quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Da hipnose do Nobel



Em 1973, juntamente com o diplomata norte-vietnamita Le Duc Tho, Henry Kissinger foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz. Isso não impediu que, enquanto responsável pela diplomacia norte-americana, estivesse envolvido em acontecimentos tão revoltantes quanto a deposição de Salvador Allende no Chile, barbaramente assassinado pelos esbirros do General Pinochet no Palácio de La Moneda, precisamente nesse ano de 1973, que instaurou uma das ditaduras mais sanguinárias que a América Latina conheceu, ou a invasão de Timor-Leste pela Indonésia, com as consequências trágicas que são bem conhecidas.

O mediatismo do fim da guerra do Vietname, a primeira com um impacto televisivo de largo espectro nas sociedades ocidentais, terá sido determinante para a atribuição do Nobel da paz a esta figura tétrica da história recente deste mundo em permanente convulsão. Houve outras atribuições que seguiram o mesmo paradigma, também elas polémicas. O que têm de comum é que premiavam a coragem de avançar para o diálogo e de aceitar o fim de conflitos aparentemente insolúveis (no Médio-Oriente, apesar de tudo, ou apesar de nada, deram-se passos importantes no sentido da criação de dois Estados, embora a plena consumação deste desiderato tenha enfrentado novos obstáculos que ressuscitaram todos os outros, mesmo os que se julgava definitivamente ultrapassados).

Quando as sociedades deixam que o ressentimento se torne o motor da sua história, não só se criam as condições para a instauração do totalitarismo, como se geram as condições propícias ao agudizar conflitos internos e externos. É por esta razão que Nelson Mandela representa hoje para o mundo a capacidade de suportar a opressão sem sucumbir ao ódio. Nobel da Paz em 1993 em parceria com Frederik de Klerk, "pelo seu esforço para a abolição pacífica do regime do apartheid, e por terem estabelecido as bases para uma nova África do Sul democrática”, Nelson Mandela é hoje um ícone político que representa a capacidade de resolução de problemas vitais para o presente e o futuro das sociedades, pela via do diálogo democrático e da verdade ética e existencial como centro atractor da convivialidade política, categoria ainda por explorar de forma profunda pela teoria política, mas que se coloca cada vez mais como a alternativa à razoabilidade mediatizada e submetida às regras da oferta e da procura eleitoral.

O problema da democracia não é a existência de eleições. Como me parece óbvio. É, antes de mais, considerar-se as eleições como a única via de participação política dos cidadãos, transformados em actantes da sociedade do espectáculo (assumo aqui um categoria de Guy Debord que neste momento é cada vez mais importante para podermos chegar aonde é preciso na problematização em torno da actualidade em que nos inserimos) desinvestidos da condição de agentes. O cidadão é cada vez mais um consumidor, um espectador também ele já mediatizado, apropriado pelo medium em que a própria sociedade já se transformou. O lema mcLuhaniano “the medium is the message” deve dar-nos que pensar, uma vez que estamos embebidos no ‘meio’ de ‘comunicação’, com o quadro arquetipal subvertido, uma vez que somos já parte da mensagem, e o destinador e os destinatários desmultiplicam-se em fractal sobre o plissado desta urdidura caótica e englobante que alimenta os discursos e subverte a paisagem mental em que se constrói a subjectividade humana e, no seu seio, a subjectividade política.

A verdade ética será o que ainda poderá ser salvo dessa metastática profusão da demiurgia do Lógos sem dia-logia, sem abertura para o outro de si, ou para a sua instauração em discursividades diversas, excêntricas e desconexas entre si, hoje tudo é discurso do mesmo sobre o mesmo, o caldeirão mediatizado de todas as teorias, a abolição das fracturas simbólicas e a erosão da agudeza das dissidências. É o Lógos sem diabolia, essa dispersividade excessiva, incircunscriptível que, como tão bem o viu Eudoro de Souza, é a possibilidade, impossibilitante e, paradoxalmente, facilitadora (a categoria de órgão-obstáculo de Jankélévitch expressa muito bem este paradoxo) da simbolização, que pode ser assumida como um retorno a uma Ítica reeditada, ou a uma condição paradisíaca abandonada.

