domingo, 13 de dezembro de 2009
O Quinto Império
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.
Eras por eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
O poema “Quinto Império” permite aprofundar a interpretação do poema anterior. Começando pelas duas últimas estrofes, elas anunciam claramente um desenlace do sentido da passagem do tempo terreno e histórico como uma transição da “noite” para o “dia”, da treva para a luz, do negativo para o positivo (“atro” significa negro, tenebroso, lúgubre, aziago), ou melhor, como um pleno desentranhamento do “dia claro” que na funesta e “erma noite” já se enraíza e brota. Este processo é também uma passagem dos “quatro / tempos” de um estado onírico para um despertar, esse mesmo “dia claro” que acontecerá no “teatro” da “terra”. Os quatro tempos ou quatro sonhos passageiros e fugazes do “ser que sonhou” (um Deus sonhador ou o próprio homem?) são claramente os quatro impérios, os quatro momentos-figuras histórico-civilizacionais, que se destinam a ser superados pelo Quinto Império, na versão pessoana da interpretação pelo profeta Daniel do sonho de Nabucodonosor (Daniel, 2, 31-45) que se converteu num recorrente mito teológico-histórico-político ocidental, entre nós exaustivamente interpretado pelo Padre António Vieira. Esses quatro impérios, que configuram para Pessoa a génese histórico-cultural do último deles, a Europa, são pois estados oníricos, conotados com um regime obscuro de consciência, em que o “dia claro” não emergiu ainda plenamente da “erma noite” em que se enraíza e secretamente desponta. São por natureza fugazes e inconsistentes, tendo o destino de tudo o que é temporal: a evanescência e a dissolução, desaparecer sem deixar traços.
O que fica afinal, após os quatro tempos da noite e do sonho, senão o “dia claro” que já neles secretamente se desenvolvia? E o que é esse “dia claro” senão o Quinto Império, que desde Daniel é visionado e profetizado como universal e perene?. Mas o que é o Quinto Império para Fernando Pessoa? Veremos que tem vários sentidos, claramente apontados nos vários textos em prosa que lhe dedicou. Neste poema, contudo, sem contradizer esses outros sentidos e constituindo porventura a chave maior para a sua compreensão, o Quinto Império é sugerido como a “verdade / Que morreu D. Sebastião”. Importa pois saber o que seja esta “verdade”, que, apesar de não ser definida, não deixa de ser por sua vez sugerida como o tema das três primeiras estrofes do poema. Que existam as condições para se compreender do que se trata é aliás o que fica pressuposto na exortação e desafio final a que surja quem venha “viver” essa “verdade / Que morreu D. Sebastião”.
O poema começa por lamentar dois aspectos da comum condição humana. “Triste” é “quem vive em casa”, fechado na sua reclusão doméstica e “contente” com essa forma exígua de exercício das possibilidades humanas, sem que algo mais, “sonho” ou “golpe d' asa” (cf. Mário de Sá-Carneiro), o leve a transcender essa condição domesticada, tornando até mais viva a experiência disso que se abandona (“mais rubra a brasa da lareira a abandonar”), subtil indicação de que só vivemos plenamente aquilo de que nos libertamos. Triste é também “quem é feliz”, contente agora com a mera duração da vida a que adere vegetativamente, inconsciente de tomar por vida a própria morte, o estar já sepulto nessa mesma e extrema limitação das possibilidades humanas. Esta falsa felicidade, extremamente condicionada e vulnerável, resulta de nada haver no indivíduo que internamente o leve além da “lição da raiz”, que se pode interpretar como o (falso) saber comum dispensado pela família, pela escola e pelo meio social aos humanos, ou, mais fundo, como esse inquestionado e irreflectido enraizamento vegetal na mera duração da vida biológica, sancionado pelas convenções dominantes na família, na escola e na sociedade.
