domingo, 17 de janeiro de 2010

Cultura

Portugal projecta-se como um espaço de convivialidade cultural (inter-entre-pan/cultural) a partir do qual a experiência da identidade pode assumir-se como uma via de consumação do Universal na individuação espiritual, ou seja, na abertura ao abissal da com-vivência, no qual o que se descobre limitado procura a completude e a superação da cisão, existencial, territorial, grupal, etc.

A individuação espiritual, apesar de paralela ao egotismo, ao nacionalismo, ao internacionalismo totalitário, não se confunde com estas formas de deturpação do sentido e da finalidade da vida espiritual. Seria sempre terrível vivermos a limitação como o próprio do Espírito, quando Este se oferece na liberdade irrestrita, sempre como absolução do relativo, como sublimação da concretude solidamente fechada em si, como, enfim, emancipação através da qual os simples gestos da existência assumem um significado plenificante.

Se nos descobrimos como seres com múltiplas limitações físicas, psíquicas, noéticas, práxicas… é porque estamos a tomar consciência das nossas ferramentas agápicas (e eróticas, Eros absolutiza-se em Agapê), do nosso manancial de recursos inerente à nossa condição de seres capazes de amar, de seres que no Amor encontram a sua mais viável e sólida capacitação.

Assim, tanto os dons como os bens que possuímos ao nível da existência material, são inerentes à nossa condição de conviventes, de seres de expressão e conversão, de conversação. Há uma filologia vital que nasce da descoberta do Espírito como o que rasga o hábito (a rotina) e a descrença na vida sem limitações extrínsecas. Isto é válido também para os povos: as fronteiras são pontes, são instâncias de abertura.

O Outro só existe como o que se opõe ao Mesmo se não acedermos ao que é próprio: o que é próprio é que cada ser é único e na sua irrecusável liberdade não tem que ser conforme a nada de exterior ao seu fluxo vital, ao seu sopro insubstante, à sua realeza sobre este mundo.

Não há estrangeiro, nem nacional. No mundo do Espírito não há máquinas totalitárias de criação de espaços de contenção da convivialidade fraterna. Por isso as Línguas são a manifestação mais pura do fogo do Espírito. Uma Língua não é uma entidade fechada, não é um dispositivo de sujeição espiritual, antes um território utópico que está continuamente, enquanto for vivo, animado por um influxo de transubstanciação, de transmutação, de abdicação de si numa projecção para a universal entre-expressão que, se alguma vez atingida, tornará as Línguas e os seus falantes capazes de tudo dizer e de tudo entender, com ou sem palavras, pelo Amor.

Uma Língua não é uma mercadoria, nem deve servir para criar ‘mercados’ de desumanidade. Porque aos não falantes duma Língua não lhes falta nada, em nada são menos ou mais que os outros. E só haverá Paz no mundo através da vida do Espírito. Isto quer dizer que tudo o que servir para discriminar os seres uns em relação aos outros, enquanto existir, será um obstáculo à Paz.

Nada existe que não seja resultante da co-presença de tudo em tudo.

Daqui resulta que a nossa apropriação do mundo deve ser ética. Antes de tudo o mais o que importa é a nossa abertura compassiva em relação ao que de nós poderá ser requisitado pela patência do Amor. É no ser-com que o nosso ser assume a sua verdade existencial.

A Cultura irrompe deste espaço de disponibilidade grácil, desta exuberância radical de que tudo nasce e que permite a criatividade como o que brota da mente, vindo de além e indo para além dela. Aquilo a que comummente se chama “cultura” surge quase sempre sem nascer, não ‘brota’ do sem fundo, é produzido, surge no mundo investido daquela dispersividade egolátrica que gera a inveja, a arrogância, a consciência alienada para a qual o mundo só pode ser um concurso de aves canoras sem a possibilidade de consonância. É a concorrência das máquinas cadavéricas que adiaram sine die o seu Encontro com a vida para, na certeza da morte, erigirem o seu mausoléu, recheado com tudo o que em si mataram de belo e de bom, em nome da ‘fama’, da ‘posteridade’, da ‘notoriedade’.

A Cultura, no seu sentido autêntico, é a convivência dos criadores na liberdade sem limites do Espírito. Criadores são todos os que se descobrem em ruptura com o viver domesticado, tornado mercadoria, esventrado de todas as entranhas de onde a insubmissão pode ganhar forças e voz. Criadores são os que assumem a patência do Infinito no finito. Podem ser pintores, escritores, sem-abrigo, crianças a brincar na rua, idosos a jogar às cartas no jardim, mulheres, homens, pássaros, cães, cientistas, malabaristas, inventores… Entre uns e outros venha o diabo e escolha. A escolha diabólica nunca é criativa, a criatividade é simbólica, por isso os seus frutos (o termo ‘obra’ está demasiado contaminado pela sujidade da Razão Pura) são sempre maduros, ou seja, nunca estão acabados porque abrem sempre para o que deles poderá nascer, resultado de germinação ou contaminação.