Foi no bojo desse caldeirão que os novos feiticeiros da metafísica da história (um híbrido entre a teodiceia messiânica e o marketing político ‘puro e duro’) engendraram o ‘fenómeno Obama’, o candidato-Oprah, hollywoodofílico, completamente descomprometido com o passado tenebroso da América e do mundo, sem as máculas do bushismo e das fracturas ancestrais duma América avidamente à procura de pontes para a temporalidade mítica da instauração da Terra da Promissão que o devir histórico preteriu, em progressivo e inexorável afastamento em relação à Idade de Ouro da Fundação – Obama aparece como um herdeiro do sonho americano, o arquétipo forjado pelos Pais Fundadores e que permanece, paradoxalmente, como a meta quiliástica do progresso social.

Foi em nome da Esperança que o Comité Nobel atribuiu a Barak Obama o Prémio Nobel da Paz, fazê-lo a um Presidente em exercício, tratando-se do Chefe de Estado duma superpotência com liames a todas as instâncias de luta pelo poder e de fractura no tabuleiro geoestratégico é um acto, no mínimo, arriscado. Subordinar à Esperança o significado mais emblemático deste acto de reconhecimento tem em si uma hybricidade (que desfecho esta hybris desencadeará?) que o mundo talvez não esteja preparado para suportar, uma vez que essa é uma categoria-caixa-de-Pandora, dentro do seu invólucro está o detonador de todas as formas de loucura política que surgiram à luz do dia nos dois últimos milénios, a escatologia acaba de ser reapropriada pela hiper-rede do simbolismo mediático erguido em anti-Mitologia, a derradeira exaltação da Metafísica totalizadora.

Obama parece incarnar o arquétipo do Papa Angélico, nascido no fervor da emergência da visão joaquimita da história e que João Paulo II recuperou ao interpretar o texto do terceiro segredo de Fátima como uma referência ao atentado que sofreu em 1981, na Praça de S. Pedro. Se tivermos em conta que este mitema tem como imagem axial um Papa vestido de branco cuja missão seria governar o mundo até ao fim da História, não é difícil perceber a monstruosidade (no sentido do que ‘dá a ver’, e sem um sentido pejorativo) do que está aqui em causa, já que João Paulo II torna pública esta interpretação no ocaso da sua vida. Simbolicamente o ciclo histórico da Igreja encerra-se e tudo o que virá a seguir estará já fora da História da Salvação. Trata-se do acto mais grave que um Papa promulgou em toda a história do catolicismo.

O que temos que procurar entender é o porquê deste gesto de megalomania teológica. Estaria Carol Woytila convencido de que era o último Papa? Ou, pelo menos, de que nos abeirávamos do fim da Civilização?

Talvez, simplesmente não se tenha apercebido do significado simbólico do seu gesto.

Nem esta anedota da história contemporânea terá pesado no espírito dos membros do Comité Nobel. Mas, neste caso, as consequências poderão atingir uma escala difícil de antecipar.

Haverá História depois de Obama?


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

mundividência


O começo do mundo é agora
sem determinismo ou obrigação
jogo de espelhos em paralaxe
há um aqui em cada lugar
o centro não existe
todos os pontos de vista são centrais
e todas as visões são periféricas

Há espaço para altruísmo e compaixão no nosso sistema económico?

Is there room for altruism and compassion in our economic system?

On April 9 - 11, 2010, at the Kongresshaus Zürich, economic leaders and leading minds in neuroscience, applied economics, philosophy, contemplative science and anthropology will discuss moral and ethical dimensions of our economic system.