Após a lamentação das duas primeiras estrofes, onde, em termos terapêuticos, se faz o diagnóstico e a etiologia do estado mórbido em que se encontra o homem comum, a terceira estrofe indica o remédio, a via a seguir para que tal estado se supere, o que deixa implícita a possibilidade da saúde. Essa via passa por assumir o descontentamento, o inconformismo com a situação imediatamente vivida, como exercício de humanidade. É isso que permite que se cumpra o apelo final: domar “as forças cegas” pela “visão” que há na alma, porventura a mesma visão espiritual a que alude o título Mensagem: Mens ag(itat) (mol)em, a visão de que o pensamento/a inteligência/a mente impele/põe em movimento a massa(matéria)/multidão, o animado e o inanimado. A via a seguir para ressuscitar uma humanidade sepultada na vida vegetativa e convencional consiste, primeiro, em despertar o seu descontentamento com esse modo despotenciado e alienado de existência e, a seguir, inverter a situação, fazendo com que não sejam as forças inconscientes, ou tornadas inconscientes, dos instintos e pulsões de sobrevivência infra-humana, bem como dos hábitos mentais colectivos (familiares, escolares, sociais) que os reproduzem, a dominar a “alma”, a consciência, mas antes esta a subjugá-los, consciencializando-os, libertando-se deles e eventualmente orientando a energia neles investida para fins superiores. Isso é possível, note-se, “pela visão que a alma tem”, como se nisso se aludisse a algo, o poder da consciência, desde já presente na alma, ou seja, na vida interna do homem, porventura apenas inoperante na medida em que esteja encoberto pelos automatismos da “vida” vegetativa e convencional.
Todavia, a estrofe carece ainda de ser lida em função do que nela se acrescenta e da sua função de charneira que, no centro da composição, estabelece a ligação entre as estrofes anteriores e posteriores. No seu início refere-se o fluxo contínuo das “eras” que umas às outras se sucedem e destituem, desvanecendo-se na mesma passagem voraz do tempo. A impermanência das “eras”, enquanto períodos temporais, é claramente, na estrofe seguinte, a dos “quatro / Tempos do ser que sonhou”, destinados a passar cedendo o lugar ao “dia claro” que desde o início nessa mesma fugacidade temporal se enraíza, germina e cresce, até que surja plenamente no “teatro” da “terra”. Estes quatro “tempos” ou “eras” oníricas, em que se troca o real por uma ficção inconsciente de o ser, e que são os quatro impérios – Grécia, Roma, Cristandade, Europa – destinados a desvanecer-se e ser superados pelo Quinto, são pois os marcos da história do mundo em que predominam as “forças cegas” que tornam a vida vegetativa, convencional e defunta e que devem ser domadas “pela visão que a alma tem”. Esta manifesta-se assim idêntica ao “dia claro”, ao despertar dos quatro tempos do sonho, ao implícito Quinto Império e à enigmática “verdade / Que morreu D. Sebastião”. Resta saber o que é esta verdade, que fica desde já suposta como algo que transcende a impermanência universal que rege o tempo cósmico e a história político-civilizacional dos homens. É legítimo entretanto supor que ela também se relaciona com essa visão ampla que se diz na palavra Europa e que, pelo seu rosto-Portugal, fita/deseja esfíngica e fatalmente a sua morte e transcensão na alteridade do Ocidente/Oceano, esse “futuro do passado” (cf. o poema inicial da Mensagem) que já vimos ser irredutível a qualquer determinação temporal e histórico-geográfica. A “verdade / Que morreu D. Sebastião”, o Quinto Império, está demasiado comprometido com o despertar da ficção onírica e com a transcensão do movimento histórico para poder ser objectivado em qualquer coordenada espácio-temporal. Não o entender é ficar tristemente refém do tempo de ilusão que é o dos quatro impérios, o tempo da vida sepulta na funesta “noite” da consciência dominada pelas “forças cegas” que regem a visão comum, apegada ao seu enraizamento no irreal.
