segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Uma "Cultura do Ente" face a uma "Cultura do Entre" - Contributo para a Compreensão de Novos Paradigmas Inteculturais

O diálogo intercultural é, nos nossos dias, mais do que uma necessidade incontornável, ele é, outrossim, um imperativo social e humano; o justo caminho para a aproximação a uma cultura de paz (1) e de aceitação participada do outro e com o outro. Esse “outro” até aqui considerado como “estrangeiro”, “estranho”, desconhecido, e que, por isso mesmo, se afigura como gerador de medos e de desconfianças.
O velho paradigma das relações entre culturas tem colocado o homem, desde há milhares de anos, numa atitude defensiva, agressiva e, quantas vezes, autista e desconfiada face ao que é diverso. O medo de mais uma “nova” e irremissível perda – depois do anunciado luto de “deus” e da “expulsão” primeira do homem – afigura-se como um dos mais difíceis nós a desfazer no actual paradigma cultural, que vê o homem como ente separado da realidade, separado, por isso, de si mesmo e do mundo.
Não tem sido fácil ao homem compreender que sujeito e objecto não são fenómenos separados; que não há, a não ser como ilusão, isso de “eu” e de “meu”. Só a visão de uma cultura livre da ideia de posse poderá ser condição essencial para que a cultura do entre se desenhe como possibilidade, caminho que se apresenta para contrariar, por assim dizer, uma cultura de guerra, uma cultura “doente”.
Seremos nós capazes e estaremos dispostos a renunciar? É a pergunta que, em primeiro lugar, devemos fazer, quando iniciamos uma qualquer via, percurso ou caminho. Porque é sempre de uma renúncia que se trata. Renunciar a quê? É o que tentaremos perceber, perscrutando no pensamento, a lembrança do que é Real, no futuro que nos leva à Origem. Como tudo o que é ontológico.
As posturas que obstaculizam o encontro entre culturas têm na base, parece isto claro, o medo da perda de alguma coisa. É grande o pânico do homem de se ver desapossado, desenraizado de algo que configura, na sua mente, o que pensa que seja o que ele é e até mesmo o que sonha ser. Aí entramos na zona dos mitos que configuram a identidade de um indivíduo, de um povo. Mitos que impregnam o ser de Ser, mas que, na realidade não têm significativo peso ôntico. Ver-se-á, num olhar mais atento, nesses mitos, (2) a relatividade que lhes “limpará a face”, para poderem ser vistos na sua real essência, esta comum a todo o ser humano “caído” no mundo. E a essência do homem é ser no mundo com o que, de divino, há em si e naquele.
Os medos atrás referidos dominam, muitas vezes de modo inconsciente, o homem e configuram um “muro” que tapa e esconde a luz de uma nova visão. Ver-se o homem despido de identidade: de mitos, de pátria, de ser; ver-se “sem ente”, ver-se em falta, “doente”, não tem sido de fácil aceitação. Não é, pois, sem resistências de vária ordem que o homem embarca nesta nova viagem. Viagem que tem que ser feita com as naus que tecem índias ainda mais insituadas, ainda mais afastadas no nevoeiro do nevoeiro mais perdido dos tempos. Até que se ache no princípio o fim que se busca, ou tão só se esbatam ou fundam ambos os conceitos, e sejamos sem princípio e sem fim, eternamente sendo.
É terrível o engano que consiste em confundir identidade, com superioridade, e mito, com o Absoluto. É bem de ver que a identidade cultural é do foro do relativo, que as contingências e características que enformam a mente do indivíduo, não são mais do que umas de entre outras, no fundo variado da “Realidade”; tão válidas umas quanto as outras. E que os mitos são ainda os “arredores” do que importa verdadeiramente entender. O pensamento enquistado do homem resiste à ideia de abrir pontes de diálogo e de aceitação com o outro, por receio de perder a sua especificidade, a sua identidade, esquecendo que, desse encontro, ambas as culturas saem enriquecidas, desenvolvendo-se, por conseguinte, uma verdadeira atitude de crítica construtiva proveitosa para todos, conforme salienta R. Panikar. (3). É preciso compreender que se trata, de um outro ângulo de visão, de curar, de “iluminar”, de ver a uma nova luz o que é essencial e comum a todo o “novo” ser que desperta para um novo e premente “real”: a visão do ser desperto, livre de mais uma das suas “doenças”: a do culto do ente.
Na realidade, o homem comporta-se, ainda, como alguém que defende um conjunto de “territorializações” que vão cimentando uma cultura do ente, rejeitando, assim, o novo paradigma que se apresenta como alternativa: uma cultura do entre. Como se tudo tivesse que estar separado por pequenos “territórios” na posse de cada um e vedados a todos os outros. Como se fossemos seres sem Ser, corpos sem alma, movendo-se num “inferno”, esse lugar temido e temível onde “escolhemos” viver. Nada de mais errado! A vida não tem que ser esse ou outro inferno. Uma cultura que assim age é uma cultura doente e geradora de piores males.
Interessante é verificar, como se de um sofrimento por antecipação se tratasse, que esse desconforto na presença do outro, face ao outro, não se tem esbatido, ao contrário do que seria de supor. Na verdade, tem até aumentado por imposição do próprio sistema político e social, das suas dinâmicas competitivas e agressivas, nos diversos níveis da vida. O homem vê-se empurrado, manipulado e, na escassez de tudo, no esgotamento de todos os recursos, vê-se coagido a querer para si o que a todos falta, numa competição desenfreada por uma cultura “ter”. É o próprio sistema político, social e económico que se encarrega de gerar novas dificuldades e entraves ao livre encontro entre os homens e entre culturas, fazendo pesar sobre os ombros do homem dos países mais pobres a luta pela sobrevivência, e sobre os mais poderosos, o receio de perderem o poder que os mantém no topo deste vazio que a todos faz adoecer.
Por estas razões, ninguém se arrisca a perder, deixando-se estar confortavelmente – pensam eles e porventura ainda nós – repousados nas estruturas e hábitos mentais que julgam mais seguros, reproduzindo modelos gastos e ineficazes. Isto apesar da comunicação em rede, possibilitar uma mais rápida e eficaz troca de informação e de saber a todos os níveis entre todos os povos de todos os lugares.
Não percebeu, ainda, o homem dos nossos dias, que tem que estar preparado para receber e dar, sem medo de, com isso, se perder, pois não há o que perder, numa cultura em que não há a posse de algo, ou de si. Tudo é relação, não há conquista. Não se trata de encher, de acumular, antes de esvaziar. Porque a humanidade ainda não percebeu (é preciso que se lhe mostre, experienciando), que o homem, no interior de si mesmo, ali onde não é possível mentir ou fingir, não há o que seja ente, e que esta noção é geradora de “doença”: a doença da cultura do ente.
Entenda-se, por outro lado, que não é fácil ao homem perder ou ver oscilar a base confortável que o colocava no topo da hierarquia da natureza, logo a seguir a Deus ou ao que se considerar a instância suprema e/ou divina que tem tido a função de “governar” o mundo: a única colocada acima do homem e que lhe tem servido de exemplo, modelo e guia para sua orientação no difícil mundo onde foi colocado, após a bem ou mal contada expulsão do “Paraíso”.
À medida que os seres humanas se consciencializarem que o antigo paradigma, baseado no domínio e na supremacia de um povo relativamente a outros, caducou, faliu; melhor se vai entendendo o erro em que labora o humano querendo dominar pela força e pelos processos mais violentos, o que, na verdade, o enfraquece em razão, em justiça, em ética e em moral. Facilmente, não fora a muita ganância e cegueira, chegaria à conclusão da inutilidade dos seus esforços em separar, o que antes estava unido, considerando seriamente a necessária “religação” à natureza. Por isso, o diálogo intercultural terá que abranger e tocar todos os pontos em cada ponto que toca. Como uma esfera que roda sobre si e em que cada ponto é todos os pontos e nenhum. É entre! Entre todos e tudo o que há no Todo de que somos: interior e exterior, Oriente e Ocidente, dentro e fora, Princípio e Fim em cada coisa que é.
Finalmente, importa valorizar a “esfera” em que gira o que somos, esse sem dentro e sem fora, tal como o “outro”, o planeta, o universo e tudo o que existe, mais o que sonhado passa a existir. É nesse equilíbrio, nesse movimento evolutivo nascido a cada instante, feito de tradição e novidade, olhado sem preconceito, no respeito pela vida de todos e pelas “suas” realizações, que se constrói uma “cultura do entre” que a todos penetra de uma mesma participação e sacralização. Tudo irradiando a mesma luz do fundo em fundo de tudo.
Assinalamos, por fim, a título de curiosidade, que no centro do "EnTre" se situa, mesmo que somente do ponto de vista simbólico a física figura do Tau, a letra “T”, em Português, aquela que marca com um sinal, todos os viventes. Um Tau de Luz, em que todos sejamos agraciados de ser Tudo e Nada. Mito essencial da humanidade e de todos os seres sencientes.

Notas (1),(2) e (3) – Ideias retiradas do texto de Raimon Panikar Paz e Interculturalidad. Una reflexión filosófica, Barcelona, Herder, 2006)

Leonardo Coimbra (1883-1936) - O Criacionismo

Fundador e Professor da 1ª Faculdade de Letras do Porto. Formado em Matemática e Filosofia. Grande sensibilidade literária e poética. Deputado. Duas vezes Ministro da Educação.

Faz uma hermenêutica sobre todos os pensadores seus contemporâneos (Antero, Bruno, Pascoaes, Junqueiro), mas afasta-se de todos eles.

Até 1923, tenta unir o pensamento libertário com o Criacionismo. Depois, aproxima-se cada vez mais do Cristianismo, até aderir ao catolicismo pouco tempo antes de morrer em acidente de viação. Passagem de livre pensador a cristão ortodoxo.

Nele, o Homem é fundamentalmente um ser saudoso: uma saudade imanente e transcendente. Uma nostalgia da realidade, onde o Amor é a nota de Unidade com Deus. Quanto mais Amor mais consciência. A matéria não é senão o soro do espírito. Há vários níveis de amor e de consciência.

O homem vive com saudade do Paraíso (o Mito do Génesis). É saudoso de um estado em que a sua consciência ainda não se tinha precipitado para a exterioridade e materialidade. Uma saudade metafísica.

O Criacionismo:
A realidade é sempre pensamento. A realidade está sempre a ser determinada. A actividade mental vai determinando a realidade. O espírito determina-se a si próprio na medida em que vai determinando a realidade.