The ongoing global financial crisis clearly shows how vulnerable economic systems are to human behavior, particularly to corruption and greed. This conference focuses on the question: can we develop economic systems which deliver prosperity and welfare, while at the same time reward altruism and compassion?

Speakers include:

The XIV Dalai Lama
William George, M.B.A., Harvard Business School
Tania Singer, Ph.D., University of Zürich
Lord Richard Layard, Ph.D., London School of Economics
Antoinette Hunziker-Ebneter, M.B.A., Forma Futura Invest, Inc.
Matthieu Ricard, Ph.D., Shechen Monastery

Questions include:

Is it possible to develop an economic system which rewards a whole society as opposed to only one individual?
Can we conceive of a system that not only recognizes competitive success, but also recognizes cooperation and compassion?
What needs to change in the thinking structure of economists in order to facilitate that change?
Can an economic system be developed that resolves real societal problems related to poverty and environment?
The Mind and Life XX conference offers a unique opportunity to follow a high-level interdisciplinary exchange between scientists and economists.

The whole dialogue will be held in English. Please find attendance and registration details on our homepage: www.compassionineconomics.org.

Kind regards,

The Mind & Life Institute

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Carne artificial pode estar à venda no mercado dentro de cinco anos

Vegetarianos louvaram a ideia de criar carne a partir de células musculares de um porco vivo, evitando-se a emissão de gases de efeito de estufa para a atmosfera

Ainda ninguém provou o produto, mas daqui a cinco anos poderá estar à venda nos supermercados carne artificial. Ou seja: carne criada em laboratório, não proveniente de nenhum animal morto. Os defensores dos direitos dos animais já vieram saudar os resultados da investigação. Resta saber se a carne é saborosa.

Investigadores holandeses criaram um produto descrito como um pedaço húmido de carne de porco e estão agora a investigar outras maneiras de melhorar o tecido fibroso comestível que, no futuro, se espera que as pessoas venham a comprar.

Os cientistas extraíram células musculares de um porco vivo e colocaram-nas numa solução de produtos animais. As células multiplicaram-se e criaram tecido muscular. A partir deste resultado, é possível criar produtos semelhantes a bifes, caso seja possível desenvolver uma maneira de "exercitar" o músculo.

Os grupos vegetarianos louvaram a iniciativa, afirmando que não colocam qualquer "objecção ética" se a carne não tiver origem num animal morto, escreve o Telegraph.

A organização de defesa dos animais Peta - conhecida pelas suas campanhas contra o uso de peles de animais na confecção de roupas - já veio dizer que não levanta qualquer objecção.

A Vegetarian Society indicou, porém, que "a grande questão será garantir que as pessoas estão a comer carne artificial e não carne de animais que foram mortos". "Será muito difícil etiquetar e identificar a carne, de uma maneira que as pessoas se sintam seguras". Para já, disse Mark Post, professor de Fisiologia na Universidade de Eindhoven, ao Sunday Times, "aquilo que temos neste momento é um tecido muscular enfraquecido. Precisamos de encontrar uma maneira de o melhorar, esticando-o e moldando-o, mas nós chegaremos lá".

"Este produto será bom para o ambiente e irá reduzir o sofrimento animal. Parece mesmo carne, as pessoas irão comprá-lo. (...) É possível tirar a carne a um animal e criar o volume de carne anteriormente fornecido por um milhão de animais", esclareceu Mark Post.

O projecto é apoiado pelo Governo holandês e por uma marca de enchidos e surge depois da criação de filetes artificiais a partir de células musculares de peixes. A carne produzida em laboratório poderia evitar a emissão de gases de efeito de estufa para a atmosfera que resulta da criação de gado.

Estima-se que o consumo de carne e de produtos lácteos possa duplicar até 2015 e que o metano que se liberta durante as actividades relacionadas com a criação de gado seja responsável por 18 por cento dos gases de efeito de estufa lançados para a atmosfera.

in, Jornal "Público", 4/12/09

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"Para mim, religião é algo a que você entrega todo o coração e a mente e o corpo, tudo o que você tem."