(texto em formulação e a continuar)
sábado, 12 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Da hipnose do Nobel

Em 1973, juntamente com o diplomata norte-vietnamita Le Duc Tho, Henry Kissinger foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz. Isso não impediu que, enquanto responsável pela diplomacia norte-americana, estivesse envolvido em acontecimentos tão revoltantes quanto a deposição de Salvador Allende no Chile, barbaramente assassinado pelos esbirros do General Pinochet no Palácio de La Moneda, precisamente nesse ano de 1973, que instaurou uma das ditaduras mais sanguinárias que a América Latina conheceu, ou a invasão de Timor-Leste pela Indonésia, com as consequências trágicas que são bem conhecidas.
O mediatismo do fim da guerra do Vietname, a primeira com um impacto televisivo de largo espectro nas sociedades ocidentais, terá sido determinante para a atribuição do Nobel da paz a esta figura tétrica da história recente deste mundo em permanente convulsão. Houve outras atribuições que seguiram o mesmo paradigma, também elas polémicas. O que têm de comum é que premiavam a coragem de avançar para o diálogo e de aceitar o fim de conflitos aparentemente insolúveis (no Médio-Oriente, apesar de tudo, ou apesar de nada, deram-se passos importantes no sentido da criação de dois Estados, embora a plena consumação deste desiderato tenha enfrentado novos obstáculos que ressuscitaram todos os outros, mesmo os que se julgava definitivamente ultrapassados).
Quando as sociedades deixam que o ressentimento se torne o motor da sua história, não só se criam as condições para a instauração do totalitarismo, como se geram as condições propícias ao agudizar conflitos internos e externos. É por esta razão que Nelson Mandela representa hoje para o mundo a capacidade de suportar a opressão sem sucumbir ao ódio. Nobel da Paz em 1993 em parceria com Frederik de Klerk, "pelo seu esforço para a abolição pacífica do regime do apartheid, e por terem estabelecido as bases para uma nova África do Sul democrática”, Nelson Mandela é hoje um ícone político que representa a capacidade de resolução de problemas vitais para o presente e o futuro das sociedades, pela via do diálogo democrático e da verdade ética e existencial como centro atractor da convivialidade política, categoria ainda por explorar de forma profunda pela teoria política, mas que se coloca cada vez mais como a alternativa à razoabilidade mediatizada e submetida às regras da oferta e da procura eleitoral.
O problema da democracia não é a existência de eleições. Como me parece óbvio. É, antes de mais, considerar-se as eleições como a única via de participação política dos cidadãos, transformados em actantes da sociedade do espectáculo (assumo aqui um categoria de Guy Debord que neste momento é cada vez mais importante para podermos chegar aonde é preciso na problematização em torno da actualidade em que nos inserimos) desinvestidos da condição de agentes. O cidadão é cada vez mais um consumidor, um espectador também ele já mediatizado, apropriado pelo medium em que a própria sociedade já se transformou. O lema mcLuhaniano “the medium is the message” deve dar-nos que pensar, uma vez que estamos embebidos no ‘meio’ de ‘comunicação’, com o quadro arquetipal subvertido, uma vez que somos já parte da mensagem, e o destinador e os destinatários desmultiplicam-se em fractal sobre o plissado desta urdidura caótica e englobante que alimenta os discursos e subverte a paisagem mental em que se constrói a subjectividade humana e, no seu seio, a subjectividade política.
A verdade ética será o que ainda poderá ser salvo dessa metastática profusão da demiurgia do Lógos sem dia-logia, sem abertura para o outro de si, ou para a sua instauração em discursividades diversas, excêntricas e desconexas entre si, hoje tudo é discurso do mesmo sobre o mesmo, o caldeirão mediatizado de todas as teorias, a abolição das fracturas simbólicas e a erosão da agudeza das dissidências. É o Lógos sem diabolia, essa dispersividade excessiva, incircunscriptível que, como tão bem o viu Eudoro de Souza, é a possibilidade, impossibilitante e, paradoxalmente, facilitadora (a categoria de órgão-obstáculo de Jankélévitch expressa muito bem este paradoxo) da simbolização, que pode ser assumida como um retorno a uma Ítica reeditada, ou a uma condição paradisíaca abandonada.