(Cf. Paulo Borges, Aulas de Filosofia em Portugal I, Apontamentos).

caimbambo


domingo, 10 de janeiro de 2010

Na época em que colhia frutos
imaginava um campo onde o tempo não existe
as mulheres puxavam as manhãs
com seus longuíssimos cabelos
o amor era macio como a terra prometida
e era tão claro o pensamento quanto o canto feminino
que o céu inventava os seus pássaros

alienação

para onde vou

nenhuma estrada tem um começo

não há uma chegada num local determinado

mesmo que exista uma praça

com uma torre com um relógio

que torne o tempo presente e bem arrumado

em vidas urbanas que já se encontrem

no seu destino

mesmo aí estarei sempre atrasado

em relação à eterna demanda em que me alucino

sábado, 9 de janeiro de 2010

Quando eu crescer vou escrever como quem desenha uma linha. Tão comprida que não se vê o fim. Tão fina que só se adivinha. Feita de paciência a pedir esperança. Na alma dela a cor que descansa o coração.

Quando eu crescer limparei o recheio que abusa o pensamento.

Se a minha mão duvidar no percurso
Que seja num círculo sem inicio nem fim.

CARTAS EM ANDAMENTO

Quem dera que a felicidade fosse feita dessa vontade que tenho em não existir. Depois tu sorris e eu esqueço tudo que aprendi.

Já passavam das dez da manhã quando acabei de ler. Não me lembro ao pormenor, como vim parar aqui. Quando os militares tomaram o poder substituíram a censura pela leitura selectiva. Sem eira nem beira fui colocada no ministério da cultura.
- Major, não arranja um trabalho para a minha filha?
O pobre coitado que tinha acabado de mudar de patente ficou embatucado. A memória de um favor por pagar visitava delicadamente o presente.
- Claro que sim. A revolução precisa de jovens que estejam ao lado da liberdade.
Pois foi assim que me tornei leitora profissional. Milhares de cartas por ler!
A vida é feita de regras e a que me foi destinada era só uma: - LER!
Bastava ler, dobrar a carta e colocar de novo no envelope. Em seguida ia para um caixote das CARTAS LIDAS.
Era uma jovem responsável, apoiante da revolução. Foi num ápice que li todas as cartas. Sebastião, um velho funcionário, aconselhou-me a voltar a colocar as cartas já lidas no caixote das CARTAS POR LER, pois se me mostrasse desocupada seria despedida.
Lembro-me de ter sorrido. Sempre senhora da verdade corri ao gabinete do major.
- Major as cartas já foram todas lidas. Devo responder?
- Todas? Se não há mais cartas sou obrigado a mandá-la embora…

Quem me dera que a felicidade fosse feita dessa vontade que tenho em não existir.
Depois tu sorris e eu esqueço de tudo o que aprendi

(Porque agora a ladainha da velha? Porque esta dor que rompe o som?)


- Mas Major hão-de vir mais cartas para ler. Devo responder as que já li?
- Seu trabalho é de leitura. Ninguém escreve esperando uma resposta. E se esperar, paciência – temos mais o que fazer. Continue lendo. Quando deixarem de escrever acaba o seu trabalho.

No corredor Sebastião sorria só com o olhar.
- Eu avisei. Coloque as cartas lidas no caixote das cartas por ler, se quiser este emprego…

Passaram 20 anos e o meu sorriso perdeu-se pelo caminho. Não sei quantas voltas já dei ao caixote.
Há cartas que sei de cor. Outras o tempo tratou de engolir o texto. Passados seis meses o major foi colocado noutro lugar, mas eu já me habituara à rotina das caixas.
Ninguém se preocupou – o trabalho quando bem feito não deve ser alterado. Já tinha encontrado uma metodologia que rentabilizava o circuito. Quem precisa de mudar quando tudo parece tão perfeito?

Hoje eram dez e eu já tinha lido tudo. Amanhã vou acompanhar o corpo de Sebastião. Morreu de morte natural – foi o que li na carta que a esposa enviou aos colegas. Esta vai para o caixote das CARTAS LIDAS.

Quem me dera que a felicidade fosse feita dessa vontade que tenho em não existir.
Depois tu sorris e eu esqueço de tudo o que aprendi


(Sempre a ladainha da velha. A mesma dor que rompe o som – todos os dias!)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As estátuas


No olhar e no ler, o museu: acontecimentos sem tempo

Olhava os olhos dela, dentro dos meus pelo meu olhar, e via neles sombras que já tinha visto numa pintura. Re-via. A possibilidade des-coberta de pelo olhar re-ver. Fazer a re-visão do visto. O olhar nos olhos: a entre-vista com o removido pelos olhares sucessivos e pelo movimento discreto de quem não desliza, mas se adentra. A possibilidade entre-vista no extático, na negação do devir e na imposição do de-ver: aos olhos. Recomposição. Figuração das cores e do visto. Figuração do movimento. O impre-visto. A lenta subversão das outras visões guardadas, aguardadas, chamadas perdidas. Visão e re-encontro. A permanência e a presença do invisível no olhar. Cedência e abrangência de um campo, de uma vastidão habitada e habituada às visões imemoriais. O olhar como arqueologia do visto, re-visão do que mora na deslocação do olho e nele repousa para deixar ver, dar a ver. Ver-nos. Entreolhar. Olhar por entre, olhar para dentro. Olhar do dentro antigo. Recuar. Empurrar o antigo para a frente, fazer frente ao imediato. Mediatizar. De-ver o outrora no agora.
Olhava nos olhos dela, dentro dos meus pelo meu olhar, as sombras que se animam, as cores que se avivam, os movimentos que se concertam no instante da visão. Recuperação. Salvação. Vislumbre. Vislumbração. Iluminação. Vibração. Reanimação do tempo pela eternidade, pelo que o toca vindo do imperecível. O tempo como relação com o que se desencontra de nós. A eternidade como exercício imprevisto da memória. Como exercitação de um treino consumado, cadenciado, amado e convocado pela visão da e na leitura para os instantes. Re-leitura e re-visão. Ler e reler. Às vezes, quando olhava, os olhos dela abriam portas de um museu nunca entre-visto fora dessas fulgurantes aproximações que a leitura retém, retece. Visão animatográfica das presenças. Ler é o acto primogénito da alma salvar o que o tempo, desencontrando, remete para a imobilidade. Movimentar: ler é soprar. Sílabas, pó, matéria que desfaz o esquecido. Os olhos que lêem o improvável jogo, dialógica disputação das sombras acordadas, estremunhadas pelo exercício de aproximação que o olhar que per-corre a página reencontra. Uma vez lida, acordada a presença invisível na legibilidade do visível, o museu não pára de se ir constituindo, reconstituindo, arquitectando os seus corredores, as suas passagens. Dar a ver o esquecido que a página guarda. Aguarda.
Olhava os escritos, o escrito. Olhava uns olhos dentro dos meus. Indiscerníveis uns no do outro: os meus olhos viam nos seus, nos teus, escritor amigo, os olhos dessas marmóreas esculturas em que a pedra, mais do que a forma, perpetua o silêncio. O silêncio que oiço quando te leio e os olhos fecham para que as esculturas se reponham nas colunas de que as deslocaste quando as convidaste para a composição da tua visão. Foram elas que te emprestaram o olhar com que viste o primeiro reino. Porque as estátuas são silenciosas mas não são cegas.
Releio. Re-vejo o que escreveste: contemplador de estátuas nas sombras, contemplador eremita que as esperas até à sua passagem pela tua folha branca. Sussurram e agitam, com os que as cobre, o nunca visto, o por ver, porvir. Leio-te para o ver, também através do teu olhar, a tua aproximação ao imortal. Antes da morte, tal visão, distancia-te do tempo. A visão é o museu, o não-lugar, um acto, a actualização do que nunca morreu. Repousando aí o teu olhar, demoras um pouco mais nessa entre-vista, dás-nos a possibilidade da passagem de um museu para outro. Os olhos que vêem e os olhos que lêem são os mesmos. São janelas por onde espreita o inesperado, enfim, o acontecimento sem tempo. A súbita passagem para o reino sem I-lusão onde, (en)fim, recuperaremos as nossas memórias de cegos.

Para a Mónica que está entre este mundo e outros, está entre a memória e o futuro, está entre o visível e o invisível e tem uma escrita que deixa ver e rever o que na solidão brilha como estrelas do outrora. E é entre todos os reencontros o mais inesperado. Entre o que dizes e não dizes, o Paulo deixou-te um convite e eu estou entre os dois à tua espera.

Fora todos os ISMOS! Fora todos os ISTAS!

“Vós todos que tendes uma escola, que andaes sob a canga de uma orientação, que pertenceis a qualquer cousa que acabe em ISMO, que sois quaesquer entes que acabem em ISTAS! Para que o limite se para ser limitado basta existir?”

- Fernando Pessoa, Sensacionismo e outros ismos, p.243.
Eu sei que o poeta sobe à luz de vinte em vinte anos
e nesse longuíssimo instante trabalha a pérola da libertação
como um monge atento ao crescimento de uma montanha

Eu sei que o poema floresce como as unhas das Grandes Noites
onde o talento de olhar o céu traz à terra filhos luminosos

Eu sei que o poeta tem um anel e um relógio
para o caso de lhe falhar o instinto
fuma um cigarro às altas horas,
olha a lua em absoluta abstinência,
dá aos braços e voa para um sei lá a perder de vista
para que o poema brilhe na noite como uma rosa branca!

Gandhi, a Índia e o mundo por Tara Gandhi

""NOVO CICLO GRANDES CONFERÊNCIAS

19/01/2010 às 18h30 Auditório 2 Entrada livre

Transmissão directa online e nos espaços adjacentes http://live.fccn.pt/fcg/'

Não-violência significa muito mais do que ausência de violência. É também acção e introspecção.'Tara Gandhi


No dia 19, a Fundação Gulbenkian inaugura um novo programa de conferências dedicado a grandes temas mundiais, com figuras de renome internacional. A primeira convidada é Tara Gandhi, neta do fundador da Índia moderna e independente, pacifista e defensor do satyagraha – o “caminho da verdade” que preconiza o protesto e a luta através da não-agressão e da não-violência. O papel de Tara Gandhi tem sido também o de contribuir para a defesa e preservação dos ideais do seu avô, enquanto vicepresidente do Gandhi Smriti e Darshan Samiti, a instituição governamental que promove o estudo e a investigação relacionados com os princípios defendidos pelo Mahatma Gandhi.A conferência tem por título Gandhi, a Índia e o Mundo e a oradora falará também de um novo caminho, urgente para a humanidade, que tenha em conta os princípios da paz e da não-violência. Relacionando a crise do ambiente com a violência, Tara Gandhi afirma que a violência da mente humana está directamente relacionada com a poluição atmosférica, num enquadramento de medo que não favorece o desenvolvimento. Aos 75 anos, Tara Gandhi é uma das mulheres que mais tem lutado pela manutenção da tradicional indústria do khadi, o algodão usado pelo avô, e que tem sido um contraponto à globalização e à destruição das tradições indianas. A fiação do khadi é uma das tarefas femininas mais praticada nas aldeias indianas.Este novo ciclo de conferências continuará com Jacques Delors, antigo presidente da Comissão Europeia, em data a anunciar. ""

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Meditação e Ciência

Na sequência dos encontros “Mente e Vida”, realizados anualmente, desde 1985, entre o actual Dalai Lama e um grupo de cientistas ocidentais, foram feitas experiências recentes, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), com um grupo de praticantes experientes de meditação no budismo tibetano, com 15 a 40 anos de prática, e um grupo de controlo de estudantes voluntários, praticantes apenas durante uma semana. Foram escolhidos quatro tipos de meditação: 1 – o amor e a compaixão universais e imparciais; 2 – a atenção focada num único objecto, de forma clara, calma e estável, sem torpor ou agitação mental; 3 – a presença aberta, em que a mente está consciente e atenta, mas sem se focar em nenhum objecto particular; 4 – a visualização de imagens mentais. Enquanto alternavam repetidas vezes períodos neutrais de trinta segundos com períodos de noventa segundos em cada um desses estados meditativos, os praticantes foram submetidos a electro-encefalogramas, que permitem captar alterações na actividade cerebral em milésimos de segundos, e a imagens de ressonância magnética funcional, que dão uma localização rigorosa da actividade cerebral.