Não faz sentido preterirmos este ou aquele indivíduo em nome do que quer que seja que nos permita compreender o incompreensível. Embora tenhamos que nos manter inamovíveis na imensidade. Não significa isto, portanto, que tudo é aceitável. Há um combate radical a empreender em qualquer via espiritual, um combate afirmativo, de fidelidade à verdade da vida uni-multímoda. Cada acto de criação instaura uma fonte de sentido que pode elevar quem dela beba ao estatuto de criador. Criar nunca é um acto isolado, é uma ferida na pele coriácea do mundo da oferta e da procura. A doação e a aceitação em (com) reconhecimento, isso deveria ser a base da divina economia do mundo, da eudemonia política.

Possam os dons da Cultura ser gráceis. E que o sermos em sociedade possa expandir-se no Reconhecimento e na aspiração à disponibilidade para o Imprevisto.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Livros do Mundo: uma ponte em escultura com livros




Brian Dettmer World Books 2009 Altered set of Encyclopedias

A arte de Brian Dettmer pode ser vista aqui: http://www.flickr.com/photos/briandettmer/

entretanto, no dia da passagem


No dia da passagem
Das palavras
Deponho uma coroa de silêncio
Para te vestir.
Abrem-se os poços dágua fria, transparente
Os ferrolhos das portas saltam
Passados pelo fogo no dia da rejeição
Ficará vazia a balança
Enquanto conversamos
No caminho já e ao fundo
Os amigos comem bolos de cereais e bebem cerveja
Barata no dia da pesagem
Das palavras enquanto caminhamos ao fundo
Longe tão longe que já deixaram de nos ver
O barco sagrado à vista dos senhores de Tuat
Leões e touros hieráticas sombras
O deserto à vista dos livros com os nomes
Primogénitos, varinhas de condão
Aceites ao convívio pela senhora da Casa
Ao convívio mesmo com o nome que se esconde
Um nome como um país com milhões de anos
Ó criaturas de barro
Ao qual regressaremos
Filhos que amamos o pai, filhos terrenos.
Caminharemos portanto sobre as águas
A estrela matutina cintila nas prateadas ondas
Saídos de dentro de um pano para um canto divino
Palavras escondidas que germinam continuamente
Palavras que não foram pesadas na balança
Em que depus o silêncio
Ventos favoráveis vamos a passos largos
No tempo ilimitado
Centelhas múltiplas de muitos caminhos
O manto sagrado sobre as cabeças
Um deus na proa servos resplandescentes
Avançando pela noite como remos de prata
Peixe das águas-turquesa
Sairemos à luz e não nos reconhecerão
Seja feita a Sua vontade
Pela porta oculta do silêncio
Na passagem sibilina das palavras
Onde sem querer nem saber nós vivemos.

Se tivesse três centimetros de cera negra encontraria a forma. Modelaria a existência. De olhos fechados saberia se é amorosa a curva de cada sentir.

Bastaria sentir o pulsar para eu saber se é branca a cor daquele que respira.

Se eu tivesse três centimetros de cera preta eu ouviria o silêncio e saberia a hora de partir.

Parece que a neve se instalou na montanha. Tão longe.

UM PEIXE FORA DO AQUÁRIO

Todos os anos a família comemora o seu aniversário. Meu pai diz que a família é uma coisa que sempre existiu, minha mãe afirma que a família é mais que uma coisa mas concorda com seu tempo de vida. Numa data ao acaso festejamos o nosso aniversário.
Houve um tempo em que os velhos eram os responsáveis pelos festejos. Bons vinhos, queijos e presuntos eram escolhidos com todo requinte. Uma prima austríaca, obesa pela ausência da nicotina, trazia o esperado bolo moca como se este fosse o seu ingresso na festa.
Dos funerais lembro de dois, os dos últimos personagens que zelaram pelas nossas risadas. Os mesmos que reclamavam cansados dos nossos excessos. Depois deles as festas foram ganhando a cor da saudade. O vinho descobria sem vergonha a amargura das nossas risadas teimosas. O bolo que é agora comprado na pastelaria da esquina é tão indigesto como o resto da refeição.
Esperançados do sabor do passado a família reúne-se teimosamente todos os anos.
Enquanto a risada corre à solta nervosa, um grita EXISTO! o outro questiona DESDE QUANDO?
Ninguém dá pela tristeza, ninguém dá pela dor porque a vontade de outrora inventa a verdade. Se no fim da noite precisamos de um antiácido é somente porque abusamos do álcool.
Este ano acreditei na festa. Passei o dia a preparar um sorriso. Acordei a lembrar-me criança – um tempo que perco todos os dias.
Mal passava das oito quando meu pai telefonou:
- Já cá estamos todos filha! Estás atrasada ...
Minha irmã telefonou bem cedo avisando que o jantar seria num restaurante indiano. Lembrei com saudade a casa da minha avó. Lá ninguém vendia flores no meio da refeição.
Peço desculpas explicando que me perdera pelo caminho. Dei várias voltas à praça sem nunca encontrar a saída. Afinal bastava virar o rosto para a esquerda. Uma casa iluminada como se fosse Natal convida sem pudor quem passa na rua.
Uma sala vazia de gente. No canto esquerdo várias mesas esperam os clientes. À direita dois sofás para quem venha necessitado de algum descanso.
Pergunto pela reserva da família Alcobia. Um rapaz tímido aponta para o centro da sala. Espantada reclamo:
- Lá onde você aponta só tem um aquário...
O indiano teimoso repete:
- A família Alcobia está a jantar ali...
Julguei ser o português enviesado do simpático indiano responsável pela minha dificuldade de entendimento. Certa de esclarecer o equívoco corro para o centro da sala.
Não sei como explicar mas a verdade é que a minha família jantava no interior de um enorme aquário. Timidamente soco uma das paredes. Todos me acenam contentes.
Ninguém dá conta porque não entro, nem eu consigo descobrir como transpor o obstáculo. Quando o vinho aparece encho o copo. Na hora do brinde meu cálice encontra a parede de vidro num dó sustenido que contrasta com o eco surdo dos copos do lado de dentro.
O empregado de mesa sabe como entrar e sair, enquanto eu brigo com uma galinha massala no meu prato.
Será que mataram os peixes? Não consigo entender o que faz aquele carangueijo abraçado ao pescoço do meu primo...
Despeço-me mais cedo. Abro um sorriso. Volto a pedir desculpas pelo meu atraso.
Meu pai solta uma gargalhada sonora (uma daquelas quase igual as de antes)
- Pois, se fosses pontual não jantavas do lado de fora...