Foi no bojo desse caldeirão que os novos feiticeiros da metafísica da história (um híbrido entre a teodiceia messiânica e o marketing político ‘puro e duro’) engendraram o ‘fenómeno Obama’, o candidato-Oprah, hollywoodofílico, completamente descomprometido com o passado tenebroso da América e do mundo, sem as máculas do bushismo e das fracturas ancestrais duma América avidamente à procura de pontes para a temporalidade mítica da instauração da Terra da Promissão que o devir histórico preteriu, em progressivo e inexorável afastamento em relação à Idade de Ouro da Fundação – Obama aparece como um herdeiro do sonho americano, o arquétipo forjado pelos Pais Fundadores e que permanece, paradoxalmente, como a meta quiliástica do progresso social.
Foi em nome da Esperança que o Comité Nobel atribuiu a Barak Obama o Prémio Nobel da Paz, fazê-lo a um Presidente em exercício, tratando-se do Chefe de Estado duma superpotência com liames a todas as instâncias de luta pelo poder e de fractura no tabuleiro geoestratégico é um acto, no mínimo, arriscado. Subordinar à Esperança o significado mais emblemático deste acto de reconhecimento tem em si uma hybricidade (que desfecho esta hybris desencadeará?) que o mundo talvez não esteja preparado para suportar, uma vez que essa é uma categoria-caixa-de-Pandora, dentro do seu invólucro está o detonador de todas as formas de loucura política que surgiram à luz do dia nos dois últimos milénios, a escatologia acaba de ser reapropriada pela hiper-rede do simbolismo mediático erguido em anti-Mitologia, a derradeira exaltação da Metafísica totalizadora.
Obama parece incarnar o arquétipo do Papa Angélico, nascido no fervor da emergência da visão joaquimita da história e que João Paulo II recuperou ao interpretar o texto do terceiro segredo de Fátima como uma referência ao atentado que sofreu em 1981, na Praça de S. Pedro. Se tivermos em conta que este mitema tem como imagem axial um Papa vestido de branco cuja missão seria governar o mundo até ao fim da História, não é difícil perceber a monstruosidade (no sentido do que ‘dá a ver’, e sem um sentido pejorativo) do que está aqui em causa, já que João Paulo II torna pública esta interpretação no ocaso da sua vida. Simbolicamente o ciclo histórico da Igreja encerra-se e tudo o que virá a seguir estará já fora da História da Salvação. Trata-se do acto mais grave que um Papa promulgou em toda a história do catolicismo.
O que temos que procurar entender é o porquê deste gesto de megalomania teológica. Estaria Carol Woytila convencido de que era o último Papa? Ou, pelo menos, de que nos abeirávamos do fim da Civilização?
Talvez, simplesmente não se tenha apercebido do significado simbólico do seu gesto.
Nem esta anedota da história contemporânea terá pesado no espírito dos membros do Comité Nobel. Mas, neste caso, as consequências poderão atingir uma escala difícil de antecipar.
Haverá História depois de Obama?
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
mundividência
Há espaço para altruísmo e compaixão no nosso sistema económico?
On April 9 - 11, 2010, at the Kongresshaus Zürich, economic leaders and leading minds in neuroscience, applied economics, philosophy, contemplative science and anthropology will discuss moral and ethical dimensions of our economic system.
The ongoing global financial crisis clearly shows how vulnerable economic systems are to human behavior, particularly to corruption and greed. This conference focuses on the question: can we develop economic systems which deliver prosperity and welfare, while at the same time reward altruism and compassion?
Speakers include:
The XIV Dalai Lama
William George, M.B.A., Harvard Business School
Tania Singer, Ph.D., University of Zürich
Lord Richard Layard, Ph.D., London School of Economics
Antoinette Hunziker-Ebneter, M.B.A., Forma Futura Invest, Inc.
Matthieu Ricard, Ph.D., Shechen Monastery
Questions include:
Is it possible to develop an economic system which rewards a whole society as opposed to only one individual?
Can we conceive of a system that not only recognizes competitive success, but also recognizes cooperation and compassion?
