segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Portugal, Europa e universalidade em Fernando Pessoa: das vantagens da desnacionalização e algumas ambiguidades



Após o afastamento d’A Águia, Pessoa alimentou pelo menos dois projectos de outras revistas antes do Orpheu: Ibis ou Lusitânia e Europa. Nalgumas notas dispersas para a revista Europa, alude-se à “nova orientação que é preciso tomar”, que reage contra a limitação da mente pela “nacionalidade” e deseja a europeização como forma de dilatar os seus horizontes ao “meio internacional”: “O que é preciso ter é, além de cultura, uma noção do meio internacional, de não ter a alma (ainda que obscuramente) limitada pela nacionalidade. Cultura não basta. É preciso ter a alma na Europa” [1]. Contudo, nos apontamentos para um Programa para os trabalhos da geração nova, que significativamente retoma o título do projecto e manuscrito destruído por Antero de Quental, Pessoa mostra manter-se fiel ao essencial do espírito dos ensaios anteriores, ao considerar que o objectivo não é meramente elevar o povo “até ao nivel da actual civilização”, mas “leval-o para além della na orientação que ella vae tomar”. Para tal devem-se educar no povo, em paralelo, as qualidades que o capacitam para “produzir civilização contemporanea” e “as que hão de crear civilização futura”, havendo que criar “uma classe culta e agitada pelas idéas modernas, mas transcendendo-as”. A “fraternização com as correntes intelectuais” estrangeiras, mais conformes com a “ideação dos Novos, do que com a tacanhez e mesquinhez dos nossos compatriotas dominantes”, não deve assim consistir num mero mimetismo daquelas, mas antes, como veremos, num incorporá-las como ingredientes da sua própria superação [2].


É precisamente isso que Pessoa assume na corrente literária surgida com Orpheu, para a qual reclama a “originalidade, não relativa, senão absoluta”, de não só englobar mas ainda exceder todas as correntes literárias nacionais, estrangeiras e contemporâneas, manifestando “uma nova forma litteraria, uma nova visão da Realidade e da Vida, uma nova forma de dar expressão ás sensações e aos pensamentos” [3]. Sem rejeitar que, “desde o “saudosismo” de Teixeira de Pascoaes, qualquer cousa de novo, difficil ainda de definir, surgiu em Portugal”, Pessoa considera que “Orpheu” ultrapassa a estreiteza daquele, enquanto “pensamento humano” e “moderno”, na medida em que “não pretende ser senão portuguez”, ao passo que a “escola de “Orpheu”” é original e cosmopolita, “internacionalista por excelência”, fruto “de uma synthese de todas as correntes modernas, e de alguma coisa mais, que lhe é próprio”, residindo aí “o seu maior valor e interesse”. Assumindo semelhanças com o simbolismo, o saudosismo, o cubismo e o futurismo, “a nova escola portugueza é comtudo qualquér cousa mais do que todas essas escolas” [4]. Ao contrário do “regionalismo” da Renascença Portuguesa e do saudosismo, que só evoluiria “intra muros, com matéria apenas lusitana”, havendo perdido “o contacto com a poesia do século, lá de fora”, a “Escola de Lisboa”, “unico centro portuguez onde entrou um grau superior de cosmopolitismo”, “fala em voz alta, para que toda a Europa oiça”, com “uma bagagem de vistas e de attitudes que é a de quem sabe que está creando arte, não para um paiz, mas para uma época e para uma civilização”. Não se nega com isto “um nacionalismo mais largo e verdadeiro” que, em vez de se afastar, “marca o seu logar na civilização contemporânea” [5]. E o lugar que nela ocupa é precisamente o da sua vanguarda, o que confirma o Pessoa de Orpheu rigorosamente fiel, neste aspecto, ao Pessoa d’A Águia. Constatando que o próprio saudosismo levou “até ao seu máximo” e transcendeu o romantismo europeu, embora tardiamente, Pessoa celebra e exorta a que se dilate esse “impulso nacional que até no seu ponto mais baixo passa além do que a Europa fez” e assim “cria, é novo, original, grande, realmente grande!” [6].


A explicação desta só aparente contradição entre nacionalismo e cosmopolitismo é feita pelo próprio autor no esboço de um texto sobre o facto de alguém ligado a uma “theoria […] nacionalista” dirigir Orpheu, revista “de cultura cosmopolita”. Começando por afirmar “a adhesão completa e a manutenção integral” das “suas theorias expostas n’A AGUIA”, ou seja, o “nacionalismo fundamental” presente na convicção de que “o período de máxima vitalidade nacional é aquelle em que uma nação mais se entrega a si própria e á sua alma”, Pessoa distingue “trez generos de nacionalismo”: 1 – o “inferior” é “aquelle que se prende ás tradições nacionaes e é incapaz de se adaptar ás condições civilizacionaes geraes”, estando “sempre em atrazo” em relação a elas (é, em literatura, o caso de “Bocage e dos arcades em geral, até Castilho”); 2 – o “medio” é “aquelle que se prende, não ás tradições, mas á alma directa da nação, aprofundando-a mais ou menos” (o caso de “Bernardim Ribeiro, no seu grau inferior, e de um Teixeira de Pascoaes no seu alto grau”); 3 – o “supremo” é “o que num nacionalismo real integra todos os elementos cosmopolitas” (o de Camões, “no seu grau inferior”, não havendo ainda em Portugal quem represente o “seu alto grau”, como Shakespeare, Goethe e “todos os representantes supremos das culminancias literarias das nações que ahi chegaram”) [7].


Mantendo que “a vida da nacionalidade é a substancia dynamica da vida da civilização”, Pessoa considera, noutro texto, existirem “trez especies de nacionalismo”: 1 – o “nacionalismo tradicionalista”, “que faz consistir a substancia da nacionalidade em qualquer poncto do seu passado, e a vitalidade nacional na continuidade histórica com esse poncto do passado” (seria o caso do Integralismo Lusitano); 2 – o “nacionalismo integral, que consiste em attribuir a uma nação determinados attributos psychicos, na permanencia dos quaes e fidelidade social aos quaes, reside a vitalidade e a consistencia da nacionalidade” (seria o caso de Teixeira de Pascoaes, que diz não se apoiar na “tradição”, mas num “psychismo collectivo concebido como determinado”); 3 – o “nacionalismo synthetico, que consiste em atribuir a uma nacionalidade, como principio de individuação, não uma tradição determinada, nem um psychismo determinadamente tal, mas um modo especial de synthetisar as influencias do jogo civilizacional”. Ao contrário do “nacionalismo integral” de Teixeira de Pascoaes, que supõe existente uma “alma nacional”, para este último tipo de nacionalismo “não há propriamente uma alma nacional”, “apenas uma direcção nacional”. Precisando, num trecho que consideramos decisivo: “Uma nação não tem, como um individuo, uma personalidade psychica que, embora sujeita a alterações e a desvios, permanece, na sua essencia, auto-identica. Uma nação tem apenas, dados os factores inalienaveis de situação geographica, um determinado papel no conjuncto das nações, de que é formada uma civilização” [8].


Assim, se “o nacionalista tradicionalista repelle o presente e o estrangeiro” e o “nacionalista integral repelle o estrangeiro”, já “o nacionalista synthetico acceita um e outro, buscando imprimir o cunho nacional não na matéria, mas na forma, da obra”. Se cada um tem uma razão parcial, só “o nacionalista integral [no que parece um lapso evidente, onde só faz sentido estar “synthetico”] a tem supremamente, porque só elle está em todos os campos ao mesmo tempo” [9]. Sendo o “papel de uma nação forte e civilizada […] imprimir um cunho seu aos elementos civilizacionaes communs a todas as nações do seu tempo”, ou seja, plasmar uma forma sua que sintetize esses múltiplos elementos civilizacionais contemporâneos, e verificando-se que “o conflicto cultural é que produz civilização”, se Portugal está estagnado é porque “temos sido escravos de uma nação estrangeira de cada vez”. A possibilidade de libertação reside assim em abrir-se simultaneamente a várias correntes de influência estrangeira, o que na época passaria por “não eliminar a cultura franceza” mas acrescentar-lhe pelo menos outra “em conflicto com ella”, alemã ou inglesa [10].


Estes esboços de reflexão sobre o sentido de Orpheu e do afastamento d’A Águia e do projecto saudosista-renascentista de Pascoaes, em relação ao qual assinalam uma continuidade em ruptura e mutação, são extremamente importantes, pois mostram uma ideia nova para a saída da decadência e estagnação nacional, alternativa quer à mera europeização proposta por Antero e pela Geração de 70, quer à refontalização na tradição pátria projectada por Pascoaes: trata-se de abrir a nação o mais possível a diferentes e contrastantes influências culturais internacionais para se libertar do domínio exclusivo por uma delas e afinal as aglutinar, sintetizar e transcender numa nova forma civilizacional que, procedente desse impulso sintetizante que seria não a “alma” identitária, mas a “direcção” funcional da nação portuguesa, nasça ao mesmo tempo da própria tensão e acção-reacção interna entre esses díspares elementos culturais, que adiante veremos claramente definidos. É esse o espírito do que Pessoa designa como “nacionalismo cosmopolita” ou “synthetico”, bem expresso no final de um projecto de anúncio de Orpheu: “Comprar ORPHEU é, emfim, ajudar a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a litteratura portugueza. ORPHEU é todas as litteraturas” [11].


É esse mesmo espírito que Pessoa assume no “sensacionismo”, cujo órgão é Orpheu. Única arte “propria” e “representativa” da sua “epocha”, o sensacionismo seria “uma arte synthese de nações e de ephocas e de artes”, pois Pessoa, consciencializando o que hoje se chama “globalização” eurocêntrica, considera que “a nossa ephoca é typicamente, a grande epocha do internacionalismo”, na qual “aquillo a que se chama civilização agora, pela primeira vez abrange todo o mundo, de norte a sul, de leste a oeste”, na qual “todos os paizes, mais materialmente do que nunca, e pela primeira vez intellectualmente, existem todos dentro de cada um, em que a Asia, a America, a Africa e a Oceania são a Europa, e existem todos na Europa”, uma vez que é a Europa “a fons et origo d’este typo civilizacional, a região civilizada que dá o typo e a direcção a todo o mundo”. O sensacionismo deve colher assim de todas as correntes, aceitando de cada época o que nela haja de “eterno e differente” e rejeitando o que “tenha de proprio, de seu”, considerado como “o limite, a barreira, á sua contribuição para a civilização”. Esta ideia, extremamente fecunda, mostra que o que há a extrair de cada época (e, supostamente, de cada cultura) é o que a leva a transcender as suas características próprias, eternizando-a e universalizando-a. É isso que alimenta o sensacionismo não só de todas as correntes artísticas e literárias, simbolistas, decadentistas, cubistas, futuristas e outras “dynamistas”, genericamente designadas como “whitmanistas”, mas ainda do que houver de melhor e diferente nos múltiplos aspectos e momentos fundamentais da experiência humana, seja o panteísmo, a santidade, a intuição dos homens do Renascimento, a construtividade grega e latina, a harmonia clássica, o egotismo romântico, o misticismo indiano e asiático, a ritualidade esotérica egípcia, o primitivismo africano, o cosmopolitismo americano, o exotismo da Oceânia e o maquinismo europeu… “A verdadeira arte moderna tem de ser maximamente desnacionalizada – accumular dentro de si todas as partes do mundo”, sem perder nada do “esforço das differentes epochas passadas” [12].


