quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Renascimento do Jornal Milénio com amplo destaque dado ao Manifesto Refundar Portugal / Movimento Outro Portugal



O Jornal Holístico Milénio renasceu no dia 14 de Fevereiro com uma forma mais actualizada e apelativa. Convido-vos a visitarem-no em http://jornalmilenio.com e a deixarem a vossa opinião. Todos são convidados para deixarem os seus artigos ou reencaminharem noticias que considerem relevantes com vista a uma maior consciência colectiva.

Luís Resina

......

Agradeço ao Luís Resina o amplo destaque que dá no Jornal Milénio ao Manifesto Refundar Portugal / Movimento Outro Portugal.

Português, Língua Oficial da Guiné Equatorial

A Guiné-Equatorial é um país da África Ocidental, dividido em três territórios descontínuos: um continental e os restantes insulares. A norte, no Golfo da Guiné, a ilha de Bioko é o território mais importante e alberga a capital do país, Malabo.

O país vizinho mais próximo é os Camarões, a nordeste, seguindo-se a Nigéria, a noroeste, Mbini, a sueste, e São Tomé e Príncipe, a sudoeste. O segundo território é a parte continental do país, Mbini, encravado entre os Camarões, a norte, o Gabão, a leste e sul, e o Golfo da Guiné, a oeste. Partes deste território estão mais próximas de São Tomé e Príncipe do que de Bioko.

Finalmente, a sudoeste, a pequena ilha de Pagalu completa o país, tendo como vizinhos mais próximos São Tomé e Príncipe, a nordeste, e o Gabão a leste.

O presidente da Guiné-Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, decretou que o português seria uma das línguas oficiais, ao lado do espanhol e do francês, condição prévia para poder entrar na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O país deseja ainda o apoio dos oito países membros (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste) para difundir o ensino da língua portuguesa no país, para formação profissional e acolhimento dos seus estudantes pelos países da comunidade lusófona.

http://www.observatoriolp.com/
http://groups.google.com/group/observatorio-lp/web/portugus-lngua-oficial-da-guin-equatorial?hl=pt-PT.

in, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"O diabo é idêntico à língua" ou o pensamento nómada de Vilém Flusser




"A língua materna forma todos os nossos pensamentos e fornece todos os nossos conceitos. É ela a responsável pela nossa cosmovisão e pelo valorizar que sobre ela fundamentamos. Em outras palavras: a língua materna é a fonte do nosso senso da realidade. Com efeito: amor pela língua materna é sinónimo do senso da realidade. Mas de que realidade se trata? De uma realidade relativa. A pluralidade das línguas o prova. Toda língua produz e ordena uma realidade diferente. Se abandonamos o terreno da nossa língua materna, se começamos a traduzir, o nosso senso da realidade começa a diluir-se. [...] O diabo é idêntico à língua. A língua é aquele tecido de maia que se estabelece como véu na superfície da intemporalidade. A realidade ou as realidades que a língua cria é justamente aquilo que temos chamado, até agora, de "mundo sensível". Passaremos, doravante, a chamá-lo de "mundo articulável". E rectificaremos, igualmente, a nossa definição operante do diabo. Temos dito que ele é o tempo. Agora podemos precisar melhor esse termo "tempo". "Tempo" é o aspecto discursivo da língua. E definiremos o diabo como "língua". O amor pela língua materna é a sublimação mais alta da luxúria, porque é a luxúria elevada até ao nível da realidade do diabo"

- Vilém Flusser, História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.91-92.

Realizar-se-á um Colóquio Internacional sobre Vilém Flusser, em 3 e 4 de Maio, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, organizado por Paulo Borges e Dirk Hennrich. Flusser é um originalíssimo pensador checo que escreveu algumas das suas obras maiores em português do Brasil. O presente trecho está vertido em português de Portugal, não castrado pelo acordo ortográfico.

A nova revista ENTRE publicará um estimulante inédito deste pensador genial.

A espiritualidade no Oriente cristão



Centro Nacional de Cultura
18 de Fevereiro de 2010 - 18h30

ENTRADA LIVRE

Para além do diálogo ecuménico a nível do dogma e das instituições, cujo desenlace de resto tarda sobremaneira..., o importante é o conhecimento recíproco entre os vários membros do mesmo Corpo crístico, susceptível de proporcionar o enriquecimento mútuo e a comunhão profunda.

Uma das “revelações” do cristianismo oriental aos olhos dos ocidentais, sejam eles católicos ou protestantes, é a sua dimensão espiritual e mística. Os povos ocidentais no seu conjunto sentem a falta dessa dimensão nas suas igrejas e culturas. Daí o tão badalado sucesso do “mercado das espiritualidades e religiões exóticas”. Mas os crentes cristãos do Ocidente hodierno olham antes para os seus irmãos na fé integrados em igrejas e tradições orientais, mais próximas porventura das origens do cristianismo.

