domingo, 28 de fevereiro de 2010

Eu não sei o que sou / Eu não sou o que sei




"Eu não sei o que sou
Eu não sou o que sei:
Uma coisa e não uma coisa:
Um ponto ínfimo e um círculo"

- Angelus Silesius, Peregrino Querubínico, I, 5.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

"O tempo é a substância de que sou feito"



(Jorge Luís Borges, 1951, por Grete Stern)

"O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrasta, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo"

- Jorge Luís Borges, "Nova Refutação do Tempo", Obras Completas, II, p.144.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Entrevista dada por Isabel Rosete ao "Diário de Aveiro"

Realrosete

“A Filosofia devia ser um dos pilares da política”

Isabel Rosete, cuja vida tem sido dedicada à Filosofia, é autora de várias obras poético-literárias, preparando-se para publicar outras três em breve

Carla Real

Com 45 anos, Isabel Rosete, de Aveiro, possui um mestrado em “Estética e Filosofia da Arte”, é doutoranda na mesma área. Professora de Filosofia, é também responsável pela publicação de várias obras poético-literárias e de cariz científico.

Porque decidiu enveredar pela área da Filosofia?
A Filosofia tornou-se uma verdadeira paixão (eterna), desde o meu 11.o ano. Tive a sorte de me ter cruzado, nessa altura, com dois professores extraordinários, que, até hoje, recordo como autênticos modelos do que é ser, de facto, professor de Filosofia: sabiam o que é a Filosofia, qual a sua real utilidade e como a ensinar, devidamente, aos adolescentes em formação pessoal e social continuada.
Mostraram-me como a Filosofia é absolutamente imprescindível na vida quotidiana, porque só fala do que é e de quem é o Homem, do seu ser e do seu estar consigo mesmo, com os outros homens, com a Natureza e com o Universo; que é essa radical e abrangente área do saber que mostra todas as coisas tal como são na sua autenticidade, rompendo os ignóbeis véus das aparências, sem preconceitos de qualquer espécie, quais cancros que minam, cada vez mais, a sociedade presente, lamentavelmente afastada das lides filosóficas.
Demonstraram-me que a Filosofia é, primeiro: a própria vida em todas as dimensões, e que, por conseguinte, viver sem ela, não é propriamente viver, mas, tão-só, sobreviver de olhos cegos e ouvidos surdos; e segundo: o maior e mais nutritivo alimento do espírito, do pensamento, a que, afinal, nós, Homens, nos reduzimos, sem esses abstraccionismos linguísticos ou conceptuais que lhe costumam atribuir.

E a Psicologia? Quando aparece?
A Psicologia surgiu por arrastamento, embora como um complemento integrante e indispensável da própria Filosofia, sempre com ela interseccionada. Esta outra paixão (também eterna e em crescendo), surgiu quando frequentava o 10.o ano. E, tal como a paixão pela Filosofia, intensificou-se profundamente enquanto cursava a licenciatura de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde tive o privilégio de ser aluna de grandes mestres, de conviver com verdadeiros professores, igualmente modelos de docência, a quem devo tudo o que sei e sou hoje.

A Isabel destaca-se pela forma peculiar como aborda a cadeira de Filosofia, muitas vezes considerada “monótona” pelos alunos. Como faz para os cativar para essas matérias?
Transmitindo-lhes o entusiasmo, plenamente vivo e sentido que, em mim, a Filosofia fez emergir, pela sua irredutível necessidade e utilidade permanente. A Filosofia, que só deve ser leccionada pelos profissionais portadores da convicção do ser filósofo e não por aqueles apanhados pelas negras malhas que regem o docente-funcionário público, “cumpridor” de programas para as estatísticas, é um bálsamo para as novas mentes em formação, e não mais uma actividade supérflua ou um conjunto de ideias abstractas reservadas a uma determinada elite.
Esse cliché de que a Filosofia é “abstracta” surgiu daqueles que subverteram a sua essência em virtude de uma leccionação “monótona”, resultante, não da Filosofia em si, mas de um mero e terrível papaguear de conhecimentos exclusivamente a partir de um manual escolar, sem criatividade de materiais e de estratégias didácticas que estimulem os alunos para o crucial acto de pensar.
O Portugal de hoje é um exemplo, “claramente visto”, da ausência desta atitude nos políticos que nos (des)governam. Esta é uma constatação convicta da real e urgente necessidade da Filosofia como um dos pilares fundamentais onde a política deve alicerçar-se.
O verdadeiro professor de Filosofia é, por essência, um pedagogo, um guia, um orientador que auxilia os alunos nos respectivos partos intelectuais, que os estimula a parir ideias que, nas suas mentes, estavam em estado de latência e que, por esta forma de amor à sabedoria, são espicaçadas e, então, brotam para o estado manifesto.