“Sensacionismo” é o “resultado d’esta Grande Synthese, d’este Magnum Opus da alchimia espiritual”, que funda “todas as terras”, “tempos” e “artes”. Perante a questão de se esse “genero de arte” é passível de “ser produzido nos grandes centros europeus, nos grandes centros de civilização”, Pessoa responde que não, pois tal arte “é supremamente portugueza”. A razão é que cada povo contribui para a civilização com aquilo de que a sua “índole” é capaz, “em contacto com o typo e direcção geraes d’essa civilização”, e uma arte totalizante e sintética, como o sensacionismo, “só pode ser dada á Europa por um povo cujo caracter seja cosmopolita, e não cuja vida o seja – por um povo cujo caracter seja sensivelmente desnacionalizado, antipatriotico”. É o caso do português, pois nenhum povo “é como o português temperamentalmente desnacionalizado, aberto a todos [sic] as influencias, recebedor fácil de todas as novidades”, inepto para o “misoneismo”, “único povo cosmopolita-nato”. Assim o comprovam as Descobertas, “a única cousa portugueza, typicamente portugueza, que houve em Portugal” e “a obra mais gloriosamente internacional, cosmopolita, e desnacionalizada” que houve na história do mundo. E é por isso que só agora, na única “epocha cosmopolita”, que é o tempo presente, pode haver literatura ou arte portuguesa. Pessoa termina assim sob o mesmo signo com que encerra os ensaios sobre a “nova poesia portuguesa” n’A Águia: se aí proclama, com o advento da nova síntese civilizacional implícita no “transcendentalismo panteísta”, a partida da “Raça” “em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço”, cumprindo “divinamente” o seu “verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo” [13], proclama agora ter chegado enfim a “Hora da Raça”, porém a “hora espiritual”, pois a “material” passou com a chegada de Vasco da Gama a Calecut. Se aí se enterrou “o destino material da Raça” [14], esta morte histórica de Portugal no apogeu da sua obra civilizacional exterior - semelhante, por outra via, ao “salto para fora da história” que Oliveira Martins adverte no sebastianismo - , é todavia a condição de possibilidade da sua ressurreição a outro nível, como um sopro espiritual e cultural animador de um novo ciclo civilizacional. É apenas na medida em que Portugal se desterritorializar e passar “a ser não propriamente um determinado país, […] mas sim uma ideia a difundir pelo mundo”, como o diz Agostinho da Silva a propósito de Vieira [15], que se pode cumprir plenamente o impulso paradoxal que Pessoa assinala e assume como a sua verdadeira característica específica: a de perder toda a especificidade e característica própria para se converter na síntese do melhor e mais universal de todas as configurações do humano, em todas as culturas, tempos e lugares.


Este Portugal-movimento-para-o-Universo, este Portugal-(des)feito-Universo, não deixa todavia de incorrer nalgumas ambiguidades, decorrentes até da própria teoria pessoana, que, como vimos, recusa uma visão identitária da nação, negando que haja uma “alma nacional”, com “personalidade psychica” tal como os indivíduos [16]. Perguntamo-nos assim o que são este “Portugal” e esta “Raça” que se movem para o universal, qual o seu estatuto ontológico e existencial, e se isto não será ainda nacionalizar, ainda que para imediatamente e em última instância sacrificar essa mesma nacionalização, algo que porventura só no íntimo processo da consciência individual se pode realizar, embora o meio cultural possa ser mais ou menos convidativo e favorável a isso. A questão prende-se, quanto a nós, com o excessivo lugar que Pessoa ainda confere à “vida da nacionalidade”, identificando-a como “a substancia dynamica da vida da civilização” [17]e esquecendo que na verdade a vida da nação não existe senão enraizada nessa vida dos indivíduos e dos grupos que sempre, e sobretudo no mundo globalizado em que vivemos, extravasa dos limites da vida nacional e é susceptível de configurações e dinâmicas infra e supranacionais, irredutíveis mesmo a espaços de afinidades histórico-culturais e linguísticas entre várias nações. Mesmo nesta apologia de um Portugal desterritorializado e expatriado, Pessoa permanece ainda refém, como Agostinho da Silva, de uma última forma de messianismo nacionalista ou patriótico, ao afirmar Portugal como a única nação que tem como missão deixar de o ser para se converter no próprio universal… Este messianismo nacionalista-patriótico latente e reiterado na cultura portuguesa é algo que tem de ser crítica e rigorosamente ponderado, pois dá azo, na melhor hipótese, a toda a espécie de ingénuos erros de óptica e, na pior, a todo o tipo de perversos aproveitamentos, manipulações e instrumentalizações político-ideológicas. E as duas hipóteses tendem a acompanhar-se. A verdadeira sabedoria consiste porém no discernimento capaz de, sem nos enredarmos nestas seduções, sermos ao mesmo tempo capazes de colher todo o proveito de um meio cultural favorável ao universalismo como é manifestamente, no seu melhor, o português.


1] Fernando Pessoa, Sensacionismo e outros ismos, Edição crítica de Fernando Pessoa, X, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, p.29.
[2] Cf. Ibid., pp.29-31.
[3] Cf. Ibid., pp.46-47.
[4] Cf. Ibid., p.49.
[5] Cf. Ibid., pp.58-59.
[6] Cf. Ibid., pp.59 e 61.
[7] Cf. Ibid., pp.66-67.
[8] Cf. Ibid., pp.67-68.
[9] Cf. Ibid., p.68. Cf. p.471, onde Jerónimo Pizarro adverte o possível “lapso”.
[10] Cf. Ibid., pp.68-69.
[11] Cf. Ibid., p.70.
[12] Cf. Ibid., pp.75-76.
[13] Cf. Id., “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, Obras, II, organização, introduções e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão, 1986, pp.1194-1195.
[14] Cf. Id., Sensacionismo e outros ismos, p.77.
[15] Agostinho da Silva, Reflexão, Lisboa, Guimarães Editores, s.d., p.104.
[16] Cf. Ibid., p.68.
[17] Cf. Ibid., p.67.



Publicado em vários blogues, entre os quais:

umoutroportugal.blogspot.com

a dupla sombra


domingo, 3 de janeiro de 2010

Para uma sabedoria entre - Do terceiro excluído ou do tao inter-calado



(Laozi encontra Yin Xi, o guardião da porta do Tibete)

"Do princípio de não-contradição Aristóteles extrai o do terceiro excluído como sua consequência (em gamma, 7): não há nenhum intermediário entre enunciados contrários, pois é preciso necessariamente afirmar ou negar um mesmo predicado, seja qual for, dum único sujeito. Ou é verdadeiro, ou é falso, isso é ou não é, não há meio entre os dois, tal qual o pode ser o cinzento intercalando-se entre o preto e o branco; há, não "dégradé", mas exclusão e resposta apenas por sim ou não. Pois, a partir do momento em que se toma como ponto de partida uma definição, definição que vem ela própria da necessidade em que se coloca o outro de "dar a cada termo uma significação determinada", é suprimida toda outra possibilidade emergindo de "entre" os contraditórios. [...]

A partir do momento em que a contrariedade primeira, a do ser e do não-ser, serve de base a este princípio do terceiro excluído, pretender haver um intermediário entre estes contraditórios "não é dizer nem do ser nem do não-ser que ele é ou que ele não é" (gamma, 7), não é nada mais dizer de todo e o pensamento soçobra, inelutavelmente, desfaz-se e não mais pensa. Entrar no pensamento taoísta, em contrapartida, é precisamente reabrir a possibilidade desse "entre", metaxu, que Aristóteles aqui exclui. Pois a efectividade inesgotável de que "tao" nomeia a fonte, esta capacidade sempre em recuo do visível e que, por aí, se separa das marcas tangíveis que constantemente dele decorrem, essas mesmas que regista a definição, não pode ser apreendida nem segundo a categoria do "há" (you), que descreve o tangível, nem tão pouco segundo a do "não há" (wu), que constata a sua inexistência. Daí a expressão contraditória, desfazendo a sua oposição, que é a única que o caracteriza: "chama-se [o tao] configuração sem configuração, imagem (fenómeno) sem realidade (concreta)" (Laozi, 14). Do tao, poder-se-á também dizer que não é nem um nem o outro e que participa de um e do outro: ele é apreensível-inapreensível, a sua única característica é ser incaracterizável [...]. Pois, pela virtualidade que deve ao seu constante desenvolvimento, a montante do concreto, ele não se deixará acantonar em nenhuma actualização particular que o manifeste no seio do visível. Mas é também dessa efectividade inesgotavelmente operativa, e demasiado subtil e difusa para não permanecer invisível, que procede toda a manifestação de existência.

[...]

Não se apreendendo o tao senão entre os contrários há/não há, a única caracterização que lhe convém será, não a do claro e do distinto, promovidos como são em exigência da razão europeia, mas, exactamente ao inverso, [...], a do "vago" ou do "vaporoso" (hu huang). Como ele não tem nem a opacidade e massividade das coisas, nem tão pouco o estatuto de pura idealidade que serve no pensamento grego, desde Platão, para definir o mundo das Formas e do inteligível, como ele não é nem fenomenal nem abstracto, mas (se) fenomenalizando-defenomenalizando constantemente, não é susceptível nem de contorno definido nem de determinação intrínseca, e o seu único traço marcante é o "indeciso". Enquanto efectividade, não é nem material nem espiritual, a partir do momento em que um seria distinto do outro, mas, evoluindo entre estes pólos, o seu modo é o do subtil e do dissolvido, do desligado e do decantado (wei, jing); apreende-se, não segundo os termos antitéticos da presença e da ausência, [...] mas na sua constante transição, nos estados da reabsorção e da emergência, manifestando-se simultaneamente no modo do ambiente e do evanescente 1".

1 - Cf. o que já notei do pintor chinês que pinta "entre há e não há" (you wu zhi jian), em La grande image n'a pas de forme, capítulos 1-3.

- François Jullien, Si parler va sans dire. Du logos et d'autres ressources, Paris, Seuil, 2006, pp.85-87.

Educar. Para quê? Para quando?



Revisitemos a alegoria da caverna de Platão. Um dos textos fundadores do Ocidente.

Mas note-se que a imagem da caverna está presente, de forma não negligenciável, no pensamento oriental. Isto só para lembrar que no que se refere ao pensamento, as portas nunca abrem só para um lado.

É impossível aprofundar a análise desta peça da tecitura da metafísica ocidental, naquilo que ela tem de fundante e de constringente para a nossa contemporaneidade pensante, sem seguir os veios comunicantes que a ligam ao resto da obra em que se insere, a República, e daí para o todo do corpus platónico, pelo que nos ficaremos pela alusão, esquemática e superficial, a alguns dos aspectos da alegoria, sem procurar aprofundar a nossa análise da alegoria enquanto alegoria, da sua intencionalidade exemplificativa.

Um dos aspectos que considero mais marcantes é o facto de Platão nos apresentar uma caverna construída pelo homem, trata-se dum dispositivo (uso aqui este conceito em proximidade a Foucault e a Agamben), mais do que uma disposição natural da espacialidade narrativa, que introduz na narrativa uma meta-temporalidade, o tempo da construção da caverna, submetido a uma intencionalidade que não influi directamente no sentido marcadamente analógico da alegoria, mas que pode levar mais longe a apropriação analógica do sentido da alegoria: somos nós que estamos a ser representados, nós, os destinatários do relato, numa interpelação que é, ao mesmo tempo histórica e meta-histórica – no fundo, Platão aflora a temporalidade escatológica ao representar a condição dos homens no seu enraizamento histórico-cultural e não apenas a condição dos atenienses do seu tempo. Tal como a sua República será o corolário duma meta-política, na verdade a metafísica instaura-se, desde Platão, como uma versão totalizante da soberania, a caverna é a sua legitimação irónica.