Como é que vivem e interiorizam a sua fé? Quais são os ritos, as instituições e as doutrinas que abrem os seus corações à espiritualidade e transcendência de que tanto carecem as nossas sociedades modernas? Em que medida esse caminho nos aproxima da essência da mensagem evangélica?

Adel Sidarus (Évora)

continente perdido

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Antepassados oradores



Na serra perdem-se os caminhos
saltam-se muros
pelas pedras avança o rio
que é o céu correndo destinos

por entre musgos e minérios
as árvores são outonos
no coração o tesouro
de falos em flor os patronos

no templo, forno, gruta, anta
se alquimizam rostos sem rasto
a escuta dá-lhes o negro e o abrigo
e no denso nocturno cada gesto é oração
e do fundo onde é fundo irradia o Abismo.


Convento dos Capuchos, ao Entardecer

domingo, 7 de fevereiro de 2010

IDENTIDADE

Assumir, convictamente, a Identidade…! Seguramente o maior esforço de todo o ser humano sobrevivente neste Mundo de falsas identidades ou de identidades camufladas, fundeadas no espaço camaleónico das diferenças não aceites, da imposição de um padrão comum de rótulos pré-determinados, do estereotipado, onde não lugar para o ser-si-mesmo, nesta sociedade do “parecer-ser”, em nome de um tal “bem-estar” comum que, na generalidade, não passa de uma mera utopia demagógica.

Vigora, por entre os espíritos dis-persos, a mais deslavada hipocrisia anulativa das dissemelhanças, da diversidade, que faz a singela Beleza intrínseca à essência do Universo físico e humano, a que não pertencemos mais.

Adulterámos as Leis da Natureza. Instaurámos o caos cósmico. A isso, chamamos progresso! Mas, que progresso? O da rarefação da camada de Ozono? O do efeito de estufa ou do degelo dos oceanos? O do des-equilíbrio dos ecossistemas? O da miséria das crianças sub-nutridas? O dos Povos famintos? O da infelicidade dos Homens que clamam o Paraíso perdido?

O “progresso” da irracionalidade, das mentes inconscientes, dos pensamentos corroídos pelo ódio, instaurou-se, definitivamente, no seio desta massa humana, indefesa, des-norteada, que hoje somos.

Coitados dos homens! Tão potentes e tão frágeis, ao mesmo tempo! Meras peças soltas do grande puzzle, do puzzle universal, onde já não se encaixam mais.
Somos mero pó, cinzas dispersas, em incandescência dissonante. Brilho(s) opaco(s) dos restos do lixo cósmico, em degeneração total.

Corremos pelos leitos de todos os rios, que, no mar, não deságuam mais. Perdemo-nos de nós mesmos! Não nos encontramos mais! Rodopiamos num círculo imperfeito de esferas des-encontradas, de espaços sem intersecção, indefinidos, incertos, indeterminados, mas, ao mesmo tempo, “extra-ordinários”, libidinais, irascíveis e concupiscentes.

Erramos, navegamos… pelos espaços infindos da imaginação. Buscamos o Infinito, o Eterno, o Imutável. Projectamos um futuro outro, apenas existente no mundo ficcional de todos os nossos sonhos: do “princípio da realidade” se afastam, para erguerem, sempre, o “princípio do prazer”.

Velejamos por todos os mares. Pairamos por todos os espaços siderais. Percorremos todos os caminhos da Floresta, sempre paralelos, sempre descontínuos. A escolha não é mais possível!

Esmagamos um Ego desesperado, descentrado de si mesmo, tão narcísico quanto paradoxal. E, no entanto, ainda somos aves de rapina, predadores universais, dominadores de todas as possíveis presas, dissimulados num habitat, que já não é mais natural.
Percorremos todos os atalhos e edificamos uma nova ordem: a da caoticidade global. E, no entanto, ainda somos apelidados de “animais racionais”!
Que racionalidade é essa, criadora de um tempo de infortúnio? Que racionalidade é essa, geradora de todas as misérias? Que racionalidade é esta re-veladora da massa indigente das gentes vagueantes, bicéfalas, sem Identidade?

Isabel Rosete

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Emoções em pé de guerra

A norte que aí vem granada!!
Que sorte ser soldado raso.
Em guerra o instinto é alimento,
E a vida converte-se ao acaso.

A arma que se leva ao peito,
No ataque/defesa de existir,
Pesa mais na consciência,
A pátria que é servir.

Guerreiro sou-o continuamente.
De minha guerra sou responsável,
O homem que matei era provável,
Serem gritos na minha mente.

Não há guerra para lá de nós.
A guerra interior alheia-se exterior,
Se por dentro sofrendo oiço essa voz,
Por fora certeiro, o tiro no usurpador.

Diogo Correia

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Aviso (poema de Sylvia Beirute)

















AVISO

se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.

inédito
A morte assoma
Sem aviso,
Sem nada!
Apenas dói!
E como dói até os interstícios da Alma,
Abandonada,
Lançada aos grilhões do corpo
Violada pelas suas ardilosas artimanhas,
Em labirinto,
Sem saída possível…

Mais vale a morte!
Que a Morte venha,
Sem escrúpulos,
Mesmo que à Morte não se perdoe!

