível de obstar a nossa acessibilidade à própria obra – incluídos os nossos enunciados sobre ela, e, primacialmente, fazer relevar a constitutiva in-stância da obra, abandonando-se à sua presença imediata (unverstelltes Anwesen).
Trata-se de silenciar o homem para deixar falar a obra: «Nada mais fizemos do que colocarmo-nos em presença do quadro de Van Gogh. Foi ele que falou. A proximidade da obra transportou-nos repentinamente para um outro lugar que o aí onde tínhamos o costume de estar» .
Vemos assim que o que pareceria constituir o nexo interpretativo conducente à determinação da origem da obra de arte – a abordagem da realidade ‘coisal’ da obra (das Dinghafte) – é substituído por outra perspectivação tendente a relevar o que está em obra na obra, ou seja, esta deixa de ser questionada na sua espessura ôntica para ser apresentada como  indiciador de outra presença, como in-stância mostrante.
Este salto, significará a eleição de um novo nó problemático que colocará a obra de arte em directa confrontação, não já com o seu estatuto de coisa, mas com a dimensão fundamental da verdade.
Se já aqui se adivinha o abandono de uma “hermenêutica metafísica” e a abertura de outros espaços de perspectivação, conexos com a noção de verdade, mais tarde veremos como o abandono da inquirição pela onticidade da obra e, por consequência, da sua propriedade e id-entidade, levantará, no seio da perspectivação heideggeriana a algumas dificuldades.
A resolução destas implicará, entre outros aspectos, a cessação da autonomia do sujeito e do processo de criação artísticos enquanto objectos de investigação, com o intento de pensar um novo conceito de arte que, livre de funções miméticas como expressivistas, e, por conseguinte, não mais adstrita ao real já dado como à “experiência-vivida” do sujeito (Erlebnis), se afirme antes como momento verdadeiramente instaurador e poético.
Mas o que é que se faz obra na obra? A verdade de todo o ente que é, coisa ou produto. O ser do que é chega pela obra e sobretudo por ela ao seu parecer: «A essência da arte seria pois: o pôr-se em obra da verdade do ente (Sich-ins-Werk-setzen des Wahreit des Seienden)» .
Esta assumpção da mostração da verdade pela obra de arte, surge na tematização heideggeriana segundo dois modelos interpretativos que podemos consignar nas duas díades: Mundo/Terra, clareira/retraimento. É, a um tempo, no enlaço e no hiato destes dois modelos que a concepção heideggeriana da arte ganha, na nossa perspectiva, a sua mais fecunda peculiaridade.
O que na obra se consigna e apresenta segundo a dicotomia Mundo/Terra está ainda na dimensão não-veladora da verdade heideggeriana. Em rigor, trata-se de perspectivar o que, estando em obra na obra tem relação ao humano, à sua estada na Terra e ao seu desbravar de um mundo, prerrogativa exclusiva do modo de ek-sistência do Dasein: «A Terra é o afluxo infatigável e incansável daquilo que está aí para nada. Sobre a Terra e nela, o homem historial funda a sua estada no mundo. Instalando um mundo a obra faz vir a Terra (Indem das Werk eine welt aufstellt, stellt es die Erde her)» .
Mas, o que é a Terra? Heidegger naturalmente a reporta ao termo grego , essa força que eclode e brota, qual seio de que a um tempo tudo se abre à presença.  é a Terra protectora, o solo natal (Grund) que tudo mantém e alberga em si. E o Mundo? «Um mundo ordena-se em Mundo (Welt weltet)» .
O Mundo é o que na Terra o homem instala e propria, privilégio da estada humana no aberto do ente. São estas duas modalidades de tudo o que é que a obra acolhe em si na sua in-stância (Dastehen), no seu stare, no seu ter-se aí, instalada. Instalar uma obra significa depô-la, erigi-la, oferecê-la ao espaço já constituído, enquanto instância que ordena a amplitude da estada do homem no seio da Terra. A obra é in-stância irradiante e provoca o abrir-se à luz (lichtet sich) de tudo o que em si consigna: ela erige um Mundo (Aufstellen einer Welt) e revela a Terra (Herstellen das Erde).