Encontramo-nos sempre numa actualidade que resulta dum conjunto de condições prévias. Condições essas que podem servir como condicionantes ou como vias de realização do nosso potencial existencial. E nenhuma actualidade é, por si só, isenta de constrangimento e de obstáculos ao desenvolvimento do pensamento livre e da vida emancipada. E a emancipação a ser vivida terá que sê-lo a partir do protagonismo do indivíduo que existencialmente enfrenta os obstáculos que a sua vida lhe proporciona.

Educar, na perspectiva platónica, é abrir espaço ao desabrochar da auto-descoberta da verdade, encarada como o sentido de toda a experiência e de toda a volição. O problema que se nos coloca, e que Platão a seu modo solucionou a partir da sua ontologia erroneamente considerada dualista, uma vez que a sua visão crepuscular do ser e da verdade pressupõe uma continuidade que só extrinsecamente se pode considerar ilusória, é o de saber como enfrentar o abismo do íntimo sem o esteio duma metafísica que absolutamente funde todo o relativo.

Assim, a caverna pode, com a sua força analógica, lançar uma luz inquietante sobre a Escola. A Escola é um dispositivo de sujeição ou de emancipação? Ela é, tal como a caverna, uma construção humana, uma construção social. Na sua base está um conjunto heterogéneo de investimentos duma imaginação colectiva que visa a reprodução duma imagem da sociedade tida como tradicional, como digna de ser reproduzida e transposta para o futuro. Mas o que temos de facto é um conjunto de estratos resultantes da sedimentação da vida política, cultural, social, das sociedades ao longo de períodos mais ou menos longos. Até as rupturas deixam marcas e destroços. E perdem o seu sentido originário.

No que diz respeito à sociedade portuguesa, mas isso também é visível em todas as sociedades ocidentais, a escola tem sido o principal objecto de investimento sócio-político. A Primeira República, por exemplo, tem uma intencionalidade pedagógica, nem sempre objecto de sistematização, que se manifesta no investimento na escolarização, insuficiente mas visível, e na retórica de regime que procura dar sentido ao caos que se vivia e que acabou por abrir espaços à ditadura , o pior flagelo da nossa história colectiva.

Estamos hoje muito longe dos mais de 70% de analfabetos com que Portugal entrou na primeira década do século XX. E não nos iludamos: esse percentil é uma consequência da grande assimetria social que sempre caracterizou a sociedade portuguesa, é um sintoma indesmentível da injustiça social.

Cem anos passados não nos libertámos ainda desse paradigma social. E se se tem a consciência de que a Escola é o tabuleiro onde se joga muito do que poderá ser a justiça social, não podemos ficar indiferentes em relação à forma como se instituiu a insularização social da Escola e ao aprofundamento desse processo nas mais recentes medidas de política educativa.

A Escola estrutura-se como um dispositivo de segregação social das crianças e dos adolescentes, para não falar das crianças portadoras de deficiência (por que razão o tema da deficiência raras vezes surge como digno de ser pensado, e de ser vivido ,quando se trata de pensar e re-pensar a sociedade?). Não há nenhuma razão para impedir que a escola seja um ambiente de interacção geracional.

Esta segregação social das cianças, agrupadas e estratificadas em segmentos etários, impede a educação para a diversidade e a diferença. Gera egocentrismo e indiferença em relação ao outro e impede que se experiencie o saber como sabedoria. Aliás, o que acaba por ser exilado da cidade ideal não é, hoje, o poeta, mas o sábio. A cidade ideal da era da informação vê na sabedoria a loucura a exorcizar. A sabedoria faz baixar o valor de mercado da informação. Põe em causa os sistemas de valor que transformaram, progressivamente, o saber e a cultura, em mercadoria.

A cultura não se consome, consuma-se.

O sábio é o que recusa o estatuto de produtor (a cultura não se produz nem se consome) e o de mero consumidor/espectador cultural e assume, de forma plena e nunca preterida, o estatuto de criador. O leitor dum poema é, ele próprio, poeta, o mesmo acontece com quem, agostinianamente, assume a vida como poesia.

Os alunos são colocados na escola como integrantes dum sistema de indução do saber, do saber-feito, e não de indução ao saber, encarado como sabedoria.

Na alegoria da caverna, um dos prisioneiros é solto das amarras. Esse não é um acto de libertação. Paulo Freire descobriu bem cedo nas suas experiências pedagógicas junto dos oprimidos que uma das características da mente oprimida é o medo da libertação. Isto porque a opressão assenta em mecanismos de coacção física (o domínio sobre os bens necessários à vida, a sua distribuição mediada por mecanismos criadores de escassez para obrigar os pobres a trabalhar) e em mecanismos de dissuasão da tomada de consciência da situação de opressão e das vias que poderiam levar à libertação. Estes mecanismos de dissuasão são muito mais coersivos do que os mecanismos físicos de coação. Os indivíduos poderão mesmo ser levados a estimar a sua servidão. As retóricas dos nacionalismos patrioteiros têm servido esse propósito: 'nós todos amamos a Pátria e a Pátria ama-nos a todos, mas tu, por seres inferior, tens que trabalhar sem outra retribuição do que a miséria da tua situação'. A questão está em saber quais os critérios de discriminação entre seres humanos. E é aí que reside a estupidez do pensamento monárquico moderno. Que Rousseau desmontou com uma lógica inabalável: se formos todos descendentes de Adão, não temos todos o direito ao trono? No fundo, colocar a desigualdade como critério de soberania é impedir a vigência da Frátria. E por que razão grande parte da humanidade, e dos nossos concidadãos, se quisermos ficar-nos pelas fronteiras em que nos enclausuramos, deve ser reduzida a um estatuto de menoridade em termos de cidadania e de espiritualidade?

O acesso à auto-estima e à consideração social, essas as 'torneiras' que a escola começa por controlar no sentido de conseguir a acomodação social dos indivíduos. Os alunos com inteligências mais criativas, menos subjugáveis à mecânica da indução do saber, são tratados como párias, vêem a sua auto-estima sistematicamente destruída, ao passo que os que têm uma inteligência mais amestrável e mais subjugável aos regimes da ruminância curricular, são elogiados e incentivados.

Como diz Marx nas Teses Sobre Feuerbach, 'o educador também precisa ele de ser educado'. É esta a situação dilemática a que a alegoria da caverna nos conduz: como libertar, libertando-nos? E como libertar sem estar a criar novas instâncias e dispositivos de servidão e de subserviência?

O homem desacorrentado e projectado para fora da caverna atinge, nesse momento, o pico da sua opressão, porque deixa de ter razões para se considerar uma vítima dum processo que lhe escapa: sem as correntes, sem estar preso dentro da caverna, a sua sujeição é uma coisa sua, como sempre fora. O mesmo será a sua libertação. Que só o será autenticamente quando toda a sujeição for ultrapassada, ou seja, quando todos se virem como libertos, quando todos conseguirem aderir à sua própria liberdade.

E não estamos melhor posicionados, na nossa actualidade, para prosseguirmos este esforço de emancipação. Não é verdade que tenhamos assistido ao fim das ideologias. Não vivemos numa era pós-ideológica. Muito pelo contrário, vivemos imersos num contexto repleto de dispositivos de alienação, de persuasão e de dissuasão. A própria ciência e a técnica, seguindo muito de longe Habermas, mas muito de longe, são, potencialmente e em acto, ideologia, têm funções políticas que não podem ser esquecidas. É isso que dá sentido à mentalidade tecnocrática que se infiltrou nos sistemas políticos modernos. E as ditas ciências humanas também estão implicadas neste processo. Como se vê hoje com a nova dogmática, a Economia. As reformas sociais, as mudanças políticas, têm como limite os ditames dessa ciência anfibológica.

Ora, o próprio 'saber' escolar (escolástico) é em si próprio ideológico. Não que não deva ser ensinado. É que o ensinar para a sabedoria é uma prática que na antiguidade se designou como Filosofia. É que não basta só ensinar, há que criar o hábito do recuo crítico e projecção ética.

E em relação a isso há muito que pensar e discutir. Porque na nossa actualidade, como em todas as outras, a Filosofia deve ser decisiva. Digo 'deve ser' porque muito do que se publica e ensina como 'filosofia' não passa de neo-retórica e de pseudo-saber, um jogo de jogos de linguagem, uma mimética de linha de montagem. Quantos dos investigadores na área da Filosofia não são meros repetidores do já dito e pensado, meros cultivadores dum saber vegetativo? Estando por inventar um aparelho que funcionasse no cérebro como um desfibrilador da inteligência, a tarefa do Filosofar pode ficar por cumprir por falta de comparência do Sujeito capaz de Pensar.

Mas este recuo crítico e esta projecção ética não podem ser induzidos, não podem ser 'ensinados' porque aí seria parte da estrutura constringente da caverna. Têm que ser vividos como o próprio do aceder à consciência. O sermos capazes de negação sem negatividade, de pôr em causa o dado e o afirmado e, ao mesmo tempo de, sem negatividade, enfrentarmos o outro como indissociável da nossa humanidade, é isso que nos torna capazes de assumir o profundo e o elevado da nossa condição.

(c) 2007
Quem somos nós na melodia de se Ser, na troca intrínseca com um Outro?
Existe um Eu diferente de um Outro?

Viver e suas variantes





Elliot Erwitt. Mother and child.




A dupla dor-delícia de ser quem se é e a serenidade são gêmeas bivitelinas. Conhecemos bem as diferenças entre ambas, e no entanto nos passam certo sentimento de univocidade – como dois conjuntos matemáticos com uma área em comum que de algum modo os define. São duas, mas uma precisa da outra para existir inteira.

A experiência mais completa de existir e a serenidade são semelhantes ao que os químicos chamam de elementos simples, irredutíveis. Convivem em harmonia e criam intervalos de prevalência; equilibram-se na gangorra dos dias, uma ajudando a definir e identificar a outra. Fertilizam a argila de que somos feitos como o adubo e a água fazem com a terra que recebe uma planta.

Só se vive plenamente sendo capaz de mergulhar nessas duas instâncias. Uma é necessária à outra; são como espelhos com sinais trocados, e por isso podem se contemplar e fortalecer mutuamente. Sem serenidade a experiência de estar vivo é menos intensa; os acontecimentos não se desdobram de todo, não mostram todas as faces que resultaram naquele e não em outro acontecimento. Entendem-se os motivos pela metade, criam-se julgamentos apressados, falhos, e fica muito fácil distanciar-se das pessoas por não ser capaz de compreendê-las. Sem serenidade (essa paz de dentro, que independe de sossego externo e até da própria paz social), o ego toma conta da situação – e o ego pode ser considerado uma instância emburrecedora por excelência.

Nem é tão difícil criar esse estado interior a que chamamos de serenidade. Começa com um olhar sinceramente interessado no que vai dentro de si; olhar-se como se fosse “de fora”, imaginando ver outra pessoa e suas alternativas.  Outra vantagem da serenidade é recriar a solidão como quem decora uma casa, ver novidades até no dia-a-dia, reavaliar a rotina, tornar o tédio um sentimento mais distante. Sozinho ou acompanhado, é possível aproveitar melhor o que a vida oferece de bom quando se é capaz de relativizar os maus momentos.

E como é improvável, senão impossível, que alguém consiga atravessar a vida sem sofrimento, ao menos vai encontrar em si um espaço mais confortável para seu próprio uso e para quem estiver próximo, porque a serenidade é resultado de uma espécie de ginástica interior, e dá força e agilidade mental a quem a conquista.