Tirando-nos a Vida
Lança-nos nos redutos
Do pó e da miséria
A que, afinal, nos reduzimos!

Vida para além da Morte?
Não sei! Não sei mesmo!
Não insistam mais!
Já disse: NÃO SEI!

E Vós, sabeis?
Claro que não!
Ainda ninguém foi e veio
Do reino dos mortos para no reino dos vivos
Para tais pressuposições tecer...

Nem mesmo Orfeu
Que avista, ao longe,
A tênue e esfumada sombra
Da sua amada,
Para sempre perdia,
Por um simples olhar para trás!

As fronteiras da Vida e da Morte
Não se distinguem mais!
Não se iludam!

Isabel Rosete

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

- Por que levas o livro debaixo do braço, ó pastor se, pelo que dizem, nem sequer sabes ler nem escrever?

- Se assim for, porque levas tu, ó homem,  essa mulher pelo braço se, pelo que dizem, não sabes amar?

Dinâmica do saber




Imagem Daniel Garber.



A ciência, a filosofia e qualquer outro ramo de saber demoram anos e décadas para conseguir avançar em suas conquistas. Nem sempre se percebe de início o lado útil e pragmático de uma descoberta. Um pesquisador e um estudioso têm que ser antes de tudo pessoas pacientes, de uma persistência acima da média. Há dados intermediários, dos quais dependem outros e outros. Há dados enganosos, que fazem perder tempo ou invalidam conquistas anteriores. A vocação da pesquisa é árdua e exige dedicação integral.

Dedicação no entanto subentende outros aspectos dessa maratona. É preciso antes de tudo que haja motivos de ordem subjetiva bastante fortes, que haja prazer no que se faz. Não é novidade. Em qualquer área de atividade humana, a busca da perfeição envolve satisfação e bem-estar que justifiquem infindáveis horas de trabalho e até, como no caso dos Curie - ou do Aleijadinho, em outra área - sacrifícios físicos que no entanto não os impediram de trabalhar sem esmorecimento.  Esses motivos constituem o próprio impulso, a razão de alguém se lançar pelo caminho das pedras rumo a um resultado.

Explicar esse impulso é tarefa temerária. Freud o atribui à busca de satisfazer pulsões que, de outro modo, poderiam responder por comportamentos desastrosos do ponto de vista social. Dá a esse fenômeno o nome de sublimação, às vezes interpretado como a procura da perfeição ou do sublime no sentido do belo. Na verdade, hoje se acredita que o processo não envolve necessariamente essa intenção, mas apenas dá uma utilização digamos produtiva à satisfação das pulsões inconscientes.

Gaston Bachelard vê, na origem do interesse pela pesquisa e investigação científicas, a imaginação, o sonho, o devaneio. A visão dele tem a ver com a primitiva explicação de Freud, embora a localize em sua própria área de trabalho, sem fixar sua origem e sem a generalização feita pelo pai da psicanálise. Para Bachelard, isso se explica porque toda hipótese responsável por uma pesquisa está enraizada no processo criativo e livre pelo qual se imagina ou fantasia alguma coisa.

Existe até uma teoria, defendida por Jean Rancière e alguns adeptos ilustres, que explica o aprendizado como exercício do desejo do aprendiz e não como uma distribuição fragmentária do saber maior de um mestre por seus alunos, como acredita a visão tradicional da pedagogia. O livro de Rancière chama-se O mestre ignorante, onde o autor conta o episódio de um mestre que apenas orientou – não “ensinou” – os estudantes para que aprendessem outro idioma e pudessem compreender ideias que ele próprio não dominava de todo. Pensando bem, faz sentido, já que o maior obstáculo ao aprendizado é o desinteresse do aluno.  

Uma outra face da questão está em que, em qualquer disciplina, o saber ético visa sempre explicar e/ou mudar a vida das pessoas para melhor. Se não for assim, é um saber que vira a cara à realidade. Pode produzir apostilas, ensaios, monografias, livros e artigos em publicações especializadas, anais de congressos e seminários. Se ninguém no entanto precisar desses dados para melhor compreender alguma coisa que tenha cheiro de gente e seus correlatos, eles serão certamente consumidos pelo fogo frio da inutilidade que arde em milhares de estantes, bibliotecas e depósitos de papel esquecidos pelo mundo. No pior dos casos, podem mesmo servir a ideologias destruidoras e mesquinhas, como a teoria posta a serviço da inexistente superioridade genética de certas “raças” humanas.