What needs to change in the thinking structure of economists in order to facilitate that change?
Can an economic system be developed that resolves real societal problems related to poverty and environment?
The Mind and Life XX conference offers a unique opportunity to follow a high-level interdisciplinary exchange between scientists and economists.
The whole dialogue will be held in English. Please find attendance and registration details on our homepage: www.compassionineconomics.org.
Kind regards,
The Mind & Life Institute
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Carne artificial pode estar à venda no mercado dentro de cinco anos
Ainda ninguém provou o produto, mas daqui a cinco anos poderá estar à venda nos supermercados carne artificial. Ou seja: carne criada em laboratório, não proveniente de nenhum animal morto. Os defensores dos direitos dos animais já vieram saudar os resultados da investigação. Resta saber se a carne é saborosa.
Investigadores holandeses criaram um produto descrito como um pedaço húmido de carne de porco e estão agora a investigar outras maneiras de melhorar o tecido fibroso comestível que, no futuro, se espera que as pessoas venham a comprar.
Os cientistas extraíram células musculares de um porco vivo e colocaram-nas numa solução de produtos animais. As células multiplicaram-se e criaram tecido muscular. A partir deste resultado, é possível criar produtos semelhantes a bifes, caso seja possível desenvolver uma maneira de "exercitar" o músculo.
Os grupos vegetarianos louvaram a iniciativa, afirmando que não colocam qualquer "objecção ética" se a carne não tiver origem num animal morto, escreve o Telegraph.
A organização de defesa dos animais Peta - conhecida pelas suas campanhas contra o uso de peles de animais na confecção de roupas - já veio dizer que não levanta qualquer objecção.
A Vegetarian Society indicou, porém, que "a grande questão será garantir que as pessoas estão a comer carne artificial e não carne de animais que foram mortos". "Será muito difícil etiquetar e identificar a carne, de uma maneira que as pessoas se sintam seguras". Para já, disse Mark Post, professor de Fisiologia na Universidade de Eindhoven, ao Sunday Times, "aquilo que temos neste momento é um tecido muscular enfraquecido. Precisamos de encontrar uma maneira de o melhorar, esticando-o e moldando-o, mas nós chegaremos lá".
"Este produto será bom para o ambiente e irá reduzir o sofrimento animal. Parece mesmo carne, as pessoas irão comprá-lo. (...) É possível tirar a carne a um animal e criar o volume de carne anteriormente fornecido por um milhão de animais", esclareceu Mark Post.
O projecto é apoiado pelo Governo holandês e por uma marca de enchidos e surge depois da criação de filetes artificiais a partir de células musculares de peixes. A carne produzida em laboratório poderia evitar a emissão de gases de efeito de estufa para a atmosfera que resulta da criação de gado.
Estima-se que o consumo de carne e de produtos lácteos possa duplicar até 2015 e que o metano que se liberta durante as actividades relacionadas com a criação de gado seja responsável por 18 por cento dos gases de efeito de estufa lançados para a atmosfera.
in, Jornal "Público", 4/12/09
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
"Para mim, religião é algo a que você entrega todo o coração e a mente e o corpo, tudo o que você tem."
"Sabeis o que é religião? Não é cântico, não é execução de puja ou outro ritual, não é adoração de deuses de lata ou imagens de pedra; ela não se encontra nos templos e igrejas, nem na leitura da Bíblia ou do Gita; não é a repetição de um nome sagrado ou o seguir de qualquer outra superstição inventada pelos homens. Nada disso é religião.
Religião é o sentimento da bondade, daquele amor semelhante ao rio – que é um movimento rico eterno. Naquele estado, vereis chegar um momento em que não haverá busca de espécie alguma; e esse findar da busca é o começo de algo totalmente novo. A busca de Deus, da Verdade, o sentimento de se ser integralmente bom (não o cultivo da bondade, da humildade, porém o buscar, além das invenções e dos artifícios da mente, uma certa coisa – e isso significa ser sensível a essa coisa, viver nela, sê-la) isso é que é a verdadeira religião. A vida cuidará então de vós, de uma maneira surpreendente, pois, de vossa parte, nada haverá para cuidar. A vida, então, vos levará aonde lhe aprouver, porque sereis uma parte dela; não haverá mais problemas concernente à segurança ou ao que “os outros” digam ou não digam. E esta é que é a beleza da vida."