Oração

Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas
à flor da pele
matéria negra
matéria fria
língua de fogo

rogai por nós

Domingos da Mota

Faleceu o Pe. Manuel Costa Freitas, OFM





Faleceu, hoje dia 2 de Janeiro, com 81 anos, o Pe. Manuel Costa Freitas, franciscano, eminente filósofo especialista em pensamento medieval, sobretudo em autores como Boaventura de Bagnoregio e Duns Escoto. O funeral realizar-se-à dia 4 de Janeiro, pelas 15h, em Barroselas, Viana do Castelo.
Alguns dos seus estudos podem ser consultados em: www.lusosofia.net

A música e a paisagem da Islândia (Sigur Ros: Njósnavélin)

sábado, 2 de janeiro de 2010

O desafio intercultural: subversivo, enriquecedor e difícil



"Não se pode negar, em qualquer caso, que a atitude intercultural implica um risco e leva consigo a aceitação da vulnerabilidade humana. Porém, se não aceitamos este risco, tudo desembocará num "choque de civilizações", isto é, numa guerra de culturas, que se prolongará como nos últimos seis mil anos de história humana, na qual a cultura da guerra prevaleceu sobre a cultura da paz. Esta transição de uma cultura da guerra a uma cultura da paz é o desafio de vida ou de morte com que se enfrenta a humanidade contemporânea. [...]

A interculturalidade é um imperativo humano do nosso tempo. Para que tenha lugar a mutação de uma cultura de guerra numa cultura de paz, a mudança deve alcançar o domínio do mythos e não somente o do logos; do que se depreende que havemos de modificar os nossos mitos e não apenas as nossas ideias. Esta transição, este passo (pesah, pascha), [...] é a tarefa principal da filosofia intercultural, é o desafio intercultural do nosso milénio. Note-se que falamos de desafio intercultural e não somente ético. [...] O desafio da interculturalidade não pode reduzir-se a um discurso ético. Não há que nos espantarmos de que o desafio intercultural seja tão subversivo como enriquecedor ao passo que difícil.

Cada cultura crê nos seus próprios mitos e, quando nos esquecemos do carácter relativo das convicções que estão encerradas (e compreendidas) no mito, corremos o risco de converter em absolutos as ideias e os valores de tal cultura. Este é o perigo das culturas que se fecharam em si mesmas ou que estão convencidas da sua superioridade. O encontro com outras visões do mundo que são incompatíveis com a nossa não apenas nos causa incómodo, mas também nos torna inseguros, faz-nos perder o equilíbrio. [...]

A abertura à interculturalidade é verdadeiramente subversiva. Desestabiliza-nos, contesta convicções profundamente enraizadas que damos por garantidas porque nunca as colocámos em discussão. Diz-nos que a nossa visão do mundo, e portanto o nosso próprio mundo, não são únicos. [...]

Porém, ao mesmo tempo, a abertura à interculturalidade é enriquecedora. Permite-nos crescer, sermos transformados; estimula-nos a tornarmo-nos mais críticos, menos absolutistas e amplia o campo da nossa tolerância. Ademais faz-nos descobrir as próprias raízes da nossa cultura, esses pontos de intersecção para um crescimento harmonioso dessa mesma cultura. [...]

O nosso terceiro adjectivo convida-nos a ser prudentes e realistas. O encontro entre as culturas é difícil, porque não se trata de um fácil eclecticismo ou de um cocktail arbitrário. [...]

É natural que seja necessário ir com prudência, para evitar cair no fascínio do exótico e sermos assim vítimas de um parasitismo debilitador confundido com uma simbiose enriquecedora"

- Raimon Pannikar, Paz e Interculturalidad. Una reflexión filosófica, Barcelona, Herder, 2006, pp.105-107 e 109-110.

Poesia


Mana Bernardes - Poesia - Instalação em grande formato, dezenas de lâminas de cartão com recorte interno e luz ( Brasilia - Brasil)

Fonte e créditos deste post: Ar do Tempo, um blog que aborda diversas formas de arte de forma original.
Ama o Céu cá na Terra e diz que é magno o teu fogo
Não digas a ninguém que o amor é um engenho de criar bichos
que as mulheres e os homens podem sair a correr das suas camas
tão aflitos como o silêncio que nos pariu

Fala como se o vento dividisse a força contigo
e lança o pedregulho para embater no satélite mais afastado
Mas nunca deixes de amar como uma mosca que poisa no casaco
sem o ruído das forquilhas
sem tropeçar na canção que duas línguas produzem

É sabido que o coração é um botão preso por uma linha
ou talvez
               um velho armante
a julgar-se capaz de tapar uma ferida com o dedo largo

Não deixes que a fome de atirador prevaleça
nem cuspas nas mãos para aqueçê-las
pois este frio é antigo
                  marmóreo nos sulcos das veias
sem boletim de vacinas

O amor saberá esperar pela calada de um bosque

A guerra não deixa corar os sexos - Disse um dia um soldado antes de pisar o excremento

Se um dia me vieres visitar não tragas lenha nem lanche
Evita meter conversa com as aves de rapina
E vem direitinha a mim numa velocidade de naufrágio
Saberás que os filhos que programámos também dormem na areia

Pois é de nós ensinar a somar todos os fenómenos com crepúsculos

Se mesmo assim a casa não se levantar ou um Deus vier
Contar a mesma história
Eis que as pedras se unem para fazer os dias

Outra reflexão- Paradigma de uma cultura do "entre"


Paradigma de uma cultura do “entre” em face de uma cultura do -“ente”

Especula-se muitíssimo, e creio que com razão (por vezes até fazendo pouco uso dela), sobre a adopção de uma mudança de paradigma que permita conceptualizar a vida humana no planeta tendo em vista uma perspectiva que rasure os termos comparativos, baseados nas diferenças e identidades dos povos, geradores de uma enganosa cultura de supremacias de todo o tipo: de raiz cultural, étnica, religiosa, política, económica, ou outra, com toda a sorte de divisões que daí resultam e que constituem, em si e na sua disseminação, autênticos obstáculos ao verdadeiro diálogo e respeito que, não sendo tão novo quanto isso, ainda não foram adoptados pela maioria dos homens integrados nesse conceito, também posto em questão, actualmente: o de povo e povos.
Assinale-se desde já que a maturidade cultural, a que agora nos queremos referir, de uma cultura liberta do paradigma assente nas diferenças, não está distribuída uniformemente, nem sequer como tomada de consciência da caducidade de outros paradigmas, em todos os homens e em todas as sociedades e povos. Como bem sabemos. Os mecanismos que dividem, subjugam e limitam a tomada de consciência destes novos modos de compreender a vida, existem no sentido de criar barreiras a esta mesma tomada de consciência, na medida em que “lêem” e divulgam, distorcendo e manipulando, a relação entre o homem e a natureza, criando barreiras a uma clara apreensão do real e dessa mesma natureza, conceito longe de estar esgotado em todas as suas vertentes e relações.
O que se sabe é que não sabemos que “justiça” é essa que faz com que ainda não tenhamos todos colapsado: homens, bichos e plantas. O que ela (natureza) seja está fora do âmbito do que aqui queremos pensar.
Do mesmo modo, o conceito de povo está demasiado ligado a nação e estado para deles ser desligado, por isso o não queremos aqui usar. O conjunto dos povos é algo que deve ser, igualmente, fonte de questionamento. Nada deve ficar de pé! É preciso “baralhar e tornar a dar”. Importante é saber que paradigma é esse ou são esses que põem em causa de forma tão inteira, rasgando a direito, ou não, os antigos paradigmas que governaram a acção dos homens.
Ora é preciso perguntar: o que querem, verdadeiramente, os que se empenham nestas especulações? O que querem é, porventura, uma cultura nova que, a pouco e pouco, saiba ver o homem não como uma parte de um todo designado de povo, sociedade, ou outra designação, mas antes o Homem elevado ao seu expoente máximo de produtor de cultura que se esforça em tornar verdadeiramente humano (nele incluindo a centelha de divino), o sub-humano que tantas vezes somos. O que verdadeiramente sonham esses homens é a utopia de uma “cultura entre”, nisso supondo a distância que permite ver, estabelecer pontes, para permitir o olhar imparcial, branco como a neve, como diria o poeta. O olhar insituado onde somos menos um “eu” e mais um “entre”. Uma visão na esteira de homens como Agostinho da Silva, que desse paradigma deu exemplo.
Para isso há que mudar muito! Mudar é, pois, a palavra-chave. Palavra com tradições, como se sabe, também. Há que aprender a ver, agora com o olhar compassivo, com o olhar amoroso. Há que considerar a mudança não como vinda de fora, há que haver espaço para uma permeabilidade amorosa, comum a todos. O paradigma anterior resultava de uma acção que vinha do homem para o Real. Dizia-se: “mudar a vida”, “mudar a sociedade”, “mudar o mundo”, procurando inocentar o homem e culpar a ”sociedade” dos males que moravam no seu coração. Nada disso hoje tem sentido. A direcção deste pensamento mudou radicalmente. O homem já não é esse animal, “chefe”, “senhor”, deus dos outros animais. Uma espécie de deus menor, investido de moldar o mundo à sua imagem e semelhança. O homem não é desligado do Real, por isso também não deve ser este a mudar o homem. O real (a natureza incluída), deixou de usar apenas o modelo de: “façamos como o que vemos fazer na Natureza”. O Homem não pode esquecer que, mais do que um ente, é um “entre”. O que o homem deve entender é que entre ele e o mundo: tudo o que, no fundo, está nele e aparenta estar fora dele, para que ambos existam, tem que haver uma relação, uma comunicação, um diálogo permanentemente actualizado. Uma ponte, em suma, que é intrínseca à condição humana, mas que o homem se tem esforçado por esquecer, na sua ganância de se ganhar. Perdendo-se de si e do que é verdadeiramente essencial para si e para o Outro. O homem tem que compreender que as diversidades unem, tornam uno, não dividem.
É preciso ganhar a consciência de que o homem é um “animal plural”. Nesse sentido o homem não é desligado. É um todo, perante um todo, ou seja, o homem torna-se todo no todo.
Julga o homem que desembaraçando-se do que lhe faz mal, ou seja, do que aparentemente divide: o outro, a outra cultura, a outra natureza, a outra razão, a outra sensibilidade, em suma, libertando-se do que é diferente de si (e que apenas por isso o ofende e lhe desagrada) só assim é feliz. Que engano enorme! O homem não tem que persistir nesta cultura de morte. A felicidade não é algo que esteja fora e que tenha que ser alcançado, captado e dominado. A felicidade está no homem e não fora dele. A felicidade situa-se entre os diversos que o homem é. Esta é talvez uma cultura que importa encontrar nesse diálogo que todos temos que ter, connosco, de onde levantamos os andaimes para a construção da ponte que a todos e a tudo una a tudo e em todas as direcções, tal como a luz. Sejamos, pois, hoje, os “anjos do Real” futuro.

Reflexão de Ano Novo



Não nos enganemos. Os males do nosso tempo não vêm da destruição deste planeta. A extinção exponencial das espécies, a poluição, as alterações climatéricas, o depauperamento dos recursos naturais, a voracidade da insaciabilidade do desejo com freio nos dentes... tudo isso é consequência, não causa.