Os resultados mostraram espectaculares diferenças entre os praticantes experientes e os noviços, que provam a plasticidade do cérebro e a possibilidade de transformar e desenvolver o seu funcionamento mediante a prática regular da meditação. Por exemplo, na meditação sobre o amor e a compaixão, houve um aumento da actividade cerebral de alta-frequência, as chamadas “ondas gama”, “de um tipo nunca antes relatado na literatura científica”, nas palavras de Richard Davidson, coordenador da experiência. A actividade cerebral concentrou-se também no córtex pré-frontal esquerdo, a sede de emoções positivas, indutoras de bem-estar, como alegria, entusiasmo e altruísmo. Outras constatações, nos praticantes experientes, foram a capacidade de regular voluntariamente a sua actividade mental, concentrando-se exclusivamente numa tarefa, sem distracções; a identificação de emoções universais em rostos que aparecem num ecrã durante um quinto de segundo, mostrando um superior poder de empatia; e a inédita e espantosa neutralização do reflexo do susto, mesmo perante o disparo de uma arma: uma vez que esse reflexo depende da predisposição para o medo, a raiva e a repugnância, os resultados sugerem "um nível de serenidade emocional impressionante”.

Perante este quadro, não admira que o Dalai Lama tenha aberto, em 2005, os trabalhos do Neuroscience, o mais prestigiado congresso de neurocientistas do mundo, em Washington. E que se fale hoje da meditação budista como alternativa ao Prozac. Segundo declarações recentes do biólogo Eric Lander, membro do Projeto Genoma Humano, numa conferência no MIT: "Não é inconcebível que, dentro de 20 anos, as autoridades americanas de saúde recomendem 60 minutos de exercício mental cinco vezes por semana".

Bibliografia: Daniel Goleman, Emoções Destrutivas e como dominá-las. Um diálogo científico com o Dalai Lama, Lisboa, Temas e Debates, 2005; Paulo Borges / Carlos João Correia / Matthieu Ricard, O Budismo e a Natureza da Mente, Lisboa, Mundos Paralelos, 2005.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

where the streets have no name


Ecologia e Cinema - Gaia e Avatar



Podemos pensar que a Terra está viva? Na actualidade não existe uma certeza inequívoca como resposta a esta pergunta. No entanto é arrojado colocá-la já que se supõe tacitamente a negativa como consenso tautológico apriorístico. Mas ao considerarmos as actuais bases científicas a questão pode ser (re) formulada. James Lovelock tem sido um autor e cientista controverso, olhado com desconfiança por um certo universo académico e científico ocidental que sustenta no descrédito ao “lirismo” evocado pelas suas teorias, o descrédito pelo valor das suas propostas. Contudo, paulatinadamente tem-se tornado claro a premência e pertinência de um olhar menos mecânico, mais orgânico, mais sensível sobre toda a existência, incluindo a do planeta Terra. A capacidade de contemplar o planeta como um sistema auto-regulador constituído pela totalidade dos organismos, a superfície rochosa, o oceano e a atmosfera, estreitamente interligados como um sistema em evolução, ainda que enquanto Grande Metáfora, é uma capacidade única a preservar. É o que permite defender a poesia enquanto estrutura fundamental do pensamento, seja ele matemático, filosófico ou económico. Uma vez que a opacidade fria do mecanicismo materialista e reducionista conduziu ao presente desiquílibrio poderemos talvez, por fim, re-valorizar o que nos últimos séculos aparentemente deixou de ter valor.

“Olhando para a longa história de Gaia encontramos a emergência ocasional de espécies que causam estragos e benefícios à escala planetária. Os fotossintetizadores que dividiram a água para libertar oxigénio estão entre os primeiros. O oxigénio é carcinogénico, mas sem ele a Terra seria agora um deserto seco; o oxigénio existente no ar previne que o hidrogénio da água escape para o espaço como aconteceu em Marte e Vénus. (…) Poderá a nossa desastrosa destruição dos ecossistemas ser meramente um novo começo, uma nova fase de aprendizagem da Terra na qual Gaia aprenda como lidar com benefício com uma inteligência colectiva?
Para melhor entendermos a actual crise de aquecimento global ser-nos-à útil um longo olhar para trás no-tempo-e-no-espaço vendo-nos a nós mesmos e à Terra de longe. Não de somenos importância, esta postura permite-nos escapar da estreiteza da tendência científica para a redução. Mas mais importante, liberta-nos para a possibilidade de questionarmos se a Terra estará viva. Os biólogos cientificamente correctos definem vida como “algo que se reproduz e corrige os erros dessa reprodução através da selecção natural”, mas isto deve ser demasiado lato para limitar uma definição. No nível mais baixo da Física pode dizer-se que qualquer coisa que tenha tempo de vida deve estar vivo; está então o átomo de um elemento radioactivo vivo? A mortalidade ou a impermanência fazem parte desta definição de vivo? Os físicos definiram vida como um sistema aberto mas limitado que mantém uma entropia interna baixa. Segundo esta definição, Gaia, todo o sistema vivo e o ambiente na superfície da Terra, estão vivos. Muito mais do que isso, Gaia detém todas as propriedades usuais da vida; metaboliza, auto-regula o seu clima e a sua composição química, e tem detido durante cerca de 4 biliões de anos uma totalmente improvável baixa entropia. Deverá algo que viveu um terço da idade do universo precisar de se reproduzir? Não seria embaraçoso e complicado se precisasse? Marte e Vénus começaram com composições químicas similares às da Terra mas olhemos para eles agora. Ambos são inóspitos desertos indescritíveis e assim seria a Terra se a vida não tivesse emergido. Tristemente, dentro de 500 milhões de anos a Terra morrerá como esses – ou mais cedo se continuarmos o que temos estado a fazer.
Talvez a mais importante coisa que possamos fazer para remediar o dano que já causámos seja fixarmos firmemente nas nossas mentes o seguinte pensamento: a Terra está viva. Quando este pensamento se tornar instintivo saberemos que não podemos cortar florestas para fazer terras de cultivo sem corrermos o risco de destruir o nosso planeta lar. As terras de cultivo e plantações de árvores não podem substituir as florestas naturais que se desenvolveram com o ambiente ao longo de milhões de anos e outrora serviram para manter o clima tolerável e o ar bom para respirar.”

Neste sentido, é no mínimo interessante senão imprescindível, pensar as possibilidades e responsabilidade das práticas artísticas e o seu lugar na instauração de um novo olhar sobre a existência, na re-formulação do modelo existencial a advir ou pelo menos no fundar de uma maior consciencialização. Nomeadamente do cinema, que enquanto arte agregadora influencia comportamentos e formas de pensar a uma escala generalizada. É por isso representativo o exemplo de Avatar, de James Cameron, estreado a 18 de Dezembro último, que associa as funções socio-culturais e políticas de media de entertenimento e diversão com as de media de expressão de dialécticas existenciais, ecológicas, filosóficas e poéticas. Neste caso específico, dadas as similitudes com o conceito de Gaia, de Lovelock e as coincidências com a actual situação de vida no planeta Terra, é de desejar que o filme se cumpra também enquanto medium de influência.

citação: Prefácio de James Lovelock a Earthy Realism, The Meaning of Gaia, edited by Mary Migdley, Societas, 2007, pp.1-2. (tradução minha)

Ilda Teresa Castro

Uma visão armilar do mundo

O “internacionalismo”, sinónimo de "cosmopolitismo", como “formula typica das sociedades modernas nas suas relações umas com as outras”, é assim definido por Fernando Pessoa:

“Esta palavra internacionalismo que significa? Que o sentimento nacional decahe, dada a maior necessidade de relacionar-se com o estrangeiro, e dado, também, o golpe que nesse sentimento vibra, por sua natureza, o instincto commercialista; que cada nação, aparte isso, passou a ser mais rica dentro de si própria, passou a resumir em si tudo quanto é typico das outras nações, que a vida de cada cidade da Europa (por exemplo) passou a conter em si elementos typicos da vida de todas as outras cidades, não só da Europa, mas de todo o mundo – isto quer pela presença em todas as colonias de naturaes d’essas outras nações, quer pelas constantes relações commerciaes e intellectuaes com essas, quer pela diaria informação jornalistica, espectacular, cinematographica […]” – Sensacionismo e outros ismos, p.190.

“Assim, cada um de nós nasceu doente de toda esta complexidade. Em cada alma giram os volantes de todas as fabricas do mundo, em cada alma passam todos os comboios do globo, todas as grandes avenidas de todas as grandes cidades acabam em cada uma das nossas almas. Todas as questões sociaes, todas as grandes preocupações politicas, por pouco que com ellas nos preocupemos, entram no nosso organismo psychico, no ar que respiramos psychicamente, passam para o nosso sangue espiritual, passam a ser, inquietamente, nossas como qualquer cousa que seja nossa” – Ibid., p.187.

Textos notáveis, cada vez mais actuais. Uma visão armilar do mundo:

umoutroportugal.blogspot.com

terça-feira, 5 de janeiro de 2010



Ascende ao profundo

a epiderme do mundo

a ilusão da distância

a música o silêncio

na morte a culminância

a ferida de tudo ao rubro

transfiguração

de mãos dadas antes de ter

se nada se agarra nada se perde

sonhar é o avesso de ter que viver

nada se tem nada extravasa a promessa

de nos vermos soltos de querer

não ter pátria outra que a Perdição

a vida revolta de dentro feita canção

a seiva a voz sempre recém-nascida

não pode ser colhida

nectarina pura e bela

bebida na fonte

com a frescura de não ter sido

no Longe a festa não é um fim

o beijo em visão

a esperança em agonia

resumo de toda a presença

na percuciência da luz

instantes de esquecimento

sem espaço ou tempo ou demora

o impossível a ser agora

impreterível e abrupto

Jean-Yves Leloup - Deus: É quem? É o quê?