Descreva, sucintamente, as obras poético-literárias que publicou até agora.
São obras de cariz eminentemente filosófico. Aliás, devo confessar-lhe que foi justamente a Filosofia, assim sentida e vivida, que me abriu o caminho para a poesia, para a prosa poética e para a literatura. Estas sementes começaram a germinar com mais visibilidade aquando da feitura do curso de mestrado em “Estética e Filosofia da Arte” e, sobretudo, durante as investigações realizadas para a tese de Doutoramento em curso, dedicada – a partir do pensamento de Martin Heidegger – à poesia e ao canto dos poetas, perspectivado ecologicamente.
Concebe-se a poesia enquanto forma privilegiada da arte se dar (para Heidegger, e para mim também, toda arte é poesia), como a forma explícita de salvaguarda da Terra, como o grande grito universal do pensamento contra as investidas do projecto da ciência-técnica modernas que minam e corrompem a Natureza, provocando constantes desequilíbrios eco-sistemáticos. E, deste modo, como meio de alerta para a necessidade de se redimensionar e reestruturar uma outra humanidade, cujo pensamento não seja mais inconsciente e calculista, e cujas mãos não sejam mais exterminadoras.
Cada obra minha publicada em antologias poético-literárias nacionais e internacionais, exprime estas preocupações, esta minha forma de auscultar o mundo humanamente e em plena harmonia com a Natureza, onde me integro ou não, completamente, quer me refira a “Vide-Verso”, “Roda Mundo 2008”, “Poiesis” ou “Roteiro(s) da Alma”.
Nelas, pode ler-se, entre outras, “Quantos são os mistérios da escrita”, “Nas montanhas do coração” (ensaio sobre o poeta alemão Rainer Maria Rilke), “Advém o turbilhão dos sentidos”, Ouso ousar o tudo”, “Abomino o egocentrismo”…

Qual o tema dominante na sua escrita?
Movo-me por vários temas e autores, de âmbito muito diverso. Tanto escrevo sobre Heidegger, Nietzsche, Kant, Platão, Freud ou Piaget, no âmbito da Filosofia /Psicologia, ou sobre Vergílio Ferreira, Fernando Pessoa(s), Padre António Vieira, Rainer Maria Rilke ou Holderlin, nos domínios da literatura e da poesia.
Talvez por influência dos assuntos centralmente abordados por estes autores, que venho estudando ao longo de todos estes anos, escreva, com particular incidência, sobre a vida e a morte, sobre o estado actual da Humanidade e da Natureza, sobre a linguagem, o pensamento e o acto de escrever, sobre o amor, o mistério, a criatividade, a arte ou a identidade, a hipocrisia, os preconceitos e a inveja, que muito me atormentam…

Como caracteriza a sua próxima obra “Vozes do Pensamento – Uma Obra para Espíritos Críticos”, cujo lançamento está previsto para o próximo mês?
Esta obra, a primeira individual que publico em Portugal, composta por duas partes, “Interiores” e “Versões de Mundos”, exterioriza, precisamente, e como o próprio título indica, as vozes que há muito ecoam dentro do meu pensamento, que viaja, por vezes, hiperbolicamente, por todos os lugares, nessa eterna busca pela verdade e pela sabedoria, pelas essências das coisas que, amiúde, se nos ocultam. Talvez esteja a fazer Filosofia através da poesia, como sugerem alguns dos meus leitores.
São pensamentos dispersos, vividos e por viver, projectados, sonhados ou recordados, sobre temas que o meu pensamento foi ditando e as minhas mãos escreveram.
Trata-se de um desabafo da minha alma e do meu corpo sobre mim mesma, e sobre o mundo, tal como ele é e se me apresenta em todas as suas dimensões que, quiçá, corresponde a muitos desabafos da grande generalidade dos seres humanos.
É um livro intimista, onde podem ler-me, integralmente, na mais pura transparência do meu (vosso!?) ser e existir, pensar e sentir. Também altruísta, onde os actos ignóbeis dos homens são condenados, dos pontos de vista ético, social e político, e os seus nobre feitos celebrados.
Nada mais vou adiantar sobre este livro, para que os meus eventuais leitores (espero que sejam muitos), adolescentes, jovens e adultos, descubram, por si próprios, o espírito que o percorre e, quiçá, nele se vejam ou revejam, como num espelho, e se redescubram, sem narcisismo.
Estas “Vozes” ainda não se silenciaram. Far-se-ão ouvir, ainda mais alargadamente, nos meus próximos três livros, já no prelo: “Entre-Corpos”, “Fluxos da Memória” e “Mundos do Ser e do Não-Ser”.