Poderíamos inquirir-nos, agora, pelo responsável de tal instalação da obra. Porém, o ‘sujeito’ instalador cedo se esvanece na tematização heideggeriana. A obra é sempre reportada à dimensão da mais pura impessoalidade, primando iniludivelmente o seu ser-obra e o que nela se patenteia enquanto presença mostrante: «Como pode a obra requerer uma tal instalação? Porque é ela mesma instalante no seu ser-obra. Que instala a obra enquanto obra? Quando a obra de arte em si mesma se põe, então abre-se um mundo, de que ela mantém para sempre o reino» .
Esse repouso que é a deposição, a oferenda da obra ao espaço já aberto da , não é um repouso sem máculas: no interior da obra, na medida em que erige um Mundo e faz vir a Terra, suscita-se um combate (Streit) entre estas duas instâncias: é na efectividade deste conflito que reside o ser-obra da obra.
É que, se o Mundo aspira à dominação, ele não pode contudo afastar-se da Terra, tal como o apolíneo não pode afastar-se do dionisíaco, pois que se funda sobre ela, qual templo deposto sobre a solidez do rochedo. E nem lhe é possível resvalar para esse fundo etónico que é a própria Terra, impenetrabilidade que o não acolhe. Por sua vez, esta, enquanto pujança e força sempre doadora, para brotar e ser autenticamente si-mesma não pode renunciar ao aberto do mundo e sempre colide com este espaço téctico – expressão a um tempo da expansão e fechamento sobre si. Mas: «Como se produz no ser-obra, isto é, agora, na efectividade do combate, o advento da verdade? O que é a verdade» .
É, de facto, nesta interrogação que ganhamos consciência que a tematização heideggeriana não atinge ainda aqui o seu intento fundamental, antes requerendo uma perspectivação que adiante à dicotomia Mundo/Terra outra mais radical, a saber, a que atine à essência da própria verdade como des-velamento (Unverborgenheit).
O combate Mundo/Terra é ainda metafísico, tem realidade no seio de tudo o que é, na abertura do ente, fazendo porém adivinhar um outro per-passante, mais originário e fundante. É certo que, sendo reserva no interior da clareira, a Terra é o que de mais ser há no ‘visível’ – porém, não é o autenticamente ser heideggeriano, antes remetendo para ele. Terra e Mundo são os dois ramos em que se bifurca a dimensão clareante da verdade, instância impessoal, que acolhe em si mesma um suspenso, sob o modo de uma dupla reserva: verdade é clareira e retraimento, luz e obnubilação.
Consignando em si o enlaço combativo destes dois termos, a obra faz advir em si a eclosão (Aufbruch) do ente no seu todo. «Mas como advém a verdade? Resposta: ela advém em alguns, raros, modos essenciais. Um dos modos nos quais a verdade se desdobra, é o ser-obra da obra» . Indicia-se, pois, aqui, uma oposição suscitadora de um conflito ainda mais original do que o que retratámos à pouco.
É numa aproximação à questão fundamental do Ser e da diferença ontológica que a tematização heideggeriana irá conceber a obra de arte como acontecimento originário e a instauração da verdade na obra como momento radicalmente inaugural.

......................(http://isabelrosetefilosofias.blogspot.com)

Isabel Rosete

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

st


Aqui posso enlouquecer continuamente
tenho pássaros e livros que o comprovam
fazer de conta que
não sequer saber se
amar o sol e a chuva no mesmo verso
e sair a correr como um rio que transgride

Aqui o silêncio é capitão e eu marujo
flores e terra sobre a cama
durmo e trabalho o sonho numa peça única de artista

Nesta máquina de escrever deito a cabeça
esqueço ao que vim
tudo é sexto sentido
quando se respira boca a boca as sombras da infância

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Às seis da manhã
quando a brisa é fresca abro a janela
para que meu corpo quente se aquiete

quero falar sobre o vento
que de mansinho invade meu quarto.
depois desisto.

A sensação deste ar que se espalha
entre meu ombro direito e a anca esquerda
mal daria para um verso de 17 sílabas.

Se eu soubesse suspender o momento
desenhava a curva e seus pontos de fuga,
tacteava a superfície generosa e lisa
desse presente que se escapa.

Se eu soubesse suspender esse tempo
meu texto não seria mais que um sopro
dessa brisa que me acorda todos os dias
às seis da manhã.

Nesse sopro eu escreveria a eternidade.