A Revista ENTRE publicará um inédito enviado por Jean-Yves Leloup, sobre Melchisedech e os seus quatro filhos: judaísmo, islamismo, cristianismo e ateísmo.

Alan Wallace fala sobre o seu livro "Mind in Balance. Meditation in Science, Buddhism and Christianity"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Portugal, Europa e universalidade em Fernando Pessoa: das vantagens da desnacionalização e algumas ambiguidades



Após o afastamento d’A Águia, Pessoa alimentou pelo menos dois projectos de outras revistas antes do Orpheu: Ibis ou Lusitânia e Europa. Nalgumas notas dispersas para a revista Europa, alude-se à “nova orientação que é preciso tomar”, que reage contra a limitação da mente pela “nacionalidade” e deseja a europeização como forma de dilatar os seus horizontes ao “meio internacional”: “O que é preciso ter é, além de cultura, uma noção do meio internacional, de não ter a alma (ainda que obscuramente) limitada pela nacionalidade. Cultura não basta. É preciso ter a alma na Europa” [1]. Contudo, nos apontamentos para um Programa para os trabalhos da geração nova, que significativamente retoma o título do projecto e manuscrito destruído por Antero de Quental, Pessoa mostra manter-se fiel ao essencial do espírito dos ensaios anteriores, ao considerar que o objectivo não é meramente elevar o povo “até ao nivel da actual civilização”, mas “leval-o para além della na orientação que ella vae tomar”. Para tal devem-se educar no povo, em paralelo, as qualidades que o capacitam para “produzir civilização contemporanea” e “as que hão de crear civilização futura”, havendo que criar “uma classe culta e agitada pelas idéas modernas, mas transcendendo-as”. A “fraternização com as correntes intelectuais” estrangeiras, mais conformes com a “ideação dos Novos, do que com a tacanhez e mesquinhez dos nossos compatriotas dominantes”, não deve assim consistir num mero mimetismo daquelas, mas antes, como veremos, num incorporá-las como ingredientes da sua própria superação [2].


É precisamente isso que Pessoa assume na corrente literária surgida com Orpheu, para a qual reclama a “originalidade, não relativa, senão absoluta”, de não só englobar mas ainda exceder todas as correntes literárias nacionais, estrangeiras e contemporâneas, manifestando “uma nova forma litteraria, uma nova visão da Realidade e da Vida, uma nova forma de dar expressão ás sensações e aos pensamentos” [3]. Sem rejeitar que, “desde o “saudosismo” de Teixeira de Pascoaes, qualquer cousa de novo, difficil ainda de definir, surgiu em Portugal”, Pessoa considera que “Orpheu” ultrapassa a estreiteza daquele, enquanto “pensamento humano” e “moderno”, na medida em que “não pretende ser senão portuguez”, ao passo que a “escola de “Orpheu”” é original e cosmopolita, “internacionalista por excelência”, fruto “de uma synthese de todas as correntes modernas, e de alguma coisa mais, que lhe é próprio”, residindo aí “o seu maior valor e interesse”. Assumindo semelhanças com o simbolismo, o saudosismo, o cubismo e o futurismo, “a nova escola portugueza é comtudo qualquér cousa mais do que todas essas escolas” [4]. Ao contrário do “regionalismo” da Renascença Portuguesa e do saudosismo, que só evoluiria “intra muros, com matéria apenas lusitana”, havendo perdido “o contacto com a poesia do século, lá de fora”, a “Escola de Lisboa”, “unico centro portuguez onde entrou um grau superior de cosmopolitismo”, “fala em voz alta, para que toda a Europa oiça”, com “uma bagagem de vistas e de attitudes que é a de quem sabe que está creando arte, não para um paiz, mas para uma época e para uma civilização”. Não se nega com isto “um nacionalismo mais largo e verdadeiro” que, em vez de se afastar, “marca o seu logar na civilização contemporânea” [5]. E o lugar que nela ocupa é precisamente o da sua vanguarda, o que confirma o Pessoa de Orpheu rigorosamente fiel, neste aspecto, ao Pessoa d’A Águia. Constatando que o próprio saudosismo levou “até ao seu máximo” e transcendeu o romantismo europeu, embora tardiamente, Pessoa celebra e exorta a que se dilate esse “impulso nacional que até no seu ponto mais baixo passa além do que a Europa fez” e assim “cria, é novo, original, grande, realmente grande!” [6].


A explicação desta só aparente contradição entre nacionalismo e cosmopolitismo é feita pelo próprio autor no esboço de um texto sobre o facto de alguém ligado a uma “theoria […] nacionalista” dirigir Orpheu, revista “de cultura cosmopolita”. Começando por afirmar “a adhesão completa e a manutenção integral” das “suas theorias expostas n’A AGUIA”, ou seja, o “nacionalismo fundamental” presente na convicção de que “o período de máxima vitalidade nacional é aquelle em que uma nação mais se entrega a si própria e á sua alma”, Pessoa distingue “trez generos de nacionalismo”: 1 – o “inferior” é “aquelle que se prende ás tradições nacionaes e é incapaz de se adaptar ás condições civilizacionaes geraes”, estando “sempre em atrazo” em relação a elas (é, em literatura, o caso de “Bocage e dos arcades em geral, até Castilho”); 2 – o “medio” é “aquelle que se prende, não ás tradições, mas á alma directa da nação, aprofundando-a mais ou menos” (o caso de “Bernardim Ribeiro, no seu grau inferior, e de um Teixeira de Pascoaes no seu alto grau”); 3 – o “supremo” é “o que num nacionalismo real integra todos os elementos cosmopolitas” (o de Camões, “no seu grau inferior”, não havendo ainda em Portugal quem represente o “seu alto grau”, como Shakespeare, Goethe e “todos os representantes supremos das culminancias literarias das nações que ahi chegaram”) [7].


Mantendo que “a vida da nacionalidade é a substancia dynamica da vida da civilização”, Pessoa considera, noutro texto, existirem “trez especies de nacionalismo”: 1 – o “nacionalismo tradicionalista”, “que faz consistir a substancia da nacionalidade em qualquer poncto do seu passado, e a vitalidade nacional na continuidade histórica com esse poncto do passado” (seria o caso do Integralismo Lusitano); 2 – o “nacionalismo integral, que consiste em attribuir a uma nação determinados attributos psychicos, na permanencia dos quaes e fidelidade social aos quaes, reside a vitalidade e a consistencia da nacionalidade” (seria o caso de Teixeira de Pascoaes, que diz não se apoiar na “tradição”, mas num “psychismo collectivo concebido como determinado”); 3 – o “nacionalismo synthetico, que consiste em atribuir a uma nacionalidade, como principio de individuação, não uma tradição determinada, nem um psychismo determinadamente tal, mas um modo especial de synthetisar as influencias do jogo civilizacional”. Ao contrário do “nacionalismo integral” de Teixeira de Pascoaes, que supõe existente uma “alma nacional”, para este último tipo de nacionalismo “não há propriamente uma alma nacional”, “apenas uma direcção nacional”. Precisando, num trecho que consideramos decisivo: “Uma nação não tem, como um individuo, uma personalidade psychica que, embora sujeita a alterações e a desvios, permanece, na sua essencia, auto-identica. Uma nação tem apenas, dados os factores inalienaveis de situação geographica, um determinado papel no conjuncto das nações, de que é formada uma civilização” [8].


Assim, se “o nacionalista tradicionalista repelle o presente e o estrangeiro” e o “nacionalista integral repelle o estrangeiro”, já “o nacionalista synthetico acceita um e outro, buscando imprimir o cunho nacional não na matéria, mas na forma, da obra”. Se cada um tem uma razão parcial, só “o nacionalista integral [no que parece um lapso evidente, onde só faz sentido estar “synthetico”] a tem supremamente, porque só elle está em todos os campos ao mesmo tempo” [9]. Sendo o “papel de uma nação forte e civilizada […] imprimir um cunho seu aos elementos civilizacionaes communs a todas as nações do seu tempo”, ou seja, plasmar uma forma sua que sintetize esses múltiplos elementos civilizacionais contemporâneos, e verificando-se que “o conflicto cultural é que produz civilização”, se Portugal está estagnado é porque “temos sido escravos de uma nação estrangeira de cada vez”. A possibilidade de libertação reside assim em abrir-se simultaneamente a várias correntes de influência estrangeira, o que na época passaria por “não eliminar a cultura franceza” mas acrescentar-lhe pelo menos outra “em conflicto com ella”, alemã ou inglesa [10].


Estes esboços de reflexão sobre o sentido de Orpheu e do afastamento d’A Águia e do projecto saudosista-renascentista de Pascoaes, em relação ao qual assinalam uma continuidade em ruptura e mutação, são extremamente importantes, pois mostram uma ideia nova para a saída da decadência e estagnação nacional, alternativa quer à mera europeização proposta por Antero e pela Geração de 70, quer à refontalização na tradição pátria projectada por Pascoaes: trata-se de abrir a nação o mais possível a diferentes e contrastantes influências culturais internacionais para se libertar do domínio exclusivo por uma delas e afinal as aglutinar, sintetizar e transcender numa nova forma civilizacional que, procedente desse impulso sintetizante que seria não a “alma” identitária, mas a “direcção” funcional da nação portuguesa, nasça ao mesmo tempo da própria tensão e acção-reacção interna entre esses díspares elementos culturais, que adiante veremos claramente definidos. É esse o espírito do que Pessoa designa como “nacionalismo cosmopolita” ou “synthetico”, bem expresso no final de um projecto de anúncio de Orpheu: “Comprar ORPHEU é, emfim, ajudar a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a litteratura portugueza. ORPHEU é todas as litteraturas” [11].