Ao contrário do que imaginam os desavisados, o verdadeiro saber não pretende ser instrumento de poder para poucos, não é arrogante e não exclui ninguém de seus benefícios. Quanto mais se domina um ou vários assuntos, mais claro se percebe a fragilidade humana e a finitude da qual ninguém escapa. O prazer que o conhecimento propicia é íntimo, simples e irresistível. Muito parecido com uma paixão, ele aquece e faz caminhar, leva sempre a quebrar limites, estende para mais longe o horizonte e dá novas razões de viver.  Títulos e diplomas podem existir para efeito externo, podem ser úteis para a vida profissional, mas provam muito pouco. Fundamentalmente, o conhecimento é uma luz sempre acesa, a certeza de um sentido para a vida, uma garantia de não estagnação.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sophia de Mello Breyner: Este é o tempo

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello Breyner Andresen in Mar Novo, 1958

«SETE ANOS NO TIBET»


Um homem, Heinrich Harrer, legendário explorador, missionário no cume das mais altas montanhas que a Terra alberga, eterniza a visão mais que perfeita do Infinito, celebrando a transparência, o alvo mais puro da brancura da neve por onde o Sol espalha, limpidamente, a luminosidade dos seus raios, sem fim visível.
A luz, as nuvens, a neblina, o cinzento e, ainda, a escuridão dos espíritos alienados, mesclam-se com aquela sensibilidade divina, nua, que faz desejar a Eternidade. O aprisionamento e a alforria acompanham Harrer (Brad Pitt), assim como a necessidade da escrita, qual via privilegiada do registo memorial de todos os tempos e de todos os lugares.
A Imensidão, o Interminável, a Paz das lonjuras de uma Alma intranquila à procura da sua própria atmosfera espiritual, bem distante do vazio da fútil materialidade das mentes empobrecidas, prolonga-se por todos os espaços reais, possíveis, imaginários, virtuais... A grandeza do Mundo e a extensão ilimitada do Universo, a conquistar ad eternum, movem-se em todos os rumos e direcções, ora determinadas, ora in-distintas.
Um Olhar claro, clínico, de um azul celeste inconfundível, irrompe por entre a névoa. Um Pensamento de horizontes incomensuráveis, os Sons da Vida e da Morte, em todos os seus estados de Graça ou de (des)graça, incessantemente se erguem. A Escuta – silenciosa, atenta, profunda – dos mais ínfimos pormenores e a beleza singela e eterna das coisas-simples, sempre se manifestam na sua máxima plenitude, hoje perdida, sabe-se lá onde.
E o Amor? Tantas são as formas de Amor re-veladas nestes Sete Anos (no Tibet), símbolos, sinais, de todos os anos de todas as nossas Vidas! O Amor por si próprio, mas, não narcísico; o Amor pela Natureza, na sua diversidade magistral, onde a Identidade e a Diferença co-habitam; o Amor pela Verdade, constantemente procurada e nem sempre encontrada ou perdida; o Amor pela luta das nobres causas em que, de facto, se acredita; o Amor de um homem e de uma mulher, não mais viável, quando tais valores se erguem, imperam, multiplicam…; o Amor dos encontros e dos des-encontros de duas Culturas, tão distantes quanto próximas, entrelaçadas em choque e harmonia; o Amor pela totalidade e pela unicidade do Autêntico, onde há lugar para tudo, excepto para o que não tem, naturalmente, lugar, porque não tem sentido, porque é perverso, porque é ignóbil.
A Solidão, necessária, absolutamente necessária à meditação antecedente a toda a acção, é um marco fulcral desta meditação em andamento. O Pensar e o Fazer unem-se, incessante e umbilicalmente, de tal modo que um jamais é sem o outro. Que grande lição, para nós, homens hodiernos de meras intuições sensíveis, imediatas, irreflectidas…!
A Esperança impera ao lado do desassossego. Porém, nunca agoniza. Nem perante a maior das atrocidades, impiedades ou selvajarias, porque, afinal, a salvação ainda é possível. Aliás, é sempre possível! Rastejando, fugindo, correndo ou vagueando, é iniludível que ela está lá, algures, em parte incerta. Todavia, está lá. Este é o maior desafio. Este é o grande estímulo. Este é o motor de todas as possibilidades.
Todos os caminhos – nesta marcha que é a da própria Humidade, mesmo que concebida metaforicamente – sempre se bifurcam; todos os atalhos sempre conduzem, aos que os trilham com veemente convicção e merecida glória, às veredas autênticas da essência do humano, em devir perpétuo. E o Mundo? O Mundo, seja ele qual for – o nosso, o de todos os outros – com todos os seus vícios e virtudes, gira e avança, sem mais!
Gentes dis-persas se encontram por todos os lugares no pequeno-grande Tibet, uma das maiores Pátrias espirituais do Oriente (e, quiçá, do Ocidente). Também gentes alienadas, ex-tasiadas pelo poder que corrompe, corrói e destrói. E a Guerra, sempre a Guerra, a Intolerância, a Incompreensão, as garras do Fogo de Prometeu, na refulgência da sua destruição.
A Humanidade – a nossa humanidade ou (des)humanidade - espelha-se em toda a sua magnificência e efemeridade imutável. Similarmente, a busca incessante da Felicidade, da Identidade, da Autonomia e da Liberdade do Ser, do Estar e do Pensar, consagram «Sete Anos no Tibet» como o filme de todas as eras, como o filme de todas as idades.