"A religião toma vários aspectos, a depender dos diversos graus de percepção, de compreensão, de maturidade. Em sua manifestação original e mais elevada, está voltada para a verdadeira natureza de todos os seres e de todas as coisas. As separações vistas no campo dos fenómenos existem apenas no nível das avaliações, dos modelos mentais, das representações. A característica fundamental de todas as coisas é que elas são vazias de substância própria, como disse Buddha".

"Sabeis o que é religião? Não é cântico, não é execução de puja ou outro ritual, não é adoração de deuses de lata ou imagens de pedra; ela não se encontra nos templos e igrejas, nem na leitura da Bíblia ou do Gita; não é a repetição de um nome sagrado ou o seguir de qualquer outra superstição inventada pelos homens. Nada disso é religião.
Religião é o sentimento da bondade, daquele amor semelhante ao rio – que é um movimento rico eterno. Naquele estado, vereis chegar um momento em que não haverá busca de espécie alguma; e esse findar da busca é o começo de algo totalmente novo. A busca de Deus, da Verdade, o sentimento de se ser integralmente bom (não o cultivo da bondade, da humildade, porém o buscar, além das invenções e dos artifícios da mente, uma certa coisa – e isso significa ser sensível a essa coisa, viver nela, sê-la) isso é que é a verdadeira religião. A vida cuidará então de vós, de uma maneira surpreendente, pois, de vossa parte, nada haverá para cuidar. A vida, então, vos levará aonde lhe aprouver, porque sereis uma parte dela; não haverá mais problemas concernente à segurança ou ao que “os outros” digam ou não digam. E esta é que é a beleza da vida."

Krishnamurti, A Cultura e o Problema Humano , S. Paulo, Cultrix, 2ª edição, p. 133.



"E eu me pergunto que papel representa a religião na vida daqueles que estão aqui. Por religião, eu agora me refiro a uma coisa completamente diferente, algo que é tão importante - se não muito mais importante - do que ganhar o pão de cada dia. Para mim, religião é algo a que você entrega todo o coração e a mente e o corpo, tudo o que você tem. Não é algo a que você se volta como passatempo, ou para adotar quando estiver velho, com um pé na cova, por não ter nada melhor que fazer, mas sim algo que se torna vitalmente importante, algo intensamente necessário, como um completo modo de vida, a partir do momento em que você acorda até o momento em que vai dormir, de modo que cada pensamento, cada ato, cada movimento do seu sentimento é observado, considerado, ponderado. Para mim, a religião abrange o todo da vida. Ela não está reservada aos especialistas, aos ricos ou aos pobres, à elite ou ao intelectual. Ela é como pão, algo que você precisa ter. E eu me pergunto quantos de nós a levam a sério desse modo - o que não significa ser briguento, dogmático, excludente, sectário, ou alguém muito especial. A religião exige, não conhecimento ou crença, mas uma extraordinária inteligência, e, para o homem religioso, tem de haver liberdade, completa liberdade."

Krihsnamurti, Palestras em Saanen (1963), http://www.krishnamurti.org.br

"Estar enraízado na ausência de lugar" ou da desterritorialização de Portugal

"Não há que ser eu, mas ainda menos há que ser nós.
A cidade dá o sentimento de estar em casa.
Assumir o sentimento de estar em casa no exílio.
Estar enraízado na ausência de lugar"

- Simone Weil, La pesanteur et la grâce, Presses Pocket, 1991, p.50.

Novalis escreveu que a filosofia não era senão saudade de estar em todo o mundo em sua casa. Penso ser essa a maior aspiração dos portugueses. Há que desterritorializar o nosso sentimento de Portugal, que na verdade, pelo menos desde os Descobrimentos, não é propriamente um território, mas antes um estado de espírito, um estado de universalidade. Essa é a verdadeira Pátria, que apenas indirecta e relativamente se expressa numa terra, numa língua, numa cultura e numa história. Não perceber isso é não perceber Portugal, cuja identidade é o próprio universo.

umoutroportugal.blogspot.com

"Ser orgulhoso é esquecer que se é Deus..."