A causa poderemos chamar-lhe, numa linguagem cientificamente rigorosa, a sociabilidade merdosa. É verdade que todos os homens, todos os viventes, nascem para obrar. Mas uns querem ser mais obrosos que os outros. Querem-se em pedestais e em bufetes de bem pensantes que esganaram o que havia de mais lúcido em si, de mais luminoso...

Não há homens que consigam ser maiores que um sequer dos outros, homens ou viventes. E esse deveria ser um ponto de partida, uma alvorada ética nas consciências: não devemos ter direito de vida ou de morte sobre qualquer vivente. Nem devemos arrogar-nos a indecência de desconsiderarmos seja quem for. Há seres humanos sem currículo que fazem mais pela humanidade do que qualquer tiranete auto-erigido. Jesus Cristo é um exemplo. Não consta que tivesse biblioteca. Nem que achasse esta vida uma seca.

Mas isso são contas dum rosário que daria pano para mangas.

O que é urgente, para quem se considerar sempre na alvorada duma nova era (mas essa é uma ilusão de óptica que acompanha a humanidade desde que alguns deram para se meter com a História, essa inexistência que lustra todas as parvónias que se querem o centro do universo) é amar. Um barco no mar, como cantava Eugénio de Andrade e desfazia Agostinho da Silva, o menos obroso dos homens que fizeram obra, ou seja, que viveram. O que vem por acréscimo pode ser um sinal de superabundância. Mas isso não se escolhe, há uma prodigalidade da vida quando vivida com um sentido sublimante, mas isso não se compreende nem se adquire, é um dom do sem nome.

Por vezes dou comigo a mirar obras, com peso, autênticos calhamaços, sobre 'a psicologia dos portugueses'. Coisa ridícula: a Psicologia já de si é uma ciência num instável equilíbrio epistemológico, é uma abstracção que diminui o seu objecto ao estatuto de coisa pensada, analisada, dissecada, por uma Razão que é sempre pretérita. Mas não lhe abanemos o fundamento vacilante: o que é que um homem nascido em Portugal pode ter de tão diferente em relação a qualquer membro da espécie? Hoje que se sabe que há poucas diferenças entre os humanos e os antropóides superiores (e esta superioridade é ela própria questionável porque antropolátrica). E que 'portugueses'? Os ratos de biblioteca ou os homens ditos 'do povo'? Todos eles obram e são servidos pelas mesmas Etares (quando existem).

É um tema pouco interessante, mas nesta alvorada de milénio ainda estamos muito longe de ter conseguido a derrota do totalitarismo e da cultura de morte que marcou o século XX. Não se pode esquecer as misérias, as visões deturpadas do humano e da Natureza, a indiferença em relação ao que nos traz a esta vida e a este mundo. A cidadania autêntica não se exerce dentro de qualquer megalomania identitária. O planeta é demasiado redondo para nos constrangermos a fronteiras e a segregacionismos. A questão determinante não é como dominar o mundo, mas como alargar a visão do mundo. Uma visão alargada não permite barreiras, nem se fica pelo imediatismo ( e cada vez mais do mediatismo) do que se dá a ver. A visão de Samuel Huntington não tem que ser uma fatalidade histórica, é possível explorar em cada tradição religiosa ou cultural vias de abertura esikásmica: todos os discursos afluem do Silêncio, o Oceano da Paz, e todos podem refluir para aí, se forem portadores de luz. É quando depomos as máscaras egóticas e etnocêntricas que advimos ao rosto que comunica para além de si, que é ek-stase, contemplação, visão templante: o Templo é a suprema forma de vivência do enigma.

E nenhum homem tem que deixar de ser o que é para ser cidadão do mundo.

Foi, portanto, com apreço que tomei conhecimento do conteúdo da homilia de hoje, dia mundial da Paz, de D. José Policarpo, uma figura com a qual não simpatizo de forma muito especial. Mas desconfio que muito de não revolucionável está compreendido pelo seu conceito de Civilização. O que é importante não são os preconceitos que são partilhados pelas culturas que pertencem ao mesmo fundo civilizacional, mas se estamos mesmo interessados em renovar o conceito de civilização, retomando o seu significando original, o que importa é a forma como vivemos com, como nos damos à partilha e à comunhão? Seremos capazes de abandonar a sociabilidade merdosa e assumir uma sociabilidade compassiva? Para além dos homossexuais em geral, dos não crentes em particular, dos pagãos por especialíssimo interesse de 'marca' ou de 'corporação', quem mais estará fora desse conceito de civilização?

É necessário que se compreenda que as vias de salvação só serão autênticas se também o forem de perdição. Só assim se pode esvaziar a cultura de morte que hoje está mais visível em certas formas de vivência dita religiosa, mas que é, infelizmente, um dado civilizacional. E não me estou aqui a referir a temas como o aborto. Há movimentos ditos pró-vida que são, no seu fundo, os mais perfeitos produtos dessa cultura de morte. Aliás, onde a estupidez impera, a vida desespera.


Nem diferença, nem identidade: um novo paradigma - ENTRE



"Erra-se, creio, ao encarar a diversidade das culturas sob o ângulo da diferença. Pois a diferença reenvia à identidade como ao seu contrário e, por consequência, à reivindicação identitária - vê-se suficientemente quantos falsos debates daí se seguem hoje em dia. Considerar a diversidade das culturas a partir das suas diferenças conduz com efeito a atribuir-lhes traços específicos e encerra cada uma delas numa unidade de princípio, a qual se constata imediatamente quanto é arriscada. Pois sabe-se que toda a cultura é plural tanto quanto é singular e que não cessa ela própria de mudar; que é simultaneamente levada a homogeneizar-se e a heterogeneizar-se, a desidentificar-se como a reidentificar-se, a confirmar-se mas também a resistir: a impor-se como cultura dominante mas, imediatamente, a suscitar contra si a dissidência. Oficial e underground: o cultural não se manifesta e não se activa senão sempre entre os dois.

É por isso que preferi, na minha oficina aberta entre a China e a Europa, tratar não de diferenças mas antes de afastamentos. Pois o afastamento promove um ponto de vista que é, já não de identificação, mas, diria, de exploração: ele considera até onde podem desdobrar-se diversos possíveis e que ramificações são discerníveis no pensamento. [...]"

- François Jullien, Les transformations silencieuses. Chantiers, I, Paris, Bernaerd Grasset, 2009, pp.36-37.

Um novo paradigma: ENTRE. A hora não é de promover identidades, ou seja, muros culturais, mas sim de desvendar as pontes, as relações, de que é feita a tessitura do humano e que se ocultam na aparência de fronteiras essenciais.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Instalação


nem sempre invenção é arte
mas sempre é criar
inventar
um inventário
pau tronco plástico cartão
tecido
junto ao mar.

A janela


(c) Belmonte, 2005


" Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espetáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste" Bernardo Soares


Bom Ano!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

para começar bem o ano

colóquio
a filosofia e as suas questôes ii.
eu vou lá estar, reparem quem também estará...
8/janeiro
14.30 Dirk Hennrich, elementos para uma paisagem europeia.

excelente ano para os amigos da serpente e que o seu 'veneno' nos transmute.

caravana


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"Somos", por Isabel Rosete

Somos o caos
De onde já não se gera a ordem,
Pedaços soltos
Das organizações des-ordenadas.

Somos Micro-fibras,
De um tecido enrugado,
Sem possibilidade de alisamento.

Somos fios da teia intra-mundana
Rarefeita,
Desfeita,
Pelas nossas próprias mãos.

Somos o Tudo e o Nada
O Tempo e o Espaço,
Numa marcha simultânea.

Somos as marés,
Os rios,
Os riachos,
Que nem sempre desaguam
Nos oceanos.

Somos os ventos,
As tempestades,
A chuva ácida,
A rarefacção da atmosfera.

Somos os vulcões e a sua lava
Quente,
Ardente,
Incandescente,
Derramada por montes e vales.

Somos perfeito dinamite,
Sempre pronto a explodir,
Pólvora concentrada
De energias reprimidas.

Os sismos,
Também somos,
E a Terra fazemos estremecer,
Tremer,
Quebrar,
Ruir,
Oscilar.

Somos a poluição
E o dióxido de carbono,
As marés negras
E o lixo cósmico.

Somos os vírus,
As bactérias,
Os fungos,
Que tudo contaminam.

Somos pó,
Putrefacção,
Revestidos de formas
E fórmulas,
Incalculáveis.

Somos a amálgama do Mundo,
Dos céus
E dos mares.

Somos a mescla
De todas as raças,
De todas as cores,
De todos os credos.

Somos os deuses,
Impuros,
Que do Olimpo despejados.

Somos os Astros,
Os Sois,
Que nem sempre brilham,

Somos as faces de todas as Luas,
As giratórias de todos os planetas,
Os anéis de Saturno.

Somos a hipocrisia,
O oportunismo,
A demagogia,

Somos os defensores das causas,
Só em aparência,
Relevantes.

Somos a guerra,
A paz,
A des-ordem
E a ordem.

Somos os guerreiros solitários do Poema,
Das batalhas perdidas
Contra nós,
Contra todos os outros.

Somos o possível
E o impossível,
O sonho,
O real
E o imaginário.

Somos o virtual,
Que se presentifica,
Em cada acto comunicante,
À distância próxima
De todas as comunicações,
Intercontinentais.

Somos todas as lágrimas
Derramadas
E por derramar.

Somos todas as aventuras,
Todos os gestos,
Todos os actos,
Todos os pensamentos.

Somos todas as vontades,
Todos os quereres,
Todos os estares.

Somos?
Somos!
Tão-só,
O que realmente somos.

Isabel Rosete

Somos ( ) o que comemos

É muito delicada a questão da alimentação. Provavelmente, o princípio de vida de que mais directamente depende a conduta de vida humana.

A cultura portuguesa, por exemplo, tem raízes que se perdem nos tempos e tudo vai assentando, largamente, num determinado tipo de alimentação. E tal como a cultura portuguesa, toda a civilização ocidental e, por aí fora, embora não se possa generalizar a toda a humanidade.

Transformar um hábito alimentar com séculos e séculos, por exemplo, num regime vegetariano, produz tantas transformações a nível pessoal (físico e mental), familiar, social, cultural, que não vemos como aconselhar uma ruptura súbita com as profundas raízes que carregamos em comum com os nossos conterrâneos.

Nascemos num determinado lugar e a ele estamos ligados por natureza e cultura. E, desta forma, se caracteriza largamente a existência humana no planeta azul.

Mas dizer que as coisas têm sido sempre assim, não significa dizer que, assim, terão de ser eternamente. Existem variadas razões (económicas, ecológicas, éticas, religiosas), como sabemos, que justificam a adopção de um regime alimentar que possa sair fora do tradicional. Desde logo, por questões de saúde como ouvimos alguns especialistas incansavelmente repetirem. Até porque o tradicional é um saco muito grande, onde cabe muita coisa distinta.

Neste sentido, para começar, vemos como desejável um regime alimentar que, pelo menos, tenda a uma redução significativa do consumo de carne animal. Podemos utilizar várias estratégias, como sejam, deixar de comer carne animal ao pequeno almoço e ao lanche, ou consumi-la só uma vez por dia, ou deixar de o fazer um dia por semana...

Quem sabe gostemos da experiência e, assim, tendamos a uma mudança mais radical do que por tradição e inércia temos assumido.

“Não posso estar em parte alguma. A minha / Pátria é onde não estou”

- Álvaro de Campos, "Opiário".

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O que é o "diá-logo" entre culturas?