No próximo ano, quando a minha irmã telefonar não posso esquecer de perguntar se me dão umas garrafas de mergulho caso eu chegue a horas.
Tenho medo que me falte o ar.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

vai...mas volta

Sem dizer porquê vai ao princípio da terra banhar o teu coração
Torna-o quente para que se entenda ao falar
Depois volta com a luz sobrante dos relâmpagos
Acende os bagos que jazem na terra derramada
Toca nos homens pela raiz
Dá-lhes a força de uma casa cheia
E por fim faz cair sobre este mundo
Um poema sem vontade de dormir

Escola Aberta Agostinho da Silva, em Alhos Vedros

Tormenta Adulta

Em aliança com a natureza;
O menino brinca criando,
Em seu quarto fica sonhando,
É feliz não acorda tristeza.

Mãe de que o criaste?
Seus sonhos são efeitos celestes,
A paixão da essência que lhe deste,
Criança guerreira de um futuro agreste.

Ao mundo, ingénuo desabrochou;
Uma realidade em criação natural,
Vê-de menino, nos teus olhos o céu chorou.

Que fantasia transcendental!!!
Espelho presente, a minha face mudou,
Espera criança pelo teu vendaval.

poema enviado pelo Companheiro Diogo Correia

Teresa Balté: As aves que evoluem não regressam

Não o pombo futurista mas a sombra
no ângulo vazio a folha de hera
e as orquídeas brancas na garganta
a vertigem do grito o labirinto a lâmina

as aves que evoluem não regressam
devoraram o espaço onde existiam
assinalam agora outras galáxias
cicatrizes rosáceas

a asa é o recanto da memória
o vértice onde o corpo não pesou
agora só gorjeio a harpa morna
musgo nos olhos o anjo de granito


Poema Anjo de Teresa Balté

Escultura Eternity de Derrick Ivey

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

"O inferno é uma ideia de alquimista"

"O inferno é uma ideia de alquimista: os pecados serão transformados em fogo; também o homem será mudado. Segundo os alquimistas, mais importante do que a transmutação da matéria é a própria mudança do homem que age sobre ela"

- Murilo Mendes, Conversa Portátil

jorge de lima invenção de orfeu

canto III / poema XVIII

No dia seguinte:
chamados da terra,
o poema de leva,
te dana, te agita,
te vinca de cruzes,
te envolve de nuvens.
Quem sabe aonde vai
parar no outro dia?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

HEIDEGGER: ARTE, OBRA, ORIGEM, MISTÉRIO E ENIGMA, por Isabel Rosete

I.