LEGENDA DR: “Lamentavelmente, a sociedade actual está afastada das lides filosóficas”

FIM

Cultura ENTRE Culturas: uma revista diferenTre (a sair em final de Março)




Matriz

A revista Cultura ENTRE Culturas assume-se como matriz dialogal enTre experiências e razões, culturas e saberes, religiões e espiritualidades, tradições e civilizações, bem como enTre elas e o indizível que as possibilita e transcende.
O nome exprime a vocação de suscitar ou desvendar pontes, elos e armilas enTre domínios ilusoriamente distintos e afinal intimamente ligados, convertendo fronteiras em pontos de passagem, termos em mediações, limites em limiares.

Cultura ENTRE Culturas, lugar do não-lugar, vislumbra-se um ponto de equilíbrio/desequilíbrio entre os modos oriental e ocidental de percepção e vivência do real: algo enTre a diversidade evolutiva ocidental e a instantaneidade intuitiva oriental que a uma e outra reúna no trânsito para além/aquém de ambas. Lugar insituável do inter-valo entre isto e aquilo, nele tempo-eternidade, espaço-vacuidade, palavra-silêncio, discurso-percurso respiram e singram de mãos aliadas.

Estruturada sistemicamente, tal clareira de reflexão holónica e integral, a revista é um organismo vivo que evoluirá plasmando o que da realidade em cada momento se desvela e re-vela, pois a verdade se dita pelo olhar sobre ela lançado.
Cultura ENTRE Culturas terá periodicidade semestral e alternará entre ser predominantemente dedicada a temas e autores. Incluirá cada número estudos e ensaios sobre espiritualidade, filosofia, arte, literatura e ciência, prezando-se a publicação de autores nacionais e estrangeiros, bem como de inéditos. Haverá ainda um ou mais cadernos onde conviverão poesia e fotografia, porventura as linguagens de mais despojada e depurada apreensão, vivência e transfiguração do real. Não se trata de poesia + fotografia, mas antes de entender tais linguagens como duas possíveis asas da "theoria" e da "pragmática" do real, qual o vemos e recriamos, rasgando os limites de cada domínio de linguagem para o ilimitado que lhe subjaz.

O real não tem linguagem e nesse sentido nem real é. Somos nós que o lemos/criamos através da diversidade de modos e códigos por que a linguagem o/se configura. Nisso o/se faz presente-ausente nesse algo indizível que nos visita tanto quanto se nos furta. É enTre essa presença e ausência, no hífen que une-cinde presença-ausência, que Cultura ENTRE Culturas habita: terra de todo o mundo-ninguém, sempre virginal e fértil matriz onde entrelaçado tudo germina, floresce e frutifica e aonde tudo entrançado regressa e repousa: indivíduos, povos e nações, cultos, culturas e civilizações, saberes, artes e espiritualidades.

Propósitos

Cultura ENTRE Culturas elege-se pelos seguintes propósitos:

1. Contribuir para o desenvolvimento de uma consciência-experiência integrais, multidimensionais, inter e trans-disciplinares do real e do que possa haver além-aquém do que como tal se designa, enriquecendo criativamente a vida e a existência mediante a compreensiva realização das suas supremas possibilidades.

2. Explorar antigas e novas possibilidades espirituais, mentais, éticas, artísticas, científicas, educativas, ecológicas, comunicacionais, sociais, políticas e económicas, alternativas à crise e declínio do paradigma civilizacional ainda dominante e que obedeçam ao soberano critério do melhor possível para todos os seres sencientes, humanos e não-humanos.