"Entre, por um lado, o consenso mole do diálogo sempre suspeito de ser um alibi ou de esconder mais insidiosamente as relações de forças sob a sua aparente abertura e, por outro, o clash anunciado - constatado - assim como o apelo à defesa identitária do "Ocidente", que outra via que não tombe para nenhum lado: que não seja nem utópica, nem defensiva, nem de compromisso? Ou "diá-logo" não é algo antes a retomar e repensar, mas decidindo desta vez conferir a sua plena exigência a um e a outro dos seus componentes [...]? Fazendo compreender, por um lado, no diá do diá-logo, a distância do afastamento, entre culturas necessariamente plurais, mantendo em tensão o que está separado: um diálogo, ensinaram-nos os Gregos, é mesmo tanto mais rigoroso e fecundo quanto mais atiça teses antagonistas; e, no logos, por outro lado, o facto de que todas as culturas mantêm entre elas uma comunicabilidade de princípio e que tudo, do cultural, é inteligível, sem perda e sem resíduo. [...] [após afirmar que o diálogo é "operatório"] Mas operatório em quê? Não que quiséssemos a todo o preço conciliarmo-nos com o outro, ou que encontrássemos já nele [no diálogo] prescritas regras formais, mas simplesmente porque, para dialogar, cada um deve imperiosamente abrir a sua posição, colocá-la em tensão e instaurá-la num frente a frente. Não pois porque cada um seria movido por uma finalidade de entendimento, ou porque a lógica do diálogo revelaria um universal pré-estabelecido, mas porque todo o diálogo é uma estrutura eficiente - operativa - que obriga de facto a reelaborar as suas próprias concepções, para entrar em comunicação, e portanto também a reflectir-se"

- François Jullien, De l'universel, de l'uniforme, du commun et du dialogue entre les cultures, Paris, Fayard, 2008, pp.247-248.

domingo, 27 de dezembro de 2009

"[...] os portugueses típicos nunca são portugueses"; "Nenhum povo se despersonaliza de modo tão magnificente"

"The Portuguese Sensationists are original and interesting because, being strictly Portuguese, they are cosmopolitan and universal. The Portuguese temperament is universal: that is its magnificent superiority. The one great act of Portuguese history - that long, cautious, scientific period of the Discoveries - is the one great cosmopolitan act in history. The whole people stamp themselves there. An original, typically Portuguese literature cannot be Portuguese, because the typical Portuguese are never Portuguese. There is something American, with the noise left out and the quotidian omitted, in the intellecrtual temper of this people. No people seizes so readily on novelties. No people depersonalises so magnificently. That weakness is its great strength. That temperamental nonregionalism is its unused might. That indefiniteness of soul is what makes them definite"

- Fernando Pessoa, in Sensacionismo e outros ismos, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2009, pp.218-219.

Palavras a ponderar, depurativas do provincianismo identitário, ainda que não plenamente livres dele...

umoutroportugal.blogspot.com

A proibição dos Minaretes na Suiça

Um bom artigo no Público (clique aqui)

Esfera Armilar - Da identidade histórico-cultural como limite a superar




A história e a cultura constituem poderosos sistemas de condicionamentos e automatismos mentais, emocionais e práxicos que convidam, por via gregária e irreflectida, a um regime de consciência parcial, incapaz de compreender e aceitar a realidade humana, cósmica e divina na sua totalidade plural e complexa. A fixação de uma dada identidade histórico-cultural é, por isso mesmo, um notável contributo para o estreitamento da consciência e para o sofrimento e conflitos daí resultantes. Por isso mesmo, a cultura mais poderosa é aquela que a si mesma se não vir como um fim em si e antes como um meio para se libertar de si mesma. É esse o projecto da "cultura portuguesa", assumida por Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva como trampolim para a universalidade, mediação para além de todas as mediações, sejam elas lusitanas ou lusófonas. O melhor de Portugal e da lusofonia é o que neles se esquece de se rever e assinar no espelho do mundo. O pior de Portugal e da lusofonia é o que no mesmo acto deixa a mácula da assinatura. Medíocre é o que se afirma. Grande o que se esquece. Supremo o que nunca se nomeou.

umoutroportugal.blogspot.com

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O regresso em nós de D. Sebastião ou o fim do sebastianismo



D. Sebastião

Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal, a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

O segundo poema que tem como título “D. Sebastião” é o primeiro dos cinco “Símbolos” que abrem a terceira parte, “O Encoberto”, da Mensagem. Nele o poeta volta a dar voz a um rei que – falando sempre como esse ser “que há” e não “que houve”, ou seja, como imortal dotado da “grandeza” de ser livre da “Sorte” - exorta a que esperem pelo seu regresso aqueles que ainda permanecem escravos da comum condição mortal e humana, reproduzindo a sua submissão ao Destino enquanto cadáveres adiados que procriam. D. Sebastião continua a ser aqui, numa coerência rigorosa, a figura de um rei-Outro, de uma consciência desperta que exorta os que esperam o seu regresso ao mundo dos homens a que não esperem que regresse o mesmo que partiu. Efectivamente, tendo-se convertido No que se sonhou, tendo-se tornado Naquele que se desejou, um ser emancipado do Destino, e sendo isso “eterno”, não pode senão ser “Esse” que regressará. Não faz sentido assim que o esperem com uma expectativa adequada ao que foi e já não é nem poderá nunca mais ser, não faz sentido que o esperem com a predominante esperança sebastianista que sobrevive à possibilidade do regresso físico do rei desaparecido em Alcácer-Quibir e se converte num paradigma da mentalidade portuguesa em épocas de crise e profunda insatisfação, fruto da laicização da expectativa messiânica: a expectativa de que surja um mero líder político, redentor da pátria oprimida e decadente, restaurador da ordem ameaçada e condutor da nação em períodos de crise da identidade e sentido da sua vida histórica. O D. Sebastião de Pessoa exorta a que o esperem, mas não como o Mesmo, antes como Outro, não como mortal, antes como imortal.


D. Sebastião exorta ao fim do sebastianismo comum, recordando que o seu fracasso humano, pessoal e histórico não foi senão o reverso do divino dom de uma oportunidade superior a todo o triunfo bélico e a todo o poder e glória temporais. Caindo “no areal e na hora adversa”, segundo a percepção mundana e exterior, D. Sebastião na verdade acedeu ao “intervalo” da imersão da “alma” “em sonhos que são Deus”, concedido pelo divino aos “seus”, ou seja, aos que o buscam acima de tudo, aos seus “amigos”.


O que são este “intervalo”, esta imersão e estes “sonhos que são Deus”? “Intervalo”, do latim intervallum, é o espaço ou distância entre dois pontos ou lugares, que etimologicamente são duas paliçadas ou trincheiras (vallum), também com o sentido de baluartes, defesas, protecções. O “intervalo”, ainda segundo um dos sentidos da palavra latina, sugere-se como o repouso ou descanso da “alma” em algo que não a pré-ocupa com a construção de limites e muros autoprotectores, o repouso ou descanso da “alma” relativamente a toda a pré-ocupação, mental, emocional ou física, com a separação entre uma coisa e outra, a divisão entre si e o outro, a defesa e o ataque, a dualidade, o medo e a (in)segurança. Livre de tudo isso, é no intervalo disso tudo, na “pausa” (outro sentido do intervallum latino) de toda essa agitação, que se pode abrir e absorver plenamente “em sonhos que são Deus”. Ou seja, no contexto da Mensagem, viver a “loucura” daquela ânsia de “grandeza” trans-mundana e transcensão de toda a “Sorte”/condição mortal que se converte nisso e é já isso mesmo a que ardentemente aspira. O desejo veemente dessa “grandeza” insuperável é já a vibrante e imanente epifania do divino. Como escreve Pessoa no poema “D. Fernando. Infante de Portugal”: “E esta febre de Além, que me consome, / E este querer grandeza são seu nome / Dentro em mim a vibrar”. É isso que torna o sujeito “cheio de Deus” e é isso, e apenas isso, que o pode ressuscitar, já em vida, de ser a “besta sadia” e “cadáver adiado que procria”, vergado pelas indomadas “forças cegas” ao triste contentamento com a vida doméstica e vegetativa. É isso, e apenas isso, que o pode ressuscitar do tempo dos quatro impérios e operar a sua superação no Quinto, a “verdade” pela qual “morreu D. Sebastião” (cf. o poema “O Quinto Império”), que evidentemente nada tem a ver com qualquer domínio mundano, temporal e político. Do mesmo modo que em D. Sebastião o ser “que há” transcende o “que houve”, assim também o Quinto Império transcende o plano onde decorrem e se dissipam os quatro, não podendo propriamente dizer-se que venha temporalmente após eles, enquanto símbolo de uma possibilidade que transcende o tempo e o espaço e que é a própria possibilidade do homem ou da consciência se imortalizar.


A alma de D. Sebastião está pois “imersa / Em sonhos que são Deus”. O que é, todavia, “Deus”? A palavra procede da raiz indo-europeia dei, que significa “tudo o que brilha”, donde vem o sânscrito deva (deus), o iraniano daeva (demónio) e o português dia [1]. Deus indica não um ser ou um ente, algo que exista e possa ser objecto, algo que possa ser visto por alguém, mas antes a própria luz invisível que torna todas as coisas visíveis, em termos inteligíveis ou sensíveis, o ilimitado espaço luminoso que é matriz de todas as possibilidades de manifestação e consciência, o nada inerente ao aparecimento de tudo [2](* cf . também o "nada que é de tudo" em Agostinho da Silva). É aí que verdadeiramente cai, imerge e reside o D. Sebastião transfigurado, que realiza a suma potencialidade de todo o homem. É nisso que se guarda, baluarte sem defesas e assim inexpugnável pela derrota no “areal”, “a morte e a desventura”. É Isso, afinal, que se sonhou e tornou, num sonho/desejo/imaginação criadora (ou desveladora) que converte o amante na coisa amada (cf. Luís de Camões), que realiza isso que imagina, em tudo distinto daquele sonho ilusório e irreal que preside à história do mundo e dos homens e à sucessão dos quatro impérios mundanos. “O” que se sonhou, esse “Deus”/matriz intemporal de toda a manifestação, transcende a consciência temporal e a sua ilusão intrínseca, sendo da ordem do eterno. É só “Esse” que D. Sebastião pode regressar, não o rei humano morto ou desaparecido no areal, ou um seu substituto, mitificado pelo sebastianismo e esperado pelos sebastianistas de todos os tempos, mas o sujeito transfigurado em Deus, dei-ficado, ou seja, iluminado. Desperto e livre, em nada se distingue desse espaço primordial, anterior a todas as coisas e de todas envolvente como a matriz que as possibilita, mas que, na experiência mundana e condicionada, apenas se abre nos inter-valos entre uma coisa e outra, entes, pensamentos, palavras e acções.


Cabe a este respeito recordar um fundamental poema inglês de Pessoa, “The King of Gaps”, “O Rei das fendas/brechas,/aberturas/hiatos/lacunas/vazios/intervalos/abismos”, que muito ajuda a compreender o “intervalo” em que está imerso o D. Sebastião pessoano. Este “rei desconhecido”, senhor de um “estranho Reino dos Vazios” com o qual coincide, figura isso que há “entre” uma “coisa” e outra “coisa”, o intervalar e não entificado espaço vazio que se desvela entre as entidades, o fundo informe onde as formas se recortam e definem, bem designado como “entre-seres”. Se num sentido parece assumir a função de um Mesmo indiferenciado, perante o qual tudo o que nele se delimita surge como as múltiplas formas da sua alteridade, ou se noutro sentido podemos pensá-lo como o Outro enquanto transcende e envolve todas as formas do mesmo, num outro sentido podemos reconhecer-lhe uma transcensão mais radical, tanto do mesmo como do outro, tanto do idêntico como do diferente, na medida em que estes se constituam no âmbito de uma relação mútua entre formas e entidades que só se torna possível por haver esse espaço não-entitativo do “estranho Reino dos Vazios” que permite a constituição e o reconhecimento da relação e do relacionado.