É esse mesmo espírito que Pessoa assume no “sensacionismo”, cujo órgão é Orpheu. Única arte “propria” e “representativa” da sua “epocha”, o sensacionismo seria “uma arte synthese de nações e de ephocas e de artes”, pois Pessoa, consciencializando o que hoje se chama “globalização” eurocêntrica, considera que “a nossa ephoca é typicamente, a grande epocha do internacionalismo”, na qual “aquillo a que se chama civilização agora, pela primeira vez abrange todo o mundo, de norte a sul, de leste a oeste”, na qual “todos os paizes, mais materialmente do que nunca, e pela primeira vez intellectualmente, existem todos dentro de cada um, em que a Asia, a America, a Africa e a Oceania são a Europa, e existem todos na Europa”, uma vez que é a Europa “a fons et origo d’este typo civilizacional, a região civilizada que dá o typo e a direcção a todo o mundo”. O sensacionismo deve colher assim de todas as correntes, aceitando de cada época o que nela haja de “eterno e differente” e rejeitando o que “tenha de proprio, de seu”, considerado como “o limite, a barreira, á sua contribuição para a civilização”. Esta ideia, extremamente fecunda, mostra que o que há a extrair de cada época (e, supostamente, de cada cultura) é o que a leva a transcender as suas características próprias, eternizando-a e universalizando-a. É isso que alimenta o sensacionismo não só de todas as correntes artísticas e literárias, simbolistas, decadentistas, cubistas, futuristas e outras “dynamistas”, genericamente designadas como “whitmanistas”, mas ainda do que houver de melhor e diferente nos múltiplos aspectos e momentos fundamentais da experiência humana, seja o panteísmo, a santidade, a intuição dos homens do Renascimento, a construtividade grega e latina, a harmonia clássica, o egotismo romântico, o misticismo indiano e asiático, a ritualidade esotérica egípcia, o primitivismo africano, o cosmopolitismo americano, o exotismo da Oceânia e o maquinismo europeu… “A verdadeira arte moderna tem de ser maximamente desnacionalizada – accumular dentro de si todas as partes do mundo”, sem perder nada do “esforço das differentes epochas passadas” [12].


“Sensacionismo” é o “resultado d’esta Grande Synthese, d’este Magnum Opus da alchimia espiritual”, que funda “todas as terras”, “tempos” e “artes”. Perante a questão de se esse “genero de arte” é passível de “ser produzido nos grandes centros europeus, nos grandes centros de civilização”, Pessoa responde que não, pois tal arte “é supremamente portugueza”. A razão é que cada povo contribui para a civilização com aquilo de que a sua “índole” é capaz, “em contacto com o typo e direcção geraes d’essa civilização”, e uma arte totalizante e sintética, como o sensacionismo, “só pode ser dada á Europa por um povo cujo caracter seja cosmopolita, e não cuja vida o seja – por um povo cujo caracter seja sensivelmente desnacionalizado, antipatriotico”. É o caso do português, pois nenhum povo “é como o português temperamentalmente desnacionalizado, aberto a todos [sic] as influencias, recebedor fácil de todas as novidades”, inepto para o “misoneismo”, “único povo cosmopolita-nato”. Assim o comprovam as Descobertas, “a única cousa portugueza, typicamente portugueza, que houve em Portugal” e “a obra mais gloriosamente internacional, cosmopolita, e desnacionalizada” que houve na história do mundo. E é por isso que só agora, na única “epocha cosmopolita”, que é o tempo presente, pode haver literatura ou arte portuguesa. Pessoa termina assim sob o mesmo signo com que encerra os ensaios sobre a “nova poesia portuguesa” n’A Águia: se aí proclama, com o advento da nova síntese civilizacional implícita no “transcendentalismo panteísta”, a partida da “Raça” “em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço”, cumprindo “divinamente” o seu “verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo” [13], proclama agora ter chegado enfim a “Hora da Raça”, porém a “hora espiritual”, pois a “material” passou com a chegada de Vasco da Gama a Calecut. Se aí se enterrou “o destino material da Raça” [14], esta morte histórica de Portugal no apogeu da sua obra civilizacional exterior - semelhante, por outra via, ao “salto para fora da história” que Oliveira Martins adverte no sebastianismo - , é todavia a condição de possibilidade da sua ressurreição a outro nível, como um sopro espiritual e cultural animador de um novo ciclo civilizacional. É apenas na medida em que Portugal se desterritorializar e passar “a ser não propriamente um determinado país, […] mas sim uma ideia a difundir pelo mundo”, como o diz Agostinho da Silva a propósito de Vieira [15], que se pode cumprir plenamente o impulso paradoxal que Pessoa assinala e assume como a sua verdadeira característica específica: a de perder toda a especificidade e característica própria para se converter na síntese do melhor e mais universal de todas as configurações do humano, em todas as culturas, tempos e lugares.


Este Portugal-movimento-para-o-Universo, este Portugal-(des)feito-Universo, não deixa todavia de incorrer nalgumas ambiguidades, decorrentes até da própria teoria pessoana, que, como vimos, recusa uma visão identitária da nação, negando que haja uma “alma nacional”, com “personalidade psychica” tal como os indivíduos [16]. Perguntamo-nos assim o que são este “Portugal” e esta “Raça” que se movem para o universal, qual o seu estatuto ontológico e existencial, e se isto não será ainda nacionalizar, ainda que para imediatamente e em última instância sacrificar essa mesma nacionalização, algo que porventura só no íntimo processo da consciência individual se pode realizar, embora o meio cultural possa ser mais ou menos convidativo e favorável a isso. A questão prende-se, quanto a nós, com o excessivo lugar que Pessoa ainda confere à “vida da nacionalidade”, identificando-a como “a substancia dynamica da vida da civilização” [17]e esquecendo que na verdade a vida da nação não existe senão enraizada nessa vida dos indivíduos e dos grupos que sempre, e sobretudo no mundo globalizado em que vivemos, extravasa dos limites da vida nacional e é susceptível de configurações e dinâmicas infra e supranacionais, irredutíveis mesmo a espaços de afinidades histórico-culturais e linguísticas entre várias nações. Mesmo nesta apologia de um Portugal desterritorializado e expatriado, Pessoa permanece ainda refém, como Agostinho da Silva, de uma última forma de messianismo nacionalista ou patriótico, ao afirmar Portugal como a única nação que tem como missão deixar de o ser para se converter no próprio universal… Este messianismo nacionalista-patriótico latente e reiterado na cultura portuguesa é algo que tem de ser crítica e rigorosamente ponderado, pois dá azo, na melhor hipótese, a toda a espécie de ingénuos erros de óptica e, na pior, a todo o tipo de perversos aproveitamentos, manipulações e instrumentalizações político-ideológicas. E as duas hipóteses tendem a acompanhar-se. A verdadeira sabedoria consiste porém no discernimento capaz de, sem nos enredarmos nestas seduções, sermos ao mesmo tempo capazes de colher todo o proveito de um meio cultural favorável ao universalismo como é manifestamente, no seu melhor, o português.


1] Fernando Pessoa, Sensacionismo e outros ismos, Edição crítica de Fernando Pessoa, X, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, p.29.
[2] Cf. Ibid., pp.29-31.
[3] Cf. Ibid., pp.46-47.
[4] Cf. Ibid., p.49.
[5] Cf. Ibid., pp.58-59.
[6] Cf. Ibid., pp.59 e 61.
[7] Cf. Ibid., pp.66-67.
[8] Cf. Ibid., pp.67-68.
[9] Cf. Ibid., p.68. Cf. p.471, onde Jerónimo Pizarro adverte o possível “lapso”.
[10] Cf. Ibid., pp.68-69.
[11] Cf. Ibid., p.70.
[12] Cf. Ibid., pp.75-76.
[13] Cf. Id., “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, Obras, II, organização, introduções e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão, 1986, pp.1194-1195.
[14] Cf. Id., Sensacionismo e outros ismos, p.77.
[15] Agostinho da Silva, Reflexão, Lisboa, Guimarães Editores, s.d., p.104.
[16] Cf. Ibid., p.68.
[17] Cf. Ibid., p.67.



Publicado em vários blogues, entre os quais:

umoutroportugal.blogspot.com

a dupla sombra


domingo, 3 de janeiro de 2010

Para uma sabedoria entre - Do terceiro excluído ou do tao inter-calado



(Laozi encontra Yin Xi, o guardião da porta do Tibete)

"Do princípio de não-contradição Aristóteles extrai o do terceiro excluído como sua consequência (em gamma, 7): não há nenhum intermediário entre enunciados contrários, pois é preciso necessariamente afirmar ou negar um mesmo predicado, seja qual for, dum único sujeito. Ou é verdadeiro, ou é falso, isso é ou não é, não há meio entre os dois, tal qual o pode ser o cinzento intercalando-se entre o preto e o branco; há, não "dégradé", mas exclusão e resposta apenas por sim ou não. Pois, a partir do momento em que se toma como ponto de partida uma definição, definição que vem ela própria da necessidade em que se coloca o outro de "dar a cada termo uma significação determinada", é suprimida toda outra possibilidade emergindo de "entre" os contraditórios. [...]

A partir do momento em que a contrariedade primeira, a do ser e do não-ser, serve de base a este princípio do terceiro excluído, pretender haver um intermediário entre estes contraditórios "não é dizer nem do ser nem do não-ser que ele é ou que ele não é" (gamma, 7), não é nada mais dizer de todo e o pensamento soçobra, inelutavelmente, desfaz-se e não mais pensa. Entrar no pensamento taoísta, em contrapartida, é precisamente reabrir a possibilidade desse "entre", metaxu, que Aristóteles aqui exclui. Pois a efectividade inesgotável de que "tao" nomeia a fonte, esta capacidade sempre em recuo do visível e que, por aí, se separa das marcas tangíveis que constantemente dele decorrem, essas mesmas que regista a definição, não pode ser apreendida nem segundo a categoria do "há" (you), que descreve o tangível, nem tão pouco segundo a do "não há" (wu), que constata a sua inexistência. Daí a expressão contraditória, desfazendo a sua oposição, que é a única que o caracteriza: "chama-se [o tao] configuração sem configuração, imagem (fenómeno) sem realidade (concreta)" (Laozi, 14). Do tao, poder-se-á também dizer que não é nem um nem o outro e que participa de um e do outro: ele é apreensível-inapreensível, a sua única característica é ser incaracterizável [...]. Pois, pela virtualidade que deve ao seu constante desenvolvimento, a montante do concreto, ele não se deixará acantonar em nenhuma actualização particular que o manifeste no seio do visível. Mas é também dessa efectividade inesgotavelmente operativa, e demasiado subtil e difusa para não permanecer invisível, que procede toda a manifestação de existência.

[...]

Não se apreendendo o tao senão entre os contrários há/não há, a única caracterização que lhe convém será, não a do claro e do distinto, promovidos como são em exigência da razão europeia, mas, exactamente ao inverso, [...], a do "vago" ou do "vaporoso" (hu huang). Como ele não tem nem a opacidade e massividade das coisas, nem tão pouco o estatuto de pura idealidade que serve no pensamento grego, desde Platão, para definir o mundo das Formas e do inteligível, como ele não é nem fenomenal nem abstracto, mas (se) fenomenalizando-defenomenalizando constantemente, não é susceptível nem de contorno definido nem de determinação intrínseca, e o seu único traço marcante é o "indeciso". Enquanto efectividade, não é nem material nem espiritual, a partir do momento em que um seria distinto do outro, mas, evoluindo entre estes pólos, o seu modo é o do subtil e do dissolvido, do desligado e do decantado (wei, jing); apreende-se, não segundo os termos antitéticos da presença e da ausência, [...] mas na sua constante transição, nos estados da reabsorção e da emergência, manifestando-se simultaneamente no modo do ambiente e do evanescente 1".