Partimos do texto Der Ursprung des Kunstwerkes, escrito por Heidegger em 1935/1936 no intuito de pensar, com o autor, a complexa problemática que gira em derredor da Arte, da obra, da origem e do enigma, ou por outras palavras, quisemos reflectir sobre a origem da obra de arte e o enigma que a arte é em si mesma.
Se Heidegger é o filósofo por nós eleito para apresentar e quiçá ilustrar estes pontos fundamentais de toda a compreensão onto-artística contemporânea, Van Gogh e as suas múltiplas versões do tema «Um Pares de Sapatos», a que Heidegger indiscriminadamente se refere sem a precisão adequada – o comentário do filósofo dos caminhos que enigmaticamente não conduzem a parte alguma, é tão generalista que se pode aplicar a qualquer uma das obras realizadas pelo artista, sobre este tema, em períodos diferentes – é o pintor escolhido, esse autor consagrado da “Grande Arte”, como meio de mostração do “pôr-em-obra da verdade”.
É esta a tese central do pensamento heideggeriano que coloca a verdade como categoria estética fundamental, ao destruir, por um lado, o império fugaz do Belo inteligível, universal, pelo qual se todas as coisas são belas são-no apenas porque nele participam, ou então, porque este é uma propriedade do objecto, ou porque reside no sujeito que põe por si mesmo a beleza na coisa contemplada; e, por outro, ao destronar o reinado da emoção, da experiência-vivida (Erlebnis) como características fundamentais da criação e da contemplação estética.
A Arte e a obra no seu dar-se primordial mantém-se sempre envolvida no enigmático mistério que é próprio do dar-se do Ser no espaço vazio da tela na partitura sem notas do compositor musical, na pedra informe do escultor ou no papel em branco do poeta.
Movendo interiormente o texto em estudo e a reflexão heideggeriana sobre a arte, está a convicção de que uma interpretação metafísica da obra de arte, longe de a esclarecer na sua essência e origem, antes a perverte na sua constitutiva realidade. Correlato da nossa postura filosófica ocidental, este tipo de perspectivação metafísica da arte, que o autor, aliás, sem suficiente problematização, identifica com Estética, procuraria fazer da arte uma manifestação cultural sem mais, sempre reconduzível ao homem, procurando dilucidar-lhe uma criteriologia que afinal mais não é, para Heidegger, do que a aplicação de valores de civilização, de padrões de auto-avaliação importados do saber teórico, que em nada esclarecem a essencial radicação da obra de arte, de todo descurando a sua fundamentação na problemática ontológica, verdadeiro nexo dinâmico da reflexão heideggeriana.
A Estética procura esclarecer as modalidades de patenteação e juízo do Belo, bem como a relação intrínseca e insuperável entre os termos autor – obra de arte – espectador, descentrando, deste modo, a reflexão da própria realidade da obra, e esquecendo a sua ancoração fundamental ao plano de fundo despoletador da existência da mesma. É assim que Heidegger afirma em Einführung in die Metaphysique: «Devemos dar ao termo ‘arte’ e àquilo que ela quer designar um novo conteúdo, em encontrando primeiro uma posição fundamental originária quanto ao Ser» .
O modo de apresentação da nossa investigação poderá sugerir que a tematização heideggeriana, enquanto procura relevar a temática ontológica necessariamente subjacente à questão da obra de arte, é, neste intuito mesmo, uma reflexão sem falhas.
Porém, adiante o veremos, a reflexão do filósofo sobre a essência da arte antes desemboca na impossibilidade de superar a mútua implicação metafísica. Permanecemos com o primado da questão ontológica, enquanto postura interpretativa, sendo a arte um dos horizontes de reflexão em que se repõe inevitavelmente a questão do homem e da sua proventualidade historial, esses dois termos que mais unidamente se imbricam.
Se Heidegger utiliza a sua própria reflexão sobre a arte como momento privilegiado da própria des-construção dos pontos nodais do seu pensar – questão do Ser e da diferença ontológica – parece-nos que tal abordagem não perde por isso a sua pertinência.
Se a questão da arte, e a da obra de arte, ela própria, perdem algo da sua autonomia e não são perspectivadas como absolutos, na sua postura pura e simples, é, por outro lado, patente, a relevância que o filósofo assigna à arte como momento instaurador, e à obra de arte como lugar de presentação dos dilemas insuperáveis da dinâmica do Ser, e como in-stância mostrante, quiçá mais do que qualquer outra, do referente enigmático da questão ontológica.
Mesmo enquanto momento lateral da reflexão de Heidegger sobre o Ser, e apontando justamente para ela, o texto que aqui comentamos não deixa, por isso, de ser extraordinariamente significativo. Se a arte perde, inevitavelmente, horizonte hermenêutico próprio, a sua relevância no pensar heideggeriano não é por isso menor.
Antes relevando a proximidade da questão da origem da arte e do seu carácter enigmático com a fonte originária e indizível do brotar do ser para a patenteação que se dá como a própria obra de arte, ao  do homem, na sua postura a um tempo historial e de Dasein. Trata-se, pois, de relevar que enigma é esse que a arte acolhe.

II.