- Simone Weil, La pesanteur et la grâce, Presses Pocket, 1991, p.49.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Música Escarlate

Pós-afastamento de Donis de Frol Guilhade – deixo também este blogue, já que Ele foi O Mentor do Convite A “Música Escarlate”.





Assim estou profundamente grata a todos, e prossigam na Demand`A seja Ela qual f`Or…

Sedutor desígnio.

Meu caro Donis,

quem me meteu neste sedutor desígnio foste tu. Sem a tua presença, no rol de colaboradores, a minha deixa de ter qualquer sentido. Por isso, peço muito respeitosamente a quem de direito, que, a partir de hoje, elimine o meu nome do astro magnífico de colaboradores que o Entre-finisterreno tem.

Ao seu mentor e a todos os demais, deixo o meu fraternal abraço.

P. A.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"Cada religião é a única verdadeira..."

"Cada religião é a única verdadeira, ou seja, no momento em que nela pensamos é necessário prestar-lhe tamanha atenção como se não houvesse outra coisa; do mesmo modo cada paisagem, cada quadro, cada poema, etc., é o único que é belo. A "síntese" das religiões implica uma qualidade de atenção inferior"

- Simone Weil, Cahier VI, Oeuvres, Paris, Gallimard, 1999, p.848.

Não posso deixar de fazer deste reparo um reparo às tendências sincretistas de algum Fernando Pessoa e de algum Agostinho da Silva, que passa a meio caminho entre elas e o fundamentalismo dogmático da crença numa única religião verdadeira. Não parece possível seguir uma qualquer via religiosa ou mesmo espiritual sem uma dedicação e concentração totais, sabendo e aceitando ao mesmo tempo que outros podem e devem fazer o mesmo com outras vias religiosas e espirituais. Isto é algo a não esquecer no actual diálogo inter-religioso, que muitas vezes tende aos sincretismos fáceis e moles.

O Desterrado



Quem sabe voltará neste Natal?!
«Não me procuraríeis se não me tivésseis encontrado já...»