Krishnamurti, A Cultura e o Problema Humano , S. Paulo, Cultrix, 2ª edição, p. 133.
"E eu me pergunto que papel representa a religião na vida daqueles que estão aqui. Por religião, eu agora me refiro a uma coisa completamente diferente, algo que é tão importante - se não muito mais importante - do que ganhar o pão de cada dia. Para mim, religião é algo a que você entrega todo o coração e a mente e o corpo, tudo o que você tem. Não é algo a que você se volta como passatempo, ou para adotar quando estiver velho, com um pé na cova, por não ter nada melhor que fazer, mas sim algo que se torna vitalmente importante, algo intensamente necessário, como um completo modo de vida, a partir do momento em que você acorda até o momento em que vai dormir, de modo que cada pensamento, cada ato, cada movimento do seu sentimento é observado, considerado, ponderado. Para mim, a religião abrange o todo da vida. Ela não está reservada aos especialistas, aos ricos ou aos pobres, à elite ou ao intelectual. Ela é como pão, algo que você precisa ter. E eu me pergunto quantos de nós a levam a sério desse modo - o que não significa ser briguento, dogmático, excludente, sectário, ou alguém muito especial. A religião exige, não conhecimento ou crença, mas uma extraordinária inteligência, e, para o homem religioso, tem de haver liberdade, completa liberdade."
Krihsnamurti, Palestras em Saanen (1963), http://www.krishnamurti.org.br
"Estar enraízado na ausência de lugar" ou da desterritorialização de Portugal
A cidade dá o sentimento de estar em casa.
Assumir o sentimento de estar em casa no exílio.
Estar enraízado na ausência de lugar"
- Simone Weil, La pesanteur et la grâce, Presses Pocket, 1991, p.50.
Novalis escreveu que a filosofia não era senão saudade de estar em todo o mundo em sua casa. Penso ser essa a maior aspiração dos portugueses. Há que desterritorializar o nosso sentimento de Portugal, que na verdade, pelo menos desde os Descobrimentos, não é propriamente um território, mas antes um estado de espírito, um estado de universalidade. Essa é a verdadeira Pátria, que apenas indirecta e relativamente se expressa numa terra, numa língua, numa cultura e numa história. Não perceber isso é não perceber Portugal, cuja identidade é o próprio universo.
umoutroportugal.blogspot.com
"Ser orgulhoso é esquecer que se é Deus..."
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Música Escarlate
Assim estou profundamente grata a todos, e prossigam na Demand`A seja Ela qual f`Or…
Sedutor desígnio.
quem me meteu neste sedutor desígnio foste tu. Sem a tua presença, no rol de colaboradores, a minha deixa de ter qualquer sentido. Por isso, peço muito respeitosamente a quem de direito, que, a partir de hoje, elimine o meu nome do astro magnífico de colaboradores que o Entre-finisterreno tem.
Ao seu mentor e a todos os demais, deixo o meu fraternal abraço.
P. A.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
"Cada religião é a única verdadeira..."
- Simone Weil, Cahier VI, Oeuvres, Paris, Gallimard, 1999, p.848.
Não posso deixar de fazer deste reparo um reparo às tendências sincretistas de algum Fernando Pessoa e de algum Agostinho da Silva, que passa a meio caminho entre elas e o fundamentalismo dogmático da crença numa única religião verdadeira. Não parece possível seguir uma qualquer via religiosa ou mesmo espiritual sem uma dedicação e concentração totais, sabendo e aceitando ao mesmo tempo que outros podem e devem fazer o mesmo com outras vias religiosas e espirituais. Isto é algo a não esquecer no actual diálogo inter-religioso, que muitas vezes tende aos sincretismos fáceis e moles.