Se se procura descortinar a origem da obra de arte, a sua proveniência essencial, então o que indubitavelmente se persegue é o modo próprio de desdobramento do ser da obra enquanto ente (Seiend) que é.
Por sua vez, se a tríade obra de arte – artista – arte não torna a inquirição futurível, pois que inevitavelmente se recai em círculo vicioso, e nem a determinação da essência da arte é possível através da contemplação comparativa de distintas obras ou da dedução do que a arte seja a partir de conceitos superiores, inevitável é o procurar deslindar o que a obra de arte é na sua pura realidade.
Trata-se de procurar destilar as propriedades da obra de arte em relação aos outros entes, pois o horizonte em que primariamente a obra nos surge é o das coisas que são, havendo que relevar se a obra é coisa (Ding), se diz outra coisa além da coisa que é ( ), e é então alegoria, ou se, sendo coisa, a ela está reunido, adstrito, algo de outro, caso em que a podemos caracterizar como símbolo.
Relevando agora a dimensão de tudo o que é de algum modo ‘aparente’, e fazendo-o procurando conectar os termos obra-coisa, num percurso que não vamos aqui pormenorizar, cedo a reflexão heideggeriana estabelece que o que na obra de arte se joga não cabe na caracterização tradicional do conceito de coisa em sua tríplice dimensão: enquanto suporte de qualidades marcantes, como unidade de uma multiplicidade sensível, ou, ainda, nessa concepção mais usual de coisa como matéria informada.
Se estas três determinações insultam a coisa mais do que a captam na sua ‘coisidade’, pois que não a apreendem na sua própria incontornabilidade, isto é, no facto de brotar originariamente para a patência a partir do ser, trata-se agora de enveredar por outro caminho e descortinar se o ser-coisa da obra pode apreender-se no ser do utensílio (Zeug), esse ente particularmente mais próximo do homem porquanto advém à patenteação por nossa própria produção.
Porém, a essência do produto, não reside na sua produção, aspecto pelo qual se assemelharia inevitavelmente à obra de arte, mas na sua utilidade, conferida pela sua solidez intrínseca, a sua ‘fiabilidade’ (Verlässlichkeit). O próprio do utensílio é ser fiável, poder contar-se com ele, assumi-lo como o ente à mão que é, disponível para o uso do homem. Transparece, pois, que a essência do utensílio não repousa no ser do mesmo mas na sua reportação à postura existencial do Dasein, enquanto ser-no-mundo.
Se a obra de arte por si própria tem suficiência, segue-se que a sua essência não é determinável a partir do ser do produto, sujeito à usura que lhe confere a submissão da sua essência às finalidades do homem. De facto: «A obra de arte, por esta presença bastando-se a ela-mesma que é o próprio da arte, assemelha-se mais à simples coisa repousando plenamente nesta espécie de gratuitidade que o seu brotar natural lhe confere. Todavia não classificamos as obras entre as simples coisas» .
Para evitar que a perspectivação do que seja a obra de arte, a partir da des-construção do conceito de coisa, constitua um insulto (Ueberfall) à obra, trata se de eliminar tudo o que susceptível de obstar a nossa acessibilidade à própria obra – incluídos os nossos enunciados sobre ela, e, primacialmente, fazer relevar a constitutiva in-stância da obra, abandonando-se à sua presença imediata (unverstelltes Anwesen).
Trata-se de silenciar o homem para deixar falar a obra: «Nada mais fizemos do que colocarmo-nos em presença do quadro de Van Gogh. Foi ele que falou. A proximidade da obra transportou-nos repentinamente para um outro lugar que o aí onde tínhamos o costume de estar» .
Vemos assim que o que pareceria constituir o nexo interpretativo conducente à determinação da origem da obra de arte – a abordagem da realidade ‘coisal’ da obra (das Dinghafte) – é substituído por outra perspectivação tendente a relevar o que está em obra na obra, ou seja, esta deixa de ser questionada na sua espessura ôntica para ser apresentada como  indiciador de outra presença, como in-stância mostrante.
Este salto, significará a eleição de um novo nó problemático que colocará a obra de arte em directa confrontação, não já com o seu estatuto de coisa, mas com a dimensão fundamental da verdade.
Se já aqui se adivinha o abandono de uma “hermenêutica metafísica” e a abertura de outros espaços de perspectivação, conexos com a noção de verdade, mais tarde veremos como o abandono da inquirição pela onticidade da obra e, por consequência, da sua propriedade e id-entidade, levantará, no seio da perspectivação heideggeriana a algumas dificuldades.
A resolução destas implicará, entre outros aspectos, a cessação da autonomia do sujeito e do processo de criação artísticos enquanto objectos de investigação, com o intento de pensar um novo conceito de arte que, livre de funções miméticas como expressivistas, e, por conseguinte, não mais adstrita ao real já dado como à “experiência-vivida” do sujeito (Erlebnis), se afirme antes como momento verdadeiramente instaurador e poético.