Isabel Rosete
Páscoa: Morte e Re-nascimento de Cristo

Não há propriamente uma data determinada nem para o morrer, nem para o re-nascer de Cristo – essa ex-traordinária e iluminada figura que a História nos doou, como uma benção – para além das convencionadas no calendário católico/religioso.
Não obstante estarmos bem perto de comemorar o re-nascimento desde judeu amaldiçoado pela vileza dos homens e, por extensão, a Paz, a Solidariedade, a Luz, a Verdade, o Bem, o Amor, a Justiça..., não devemos esquecer que o Mundo continua a sofrer, a ser martirizado e crucificado como Cristo o foi, um dia, pela histeria colectiva das multidões enfurecidas, alucinadas pela sede do sangue, fresco e quente, de um Homem que tinha tão-só por missão salvar a Humanidade de si mesma e dos seus próprios perigos e erros
Iludir a realidade a reboque das comemorações convencionais, só porque são convenções (cada vez mais minadas pelo exacerbado consumismo que nos esgota as bolsas e a alma) não faz, jamais, a Humanidade crescer, pensar ou reflectir sobre esse sofrimento, físico e psíquico, de que ela mesma é vitima, a partir das suas próprias mãos maculadas, amiúde, pelo sangue jorrado das Almas e dos corpos inocentes.
Enquanto uns estão à mesa a confraternizar com as suas famílias (mesmo que sobre as franjas da hipocrisia, todos o sabemos!), em serenidade e alegria, deliciando-se com o mais requintado dos manjares, especialmente organizado para a Páscoa celebrar (mas que Páscoa!? Mas que celebração!?), outros morrem de subnutrição, aí mesmo ao nosso lado, espalhados por esse mundo imenso, sem dó, são vítimas de balas perdidas, da má fé, das guerras infundadas e da violência gratuita.
O tormento, a amargura, dessas gentes vexadas na sua humanidade pela malvadez, pela violência, pela crueldade... não se exaure pelo simples facto de o dia de Páscoa estar quase a chegar, não se extenua durante uns escassos momentos de tréguas. Lamentavelmente, tudo permanece do mesmo modo, em alguns casos, camufladamente, noutros claramente visíveis, apenas ocultos para aqueles que, por conveniência, não querem ver.
Recuso-me, por conseguinte, a ludibriar a realidade; recuso-me a compactuar com a hipocrisia dos homens, que só se lembram que há mendicantes, crianças e velhos, moribundos e desamparados, povos em guerra…, quando a Páscoa é, oficialmente, solenizada.
A memória dos homens, seja a curto ou a longo prazo, não deve continuar minguada; a memória dos homens não deve somente ser testada, assim como a sua humanidade (ou pseudo-humanidade), quando o socialmente instituído é festejado.
Torna-se óbvio que o Espírito da Páscoa jamais se deve restringir ao dia de Domingo, pelo calendário determinado. O Espírito da Páscoa deve, ao invés, estar presente, sempre, em todas as mentes e em todos os dias das nossas vidas, tão efémeras quanto a de Cristo.
O tinir do sino, que pelas ruas e praças difunde o seu som de apelo, anunciando a chagada, a cada casa, da cruz de Cristo, nunca é capaz de eliminar ou de abafar o som da miséria humana, pelo menos para aqueles que escutam todos os ecos, para além dos ensurdecedores ruídos, que enxergam mais longe, para além das aparências, dos convénios, dos pré-conceitos, ou do chamado politicamente correcto (odeio esta expressão!).
Urge abanar as consciências, incitar as mentes à mais profunda reflexão; é imperativo fazer renascer, em todo o seu fulgor, o Espírito Crítico, por detrás de todas as máscaras, de todos os discursos vazios de conteúdo, meramente convenientes para uma escassa minoria.