3. Promover o conhecimento e diálogo entre culturas, civilizações, religiões e espiritualidades, bem como entre estas, o ateísmo e o agnosticismo, no espírito da mais ampla imparcialidade e universalismo.

4. Contribuir para a harmonia e a não-violência na relação do homem consigo, com a natureza e com todos os seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor, prazer e emoções.

5. Despertar e orientar para estes fins a cultura e a sociedade portuguesas, bem como a comunidade lusófona, valorizando e promovendo as tendências nelas latentes que mais apontem neste sentido.

Reclamando-se desse sempre insituável enTre cada coisa e cada outra, enTre cada coisa e tudo/nada, este projecto vislumbra essa terra de todo-o-mundo-ninguém que é a pátria dos anjos do real, evocada por Sophia de Mello Breyner – a pátria daqueles que, nada almejando para si, passam pela vida dando o que a si mesmos ultrapassa e não pertence.

EnTre os muitos anjos do real planetários estão, insuflando as velas da nossa cultura, homens como Luís de Camões, Padre António Vieira, Antero de Quental, Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, José Marinho, Agostinho da Silva e Vergílio Ferreira, decenário de Anjos do Real em vida, respiração e dádiva tão diversas quanto unas. Eles nos inspiram e movem, enTre tantos outros.

EnTre a lusofonia, que em abertura ao universo nos congrega, e a luso-fania que a cada um e todos pode libertar, se faz a viagem do presente projecto. Porque não nasceu de si, também em si se não esgota. Parcerias poderão acontecer, tornando mais fértil e diversa a disseminação do paradigma que aqui germina.

Um paradigma Armilar, como a Esfera que se entrelaça e tremula numa das muitas bandeiras do mundo, simbolizando todas e nenhuma.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"...português, na sua plena forma brasileira"

"Claro que sou cristão; e outra coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua plena forma brasileira"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 175.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

neste quarto alugado sinto a pulsação dos prédios, o crescer dos muros para o ceú, as borboletas que não aguentam a distância de um anão. e caem sobre a terra como limões secos e vazios. eu olho e penso que nada existe para lá do chão, que água e fogo são alucinações. são deuses mascarados. ou até mesmo resíduos de paixões. ou pode ser tudo isso numa só jarra que mais tarde beberemos. santa é a minha vontade de renunciar o mundo. de me ferrar enquanto escrevo.

lembro: eu era uma casa assombrada. nela não havia nada. nem pó nem flores nem esqueletos nem nada. talhei nas paredes a minha psicobiografia e vi a extensão do meu grito. escadas que desciam e não se subia, roupas de inverno a esperar que venham corpos. e tomara à minha cabeça ser uma tocha iluminada para entender essas roupas de inverno. como um incrédulo renasci. fundei a minha habitação, os meus monges, as minhas coisas belas e profanas.

nasci num quarto às escuras igual ao interior de um fruto. a minha mãe tinha um ventre bem arquitectado, poderoso como uma transparência e nele percorri cidades inteiras, provei leguminosas e sismei com verdes andorinhas. quando crescer evitarei remédios para a calma, lerei poemas e pronto: um riacho progride na dor da minha encosta, e eis-me: absoluto, tal boi puxando a paisagem para dentro da moldura.

A Recepção do Budismo na Cultura Europeia Oitocentista



- Paul-Élie Ranson, "Christ et le Bouddha" (c.1880)


No próximo dia 25 de Fevereiro, pelas 17h, Rui Lopo, investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, dará uma prelecção subordinada ao tema: "A Recepção do Budismo na Cultura Europeia Oitocentista" (Anf.IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Paul-Élie Ranson, "Christ et le Bouddha" (c.1880)

O Homem e o Violoncelo

Um corpo pousado no colo do homem, violoncelo, espigão ligado à terra, voluta-céu, o homem precisa de um arco-alma para o tocar, para lhe ouvir a voz, a alma do violoncelo é de abeto, perfeita, perfeitamente posicionada, aguarda o movimento do corpo macio, vibração transmitida ao fundo da luz, as cordas enroladas em prata anseiam as crinas de cavalo do arco de pau-brasil adormecido, não pode tocar-lhe com os dedos, o homem, com os dedos pode apenas tocar-lhe no pescoço, a mão acaricia a voluta e cai, o corpo precisa do arco, o arco precisa da alma do homem para existir, o homem não consegue despertar o arco, que lhe pende da mão, inerte. Só, tão só, o homem agarra o violoncelo e chora, nú.