Mas o que é que se faz obra na obra? A verdade de todo o ente que é, coisa ou produto. O ser do que é chega pela obra e sobretudo por ela ao seu parecer: «A essência da arte seria pois: o pôr-se em obra da verdade do ente (Sich-ins-Werk-setzen des Wahreit des Seienden)» .
Esta assumpção da mostração da verdade pela obra de arte, surge na tematização heideggeriana segundo dois modelos interpretativos que podemos consignar nas duas díades: Mundo/Terra, clareira/retraimento. É, a um tempo, no enlaço e no hiato destes dois modelos que a concepção heideggeriana da arte ganha, na nossa perspectiva, a sua mais fecunda peculiaridade.
O que na obra se consigna e apresenta segundo a dicotomia Mundo/Terra está ainda na dimensão não-veladora da verdade heideggeriana. Em rigor, trata-se de perspectivar o que, estando em obra na obra tem relação ao humano, à sua estada na Terra e ao seu desbravar de um mundo, prerrogativa exclusiva do modo de ek-sistência do Dasein: «A Terra é o afluxo infatigável e incansável daquilo que está aí para nada. Sobre a Terra e nela, o homem historial funda a sua estada no mundo. Instalando um mundo a obra faz vir a Terra (Indem das Werk eine welt aufstellt, stellt es die Erde her)» .
Mas, o que é a Terra? Heidegger naturalmente a reporta ao termo grego , essa força que eclode e brota, qual seio de que a um tempo tudo se abre à presença.  é a Terra protectora, o solo natal (Grund) que tudo mantém e alberga em si. E o Mundo? «Um mundo ordena-se em Mundo (Welt weltet)» .
O Mundo é o que na Terra o homem instala e propria, privilégio da estada humana no aberto do ente. São estas duas modalidades de tudo o que é que a obra acolhe em si na sua in-stância (Dastehen), no seu stare, no seu ter-se aí, instalada. Instalar uma obra significa depô-la, erigi-la, oferecê-la ao espaço já constituído, enquanto instância que ordena a amplitude da estada do homem no seio da Terra. A obra é in-stância irradiante e provoca o abrir-se à luz (lichtet sich) de tudo o que em si consigna: ela erige um Mundo (Aufstellen einer Welt) e revela a Terra (Herstellen das Erde).
Poderíamos inquirir-nos, agora, pelo responsável de tal instalação da obra. Porém, o ‘sujeito’ instalador cedo se esvanece na tematização heideggeriana. A obra é sempre reportada à dimensão da mais pura impessoalidade, primando iniludivelmente o seu ser-obra e o que nela se patenteia enquanto presença mostrante: «Como pode a obra requerer uma tal instalação? Porque é ela mesma instalante no seu ser-obra. Que instala a obra enquanto obra? Quando a obra de arte em si mesma se põe, então abre-se um mundo, de que ela mantém para sempre o reino» .
Esse repouso que é a deposição, a oferenda da obra ao espaço já aberto da , não é um repouso sem máculas: no interior da obra, na medida em que erige um Mundo e faz vir a Terra, suscita-se um combate (Streit) entre estas duas instâncias: é na efectividade deste conflito que reside o ser-obra da obra.
É que, se o Mundo aspira à dominação, ele não pode contudo afastar-se da Terra, tal como o apolíneo não pode afastar-se do dionisíaco, pois que se funda sobre ela, qual templo deposto sobre a solidez do rochedo. E nem lhe é possível resvalar para esse fundo etónico que é a própria Terra, impenetrabilidade que o não acolhe. Por sua vez, esta, enquanto pujança e força sempre doadora, para brotar e ser autenticamente si-mesma não pode renunciar ao aberto do mundo e sempre colide com este espaço téctico – expressão a um tempo da expansão e fechamento sobre si. Mas: «Como se produz no ser-obra, isto é, agora, na efectividade do combate, o advento da verdade? O que é a verdade» .
É, de facto, nesta interrogação que ganhamos consciência que a tematização heideggeriana não atinge ainda aqui o seu intento fundamental, antes requerendo uma perspectivação que adiante à dicotomia Mundo/Terra outra mais radical, a saber, a que atine à essência da própria verdade como des-velamento (Unverborgenheit).
O combate Mundo/Terra é ainda metafísico, tem realidade no seio de tudo o que é, na abertura do ente, fazendo porém adivinhar um outro per-passante, mais originário e fundante. É certo que, sendo reserva no interior da clareira, a Terra é o que de mais ser há no ‘visível’ – porém, não é o autenticamente ser heideggeriano, antes remetendo para ele. Terra e Mundo são os dois ramos em que se bifurca a dimensão clareante da verdade, instância impessoal, que acolhe em si mesma um suspenso, sob o modo de uma dupla reserva: verdade é clareira e retraimento, luz e obnubilação.
Consignando em si o enlaço combativo destes dois termos, a obra faz advir em si a eclosão (Aufbruch) do ente no seu todo. «Mas como advém a verdade? Resposta: ela advém em alguns, raros, modos essenciais. Um dos modos nos quais a verdade se desdobra, é o ser-obra da obra» . Indicia-se, pois, aqui, uma oposição suscitadora de um conflito ainda mais original do que o que retratámos à pouco.
É numa aproximação à questão fundamental do Ser e da diferença ontológica que a tematização heideggeriana irá conceber a obra de arte como acontecimento originário e a instauração da verdade na obra como momento radicalmente inaugural.