Isabel Rosete

“A PAIXÃO DE CRISTO” REVISITADA


Se atentarmos nas passagens da Bíblia em que Gibson se inspirou para realizar "A Paixão de Cristo", é isso mesmo que se sente, vê, escuta e vivencia: violência, crueldade, muito sangue derramado, inocentemente.
Todos os relatos da época confirmam, sem reservas, essa atrocidade, essa des-humanidade, essa insensata histeria colectiva, movida pelo gosto da agressividade e pelo prazer do ódio.
O realizador, frisemo-lo, não enfatizou ou empolou a contextura epocal, como sustentam os espíritos menos esclarecidos. Apenas a mostrou, na sua plena autenticidade.
A humanidade é assim mesmo: bárbara, violenta, vil... Toda a História o mostra. Só que nem sempre o vemos. Nem sempre o queremos ver. Ou, simplesmente, não convém que o vejamos. É mais cómodo compactuar com o regime, mesmo que, literalmente, o abominemos.
Cristo foi tão-só mais um, entre tantos outros, mártire dessa bestialidade, insensibilidade e leviandade exacerbada dos Homens.
Cristo não convinha ao sistema instituído. Foi um revolucionário. Um verdadeiro rebelde. A sua Filosofia, obviamente contestatária. Naturalmente, teve de ser morto, como também o foi Gandhi, por razões idênticas, só para dar mais um exemplo histórico da Intolerância des-medida.
Assim é a postura de todos os regimes políticos totalitários, os de ontem, os de hoje, os de sempre! Dogmáticos, inflexíveis, intocáveis, pretensos donos da verdade absoluta, não admitem, outras verdades, outras visões do mundo, ou, apenas, uma outra ordem.
É preciso mostrar a todos os olhares dis-persos, do modo mais realista possível, o que o Mundo é na sua essência, sem pré-conceitos, sem falsos moralismos. Este Mundo – o de Cristo e o nosso – não é um mar de rosas, mas, sobretudo, uma imensidão de espinhos, camuflados por belas, cheirosas e aveludadas pétalas.
Devemos observá-lo, clara e distintamente, por detrás de todos os véus, de todas as máscaras que ludibriam as mentes ex-traviadas. Devemos pensá-lo, profundamente; analisá-lo, criticamente, com os olhos da razão, que ultrapassa a vulgaridade das opiniões comuns.
Urge não esquecer que vivemos, tal como o experienciou “O Messias”, minados pelo fingimento, pela dissimulação, pela inveja, pela violência gratuita, pela guerra, entre alguns escassos momentos de paz e de enaltecimento dos valores que efectivamente devem prevalecer no coração dos homens: a Verdade, a Honestidade, o Bem, a Solidariedade, a Tolerância, o Respeito pelas Diferenças fundamentais e pela Liberdade essencial de todos os Povos, Estados, Nações…, independentemente dos credos religiosos, das facções político-partidárias, das cores, das raças, das religiões ou das dissemelhanças culturais. Assim o consagrou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, só em tese, aceite, porque raramente cumprida pelos pretensos detentores do poder.
Urge, ainda e sempre, re-nascer, para uma Outra Idade, para um outro Mundo, onde a Racionalidade paute os pensamentos e as acções do Homens, onde o Bom-Senso impere, definitivamente, para além de todos os paradoxos ou contra-sensos.

Isabel Rosete
Impressões sobre «O Passeio de Deus»

Ao Ângelo Rodrigues,

Sou particularmente grata pela gentileza de me oferecer, tão prontamente, «O Passeio de Deus». O Dele, o seu, também o meu e, quiçá, de mais meia dúzia de criaturas incógnitas, espalhadas, perdidas… por este Mundo, nem sempre com rosto próprio.
A hipocrisia acobarda as mentes das gentes pequenas, sempre com medo de erguerem as suas vozes; o "politicamente correcto" (odeio clichés) cala o dizer aberto dos tachistas por mero compadrio.
Ângelo Rodrigues mostra-se como o arauto des-construtor desta farsa boçal, bastarda e brejeira, que é o Mundo, que naturalmente escapa, que é obviamente invisível aos olhos míopes, aos ouvidos ensurdecidos dos espíritos adormecidos pelo convencionalmente imposto, aos espíritos castrados por um dito puritanismo que, claustrofobicamente, lhes esmaga a possibilidade de uma respiração oxigenada.
Ângelo Rodrigues, no seu «Passeio de Deus» (ou com Deus), é a mais perfeita antítese desta miserável constatação de uma humanidade terrivelmente apática, incapaz de rodopiar nas franjas do seu próprio círculo, imperfeito; de uma humanidade que sobrevive na latência de uma consciência que, a si mesma, já não se conhece.
Ângelo Rodrigues pega o toiro pelos cornos, com a nobreza de todas as pegas de caras. Jamais se emaranha nas labirínticas teias da dissimulação ou do dizer demagógico. A sua Alma epifaniza-se na transparência do seu próprio pensamento astuto, redondo, sem pré-conceitos, e no seu dizer sem freios.
Todas as palavras, que para o papel em branco transporta, estão, sempre, no seu devido lugar, sem eufemismos, sem rodeios, sem intenções en-cobertas.
A Verdade des-vela-se nos seus poemas e nos seus aforismos, bem à maneira heideggeriana, por mais "absurda" ou "risível" que seja.
Há, na escrita deste homem, a mão de Diónisos, a embriaguez catártica do deus que co-habita nas entranhas Terra, que promove, apologeticamente, o instintivo, o visceral, o libidinal, na sua clareza absoluta, "para além do bem e do mal", afastando a censura tirânica do Supre-Ego, a ilusória beleza e pseudo-perfeição das formas de Apolo, que ludibriam o território dos simples mortais, bi-céfalos.
Também eu aceitei o convite de me tornar "argonauta", embarcando, sem receios, na nave que «mostrará os novos universos poéticos criados pelo autor». Assim, estou lendo «O Passeio de Deus».