Pintura de Wayne Roberts, Austrália

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Hiroshima Meu Amor


"Tu n'as rien vu a Hiroshima!"

Este é um dos melhores filmes de sempre. Com um argumento fabuloso de Marguerite Duras, envolve o espectador num clima de nostalgia e de exploração da intimidade da personagem feminina, interpretada por Emmanuelle Riva que acaba por ser um mergulho de chofre nas contradições da alma humana.
Um factor que nos induz à estranheza é o facto das personagens não revelarem o seu nome, acabando por assumir, no fim do filme, o nome das suas cidades natais. Cidades muito afastadas no tempo e no espaço, mas onde cada um dos dois amantes foi vítima dum cataclismo avassalador: ele (interpretado por Eiji Okada) quando regressou da guerra encontrou Hiroshima destruída pela primeira bomba nuclear usada na História numa situação real, uma cidade pulverizada que sepultou toda a sua família. Ela, natural da cidade de Nevers, viveu aí, aos 18 anos, um romance com um soldado alemão que morreu nos seus braços, vítima dum tiro oportunista no dia em que a cidade estava a ser libertada pelos aliados. A festa da libertação veio descobrir a condição trágica dos amantes que em tempo de guerra preferiram o amor ao ódio e acreditaram num mundo onde a paz poderia ser possível, para além das dilacerações políticas, étnicas, históricas, dum mundo em convulsão que nunca mais voltaria a ser o mesmo.
Morto o seu amante, a jovem cai nas mãos duma população sedenta de vingança que encontra nas mulheres que dormiram com o inimigo um bode expiatório mesmo à mão de semear.
E dá-se a queda na loucura, a reclusão numa cave imunda, até que a razão pudesse emergir de novo e, com ela, o regresso da rapariga à vida. Depois, a fuga para Paris para se refugiar no esquecimento da sua identidade esmagada pelo amor, pelo ódio, pela morte. Chega a Paris no dia em que Hiroshima é devastada pelo terror nuclear. Apesar disso a destruição de Hiroshima é vivida à distância como uma promessa de Paz, como o fim da guerra e a possibilidade dum recomeço.
A grande intensidade do filme resulta em parte do facto da acção se passar num período muito curto, de cerca de 24 horas, o que nos aproxima da tragédia clássica. Dois desconhecidos encontram-se e vivem uma relação intensíssima, condenada à efemeridade, porque ambos são casados e não querem, ou não podem, romper com as suas vidas. No fundo é como se situassem no começo do mundo, ao ponto de se assumirem como personagens de um drama universal, ele reconhece-se no soldado alemão morto, ela assume-os como o mesmo Amante, o Amante Eterno, para quem não há nascimento nem morte, ou, dito de outra forma, em função do qual os nascimentos e as mortes se sucedem como vagas insubmissas do Esquecimento. Porque a memória, mesmo a mais funda e excelsa reminiscência, é sempre uma traição, um querer mais que bem querer.
E no centro de tudo, Hiroshima. Reduzida à ubiquidade, presente em ausência e impossibilidade de redenção, nas margens do Loire, onde a luz é mais doce, porque pertence à infância e à adolescência da mulher abissal, a mulher impossuível que, em 24 horas transborda as margens do rio Ota, cujo caudal de posterioridade se junta ao caudal do Loire da anterioridade impreterível ,para submergir o mundo.
E o espectador não sai imune deste filme porque é as suas vísceras que Marguerite Duras expõe num dos textos mais duros e mais belos que o cinema conheceu até hoje. E no fim deste exercício de esplancnomancia ou nos descobrimos vivos nos interstícios da morte, da separação e da memória, ou nos desconhecemos mortos e a vida continua como sempre. Seja como for o nosso nome não é auto-referencial, é sempre um indício de estranhamento.
Poucos filmes nos colocam nessa situação.
Embora alguns tenham revisitado a ambiência escatológica (reveladora) de Hiroshima, ficaram-lhe sempre na periferia, como nas duas obras de Richard Linklater Before Sunset (2004) e Before Sunrise (1995), nas quais uma dupla de actores, Ethan Hawke e Julie Delpy, procura reencarnar o par dramático de Hiroshima, meu amor, mas um história eterna só se (re)vive/encena uma vez. Mas Before Sunrise vale bem por si. O que já não é mau.
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(Para ver todo o filme basta ir clicando nas partes seguintes).