......................(http://isabelrosetefilosofias.blogspot.com)

Isabel Rosete

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

st


Aqui posso enlouquecer continuamente
tenho pássaros e livros que o comprovam
fazer de conta que
não sequer saber se
amar o sol e a chuva no mesmo verso
e sair a correr como um rio que transgride

Aqui o silêncio é capitão e eu marujo
flores e terra sobre a cama
durmo e trabalho o sonho numa peça única de artista

Nesta máquina de escrever deito a cabeça
esqueço ao que vim
tudo é sexto sentido
quando se respira boca a boca as sombras da infância

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Às seis da manhã
quando a brisa é fresca abro a janela
para que meu corpo quente se aquiete

quero falar sobre o vento
que de mansinho invade meu quarto.
depois desisto.

A sensação deste ar que se espalha
entre meu ombro direito e a anca esquerda
mal daria para um verso de 17 sílabas.

Se eu soubesse suspender o momento
desenhava a curva e seus pontos de fuga,
tacteava a superfície generosa e lisa
desse presente que se escapa.

Se eu soubesse suspender esse tempo
meu texto não seria mais que um sopro
dessa brisa que me acorda todos os dias
às seis da manhã.

Nesse sopro eu escreveria a eternidade.

Uma "Cultura do Ente" face a uma "Cultura do Entre" - Contributo para a Compreensão de Novos Paradigmas Inteculturais

O diálogo intercultural é, nos nossos dias, mais do que uma necessidade incontornável, ele é, outrossim, um imperativo social e humano; o justo caminho para a aproximação a uma cultura de paz (1) e de aceitação participada do outro e com o outro. Esse “outro” até aqui considerado como “estrangeiro”, “estranho”, desconhecido, e que, por isso mesmo, se afigura como gerador de medos e de desconfianças.
O velho paradigma das relações entre culturas tem colocado o homem, desde há milhares de anos, numa atitude defensiva, agressiva e, quantas vezes, autista e desconfiada face ao que é diverso. O medo de mais uma “nova” e irremissível perda – depois do anunciado luto de “deus” e da “expulsão” primeira do homem – afigura-se como um dos mais difíceis nós a desfazer no actual paradigma cultural, que vê o homem como ente separado da realidade, separado, por isso, de si mesmo e do mundo.
Não tem sido fácil ao homem compreender que sujeito e objecto não são fenómenos separados; que não há, a não ser como ilusão, isso de “eu” e de “meu”. Só a visão de uma cultura livre da ideia de posse poderá ser condição essencial para que a cultura do entre se desenhe como possibilidade, caminho que se apresenta para contrariar, por assim dizer, uma cultura de guerra, uma cultura “doente”.
Seremos nós capazes e estaremos dispostos a renunciar? É a pergunta que, em primeiro lugar, devemos fazer, quando iniciamos uma qualquer via, percurso ou caminho. Porque é sempre de uma renúncia que se trata. Renunciar a quê? É o que tentaremos perceber, perscrutando no pensamento, a lembrança do que é Real, no futuro que nos leva à Origem. Como tudo o que é ontológico.
As posturas que obstaculizam o encontro entre culturas têm na base, parece isto claro, o medo da perda de alguma coisa. É grande o pânico do homem de se ver desapossado, desenraizado de algo que configura, na sua mente, o que pensa que seja o que ele é e até mesmo o que sonha ser. Aí entramos na zona dos mitos que configuram a identidade de um indivíduo, de um povo. Mitos que impregnam o ser de Ser, mas que, na realidade não têm significativo peso ôntico. Ver-se-á, num olhar mais atento, nesses mitos, (2) a relatividade que lhes “limpará a face”, para poderem ser vistos na sua real essência, esta comum a todo o ser humano “caído” no mundo. E a essência do homem é ser no mundo com o que, de divino, há em si e naquele.
Os medos atrás referidos dominam, muitas vezes de modo inconsciente, o homem e configuram um “muro” que tapa e esconde a luz de uma nova visão. Ver-se o homem despido de identidade: de mitos, de pátria, de ser; ver-se “sem ente”, ver-se em falta, “doente”, não tem sido de fácil aceitação. Não é, pois, sem resistências de vária ordem que o homem embarca nesta nova viagem. Viagem que tem que ser feita com as naus que tecem índias ainda mais insituadas, ainda mais afastadas no nevoeiro do nevoeiro mais perdido dos tempos. Até que se ache no princípio o fim que se busca, ou tão só se esbatam ou fundam ambos os conceitos, e sejamos sem princípio e sem fim, eternamente sendo.
É terrível o engano que consiste em confundir identidade, com superioridade, e mito, com o Absoluto. É bem de ver que a identidade cultural é do foro do relativo, que as contingências e características que enformam a mente do indivíduo, não são mais do que umas de entre outras, no fundo variado da “Realidade”; tão válidas umas quanto as outras. E que os mitos são ainda os “arredores” do que importa verdadeiramente entender. O pensamento enquistado do homem resiste à ideia de abrir pontes de diálogo e de aceitação com o outro, por receio de perder a sua especificidade, a sua identidade, esquecendo que, desse encontro, ambas as culturas saem enriquecidas, desenvolvendo-se, por conseguinte, uma verdadeira atitude de crítica construtiva proveitosa para todos, conforme salienta R. Panikar. (3). É preciso compreender que se trata, de um outro ângulo de visão, de curar, de “iluminar”, de ver a uma nova luz o que é essencial e comum a todo o “novo” ser que desperta para um novo e premente “real”: a visão do ser desperto, livre de mais uma das suas “doenças”: a do culto do ente.
Na realidade, o homem comporta-se, ainda, como alguém que defende um conjunto de “territorializações” que vão cimentando uma cultura do ente, rejeitando, assim, o novo paradigma que se apresenta como alternativa: uma cultura do entre. Como se tudo tivesse que estar separado por pequenos “territórios” na posse de cada um e vedados a todos os outros. Como se fossemos seres sem Ser, corpos sem alma, movendo-se num “inferno”, esse lugar temido e temível onde “escolhemos” viver. Nada de mais errado! A vida não tem que ser esse ou outro inferno. Uma cultura que assim age é uma cultura doente e geradora de piores males.
Interessante é verificar, como se de um sofrimento por antecipação se tratasse, que esse desconforto na presença do outro, face ao outro, não se tem esbatido, ao contrário do que seria de supor. Na verdade, tem até aumentado por imposição do próprio sistema político e social, das suas dinâmicas competitivas e agressivas, nos diversos níveis da vida. O homem vê-se empurrado, manipulado e, na escassez de tudo, no esgotamento de todos os recursos, vê-se coagido a querer para si o que a todos falta, numa competição desenfreada por uma cultura “ter”. É o próprio sistema político, social e económico que se encarrega de gerar novas dificuldades e entraves ao livre encontro entre os homens e entre culturas, fazendo pesar sobre os ombros do homem dos países mais pobres a luta pela sobrevivência, e sobre os mais poderosos, o receio de perderem o poder que os mantém no topo deste vazio que a todos faz adoecer.
Por estas razões, ninguém se arrisca a perder, deixando-se estar confortavelmente – pensam eles e porventura ainda nós – repousados nas estruturas e hábitos mentais que julgam mais seguros, reproduzindo modelos gastos e ineficazes. Isto apesar da comunicação em rede, possibilitar uma mais rápida e eficaz troca de informação e de saber a todos os níveis entre todos os povos de todos os lugares.
Não percebeu, ainda, o homem dos nossos dias, que tem que estar preparado para receber e dar, sem medo de, com isso, se perder, pois não há o que perder, numa cultura em que não há a posse de algo, ou de si. Tudo é relação, não há conquista. Não se trata de encher, de acumular, antes de esvaziar. Porque a humanidade ainda não percebeu (é preciso que se lhe mostre, experienciando), que o homem, no interior de si mesmo, ali onde não é possível mentir ou fingir, não há o que seja ente, e que esta noção é geradora de “doença”: a doença da cultura do ente.
Entenda-se, por outro lado, que não é fácil ao homem perder ou ver oscilar a base confortável que o colocava no topo da hierarquia da natureza, logo a seguir a Deus ou ao que se considerar a instância suprema e/ou divina que tem tido a função de “governar” o mundo: a única colocada acima do homem e que lhe tem servido de exemplo, modelo e guia para sua orientação no difícil mundo onde foi colocado, após a bem ou mal contada expulsão do “Paraíso”.
À medida que os seres humanas se consciencializarem que o antigo paradigma, baseado no domínio e na supremacia de um povo relativamente a outros, caducou, faliu; melhor se vai entendendo o erro em que labora o humano querendo dominar pela força e pelos processos mais violentos, o que, na verdade, o enfraquece em razão, em justiça, em ética e em moral. Facilmente, não fora a muita ganância e cegueira, chegaria à conclusão da inutilidade dos seus esforços em separar, o que antes estava unido, considerando seriamente a necessária “religação” à natureza. Por isso, o diálogo intercultural terá que abranger e tocar todos os pontos em cada ponto que toca. Como uma esfera que roda sobre si e em que cada ponto é todos os pontos e nenhum. É entre! Entre todos e tudo o que há no Todo de que somos: interior e exterior, Oriente e Ocidente, dentro e fora, Princípio e Fim em cada coisa que é.
Finalmente, importa valorizar a “esfera” em que gira o que somos, esse sem dentro e sem fora, tal como o “outro”, o planeta, o universo e tudo o que existe, mais o que sonhado passa a existir. É nesse equilíbrio, nesse movimento evolutivo nascido a cada instante, feito de tradição e novidade, olhado sem preconceito, no respeito pela vida de todos e pelas “suas” realizações, que se constrói uma “cultura do entre” que a todos penetra de uma mesma participação e sacralização. Tudo irradiando a mesma luz do fundo em fundo de tudo.
Assinalamos, por fim, a título de curiosidade, que no centro do "EnTre" se situa, mesmo que somente do ponto de vista simbólico a física figura do Tau, a letra “T”, em Português, aquela que marca com um sinal, todos os viventes. Um Tau de Luz, em que todos sejamos agraciados de ser Tudo e Nada. Mito essencial da humanidade e de todos os seres sencientes.