O Desterrado

«Não me procuraríeis se não me tivésseis encontrado já...»
Muito próximo do muito ruído, o silêncio custa-se a ouvir o que é para ser ouvido; coberta por véus e véus e camadas sobre camadas de ilusões e de folhas mortas, a fonte esconde-se e tapa a água que jorra. O vulto insinuado de escuro, vindo da noite, névoa cristalizada, caminhando na noite, não mostra o corpo. A treva o cobre e lhe cobre de solidão os andrajos. Não se distingue o buraco da noite e o buraco do fato rasgado. Aquele que regressa abre, com o Silencio e Ausência, a boca de cena de uma tragédia transfigurada. Não se distingue dela. A esfínge cega! O vulto não tardará a fundir-se no mistério e voltaremos inevitavelmente a esquecer em breve espaço de tempo que havia e houve esse vulto. Somos “Intervalo”, às vezes ouvem-se as vozes da tragédia. O coro.Há-de mostrar-se-nos esse vulto, esse mistério e esse “ocultamento” de diferentes modos de se “desocultar”. Pode até ser o “Nada”, mas é um Nada com Sentido: um Pleno Nada. Pode tomar as múltiplas formas do mundo e da realidade. Pode ser um texto, um rosto, uma chuva discreta na janela; um horizonte verde debaixo de um céu claro de Verão. Pode ser tudo e nada. Pode ser o nada de tudo. Mas já esteve cá e ainda cá está. Pode ser uma Saudade de ser!Mas o que no imo de nós procura rasgar os véus e abrir à luz a palavra. Isso é como um fruto que a nossa fome já saboreou ou/e é o desejo de o saborear uma vez mais, ignorando que já nele comemos o sentido. A sua forma, sempre mutável, não é forma nenhuma, é tão só o vulto que queremos apreender ou apenas com-ferir. É um vulto já fundido na paisagem uma pele uma carne; um corpo e uma alma: espírito e espírito, alma de alma. A sua voz é o Silêncio mais vibrante, esse que lá está e que Há. Esse que é memória e ânsia e eterno rumorejar de fonte. Esse que de véus se cobre e com folhas sobre folhas secas se despe, como árvores de jardim. Esse chão que é o caminho que limpamos, como se espelho sujo, espelho do ser, para ver o que no seu interior está, para ver o brilho ali deixado pelo que “cá” e “lá” está e habita o desabitado lar. Para ver o Encoberto, esse de quem se diz que nunca regressa. Esse que nunca regressa. Esse que é o errante e desterrado, filho da lonjura e da Saudade. Esse neto da Ausência e do Eterno. É esse o que tanto procuro! E esse O Desejado” O Desterrado de Si, O desterrado do seu coração.
Agostinho da Silva, um adepto da "Escola Nova"

O Professor Agostinho da Silva foi uma das grandes figuras da cultura Portuguesa do século XX. O interesse manifestado pela sua obra nestes 15 anos que sucederam à sua morte, são disso um bom testemunho.
Tivemos o privilégio de conhecer o Professor. Estivemos algumas vezes em sua casa a escutar os seus ensinamentos e trocámos com ele alguma correspondência escrita, à semelhança do que aconteceu com muitos outros. O Professor tinha criado o hábito de escrever cartas aos amigos e receber em sua casa gente que se prestasse à conversa.
Foi a conselho de uma amiga que decidimos ir a sua casa. Mas quis o destino que para lá chegar tivéssemos de passar primeiro pelo Brasil. Fomos encontrar uns amigos seus ligados à Universidade da Baía, numa viagem que fizemos a São Salvador, que nos tornaram portadores de algumas lembranças para o Professor: uma delas, um livro de poesia da autoria de um desses amigos, Epaminondas da Costa Lima, que contém um poema muito bonito que lhe é dedicado, de seu título “Portugal”.
Também Agostinho da Silva, em determinada altura da sua vida, teve de partir para o Brasil, corria o ano de 1944, só que dessa vez foi uma partida forçada. Expulso do Liceu Nacional de Aveiro, onde era Professor, e mais tarde preso por discordâncias políticas com o regime que então vigorava em Portugal, vai para o Brasil, donde só regressará em 1969.