1 - Cf. o que já notei do pintor chinês que pinta "entre há e não há" (you wu zhi jian), em La grande image n'a pas de forme, capítulos 1-3.

- François Jullien, Si parler va sans dire. Du logos et d'autres ressources, Paris, Seuil, 2006, pp.85-87.

Educar. Para quê? Para quando?



Revisitemos a alegoria da caverna de Platão. Um dos textos fundadores do Ocidente.

Mas note-se que a imagem da caverna está presente, de forma não negligenciável, no pensamento oriental. Isto só para lembrar que no que se refere ao pensamento, as portas nunca abrem só para um lado.

É impossível aprofundar a análise desta peça da tecitura da metafísica ocidental, naquilo que ela tem de fundante e de constringente para a nossa contemporaneidade pensante, sem seguir os veios comunicantes que a ligam ao resto da obra em que se insere, a República, e daí para o todo do corpus platónico, pelo que nos ficaremos pela alusão, esquemática e superficial, a alguns dos aspectos da alegoria, sem procurar aprofundar a nossa análise da alegoria enquanto alegoria, da sua intencionalidade exemplificativa.

Um dos aspectos que considero mais marcantes é o facto de Platão nos apresentar uma caverna construída pelo homem, trata-se dum dispositivo (uso aqui este conceito em proximidade a Foucault e a Agamben), mais do que uma disposição natural da espacialidade narrativa, que introduz na narrativa uma meta-temporalidade, o tempo da construção da caverna, submetido a uma intencionalidade que não influi directamente no sentido marcadamente analógico da alegoria, mas que pode levar mais longe a apropriação analógica do sentido da alegoria: somos nós que estamos a ser representados, nós, os destinatários do relato, numa interpelação que é, ao mesmo tempo histórica e meta-histórica – no fundo, Platão aflora a temporalidade escatológica ao representar a condição dos homens no seu enraizamento histórico-cultural e não apenas a condição dos atenienses do seu tempo. Tal como a sua República será o corolário duma meta-política, na verdade a metafísica instaura-se, desde Platão, como uma versão totalizante da soberania, a caverna é a sua legitimação irónica.

Encontramo-nos sempre numa actualidade que resulta dum conjunto de condições prévias. Condições essas que podem servir como condicionantes ou como vias de realização do nosso potencial existencial. E nenhuma actualidade é, por si só, isenta de constrangimento e de obstáculos ao desenvolvimento do pensamento livre e da vida emancipada. E a emancipação a ser vivida terá que sê-lo a partir do protagonismo do indivíduo que existencialmente enfrenta os obstáculos que a sua vida lhe proporciona.

Educar, na perspectiva platónica, é abrir espaço ao desabrochar da auto-descoberta da verdade, encarada como o sentido de toda a experiência e de toda a volição. O problema que se nos coloca, e que Platão a seu modo solucionou a partir da sua ontologia erroneamente considerada dualista, uma vez que a sua visão crepuscular do ser e da verdade pressupõe uma continuidade que só extrinsecamente se pode considerar ilusória, é o de saber como enfrentar o abismo do íntimo sem o esteio duma metafísica que absolutamente funde todo o relativo.

Assim, a caverna pode, com a sua força analógica, lançar uma luz inquietante sobre a Escola. A Escola é um dispositivo de sujeição ou de emancipação? Ela é, tal como a caverna, uma construção humana, uma construção social. Na sua base está um conjunto heterogéneo de investimentos duma imaginação colectiva que visa a reprodução duma imagem da sociedade tida como tradicional, como digna de ser reproduzida e transposta para o futuro. Mas o que temos de facto é um conjunto de estratos resultantes da sedimentação da vida política, cultural, social, das sociedades ao longo de períodos mais ou menos longos. Até as rupturas deixam marcas e destroços. E perdem o seu sentido originário.

No que diz respeito à sociedade portuguesa, mas isso também é visível em todas as sociedades ocidentais, a escola tem sido o principal objecto de investimento sócio-político. A Primeira República, por exemplo, tem uma intencionalidade pedagógica, nem sempre objecto de sistematização, que se manifesta no investimento na escolarização, insuficiente mas visível, e na retórica de regime que procura dar sentido ao caos que se vivia e que acabou por abrir espaços à ditadura , o pior flagelo da nossa história colectiva.

Estamos hoje muito longe dos mais de 70% de analfabetos com que Portugal entrou na primeira década do século XX. E não nos iludamos: esse percentil é uma consequência da grande assimetria social que sempre caracterizou a sociedade portuguesa, é um sintoma indesmentível da injustiça social.

Cem anos passados não nos libertámos ainda desse paradigma social. E se se tem a consciência de que a Escola é o tabuleiro onde se joga muito do que poderá ser a justiça social, não podemos ficar indiferentes em relação à forma como se instituiu a insularização social da Escola e ao aprofundamento desse processo nas mais recentes medidas de política educativa.

A Escola estrutura-se como um dispositivo de segregação social das crianças e dos adolescentes, para não falar das crianças portadoras de deficiência (por que razão o tema da deficiência raras vezes surge como digno de ser pensado, e de ser vivido ,quando se trata de pensar e re-pensar a sociedade?). Não há nenhuma razão para impedir que a escola seja um ambiente de interacção geracional.

Esta segregação social das cianças, agrupadas e estratificadas em segmentos etários, impede a educação para a diversidade e a diferença. Gera egocentrismo e indiferença em relação ao outro e impede que se experiencie o saber como sabedoria. Aliás, o que acaba por ser exilado da cidade ideal não é, hoje, o poeta, mas o sábio. A cidade ideal da era da informação vê na sabedoria a loucura a exorcizar. A sabedoria faz baixar o valor de mercado da informação. Põe em causa os sistemas de valor que transformaram, progressivamente, o saber e a cultura, em mercadoria.

A cultura não se consome, consuma-se.

O sábio é o que recusa o estatuto de produtor (a cultura não se produz nem se consome) e o de mero consumidor/espectador cultural e assume, de forma plena e nunca preterida, o estatuto de criador. O leitor dum poema é, ele próprio, poeta, o mesmo acontece com quem, agostinianamente, assume a vida como poesia.

Os alunos são colocados na escola como integrantes dum sistema de indução do saber, do saber-feito, e não de indução ao saber, encarado como sabedoria.

Na alegoria da caverna, um dos prisioneiros é solto das amarras. Esse não é um acto de libertação. Paulo Freire descobriu bem cedo nas suas experiências pedagógicas junto dos oprimidos que uma das características da mente oprimida é o medo da libertação. Isto porque a opressão assenta em mecanismos de coacção física (o domínio sobre os bens necessários à vida, a sua distribuição mediada por mecanismos criadores de escassez para obrigar os pobres a trabalhar) e em mecanismos de dissuasão da tomada de consciência da situação de opressão e das vias que poderiam levar à libertação. Estes mecanismos de dissuasão são muito mais coersivos do que os mecanismos físicos de coação. Os indivíduos poderão mesmo ser levados a estimar a sua servidão. As retóricas dos nacionalismos patrioteiros têm servido esse propósito: 'nós todos amamos a Pátria e a Pátria ama-nos a todos, mas tu, por seres inferior, tens que trabalhar sem outra retribuição do que a miséria da tua situação'. A questão está em saber quais os critérios de discriminação entre seres humanos. E é aí que reside a estupidez do pensamento monárquico moderno. Que Rousseau desmontou com uma lógica inabalável: se formos todos descendentes de Adão, não temos todos o direito ao trono? No fundo, colocar a desigualdade como critério de soberania é impedir a vigência da Frátria. E por que razão grande parte da humanidade, e dos nossos concidadãos, se quisermos ficar-nos pelas fronteiras em que nos enclausuramos, deve ser reduzida a um estatuto de menoridade em termos de cidadania e de espiritualidade?

O acesso à auto-estima e à consideração social, essas as 'torneiras' que a escola começa por controlar no sentido de conseguir a acomodação social dos indivíduos. Os alunos com inteligências mais criativas, menos subjugáveis à mecânica da indução do saber, são tratados como párias, vêem a sua auto-estima sistematicamente destruída, ao passo que os que têm uma inteligência mais amestrável e mais subjugável aos regimes da ruminância curricular, são elogiados e incentivados.

Como diz Marx nas Teses Sobre Feuerbach, 'o educador também precisa ele de ser educado'. É esta a situação dilemática a que a alegoria da caverna nos conduz: como libertar, libertando-nos? E como libertar sem estar a criar novas instâncias e dispositivos de servidão e de subserviência?

O homem desacorrentado e projectado para fora da caverna atinge, nesse momento, o pico da sua opressão, porque deixa de ter razões para se considerar uma vítima dum processo que lhe escapa: sem as correntes, sem estar preso dentro da caverna, a sua sujeição é uma coisa sua, como sempre fora. O mesmo será a sua libertação. Que só o será autenticamente quando toda a sujeição for ultrapassada, ou seja, quando todos se virem como libertos, quando todos conseguirem aderir à sua própria liberdade.

E não estamos melhor posicionados, na nossa actualidade, para prosseguirmos este esforço de emancipação. Não é verdade que tenhamos assistido ao fim das ideologias. Não vivemos numa era pós-ideológica. Muito pelo contrário, vivemos imersos num contexto repleto de dispositivos de alienação, de persuasão e de dissuasão. A própria ciência e a técnica, seguindo muito de longe Habermas, mas muito de longe, são, potencialmente e em acto, ideologia, têm funções políticas que não podem ser esquecidas. É isso que dá sentido à mentalidade tecnocrática que se infiltrou nos sistemas políticos modernos. E as ditas ciências humanas também estão implicadas neste processo. Como se vê hoje com a nova dogmática, a Economia. As reformas sociais, as mudanças políticas, têm como limite os ditames dessa ciência anfibológica.

Ora, o próprio 'saber' escolar (escolástico) é em si próprio ideológico. Não que não deva ser ensinado. É que o ensinar para a sabedoria é uma prática que na antiguidade se designou como Filosofia. É que não basta só ensinar, há que criar o hábito do recuo crítico e projecção ética.