Emudecimento e acção




"O meu conceito de um estilo e de uma escrita sóbrios e ao mesmo tempo altamente políticos é o seguinte: conduzir até aquilo que é negado à palavra; somente onde essa esfera do averbal se abrir numa potência indizivelmente pura, poderá a centelha mágica passar da palavra à acção movente, onde a unidade das duas for igualmente efectiva. Somente o intenso direccionamento das palavras para o interior do núcleo do mais íntimo emudecimento alcança o verdadeiro efeito"

- Walter Benjamin, Briefe, I, p.127.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Reflexão e multimédia: em busca de um outro modo de Pensar

Por reflexão e, consequentemente, por capacidade ou raciocínio reflexivo, entende-se «a volta atenta do pensamento consciente sobre si próprio que, tanto sob um ponto de vista psicológico como ontológico constitui a sua principal manifestação» .
Compreendida num sentido puramente psicológico, a reflexão consiste no abandono da atenção ao conteúdo intencional dos actos para se voltar sobre os próprios actos. De acordo com esta perspectiva, a reflexão apresenta-se como uma espécie da direcção natural dos actos, criando-se, deste modo as condições necessárias para a reversão completa da consciência e a consecução da consciência de si mesmo.
Extrapolando-se, a este nível, as fronteiras estritas da Psicologia, ligamo-nos a uma compreensão de pendor gnoseológico, por nos permitir, embora sempre em conjugação com a perspectiva psicológica, uma análise mais completa das questões concernentes aos actos propriamente reflexivos.
Uma vez que o predomínio da visão e da linguagem da imagem têm proporcionado o desenvolvimento substancial da intuição empírica em função de um certo detrimento da intuição racional, torna-se notório que a capacidade reflexiva das novas gerações é cada vez mais diminuta: a esfera do imediato e do instantâneo têm vindo a substituir o domínio de um pensar autêntico, por atrofiar, em certa medida, essa capacidade essencial da mente humana de penetrar no interior das coisas e de captar a sua essencialidade, de perscrutar o sentido mais profundo das múltiplas significações que o universo ontológico, linguístico e conceptual nos oferece a cada momento.
Talvez encontremos, por intermédio de uma análise conjugada destes três conceitos em análise, a explicação que nos permita compreender porque é que os alunos de hoje não são mais capazes de interpretar (tendo presente o sentido genuinamente hermenêutico que atribuímos a este termo) um simples artigo de jornal sobre um qualquer tema comum, embora apreendam, de imediato, o desenrolar da história de um banda desenhada ou as funcionalidades de um jogo de computador; porque são incapazes de interpretar um dos textos mais “elementares” da literatura contemporânea, embora descodifiquem facilmente um “slogan” publicitário.
A imediatez que esta civilização multimédia tem feito despoletar, a um ritmo verdadeiramente frenético, coarcta a emergência efectiva da capacidade de abstracção que permite chegar ao conceito, aos domínios do universal e do essencial, em prol do instantâneo e do superficial.
Urge a edificação da consciência de que a imagem, o “slogan” publicitário, a banda desenhada, o cinema, o vídeo, o jogo de computador… também são texto e, como tal, devem ser sempre sujeitos a um rigoroso exercício hermenêutico, resultante de um determinado tipo de aprendizagem no âmbito das regras do saber-ler, que a escola e o professor devem promover a cada momento.
Em virtude da instalação definitiva da cultura visual, a linguagem oral e escrita é secundarizada por um outro tipo de linguagem que a imagem eficazmente produz: a icónica. Esta requer, naturalmente, um outro tipo de aprendizagem ao nível dos processos mentais e dos conteúdos que a imagem por si mesma encerra, a qual deve ser dialecticamente articulada com a aprendizagem da linguagem oral e escrita, igualmente considerada no domínio dos processos mentais e dos conteúdos nela imbricados. Esta é a realidade mais evidente do quotidiano escolar perante a qual a educação jamais se poderá alhear.

Isabel Rosete

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Renascimento do Jornal Milénio com amplo destaque dado ao Manifesto Refundar Portugal / Movimento Outro Portugal



O Jornal Holístico Milénio renasceu no dia 14 de Fevereiro com uma forma mais actualizada e apelativa. Convido-vos a visitarem-no em http://jornalmilenio.com e a deixarem a vossa opinião. Todos são convidados para deixarem os seus artigos ou reencaminharem noticias que considerem relevantes com vista a uma maior consciência colectiva.