Nas suas divergências com as ideias políticas dominantes na época, em Portugal, muitas foram as discordâncias que também manifestou com as metodologias tradicionais então instituídas no ensino, como revelam as suas simpatias para com as novas correntes pedagógicas que desde o início do século tinham galgado os Pirineus. A série de biografias que nos deixou sobre alguns dos autores do Movimento da “Escola Nova, onde encontramos as obras de Pestalozzi, Montessori, Sanderson, Winnetka, Dalton, por ele escritas e publicadas nos Cadernos de Iniciação Cultural, são um bom testemunho das preferências sobre quais as reformas a introduzir no sistema educativo do país.
Como dissemos, Agostinho da Silva vai deixar o Brasil em 1969, regressando definitivamente a Portugal, tendo por lá deixado uma obra notável, sendo de destacar a sua participação em várias Universidades por todo o país (Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraíba, Baía, Goiás e Santa Catarina), mais a fundação de dois importantes Centros de Estudos: o Centro de Estudos Afro-Orientais, na Universidade de São Salvador da Baía, e o Centro de Estudos Portugueses, na Universidade de Brasília.
Regressando a Portugal, dizíamos, Agostinho da Silva vai continuar a obra que já tinha iniciado, no nosso país, sobre a “Educação Nova”. Ele que, nos primeiros anos da década de quarenta, tinha tido uma importância decisiva na resistência deste movimento ao Estado Novo, de novo sem recuar perante a política conservadora que o tinha expulso do país, vai escrever “Educação de Portugal”, em 1970, um livro onde recupera os ideais daquele movimento pedagógico, livro que, no entanto, por falta de editor, só viria a ser publicado em 1989.
Mas a sua produção escrita, neste período, sobre a “Educação Nova”, não se resumiria à “Educação de Portugal”. Durante os dois anos seguintes, 1971 e 1972, vai coordenar e escrever temas sobre educação na Revista Mundial, onde novamente vai abordar a temática revelando o autor, mais uma vez, uma certa militância com esse Movimento.
Num dos números dessa revista, com o título de Fontes e Pontes do Futuro e subtítulo Escola Nova, dizia Agostinho da Silva, e passo a citar, que a Escola Nova definindo uma época nova de actividades educacionais, não tem como centro um professor que sabe e ensina, mas um grupo em que todos aprendem e, tendo aprendido, ensinam; não se limita a uma determinada idade, antes se alarga à vida inteira; desaba as paredes que a separam da vida, não funcionando separada dos trabalhos industriais ou dos campos. Esta Escola Nova que está vindo em números cada vez maiores depois das tentativas isoladas de um Pestalozzi, de um Tolstoi, de um Sanderson, de um Neil, a demonstrar que a marca real do homem é o seu espírito de criatividade na ciência ou na política, no sonho ou na arte, na religião ou na técnica.
Mas é no seu livro “Educação de Portugal” que Agostinho da Silva desenvolve as linhas gerais de um projecto educacional para o país. Recorrendo à insubstituível prosa de Agostinho da Silva, aqui fica uma breve citação que ilustra muito bem algumas das ideias por ele propostas. Passo a citar, “Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora que nascemos estrelas de ímpar brilho: Nada na vida vale o homem que somos; homem algum pode substituir a outro homem. (...) Não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho um dever que é o de ajudá-lo a ser ele próprio. (...) Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor, penso que a educação, em todos os seus níveis, formas e processos, não tem sido mais que o sistema pelo qual esta fraternidade se transforma em domínio (...) Pelos tempos fora, temos querido que a escola, seja fundamentalmente uma fábrica de fortes para vencermos na vida. O grave de tudo isto é que nos lembramos sempre da criança que fomos e que por nossas mãos matamos.”
Nota: Este textinho é um excerto de uma comunicação feita na Escola Superior de Educação de Setúbal, em Maio de 2009.