Ressoa no meu pensamento este aforismo. “Não me procuraríeis se não…” Creio que Santo Agostinho terá sido quem abriu esta pérola à luz do nosso firmamento. Merece ser actualizada, todos os dias, esta Verdade. Procura-se o que se encontrou! Tal como se pergunta o que já tem a resposta em nós, faltando apenas desencobri-la desvelá-la. Nesta expressão nos, por muito descentrarmos os eixos que, se ajustados, nos dariam a ver uma paisagem diversa: que fosse por assim dizer, a simetria e a sinfonia de tudo, no caos primordial, intensa laboração de “Deus” para criar o Jardim, antes da sua criação. Neste labirinto estamos, movidos ou parados, fora e dentro do “Jardim”, à procura dele. A expulsão dele de nada nos serviu senão para mais fundo desenhar no labirinto os movimentos do Tempo da Memória e da Saudade. Porventura, os motores e impulsionadores desta natureza humana de ser. A sua reminiscente nostalgia.
Muito próximo do muito ruído, o silêncio custa-se a ouvir o que é para ser ouvido; coberta por véus e véus e camadas sobre camadas de ilusões e de folhas mortas, a fonte esconde-se e tapa a água que jorra. O vulto insinuado de escuro, vindo da noite, névoa cristalizada, caminhando na noite, não mostra o corpo. A treva o cobre e lhe cobre de solidão os andrajos. Não se distingue o buraco da noite e o buraco do fato rasgado. Aquele que regressa abre, com o Silencio e Ausência, a boca de cena de uma tragédia transfigurada. Não se distingue dela. A esfínge cega! O vulto não tardará a fundir-se no mistério e voltaremos inevitavelmente a esquecer em breve espaço de tempo que havia e houve esse vulto. Somos “Intervalo”, às vezes ouvem-se as vozes da tragédia. O coro.Há-de mostrar-se-nos esse vulto, esse mistério e esse “ocultamento” de diferentes modos de se “desocultar”. Pode até ser o “Nada”, mas é um Nada com Sentido: um Pleno Nada. Pode tomar as múltiplas formas do mundo e da realidade. Pode ser um texto, um rosto, uma chuva discreta na janela; um horizonte verde debaixo de um céu claro de Verão. Pode ser tudo e nada. Pode ser o nada de tudo. Mas já esteve cá e ainda cá está. Pode ser uma Saudade de ser!Mas o que no imo de nós procura rasgar os véus e abrir à luz a palavra. Isso é como um fruto que a nossa fome já saboreou ou/e é o desejo de o saborear uma vez mais, ignorando que já nele comemos o sentido. A sua forma, sempre mutável, não é forma nenhuma, é tão só o vulto que queremos apreender ou apenas com-ferir. É um vulto já fundido na paisagem uma pele uma carne; um corpo e uma alma: espírito e espírito, alma de alma. A sua voz é o Silêncio mais vibrante, esse que lá está e que Há. Esse que é memória e ânsia e eterno rumorejar de fonte. Esse que de véus se cobre e com folhas sobre folhas secas se despe, como árvores de jardim. Esse chão que é o caminho que limpamos, como se espelho sujo, espelho do ser, para ver o que no seu interior está, para ver o brilho ali deixado pelo que “cá” e “lá” está e habita o desabitado lar. Para ver o Encoberto, esse de quem se diz que nunca regressa. Esse que nunca regressa. Esse que é o errante e desterrado, filho da lonjura e da Saudade. Esse neto da Ausência e do Eterno. É esse o que tanto procuro! E esse O Desejado” O Desterrado de Si, O desterrado do seu coração.

Agostinho da Silva, um adepto da "Escola Nova"



O Professor Agostinho da Silva foi uma das grandes figuras da cultura Portuguesa do século XX. O interesse manifestado pela sua obra nestes 15 anos que sucederam à sua morte, são disso um bom testemunho.

Tivemos o privilégio de conhecer o Professor. Estivemos algumas vezes em sua casa a escutar os seus ensinamentos e trocámos com ele alguma correspondência escrita, à semelhança do que aconteceu com muitos outros. O Professor tinha criado o hábito de escrever cartas aos amigos e receber em sua casa gente que se prestasse à conversa.

Foi a conselho de uma amiga que decidimos ir a sua casa. Mas quis o destino que para lá chegar tivéssemos de passar primeiro pelo Brasil. Fomos encontrar uns amigos seus ligados à Universidade da Baía, numa viagem que fizemos a São Salvador, que nos tornaram portadores de algumas lembranças para o Professor: uma delas, um livro de poesia da autoria de um desses amigos, Epaminondas da Costa Lima, que contém um poema muito bonito que lhe é dedicado, de seu título “Portugal”.

Também Agostinho da Silva, em determinada altura da sua vida, teve de partir para o Brasil, corria o ano de 1944, só que dessa vez foi uma partida forçada. Expulso do Liceu Nacional de Aveiro, onde era Professor, e mais tarde preso por discordâncias políticas com o regime que então vigorava em Portugal, vai para o Brasil, donde só regressará em 1969.

Nas suas divergências com as ideias políticas dominantes na época, em Portugal, muitas foram as discordâncias que também manifestou com as metodologias tradicionais então instituídas no ensino, como revelam as suas simpatias para com as novas correntes pedagógicas que desde o início do século tinham galgado os Pirineus. A série de biografias que nos deixou sobre alguns dos autores do Movimento da “Escola Nova, onde encontramos as obras de Pestalozzi, Montessori, Sanderson, Winnetka, Dalton, por ele escritas e publicadas nos Cadernos de Iniciação Cultural, são um bom testemunho das preferências sobre quais as reformas a introduzir no sistema educativo do país.