Seja como for, é Nisso que imerge D. Sebastião e é Isso/Esse que anuncia regressar. Este segundo poema dedicado a D. Sebastião confirma a transfiguração do herói épico e trágico, malogrado protagonista histórico, num intemporal avatar espiritual, qual Bodhisattva ou Redentor gnóstico que, desperto e iluminado, se dirige aos homens, pela voz de Pessoa, seu poeta-profeta, ensinando-lhes já a necessidade de transformação da sua esperança quanto ao seu futuro regresso para junto deles, que tudo indica nada ter a ver com uma redenção política e temporal, mas antes com o exercício de um magistério espiritual que não visa senão conduzi-los ao mesmo estado livre e desperto, à mesma libertação da “Sorte”, à mesma ressurreição, dei-ficação ou iluminação.


Esta é uma possibilidade de leitura, que não contradiz outra, mais funda e acalentada pelo próprio Pessoa, em que o regresso de D. Sebastião, como é aliás mais adequado a uma potência espiritual, não é tanto exterior quanto interior, podendo dar-se a qualquer momento em todo o homem que evoque em si o mesmo que D. Sebastião evocou. D. Sebastião, ou seja, uma potência espiritual desperta e livre do espaço e do tempo, regressa efectivamente em todo aquele que deseje a mesma libertação da “Sorte” e se afunde no mesmo “intervalo” divino, na mesma luminosa matriz primordial de todas as coisas [3]. Que isto seja susceptível de uma expressão colectiva, adverte-o também Pessoa, ao dizer do “mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa”: “Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da Nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião” [4].


Regressará, em nós, D. Sebastião, mas, fundamental não o esquecer, Outro, jamais o mesmo. O que implica que, em nós, o mesmo morra e deixe aparecer o Outro.


Assim se desencobre o Encoberto. O que reside entre cada coisa, pensamento, palavra e acção



[1] Cf. Odon Vallet, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, pp.63-64.
[2] Cf. Jean-Yves Leloup, “Notre Père”, Paris, Albin Michel, 2007, pp.173-174.
[3] É isso que salientamos neste texto decisivo: “A metempsicose. A alma é imortal e, se desaparece, torna a aparecer onde é evocada através da sua forma. Assim, morto D. Sebastião, o corpo, se conseguirmos evocar qualquer cousa em nós que se assemelha à forma do esforço de D. Sebastião, ipso facto o teremos evocado e a alma dela entrará para a forma que evocámos. Por isso quando houverdes criado uma cousa cuja forma seja idêntica à do pensamento de D. Sebastião, D. Sebastião terá regressado, mas não só regressado modo dizendo, mas na sua realidade e presença concreta, posto que não fisicamente pessoal. Um acontecimento é um homem, ou um espírito sob forma impessoal” – Fernando Pessoa, Sobre Portugal. Introdução ao problema nacional, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p.196.
[4] Cf. Ibid., p.255.

Feliz Natal!

"Que me importa que Cristo haja nascido ontem em Belém
se não nasce hoje na minha alma?"

- Angelus Silesius, Peregrino Querubínico

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Deus, em Antero de Quental (1842-1890)

Há um Deus misterioso que só parcelarmente se revela a quem o quer estudar:
Sócrates - Dentro do homem está um Deus desconhecido
Cristo - Dentro do homem está o Reino dos Céus
Lutero - Dentro do homem está Deus. O Homem é um Deus que se ignora.
Robespierre - Revelação de Deus através de valores humanistas.
Hegel - Revelação de Deus através da ideia.
Moisés, Maomé, Cristo - Profetas que revelam Deus, mas todos revelam apenas um aspecto parcelar do Absoluto

O homem, ele próprio, está mais perto do divino do que as formas através das quais O representa. Em vez de procurar Deus nos céus, o homem deve procurá-lo no seu interior.

A Existência humana é privilegiada porque é nela que mais se manifesta a essência divina.
A Saudade é uma aspiração a uma relação mais plena com o deus desconhecido que cada um trás em si.

No fundo da consciência está aquilo que procuramos fora. Dormitando, em movimento mudo, mas murmurando sempre. Jeová, Brama, Sabaoth, Alá, Cristo. O homem não deseja mais do que aquilo que já há em si.

A santificação é a plena realização do indivíduo. É um Deus que se revela permanentemente, como se fosse um progresso constante, sem que nunca mais esse progresso acabe. O homem como o descobridor dos mundos encobertos do espírito.

As revoluções, os cultos, os mitos, tudo são apenas manifestações do princípio interior essencial. Civilizações e Impérios se fazem para sermos Homem um pouco mais.

in, Antero de Quental, Filosofia, Univ. dos Açores: Editorial Comunicação.
cf. Paulo Borges, Filosofia em Portugal I, apontamentos.

Rigor

Em Rigor não se pisa o risco,
transgride-se à risca.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Intervenção

O Mundo nunca era melhor e nunca será melhor, se o Homem não desaparece. Implantamos os nossos desejos a um Mundo que não nos deseja e implantamos os nossos medos a um Mundo que não tem medo nenhum. Não somos responsável pelo Mundo que nos não pertence, mas somos responsável pela nossa vida. Ser responsável implica responder e poder questionar. Estamos questionando demais, mas parece que ninguém quer responder. «Mundo, eu imploro, acaba com esta lamentação de uma vaidade inútil!» Pois antes o Homem se liberta, o Mundo deverá se libertar.

Mitologia

“O mito da Morte de Deus é trágico. Que o homem tivesse emergido, que continue emergindo do mundo, no seu plano funcional de natureza naturante, não significa que o Homem possa dispensá-la por impertinente e importuna, pois enquanto homem, radicado na animalidade, nela e dela vive. O homem que veio a ser Homem, nem por crer que poderia ocupar o posto vago da Divindade, se desprendeu da Natureza; não deixa de ser um ente, cuja vida depende da vida mortal de outros entes naturais. Antes de vir a ser Homem construtor do mundo, foi e é homem que vive a vida e da vida do mundo, que há no mundo que ele não construiu. E aí está o trágico, bem no fundo da existência do Homem: ele não pode construir o Mundo senão à custa da destruição da Natureza; mas se a destrói, a si mesmo se destrói. Aí está o trágico, no limite de uma operosidade que não quer saber de limites. Há sempre um traço de ridículo nos profetas da desgraça. Mas o riso nos morre na face, quando de face olhamos a eventualidade de despertarem os deuses que «dormem nas formas naturais das coisas», que, destroçadas elas, os deuses, que já não têm onde dormir, e vinguem a ponto de se apossarem do Homem, de modo que ele se perca no limite ou do limite se perca; de maneira que se lhe oculte o limite, e que, ultrapassando-o, se mate. Não se veria grande mal no suicídio do Homem, se ainda sobrasse Natureza acolhedora e mantenedora de homens que só querem ser homens, que tanto se afastarem do Mundo do Homem, que já não queiram senão viver no mundo que deles tanto é, quanto eles são do mundo, do mundo que só é mensagem da Divindade, acenada pelos deuses que a acenaram. Ou só lhes restará um breve lapso de vida a viver à margem da tragédia? Que o vivam, então! Mas, por Deus, não se lamentem!”

sábado, 19 de dezembro de 2009

Orides Fontela: Elegia



Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?
O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico
o que era pássaro e é
o objeto: jogo
De uma inocência que
o contempla e revive
- criança que tateia
no pássaro um esquema
de distâncias -
mas para que serve o pássaro?
O pássaro não serve; arrítmicas
brandas asas repousam.

Orides Fontela



Admiração e compaixão são emoções que definem a humanidade

Admiração e compaixão são emoções que definem a humanidade

A loucura de D. Sebastião



D. Sebastião
Rei de Portugal


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura, que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

O primeiro dos dois poemas que têm como título “D. Sebastião” constitui a quinta quina do “Brasão” português, a primeira parte da Mensagem, que interpreta o simbolismo heráldico das armas nacionais e convida a relacionar esta quinta quina/D.Sebastião com o Quinto Império. O poema dá voz ao rei assumindo a loucura de que foi acusado, mas dando-lhe outra razão que não a da patologia ou insensatez. A sua loucura consistiu em querer “grandeza / Qual a Sorte a não dá”. “Sorte”, sobretudo com maiúscula, parece ter aqui o sentido de Destino, Fado ou Fortuna, e não tanto de acaso. A “Sorte” é a necessidade que rege o universo e à qual nem os deuses escapam (cf. Moira, Ananke, Heimarmene), subordinando todos os entes à impermanência universal e às vicissitudes dos lugares, ora superiores, ora inferiores, que ocupam no mundo, e às experiências, ora felizes, ora infelizes, que nele conhecem.

Esta “Sorte” evoca o tema arcaico, antigo e medieval da Roda da Fortuna ou do samsara, presente no Oriente e no Ocidente. Pessoa refere-se várias vezes, na sua poesia, a este tema, falando por exemplo da “roda universal da Sorte” e relacionando-a, significativamente, com a “ficção”, “sonho” ou ilusão universal que faz ao sujeito supor-se na existência o mortal que afinal não é. A loucura de D. Sebastião consistiu assim, não propriamente na temeridade da aventura africana ou no ideal supostamente anacrónico que a moveu, mas antes no haver desejado, num e para além de um acto heróico dificilmente justificável pela razão humana, uma “grandeza” que não pode ser dada (e retirada) pela Sorte. Que “grandeza” pode ser essa senão a transcensão e libertação da própria “Sorte”, a transcensão e libertação da Roda da Fortuna ou do samsara, a suprema aspiração humana? Ou seja, se recordarmos a interpretação do poema “Quinto Império”, a transcensão e libertação do próprio sonho/ilusão que preside aos “quatro / tempos” do movimento do mundo, imperando sobre a consciência e a vida mediante as “forças cegas” que dominam a “alma” enquanto uma “visão” desperta e livre as não domar. Neste sentido, a “verdade” pela qual “morreu D. Sebastião” é o próprio fim da ilusão que preside ao destino do mundo, o fim do regime de consciência adormecida, onírica e iludida figurado, em termos históricos, pela sucessão dos quatro impérios: Grécia, Roma, Cristandade, Europa. A “verdade” pela qual “morreu D. Sebastião” é o próprio Quinto Império, como figura do Outro desse regime de consciência que há que transcender: não tanto uma nova soberania mundial, assente na parcialidade de uma dada cultura, ordem jurídica, concepção moral e religiosa ou cosmopolitismo comercial, mas antes o Despertar da falsa pretensão à universalidade de todas essas ilusões, o Despertar dessas e de todas as ilusões, o Despertar da ilusão universal que preside à consciência, ao tempo e à história dos homens.

O D. Sebastião histórico é claramente transfigurado num protagonista da loucura, da boa hybris ou desmesura, que deseja a suma e insuperável “grandeza” do Despertar enquanto libertação da falsa realidade de todas as supostas condições da existência no mundo. É a “certeza” dessa possibilidade que natural e necessariamente não cabe em si, pois haver um “si” é ser ou supor-se algo ou alguém no mundo, é estar situado e logo limitado, submetido e determinado na cadeia e teia de causalidade da ordem universal. São essa loucura e essa “certeza” que afinal o fazem sair de si e o ilimitam, levando-o a trespassar e transcender a própria condição humana e mortal, assegurando-lhe a transfiguração que lhe confere um outro modo de ser, actual e imortal, que nada tem a ver com o “ser que houve”, tornado um cadáver jacente no “areal” de Alcácer-Quibir. O D. Sebastião a que Pessoa dá voz já não é a pessoa do rei histórico, desaparecido em Alcácer-Quibir em termos reais e simbólicos, mas antes a consciência desperta e imortal emergente do soçobro daquele ser humano e mortal.