E em relação a isso há muito que pensar e discutir. Porque na nossa actualidade, como em todas as outras, a Filosofia deve ser decisiva. Digo 'deve ser' porque muito do que se publica e ensina como 'filosofia' não passa de neo-retórica e de pseudo-saber, um jogo de jogos de linguagem, uma mimética de linha de montagem. Quantos dos investigadores na área da Filosofia não são meros repetidores do já dito e pensado, meros cultivadores dum saber vegetativo? Estando por inventar um aparelho que funcionasse no cérebro como um desfibrilador da inteligência, a tarefa do Filosofar pode ficar por cumprir por falta de comparência do Sujeito capaz de Pensar.

Mas este recuo crítico e esta projecção ética não podem ser induzidos, não podem ser 'ensinados' porque aí seria parte da estrutura constringente da caverna. Têm que ser vividos como o próprio do aceder à consciência. O sermos capazes de negação sem negatividade, de pôr em causa o dado e o afirmado e, ao mesmo tempo de, sem negatividade, enfrentarmos o outro como indissociável da nossa humanidade, é isso que nos torna capazes de assumir o profundo e o elevado da nossa condição.

(c) 2007
Quem somos nós na melodia de se Ser, na troca intrínseca com um Outro?
Existe um Eu diferente de um Outro?

Viver e suas variantes





Elliot Erwitt. Mother and child.




A dupla dor-delícia de ser quem se é e a serenidade são gêmeas bivitelinas. Conhecemos bem as diferenças entre ambas, e no entanto nos passam certo sentimento de univocidade – como dois conjuntos matemáticos com uma área em comum que de algum modo os define. São duas, mas uma precisa da outra para existir inteira.

A experiência mais completa de existir e a serenidade são semelhantes ao que os químicos chamam de elementos simples, irredutíveis. Convivem em harmonia e criam intervalos de prevalência; equilibram-se na gangorra dos dias, uma ajudando a definir e identificar a outra. Fertilizam a argila de que somos feitos como o adubo e a água fazem com a terra que recebe uma planta.

Só se vive plenamente sendo capaz de mergulhar nessas duas instâncias. Uma é necessária à outra; são como espelhos com sinais trocados, e por isso podem se contemplar e fortalecer mutuamente. Sem serenidade a experiência de estar vivo é menos intensa; os acontecimentos não se desdobram de todo, não mostram todas as faces que resultaram naquele e não em outro acontecimento. Entendem-se os motivos pela metade, criam-se julgamentos apressados, falhos, e fica muito fácil distanciar-se das pessoas por não ser capaz de compreendê-las. Sem serenidade (essa paz de dentro, que independe de sossego externo e até da própria paz social), o ego toma conta da situação – e o ego pode ser considerado uma instância emburrecedora por excelência.

Nem é tão difícil criar esse estado interior a que chamamos de serenidade. Começa com um olhar sinceramente interessado no que vai dentro de si; olhar-se como se fosse “de fora”, imaginando ver outra pessoa e suas alternativas.  Outra vantagem da serenidade é recriar a solidão como quem decora uma casa, ver novidades até no dia-a-dia, reavaliar a rotina, tornar o tédio um sentimento mais distante. Sozinho ou acompanhado, é possível aproveitar melhor o que a vida oferece de bom quando se é capaz de relativizar os maus momentos.

E como é improvável, senão impossível, que alguém consiga atravessar a vida sem sofrimento, ao menos vai encontrar em si um espaço mais confortável para seu próprio uso e para quem estiver próximo, porque a serenidade é resultado de uma espécie de ginástica interior, e dá força e agilidade mental a quem a conquista.



Oração

Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas
à flor da pele
matéria negra
matéria fria
língua de fogo

rogai por nós

Domingos da Mota

Faleceu o Pe. Manuel Costa Freitas, OFM





Faleceu, hoje dia 2 de Janeiro, com 81 anos, o Pe. Manuel Costa Freitas, franciscano, eminente filósofo especialista em pensamento medieval, sobretudo em autores como Boaventura de Bagnoregio e Duns Escoto. O funeral realizar-se-à dia 4 de Janeiro, pelas 15h, em Barroselas, Viana do Castelo.
Alguns dos seus estudos podem ser consultados em: www.lusosofia.net

A música e a paisagem da Islândia (Sigur Ros: Njósnavélin)

sábado, 2 de janeiro de 2010

O desafio intercultural: subversivo, enriquecedor e difícil



"Não se pode negar, em qualquer caso, que a atitude intercultural implica um risco e leva consigo a aceitação da vulnerabilidade humana. Porém, se não aceitamos este risco, tudo desembocará num "choque de civilizações", isto é, numa guerra de culturas, que se prolongará como nos últimos seis mil anos de história humana, na qual a cultura da guerra prevaleceu sobre a cultura da paz. Esta transição de uma cultura da guerra a uma cultura da paz é o desafio de vida ou de morte com que se enfrenta a humanidade contemporânea. [...]

A interculturalidade é um imperativo humano do nosso tempo. Para que tenha lugar a mutação de uma cultura de guerra numa cultura de paz, a mudança deve alcançar o domínio do mythos e não somente o do logos; do que se depreende que havemos de modificar os nossos mitos e não apenas as nossas ideias. Esta transição, este passo (pesah, pascha), [...] é a tarefa principal da filosofia intercultural, é o desafio intercultural do nosso milénio. Note-se que falamos de desafio intercultural e não somente ético. [...] O desafio da interculturalidade não pode reduzir-se a um discurso ético. Não há que nos espantarmos de que o desafio intercultural seja tão subversivo como enriquecedor ao passo que difícil.

Cada cultura crê nos seus próprios mitos e, quando nos esquecemos do carácter relativo das convicções que estão encerradas (e compreendidas) no mito, corremos o risco de converter em absolutos as ideias e os valores de tal cultura. Este é o perigo das culturas que se fecharam em si mesmas ou que estão convencidas da sua superioridade. O encontro com outras visões do mundo que são incompatíveis com a nossa não apenas nos causa incómodo, mas também nos torna inseguros, faz-nos perder o equilíbrio. [...]

A abertura à interculturalidade é verdadeiramente subversiva. Desestabiliza-nos, contesta convicções profundamente enraizadas que damos por garantidas porque nunca as colocámos em discussão. Diz-nos que a nossa visão do mundo, e portanto o nosso próprio mundo, não são únicos. [...]

Porém, ao mesmo tempo, a abertura à interculturalidade é enriquecedora. Permite-nos crescer, sermos transformados; estimula-nos a tornarmo-nos mais críticos, menos absolutistas e amplia o campo da nossa tolerância. Ademais faz-nos descobrir as próprias raízes da nossa cultura, esses pontos de intersecção para um crescimento harmonioso dessa mesma cultura. [...]

O nosso terceiro adjectivo convida-nos a ser prudentes e realistas. O encontro entre as culturas é difícil, porque não se trata de um fácil eclecticismo ou de um cocktail arbitrário. [...]

É natural que seja necessário ir com prudência, para evitar cair no fascínio do exótico e sermos assim vítimas de um parasitismo debilitador confundido com uma simbiose enriquecedora"

- Raimon Pannikar, Paz e Interculturalidad. Una reflexión filosófica, Barcelona, Herder, 2006, pp.105-107 e 109-110.

Poesia


Mana Bernardes - Poesia - Instalação em grande formato, dezenas de lâminas de cartão com recorte interno e luz ( Brasilia - Brasil)

Fonte e créditos deste post: Ar do Tempo, um blog que aborda diversas formas de arte de forma original.
Ama o Céu cá na Terra e diz que é magno o teu fogo
Não digas a ninguém que o amor é um engenho de criar bichos
que as mulheres e os homens podem sair a correr das suas camas
tão aflitos como o silêncio que nos pariu

Fala como se o vento dividisse a força contigo
e lança o pedregulho para embater no satélite mais afastado
Mas nunca deixes de amar como uma mosca que poisa no casaco
sem o ruído das forquilhas
sem tropeçar na canção que duas línguas produzem

É sabido que o coração é um botão preso por uma linha
ou talvez
               um velho armante
a julgar-se capaz de tapar uma ferida com o dedo largo

Não deixes que a fome de atirador prevaleça
nem cuspas nas mãos para aqueçê-las
pois este frio é antigo
                  marmóreo nos sulcos das veias
sem boletim de vacinas

O amor saberá esperar pela calada de um bosque

A guerra não deixa corar os sexos - Disse um dia um soldado antes de pisar o excremento

Se um dia me vieres visitar não tragas lenha nem lanche
Evita meter conversa com as aves de rapina
E vem direitinha a mim numa velocidade de naufrágio
Saberás que os filhos que programámos também dormem na areia

Pois é de nós ensinar a somar todos os fenómenos com crepúsculos

Se mesmo assim a casa não se levantar ou um Deus vier
Contar a mesma história
Eis que as pedras se unem para fazer os dias

Outra reflexão- Paradigma de uma cultura do "entre"


Paradigma de uma cultura do “entre” em face de uma cultura do -“ente”