Isabel Rosete

A obra: Ângelo Rodrigues, «O Passeio de Deus» (Poesia & Aforismo), Editorial Minerva, 2007

Da cultura como ilusão à cultura do despertar de todas as ilusões

Publico o início do texto para o próximo número da "Nova Águia", numa versão ainda provisória:

Da cultura como ilusão à cultura do despertar de todas as ilusões

Procurando pensar a natureza da cultura, iniciamos a reflexão com um notável parágrafo d’A Origem da Tragédia, transcrito para comodidade do leitor:

“É um fenómeno eterno: sempre a Vontade insaciável, pela ilusão que derrama sobre as coisas, encontra um meio de ligar as suas criaturas à existência e de as forçar a continuar a viver. Este deixa-se fascinar pelo prazer socrático do conhecimento e pela ilusão de poder sanar com ele a eterna chaga da existência; aquele sente-se fascinado pelo véu sedutor da beleza que a arte deixa flutuar diante dos seus olhos; outro deixa-se, por sua vez, seduzir pela consolação metafísica de que, sob o turbilhão das aparências, a vida eterna prossegue o seu curso indestrutível: para não falar das ilusões mais comuns e mais fortes ainda que a vontade é capaz de suscitar a todo o instante. Estes três graus de ilusão são, de resto, reservados às naturezas mais nobres, nas quais o peso e a miséria da existência suscitam um desgosto mais profundo, mas que podem fugir a tal desgosto escolhendo estimulantes adequados. Com tais estimulantes se constituiu tudo o que designamos por civilização: de acordo com o seu doseamento obteremos, preferencialmente, ou uma cultura socrática, ou artística ou trágica, ou melhor, se formos buscar exemplos à história, teremos então ou uma cultura alexandrina, ou helénica ou budista” [1].

Sem avaliar o rigor e justeza desta identificação histórica das formas de cultura, que nos parece problemática, em particular no que concerne a “budista”, interessa-nos fundamentalmente a ideia de que a morfogénese de todos os tipos de cultura (Kultur) obedece a “estimulantes” (Reizmitteln) que permitem iludir o desgosto (Unlust) perante “o peso e a miséria” da “eterna chaga” (ewige Wunde) de uma “existência” (Daseins) à qual os sujeitos são eterna e renovadamente ligados pela “ilusão” (Illusion) que a “Vontade insaciável” (gierige Wille) “derrama sobre as coisas” (Dinge) [2]. Os vários aspectos da cultura, dos mais elaborados e eruditos – filosofia, ciência, arte e religião – aos mais comuns que constituem toda a civilização humana, correspondem assim a vários “graus de ilusão” (Illusionsstufen) onde os homens procuram enganar-se a respeito da sua condição ou ocultá-la a si mesmos, camuflar e esquecer a ferida trágica que os constitui na cisão, na dor e na mortalidade (o verbo hinwegzutäuschen, traduzido aqui como “fugir a”, tem o sentido de enganar alguém a respeito de alguma coisa ou de ocultar alguma coisa a alguém). A cultura e a civilização surgem assim como produtos dessa “ilusão” que a insaciável vontade de viver lança continuamente sobre “as coisas” e como anestésicos desse “desgosto”, ausência de gozo ou desejo (Un-lust) que constitui a natureza paradoxal e autocontraditória da própria vontade de viver. A cultura e a civilização, em todas as suas manifestações, revelam-se assim como um sistema de estímulos, a bem dizer estupefacientes, de cuja ilusão ficam dependentes os sujeitos que neles buscam evadir-se da dor inerente a essa inconsciente e ávida vontade de viver que continuamente os propulsa na ex-istência. Uma embrionária toxicodependência mental/emocional desvela-se assim a natureza íntima da cultura e da civilização que, em busca de se evadir do “mal-estar” que a habita, pois inerente à “vida”, naturalmente segrega múltiplos paliativos, dos mais subtis e internos aos mais grosseiros e externos, socialmente aceites ou não. A droga e a embriaguez seriam inerentes ao processo cultural e civilizacional [3]. Como escreveu Freud: “A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. […] Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável” [4].
Se a influência de Schopenhauer é evidente na Origem da Tragédia, a maturação em Nietzsche de um pensamento próprio mantém-no fiel à ideia de que “vivemos num mundo de ilusão”, inerente às meras “perspectivas” interdependentes a que se reduz toda a suposta objectividade das categorias conceptuais que fizeram fortuna na tradição filosófica ocidental: número, tempo, espaço, alma, substância, indivíduos, morte, vida, sujeito, objecto, activo, passivo, causa, efeito, meio, fim. Vivemos assim “graças ao erro” [5], mas “naufragar-se-ia se se quisesse sair do mundo das perspectivas”: “abolir as grandes ilusões já completamente assimiladas destruiria a humanidade” [6]. Segundo o pensador, a “vontade de saber” filosófica e científica volta-se contra essa mesma ilusão vital que é a condição de possibilidade de todo o conhecimento, cujo “grau ínfimo” exigiu o nascimento de “um mundo irreal e erróneo: seres que acreditassem no durável, em indivíduos, etc.”. É apenas sobre o ilusório “fundamento” de um “mundo imaginário”, contrário ao “eterno escoamento”, que se pode construir qualquer “conhecimento” que seja, o qual pode discernir “o erro fundamental sobre o qual tudo repousa”, mas não o pode dissipar senão arrastando nisso a “vida”, pois “a verdade última que é a do fluxo eterno de todas as coisas não suporta ser-nos incorporada; os nossos órgãos (que servem a vida) está feitos com vista ao erro”. “Querer conhecer e querer errar são o fluxo e o refluxo” e “o homem perece” se um deles domina absolutamente. Daí o programa de “amar e favorecer a vida, por amor do conhecimento, amar e favorecer o erro e a ilusão, por amor da vida”. A “arte” deve ser posta “ao serviço da ilusão” [7] vital. Pese a reinterpretação da vontade de viver como vontade de potência, a afirmar e não negar, permanece a recriação schopenhauriana do indiano “véu de Maya” como esse engano originário inerente à vontade e a todas as suas criações [8].
A cultura nasce assim sob o signo da melancolia, como notou Aristóteles a respeito dos “homens de excepção” na filosofia, política, poesia e artes [9], o que nos reenvia ainda para Nietzsche que, como vimos, considera estarem os “graus de ilusão” mais elevados – filosofia, ciência, arte e religião – “reservados às naturezas mais nobres”, mais profundamente desgostosas com “o peso e a miséria da existência”, dos quais se buscam evadir mediante os “estimulantes” mais sofisticados [10]. Como diz Walter Benjamin, “a meditação profunda (Tiefsinn) é sobretudo própria de quem é triste” [11] e a Melancolia apresenta-se, num poema por si citado, como “mãe de sangue denso (schweren Bluts), fardo podre (faule Last) da Terra” [12], cujos termos são muito próximos da descrição nietzschiana do “peso e miséria da existência (Last und Schwere des Daseins)” [13]. O ser-aí, o ex-istir, o ser algo ou alguém numa dada situação no mundo, é melancólico – quer na exaltação, quer na depressão - e a melancólica condição de toda a cultura, que diríamos oscilar na dialéctica maníaco-depressiva entre a ânsia de levitar de todas as condições e o afundamento nessa gravidade íntima ao ex-ist-ente.
(texto em elaboração)