Luís Resina

......

Agradeço ao Luís Resina o amplo destaque que dá no Jornal Milénio ao Manifesto Refundar Portugal / Movimento Outro Portugal.

Português, Língua Oficial da Guiné Equatorial

A Guiné-Equatorial é um país da África Ocidental, dividido em três territórios descontínuos: um continental e os restantes insulares. A norte, no Golfo da Guiné, a ilha de Bioko é o território mais importante e alberga a capital do país, Malabo.

O país vizinho mais próximo é os Camarões, a nordeste, seguindo-se a Nigéria, a noroeste, Mbini, a sueste, e São Tomé e Príncipe, a sudoeste. O segundo território é a parte continental do país, Mbini, encravado entre os Camarões, a norte, o Gabão, a leste e sul, e o Golfo da Guiné, a oeste. Partes deste território estão mais próximas de São Tomé e Príncipe do que de Bioko.

Finalmente, a sudoeste, a pequena ilha de Pagalu completa o país, tendo como vizinhos mais próximos São Tomé e Príncipe, a nordeste, e o Gabão a leste.

O presidente da Guiné-Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, decretou que o português seria uma das línguas oficiais, ao lado do espanhol e do francês, condição prévia para poder entrar na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O país deseja ainda o apoio dos oito países membros (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste) para difundir o ensino da língua portuguesa no país, para formação profissional e acolhimento dos seus estudantes pelos países da comunidade lusófona.

http://www.observatoriolp.com/
http://groups.google.com/group/observatorio-lp/web/portugus-lngua-oficial-da-guin-equatorial?hl=pt-PT.

in, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"O diabo é idêntico à língua" ou o pensamento nómada de Vilém Flusser




"A língua materna forma todos os nossos pensamentos e fornece todos os nossos conceitos. É ela a responsável pela nossa cosmovisão e pelo valorizar que sobre ela fundamentamos. Em outras palavras: a língua materna é a fonte do nosso senso da realidade. Com efeito: amor pela língua materna é sinónimo do senso da realidade. Mas de que realidade se trata? De uma realidade relativa. A pluralidade das línguas o prova. Toda língua produz e ordena uma realidade diferente. Se abandonamos o terreno da nossa língua materna, se começamos a traduzir, o nosso senso da realidade começa a diluir-se. [...] O diabo é idêntico à língua. A língua é aquele tecido de maia que se estabelece como véu na superfície da intemporalidade. A realidade ou as realidades que a língua cria é justamente aquilo que temos chamado, até agora, de "mundo sensível". Passaremos, doravante, a chamá-lo de "mundo articulável". E rectificaremos, igualmente, a nossa definição operante do diabo. Temos dito que ele é o tempo. Agora podemos precisar melhor esse termo "tempo". "Tempo" é o aspecto discursivo da língua. E definiremos o diabo como "língua". O amor pela língua materna é a sublimação mais alta da luxúria, porque é a luxúria elevada até ao nível da realidade do diabo"

- Vilém Flusser, História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.91-92.

Realizar-se-á um Colóquio Internacional sobre Vilém Flusser, em 3 e 4 de Maio, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, organizado por Paulo Borges e Dirk Hennrich. Flusser é um originalíssimo pensador checo que escreveu algumas das suas obras maiores em português do Brasil. O presente trecho está vertido em português de Portugal, não castrado pelo acordo ortográfico.

A nova revista ENTRE publicará um estimulante inédito deste pensador genial.

A espiritualidade no Oriente cristão



Centro Nacional de Cultura
18 de Fevereiro de 2010 - 18h30

ENTRADA LIVRE

Para além do diálogo ecuménico a nível do dogma e das instituições, cujo desenlace de resto tarda sobremaneira..., o importante é o conhecimento recíproco entre os vários membros do mesmo Corpo crístico, susceptível de proporcionar o enriquecimento mútuo e a comunhão profunda.

Uma das “revelações” do cristianismo oriental aos olhos dos ocidentais, sejam eles católicos ou protestantes, é a sua dimensão espiritual e mística. Os povos ocidentais no seu conjunto sentem a falta dessa dimensão nas suas igrejas e culturas. Daí o tão badalado sucesso do “mercado das espiritualidades e religiões exóticas”. Mas os crentes cristãos do Ocidente hodierno olham antes para os seus irmãos na fé integrados em igrejas e tradições orientais, mais próximas porventura das origens do cristianismo.