Notas (1),(2) e (3) – Ideias retiradas do texto de Raimon Panikar Paz e Interculturalidad. Una reflexión filosófica, Barcelona, Herder, 2006)

Leonardo Coimbra (1883-1936) - O Criacionismo

Fundador e Professor da 1ª Faculdade de Letras do Porto. Formado em Matemática e Filosofia. Grande sensibilidade literária e poética. Deputado. Duas vezes Ministro da Educação.

Faz uma hermenêutica sobre todos os pensadores seus contemporâneos (Antero, Bruno, Pascoaes, Junqueiro), mas afasta-se de todos eles.

Até 1923, tenta unir o pensamento libertário com o Criacionismo. Depois, aproxima-se cada vez mais do Cristianismo, até aderir ao catolicismo pouco tempo antes de morrer em acidente de viação. Passagem de livre pensador a cristão ortodoxo.

Nele, o Homem é fundamentalmente um ser saudoso: uma saudade imanente e transcendente. Uma nostalgia da realidade, onde o Amor é a nota de Unidade com Deus. Quanto mais Amor mais consciência. A matéria não é senão o soro do espírito. Há vários níveis de amor e de consciência.

O homem vive com saudade do Paraíso (o Mito do Génesis). É saudoso de um estado em que a sua consciência ainda não se tinha precipitado para a exterioridade e materialidade. Uma saudade metafísica.

O Criacionismo:
A realidade é sempre pensamento. A realidade está sempre a ser determinada. A actividade mental vai determinando a realidade. O espírito determina-se a si próprio na medida em que vai determinando a realidade.

(Cf. Paulo Borges, Aulas de Filosofia em Portugal I, Apontamentos).

caimbambo


domingo, 10 de janeiro de 2010

Na época em que colhia frutos
imaginava um campo onde o tempo não existe
as mulheres puxavam as manhãs
com seus longuíssimos cabelos
o amor era macio como a terra prometida
e era tão claro o pensamento quanto o canto feminino
que o céu inventava os seus pássaros