Especula-se muitíssimo, e creio que com razão (por vezes até fazendo pouco uso dela), sobre a adopção de uma mudança de paradigma que permita conceptualizar a vida humana no planeta tendo em vista uma perspectiva que rasure os termos comparativos, baseados nas diferenças e identidades dos povos, geradores de uma enganosa cultura de supremacias de todo o tipo: de raiz cultural, étnica, religiosa, política, económica, ou outra, com toda a sorte de divisões que daí resultam e que constituem, em si e na sua disseminação, autênticos obstáculos ao verdadeiro diálogo e respeito que, não sendo tão novo quanto isso, ainda não foram adoptados pela maioria dos homens integrados nesse conceito, também posto em questão, actualmente: o de povo e povos.
Assinale-se desde já que a maturidade cultural, a que agora nos queremos referir, de uma cultura liberta do paradigma assente nas diferenças, não está distribuída uniformemente, nem sequer como tomada de consciência da caducidade de outros paradigmas, em todos os homens e em todas as sociedades e povos. Como bem sabemos. Os mecanismos que dividem, subjugam e limitam a tomada de consciência destes novos modos de compreender a vida, existem no sentido de criar barreiras a esta mesma tomada de consciência, na medida em que “lêem” e divulgam, distorcendo e manipulando, a relação entre o homem e a natureza, criando barreiras a uma clara apreensão do real e dessa mesma natureza, conceito longe de estar esgotado em todas as suas vertentes e relações.
O que se sabe é que não sabemos que “justiça” é essa que faz com que ainda não tenhamos todos colapsado: homens, bichos e plantas. O que ela (natureza) seja está fora do âmbito do que aqui queremos pensar.
Do mesmo modo, o conceito de povo está demasiado ligado a nação e estado para deles ser desligado, por isso o não queremos aqui usar. O conjunto dos povos é algo que deve ser, igualmente, fonte de questionamento. Nada deve ficar de pé! É preciso “baralhar e tornar a dar”. Importante é saber que paradigma é esse ou são esses que põem em causa de forma tão inteira, rasgando a direito, ou não, os antigos paradigmas que governaram a acção dos homens.
Ora é preciso perguntar: o que querem, verdadeiramente, os que se empenham nestas especulações? O que querem é, porventura, uma cultura nova que, a pouco e pouco, saiba ver o homem não como uma parte de um todo designado de povo, sociedade, ou outra designação, mas antes o Homem elevado ao seu expoente máximo de produtor de cultura que se esforça em tornar verdadeiramente humano (nele incluindo a centelha de divino), o sub-humano que tantas vezes somos. O que verdadeiramente sonham esses homens é a utopia de uma “cultura entre”, nisso supondo a distância que permite ver, estabelecer pontes, para permitir o olhar imparcial, branco como a neve, como diria o poeta. O olhar insituado onde somos menos um “eu” e mais um “entre”. Uma visão na esteira de homens como Agostinho da Silva, que desse paradigma deu exemplo.
Para isso há que mudar muito! Mudar é, pois, a palavra-chave. Palavra com tradições, como se sabe, também. Há que aprender a ver, agora com o olhar compassivo, com o olhar amoroso. Há que considerar a mudança não como vinda de fora, há que haver espaço para uma permeabilidade amorosa, comum a todos. O paradigma anterior resultava de uma acção que vinha do homem para o Real. Dizia-se: “mudar a vida”, “mudar a sociedade”, “mudar o mundo”, procurando inocentar o homem e culpar a ”sociedade” dos males que moravam no seu coração. Nada disso hoje tem sentido. A direcção deste pensamento mudou radicalmente. O homem já não é esse animal, “chefe”, “senhor”, deus dos outros animais. Uma espécie de deus menor, investido de moldar o mundo à sua imagem e semelhança. O homem não é desligado do Real, por isso também não deve ser este a mudar o homem. O real (a natureza incluída), deixou de usar apenas o modelo de: “façamos como o que vemos fazer na Natureza”. O Homem não pode esquecer que, mais do que um ente, é um “entre”. O que o homem deve entender é que entre ele e o mundo: tudo o que, no fundo, está nele e aparenta estar fora dele, para que ambos existam, tem que haver uma relação, uma comunicação, um diálogo permanentemente actualizado. Uma ponte, em suma, que é intrínseca à condição humana, mas que o homem se tem esforçado por esquecer, na sua ganância de se ganhar. Perdendo-se de si e do que é verdadeiramente essencial para si e para o Outro. O homem tem que compreender que as diversidades unem, tornam uno, não dividem.
É preciso ganhar a consciência de que o homem é um “animal plural”. Nesse sentido o homem não é desligado. É um todo, perante um todo, ou seja, o homem torna-se todo no todo.
Julga o homem que desembaraçando-se do que lhe faz mal, ou seja, do que aparentemente divide: o outro, a outra cultura, a outra natureza, a outra razão, a outra sensibilidade, em suma, libertando-se do que é diferente de si (e que apenas por isso o ofende e lhe desagrada) só assim é feliz. Que engano enorme! O homem não tem que persistir nesta cultura de morte. A felicidade não é algo que esteja fora e que tenha que ser alcançado, captado e dominado. A felicidade está no homem e não fora dele. A felicidade situa-se entre os diversos que o homem é. Esta é talvez uma cultura que importa encontrar nesse diálogo que todos temos que ter, connosco, de onde levantamos os andaimes para a construção da ponte que a todos e a tudo una a tudo e em todas as direcções, tal como a luz. Sejamos, pois, hoje, os “anjos do Real” futuro.

Reflexão de Ano Novo



Não nos enganemos. Os males do nosso tempo não vêm da destruição deste planeta. A extinção exponencial das espécies, a poluição, as alterações climatéricas, o depauperamento dos recursos naturais, a voracidade da insaciabilidade do desejo com freio nos dentes... tudo isso é consequência, não causa.

A causa poderemos chamar-lhe, numa linguagem cientificamente rigorosa, a sociabilidade merdosa. É verdade que todos os homens, todos os viventes, nascem para obrar. Mas uns querem ser mais obrosos que os outros. Querem-se em pedestais e em bufetes de bem pensantes que esganaram o que havia de mais lúcido em si, de mais luminoso...

Não há homens que consigam ser maiores que um sequer dos outros, homens ou viventes. E esse deveria ser um ponto de partida, uma alvorada ética nas consciências: não devemos ter direito de vida ou de morte sobre qualquer vivente. Nem devemos arrogar-nos a indecência de desconsiderarmos seja quem for. Há seres humanos sem currículo que fazem mais pela humanidade do que qualquer tiranete auto-erigido. Jesus Cristo é um exemplo. Não consta que tivesse biblioteca. Nem que achasse esta vida uma seca.

Mas isso são contas dum rosário que daria pano para mangas.

O que é urgente, para quem se considerar sempre na alvorada duma nova era (mas essa é uma ilusão de óptica que acompanha a humanidade desde que alguns deram para se meter com a História, essa inexistência que lustra todas as parvónias que se querem o centro do universo) é amar. Um barco no mar, como cantava Eugénio de Andrade e desfazia Agostinho da Silva, o menos obroso dos homens que fizeram obra, ou seja, que viveram. O que vem por acréscimo pode ser um sinal de superabundância. Mas isso não se escolhe, há uma prodigalidade da vida quando vivida com um sentido sublimante, mas isso não se compreende nem se adquire, é um dom do sem nome.

Por vezes dou comigo a mirar obras, com peso, autênticos calhamaços, sobre 'a psicologia dos portugueses'. Coisa ridícula: a Psicologia já de si é uma ciência num instável equilíbrio epistemológico, é uma abstracção que diminui o seu objecto ao estatuto de coisa pensada, analisada, dissecada, por uma Razão que é sempre pretérita. Mas não lhe abanemos o fundamento vacilante: o que é que um homem nascido em Portugal pode ter de tão diferente em relação a qualquer membro da espécie? Hoje que se sabe que há poucas diferenças entre os humanos e os antropóides superiores (e esta superioridade é ela própria questionável porque antropolátrica). E que 'portugueses'? Os ratos de biblioteca ou os homens ditos 'do povo'? Todos eles obram e são servidos pelas mesmas Etares (quando existem).

É um tema pouco interessante, mas nesta alvorada de milénio ainda estamos muito longe de ter conseguido a derrota do totalitarismo e da cultura de morte que marcou o século XX. Não se pode esquecer as misérias, as visões deturpadas do humano e da Natureza, a indiferença em relação ao que nos traz a esta vida e a este mundo. A cidadania autêntica não se exerce dentro de qualquer megalomania identitária. O planeta é demasiado redondo para nos constrangermos a fronteiras e a segregacionismos. A questão determinante não é como dominar o mundo, mas como alargar a visão do mundo. Uma visão alargada não permite barreiras, nem se fica pelo imediatismo ( e cada vez mais do mediatismo) do que se dá a ver. A visão de Samuel Huntington não tem que ser uma fatalidade histórica, é possível explorar em cada tradição religiosa ou cultural vias de abertura esikásmica: todos os discursos afluem do Silêncio, o Oceano da Paz, e todos podem refluir para aí, se forem portadores de luz. É quando depomos as máscaras egóticas e etnocêntricas que advimos ao rosto que comunica para além de si, que é ek-stase, contemplação, visão templante: o Templo é a suprema forma de vivência do enigma.

E nenhum homem tem que deixar de ser o que é para ser cidadão do mundo.

Foi, portanto, com apreço que tomei conhecimento do conteúdo da homilia de hoje, dia mundial da Paz, de D. José Policarpo, uma figura com a qual não simpatizo de forma muito especial. Mas desconfio que muito de não revolucionável está compreendido pelo seu conceito de Civilização. O que é importante não são os preconceitos que são partilhados pelas culturas que pertencem ao mesmo fundo civilizacional, mas se estamos mesmo interessados em renovar o conceito de civilização, retomando o seu significando original, o que importa é a forma como vivemos com, como nos damos à partilha e à comunhão? Seremos capazes de abandonar a sociabilidade merdosa e assumir uma sociabilidade compassiva? Para além dos homossexuais em geral, dos não crentes em particular, dos pagãos por especialíssimo interesse de 'marca' ou de 'corporação', quem mais estará fora desse conceito de civilização?

É necessário que se compreenda que as vias de salvação só serão autênticas se também o forem de perdição. Só assim se pode esvaziar a cultura de morte que hoje está mais visível em certas formas de vivência dita religiosa, mas que é, infelizmente, um dado civilizacional. E não me estou aqui a referir a temas como o aborto. Há movimentos ditos pró-vida que são, no seu fundo, os mais perfeitos produtos dessa cultura de morte. Aliás, onde a estupidez impera, a vida desespera.


Nem diferença, nem identidade: um novo paradigma - ENTRE



"Erra-se, creio, ao encarar a diversidade das culturas sob o ângulo da diferença. Pois a diferença reenvia à identidade como ao seu contrário e, por consequência, à reivindicação identitária - vê-se suficientemente quantos falsos debates daí se seguem hoje em dia. Considerar a diversidade das culturas a partir das suas diferenças conduz com efeito a atribuir-lhes traços específicos e encerra cada uma delas numa unidade de princípio, a qual se constata imediatamente quanto é arriscada. Pois sabe-se que toda a cultura é plural tanto quanto é singular e que não cessa ela própria de mudar; que é simultaneamente levada a homogeneizar-se e a heterogeneizar-se, a desidentificar-se como a reidentificar-se, a confirmar-se mas também a resistir: a impor-se como cultura dominante mas, imediatamente, a suscitar contra si a dissidência. Oficial e underground: o cultural não se manifesta e não se activa senão sempre entre os dois.

É por isso que preferi, na minha oficina aberta entre a China e a Europa, tratar não de diferenças mas antes de afastamentos. Pois o afastamento promove um ponto de vista que é, já não de identificação, mas, diria, de exploração: ele considera até onde podem desdobrar-se diversos possíveis e que ramificações são discerníveis no pensamento. [...]"

- François Jullien, Les transformations silencieuses. Chantiers, I, Paris, Bernaerd Grasset, 2009, pp.36-37.

Um novo paradigma: ENTRE. A hora não é de promover identidades, ou seja, muros culturais, mas sim de desvendar as pontes, as relações, de que é feita a tessitura do humano e que se ocultam na aparência de fronteiras essenciais.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Instalação


nem sempre invenção é arte
mas sempre é criar
inventar
um inventário
pau tronco plástico cartão
tecido
junto ao mar.

A janela


(c) Belmonte, 2005


" Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espetáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste" Bernardo Soares


Bom Ano!