Como é que vivem e interiorizam a sua fé? Quais são os ritos, as instituições e as doutrinas que abrem os seus corações à espiritualidade e transcendência de que tanto carecem as nossas sociedades modernas? Em que medida esse caminho nos aproxima da essência da mensagem evangélica?

Adel Sidarus (Évora)

continente perdido

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Antepassados oradores



Na serra perdem-se os caminhos
saltam-se muros
pelas pedras avança o rio
que é o céu correndo destinos

por entre musgos e minérios
as árvores são outonos
no coração o tesouro
de falos em flor os patronos

no templo, forno, gruta, anta
se alquimizam rostos sem rasto
a escuta dá-lhes o negro e o abrigo
e no denso nocturno cada gesto é oração
e do fundo onde é fundo irradia o Abismo.


Convento dos Capuchos, ao Entardecer

domingo, 7 de fevereiro de 2010

IDENTIDADE

Assumir, convictamente, a Identidade…! Seguramente o maior esforço de todo o ser humano sobrevivente neste Mundo de falsas identidades ou de identidades camufladas, fundeadas no espaço camaleónico das diferenças não aceites, da imposição de um padrão comum de rótulos pré-determinados, do estereotipado, onde não lugar para o ser-si-mesmo, nesta sociedade do “parecer-ser”, em nome de um tal “bem-estar” comum que, na generalidade, não passa de uma mera utopia demagógica.

Vigora, por entre os espíritos dis-persos, a mais deslavada hipocrisia anulativa das dissemelhanças, da diversidade, que faz a singela Beleza intrínseca à essência do Universo físico e humano, a que não pertencemos mais.

Adulterámos as Leis da Natureza. Instaurámos o caos cósmico. A isso, chamamos progresso! Mas, que progresso? O da rarefação da camada de Ozono? O do efeito de estufa ou do degelo dos oceanos? O do des-equilíbrio dos ecossistemas? O da miséria das crianças sub-nutridas? O dos Povos famintos? O da infelicidade dos Homens que clamam o Paraíso perdido?

O “progresso” da irracionalidade, das mentes inconscientes, dos pensamentos corroídos pelo ódio, instaurou-se, definitivamente, no seio desta massa humana, indefesa, des-norteada, que hoje somos.

Coitados dos homens! Tão potentes e tão frágeis, ao mesmo tempo! Meras peças soltas do grande puzzle, do puzzle universal, onde já não se encaixam mais.
Somos mero pó, cinzas dispersas, em incandescência dissonante. Brilho(s) opaco(s) dos restos do lixo cósmico, em degeneração total.

Corremos pelos leitos de todos os rios, que, no mar, não deságuam mais. Perdemo-nos de nós mesmos! Não nos encontramos mais! Rodopiamos num círculo imperfeito de esferas des-encontradas, de espaços sem intersecção, indefinidos, incertos, indeterminados, mas, ao mesmo tempo, “extra-ordinários”, libidinais, irascíveis e concupiscentes.

Erramos, navegamos… pelos espaços infindos da imaginação. Buscamos o Infinito, o Eterno, o Imutável. Projectamos um futuro outro, apenas existente no mundo ficcional de todos os nossos sonhos: do “princípio da realidade” se afastam, para erguerem, sempre, o “princípio do prazer”.

Velejamos por todos os mares. Pairamos por todos os espaços siderais. Percorremos todos os caminhos da Floresta, sempre paralelos, sempre descontínuos. A escolha não é mais possível!

Esmagamos um Ego desesperado, descentrado de si mesmo, tão narcísico quanto paradoxal. E, no entanto, ainda somos aves de rapina, predadores universais, dominadores de todas as possíveis presas, dissimulados num habitat, que já não é mais natural.
Percorremos todos os atalhos e edificamos uma nova ordem: a da caoticidade global. E, no entanto, ainda somos apelidados de “animais racionais”!
Que racionalidade é essa, criadora de um tempo de infortúnio? Que racionalidade é essa, geradora de todas as misérias? Que racionalidade é esta re-veladora da massa indigente das gentes vagueantes, bicéfalas, sem Identidade?

Isabel Rosete