Como dissemos, Agostinho da Silva vai deixar o Brasil em 1969, regressando definitivamente a Portugal, tendo por lá deixado uma obra notável, sendo de destacar a sua participação em várias Universidades por todo o país (Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraíba, Baía, Goiás e Santa Catarina), mais a fundação de dois importantes Centros de Estudos: o Centro de Estudos Afro-Orientais, na Universidade de São Salvador da Baía, e o Centro de Estudos Portugueses, na Universidade de Brasília.

Regressando a Portugal, dizíamos, Agostinho da Silva vai continuar a obra que já tinha iniciado, no nosso país, sobre a “Educação Nova”. Ele que, nos primeiros anos da década de quarenta, tinha tido uma importância decisiva na resistência deste movimento ao Estado Novo, de novo sem recuar perante a política conservadora que o tinha expulso do país, vai escrever “Educação de Portugal”, em 1970, um livro onde recupera os ideais daquele movimento pedagógico, livro que, no entanto, por falta de editor, só viria a ser publicado em 1989.

Mas a sua produção escrita, neste período, sobre a “Educação Nova”, não se resumiria à “Educação de Portugal”. Durante os dois anos seguintes, 1971 e 1972, vai coordenar e escrever temas sobre educação na Revista Mundial, onde novamente vai abordar a temática revelando o autor, mais uma vez, uma certa militância com esse Movimento.

Num dos números dessa revista, com o título de Fontes e Pontes do Futuro e subtítulo Escola Nova, dizia Agostinho da Silva, e passo a citar, que a Escola Nova definindo uma época nova de actividades educacionais, não tem como centro um professor que sabe e ensina, mas um grupo em que todos aprendem e, tendo aprendido, ensinam; não se limita a uma determinada idade, antes se alarga à vida inteira; desaba as paredes que a separam da vida, não funcionando separada dos trabalhos industriais ou dos campos. Esta Escola Nova que está vindo em números cada vez maiores depois das tentativas isoladas de um Pestalozzi, de um Tolstoi, de um Sanderson, de um Neil, a demonstrar que a marca real do homem é o seu espírito de criatividade na ciência ou na política, no sonho ou na arte, na religião ou na técnica.

Mas é no seu livro “Educação de Portugal” que Agostinho da Silva desenvolve as linhas gerais de um projecto educacional para o país. Recorrendo à insubstituível prosa de Agostinho da Silva, aqui fica uma breve citação que ilustra muito bem algumas das ideias por ele propostas. Passo a citar, “Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora que nascemos estrelas de ímpar brilho: Nada na vida vale o homem que somos; homem algum pode substituir a outro homem. (...) Não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho um dever que é o de ajudá-lo a ser ele próprio. (...) Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor, penso que a educação, em todos os seus níveis, formas e processos, não tem sido mais que o sistema pelo qual esta fraternidade se transforma em domínio (...) Pelos tempos fora, temos querido que a escola, seja fundamentalmente uma fábrica de fortes para vencermos na vida. O grave de tudo isto é que nos lembramos sempre da criança que fomos e que por nossas mãos matamos.”

Nota: Este textinho é um excerto de uma comunicação feita na Escola Superior de Educação de Setúbal, em Maio de 2009.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Fernando Pessoa: Grandes mistérios habitam


O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.
São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

Escultura Fugit Amor, de Auguste Rodin, 1884

Infinita fenda


Medo:
como o não
ter?
É por aqui
que fogem os filhos às mães
é por aqui que correm todos os rios que alguma vez secaram
é daqui que nascem os universos
e se incendeiam as estrelas.
É ainda aqui
que a forma das nuvens se separa
e o amor se repara.
É aqui que nasce
o sopro
a aragem.
Como não ter...
... coragem?!