É ela que agora nos fala a partir de um estado transcendente e liberto, exortando-nos a assumirmos a sua “loucura”, “com o que nela ia”, o desejo de transcender a “Sorte”, como o seu mais precioso legado. Somos nós esses “outros” que podemos assumir o exemplo libertador do rei transfigurado assumindo a sua “loucura” transcendente, iluminativa, libertadora. Pois sem isso, recorda, que somos nós, “que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”. Ou seja, sem a loucura que visa transcender a condição mortal de todo o ente, não só não cumprimos o pleno potencial da nossa própria humanidade, como nem sequer a exercemos, mantendo-nos num patamar de infra-humanidade e numa vida falsa que mais não é senão morte que se adia enquanto, pior ainda, se reproduz noutros cadáveres adiados fabricados pela mentalidade familiar, escolar e socialmente dominante. Como dizem Teixeira de Pascoaes e Agostinho da Silva: “Só há homem quando se faz o impossível”. Ou seja, aqui, a transcensão da própria condição humana.

Ser “besta sadia, / Cadáver adiado que procria”, é afinal, se regressarmos ao poema “O Quinto Império”, permanecer na “apagada e vil tristeza” (Luís de Camões) de uma vida doméstica autosatisfeita, sem “sonho” e voo para mais além, ou na felicidade vegetativa de uma vida já sepulta. Como antídoto disso, a “loucura” de D. Sebastião é o descontentamento que leva o homem a cumprir-se domando as “forças cegas” “pela visão que a alma tem”. Deixar de ser “besta sadia, / Cadáver adiado que procria”, é despertar e libertar-se desse regime de ilusão e autogratificação medíocre que preside à “noite” do mundo e ao seu tempo dos quatro impérios que evanescem julgando-se eternos: “Grécia, Roma, Cristandade, / Europa”. Deixar de ser “besta sadia, / Cadáver adiado que procria”, é “viver a verdade / Que morreu D. Sebastião”, ou seja, cumprir a suma possibilidade da condição humana: a sua própria transcensão, a imortalidade. É esse o sentido mais fundo e amplo do Quinto Império, a soberania do Despertar libertador.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Mitologia

"Cultura, seja ela um outro nome do Projecto, ou só uma projecção sua no espaço multifuncional em que homem e mundo se correlacionam, é drama, nexo dramático, em cujo argumento se oculta o Projecto, enquanto as personagens se ignoram como tais, enquanto não sabem que só desempenham papéis que lhes foram distribuídos e, por isso mesmo, julgam ter a iniciativa da acção: por mais breves palavras, enquato não sabem que representam um drama cuja intriga nenhum deles estaria capacitado de tecer. Não sabe da existencia de um Projecto, quem de nenhum modo veio a saber que foi jogado em jogo cujas regras nem ele nem outro seus parceiros inventou.Bem ver que não lhe pertence a iniciativa da acção, que perdeu essa iniciativa, ou mesmo que a nunca teve, é mais um ganho do que uma perda."

Eudoro de Souza, Mitologia, p.34

Intervenção

perdemos a nossa atenção em particularidades, mesmo quando aparecem como importâncias universais. e tudo isto não muda a nossa mente, pois é a mesma coisa o camponês que só pensa no seu campo e o homem de hoje que só pensa no gelo polar. o que foge é o resto que é tanto que ninguém pode contar. e a nossa alma vira mesquinha na grandeza duma consciência emprestada. medos e opiniões, que se vendem tão bem.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

E subitamente...

... saí de um pintura de um artista romeno.


Não sei qual das mulheres sou.
Estou obcecada pelas pinturas esbatidas nas paredes do quadro.
Este quadro não está numa parede, as paredes estão nele e nelas outros quadros que uma mulher que está fora de todos estes mundos
(eu)
olha (olho)
com olhar
comum.
Conheço os lenços
(as mulheres da minha infância)
conheço as cores
(os mesmos tons dos sonhos)
conheço as poses
(as fotos antigas).
Contudo
não são
daqui.
Serei eu de
onde?
De que hoje?
De que antes?
Fascina-me
de uma
o olhar
desta
a pose
de outra
o colar.
De todas
o apenas
ali
estar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Hopenhagen: foi você que pediu um desenvolvimento sustentável?



As Nações Unidas tentaram modificar a atitude dos Estados para com o meio ambiente, com uma série de conferências que visava o estabelecimento de acordos internacionais que permitissem articular uma estratégia global para a preservação do meio ambiente.

Por muito que se fale hoje nas alterações climáticas decorrentes da industrialização, já na conferência de Estocolmo, em 1972, foram apresentadas evidências científicas do impacto da acção humana no clima, para além de todo um manancial de dados sobre a contaminação dos solos e dos habitats marinhos à escala global, bem como sobre o desmatação, em processo acelerado, cujos efeitos se vieram a tornar cada vez mais evidentes.

Nessa altura o acordo falhou porque os países ditos sub-desenvolvidos e que hoje em dia são designados, eufemisticamente, países em desenvolvimento, quiseram fazer valer o seu direito ao desenvolvimento pleno, em pé de igualdade com os países ricos que tiveram a oportunidade histórica de se desenvolverem sem entraves a ponto de abocanharem grande parte dos recursos do planeta.

Vinte anos mais tarde, na conferência do Rio, embora se tenham lançado as bases do acordo que seria alcançado cinco anos mais tarde, em Quioto, o mesmo argumento fez-se ouvir com mais insistência, com o Brasil a liderar os esforços dos países que partilham a Amazónia para impedir uma internacionalização jurisdicional da Amazónia e das outras manchas de floresta tropical. O que se pretendia era que a Amazónia fosse declarada uma reserva ecológica com o mesmo estatuto da Antárctida.

Hoje a área florestal do maior pulmão do planeta está muito reduzida se comparada com a sua extensão em 1992 e a desflorestação continua a um ritmo cada vez mais acelerado, com a agravante de ser levada a cabo através de mega-queimadas, com o elevadíssimo custo em emissão de gazes provocadores do efeito de estufa. A contribuir para isso, de forma paradoxal, está a busca de alternativas aos combustíveis fósseis virada para o biodiesel, afinal o último recurso para salvar o paradigma do motor de explosão e a actual configuração da indústria automóvel.

Esta pressão provocada pela produção de combustíveis ‘verdes’ leva à necessidade de aumentar a superfície arável e, também, de aumentar a percentagem de terras aráveis dedicadas à produção de matéria-prima para a nova indústria dos combustíveis. Isto teve uma consequência terrível na vida das populações mais pobres, uma vez que o preço dos alimentos à base de cereais passou a estar indexado às oscilações do preço do petróleo, o que levou a que os mesmos especuladores que, ao que parece, precipitaram a actual crise económica, se tenham refugiado no mercado de futuros, hipotecando a sobrevivência de milhões de seres humanos, uma vez que esta pressão especulativa faz disparar os preços das colheitas e, consequentemente, dos alimentos processados.

Assim, o aumento da superfície arável não contribuiu para diminuir a escassez alimentar, antes é um dos principais factores do seu aumento.

A par disto há a autêntica invasão de África por países como a China e a Índia nos quais a pressão demográfica exige um crescente fornecimento de alimentos, matérias-primas e combustível. Como consequência estão a surgir gigantescos complexos agro-industriais em países praticamente sem uma agricultura local, verdadeiramente sustentável em articulação com a vida cultural das comunidades locais. Esta começa a ser neste momento a principal ameaça à sustentabilidade alimentar dos países mais pobres.

E neste sentido a política diplomática da nova administração americana em relação a África não traz nada de novo, o que se tornou bem visível no périplo que a Secretária de Estado Hillary Clinton fez por alguns dos mais importantes países africanos, no que diz respeito à sustentação da actual ordem económica mundial, planando olimpicamente por cima das questões relacionadas com os direitos humanos e as assimetrias económico-sociais.

Ainda está por contabilizar o peso das chamadas tecnologias verdes no agravamento da situação dos povos à beira da ruptura alimentar. É que a questão não está apenas na diminuição das emissões, ou no uso de alternativas menos poluentes, mas à sustentação do actual sistema económico que está a aumentar exponencialmente a escalada da industrialização, em vez de se diminuir a produção desenfreada de bens que têm uma mais-valia pulsional, mas quase nenhum benefício na sustentação duma vida humana em plenitude, continua a alimentar-se a neuro-esfera planetária com uma supra-estrutura de produtos imediatamente consumíveis (também no horizonte dito cultural), sustentada numa infra-estrutura produtiva completamente desenraizada da vida comunitária, da cultura das comunidades de base e do ritmo, esse sim ecológico, duma vida individual e colectiva em comunhão com a Natureza.

Neste sentido, Copenhaga será uma resolução do problema através da elisão das arestas do problema, num processo de dissuasão do questionamento e da crítica livre e profunda. E o que é sintomático de que há algo de muito importante em jogo, é que se consegue transformar os tradicionais mecanismos de emancipação em formas de dissuasão: o apelo a uma cidadania global, a ideia de que os líderes estão a ser liderados pela opinião pública global, quando isso não é verdade, uma vez que os Estados ganham direito de cidade mesmo se continuam a desrespeitar os direitos humanos, sem diminuírem a carga de sofrimento que hoje impõem aos seus povos e aos povos por si dominados. (Quanto à autêntica cidadania global, veja-se a entrevista, preclara e muito oportuna, concedida por Fernando Nobre ao jornal Expresso na sua última edição).

Esta manobra de dissuasão leva a que os chamados ‘povos’ indígenas sejam apresentados como ex-líbris desta ‘conferência da esperança’, numa decapagem mediática das camadas de ruído subliminar que a consciência da verdadeira situação desses povos poderia acrescentar à mensagem. Há, então, uma absolvição dos crimes contra a humanidade sob a forma dum manto verde que se espraia sobre um planeta em convulsão e onde o espectáculo mediático gastou a força constritora das imagens da fome de das crianças esqueléticas – que, por estranho que pareça, existem hoje num número muito maior do que em qualquer época anterior.

E este é um ponto decisivo: só haverá uma autêntica revolução ambiental no mundo quando os direitos humanos forem reconhecidos como o centro das mudanças a realizar. E forem encarados como uma via para o reconhecimento da senciência como a base de qualquer tipo de respeito, não excluindo, assim, todos os seres vivos.

Neste ponto tocamos no nó górdio do que urge combater: só quando se colocar em cima da mesa o actual conceito de desenvolvimento, encarado como um progresso indefinido, sempre crescente, para se equacionarem outras formas de crescimento, e entre elas considerando o crescimento espiritual como o mais precioso e benéfico, é que os actuais problemas serão atacados de forma séria.

O mito do progresso que alimentou o imaginário iluminista é o pior veneno que a civilização ocidental tomou e deu a tomar ao resto do mundo. O progresso, sem autêntico regresso é uma ilusão desumanizadora e castradora em termos espirituais. Temos que ser capazes de compreender até que ponto, ou a partir de que ponto, produzir mais é produzir demais.

Qualquer outra via, seja qual for a sua dimensão, será comparável a querer retirar o carbone das garrafas de pirolito.