[1] Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia, 18, tradução, apresentação e comentário de Luís Lourenço, Lisboa, Lisboa Editora, 2004, p.152.
[2] Friedrich Nietzsche, Die Gebürt der Tragödie, 18, Werke, I, edição de Karl Schlechta, München, Carl Hanser Verlag, 1966, p.99.
[3] Cf. Ernst Jünger, Drogas, Embriaguez e Outros Temas, tradução de Margarida Homem de Sousa, revisão de Rafael Gomes Filipe e Roberto de Moraes, Lisboa, Relógio d’Água, 2001.
[4] Sigmund Freud, Das Unbehagen in der Kultur, 1930; O mal-estar na civilização, tradução de José Octávio de Aguiar Abreu, Rio de Janeiro, Imago, 2002, p.22.
[5] Cf. Friedrich Nietzsche, La volonté de puissance, texto estabelecido por Friedrich Würzbach e traduzido do alemão por Geneviève Bianquis, tomo II, Livro III, 584, pp.216-217.
[6] Cf. Ibid., 594, p.220.
[7] Cf. Ibid., III, 582, p.216.
[8] Cf. Id., A Origem da Tragédia, 1, pp.66-67.
[9] Cf. Aristóteles, L’Homme de génie et la Mélancolie. Problème XXX, 1, edição bilingue, tradução, apresentação e notas de J. Pigeaud, Paris, Éditions Rivages, 1988, p.83.
[10] Cf. Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia, 18, p.152.
[11] Cf. Walter Benjamin, Origem do drama trágico alemão, edição, apresentação e tradução de João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, p.147.
[12] Tscherning, “Melancholey Redet selber”, in Ibid., pp.155-156.
[13] Cf. Friedrich Nietzsche, Die Gebürt der Tragödie, 18, Werke, I, p.99.

"Ética Global: uma perspectiva intercultural" - a visão budista



Agradeço ao António Moura o filme que fez desta minha intervenção, em representação da União Budista Portuguesa, no painel "Ética Global: uma perspectiva intercultural", nas Conferências Democráticas que ainda decorrem na Sociedade Portuguesa de Geografia, organizadas pela Associação Portuguesa de Ética Empresarial.

Uma bela iniciativa, inspirada nas propostas de Hans Küng e nas Conferências do Casino! Recordo que a nova revista ENTRE publicará a última conferência de Hans Küng, feita em Dezembro de 2009 na Suíça.