Brevíssima


De singelo e brevíssimo modo, aqui faço saber que, por ponderado ditame íntimo - o de, sobretudo, preservar-me de mim mesmo -  deixarei, doravante, de colaborar neste blogue e no seu projecto. 

Essa interrupção é obviamente extensiva à condição de administrador deste espaço que, por cordial e gentil convite, Paulo Borges, seu criador, e mentor do projecto,  foi tendo a paciência de suportar-me. Extensiva é ela também ao blogue "Refundar Portugal"


Agradeço-lhe, penhorado, a amizade de sempre e a lembrança de mim, que de mim tendo a muito esquecer-me.

A todos quantos aqui vieram e vêm, sem excepção alguma, estendo o meu abraço fraterno, exprimindo neste momento a minha mais alta admiração e a gratidão profunda. 

Bem hajam.


Donis de Frol Guilhade



P.S.   
Seguem-me, "por inerência", neste desígnio, Damien e Lapdrey, que, pela sua parte, o mesmo farão nos blogues "Serpente Emplumada" e "Refundar Portugal". 

Conforme é sabido de muitos aqui, e alhures, fui, enquanto Damien/Lapdrey, discricionariamente excluído da qualidade de colaborador do blogue da revista "Nova Águia", sem qualquer explicação prévia e sem outra razão aparente que não a ausência de elevação e de carácter de uns tantos que se imaginam timoneiros de desígnios que estão inapelavelmente aquém e além da sua pequenez e estreiteza.

Mais uma vez, aqui agradeço a Paulo Borges o convite que, gentilmente, então me endereçou para colaborar quer no referido blogue, quer também na revista com o mesmo nome, o que fiz honrado e responsável, e da qual já tive oportunidade de desvincular-me também, bem como igualmente do projecto MIL.

reclamo (anúncio de mim mesmo)

Amanhã nada disto existirá

A bailar no veio translúcido do instante

A insuportável exsurgência da manhã

A distante evanescência das quimeras

De ter sido na imponderabilidade do vento

Nada disto consiste em querer ou ter ou poder

Uma fome alada que resiste

Na planície úbere do não ser

E viro a página

Estar vivo é só a possibilidade de perdição

E em ondas de luz que de cima me revelam

Só o que ficou o resto da alba que não houve

Tudo se precipita em abismos de lume

Na alvorada nova do esquecimento

O cheiro a creolina no charco de ter nascido

O aqui envolto em turvação

Ganha pé o mais ambárico dos vinhos

Não são de fiar as coisas demasiado perfeitas

Tudo vem de fábrica plastificado

E esterilizado

Já nada se gasta só por ser usado

A não ser a habituação a nós

Torna-se espessa e ganha um corpo subtil

De cave fechada repleta de inutilidade

Em fundo uma música quase ignorada

Dos codeine velvet club torna desculpável a decisão

De desfazer os baús na feira da ladra

Da escrita

Entre-caminho

sábado, 28 de novembro de 2009

o poema: inspira, expira

O que me inspira é a Vida
os coelhos nos seus regressos a casa,
a dona maria a sacudir as passadeiras
os pássaros bocejando visões
as gruas
os automóveis azuis
as árvores a chuva e o milho

Mas mais que gruas que levam homens ao céu
inspira-me as luzes que cegam os mortos
O sol umbilicalmente aos dias
nas marquises
nos frutos
nas formigas a construirem suas pátrias

É você aí desse lado que me inspira
a descobrir que o silêncio é um bosque
a somar à dor de parto com que fico

Depois
expiro a casa que guarda o nome e os ossos dos meus avós
a criança na sua dicotomia de crescimento
este deus hipócrita partido em quatro
mas que eu amo

E se tiver tudo isto tenho amor
tenho Obra
e manjedoura
e Nath King Cole a dar voz às manhãs

Ó mar faz de mim um bonito cadáver!

Portugal, Europa e Ocidente: o enigma do "olhar esfíngico e fatal" e o rapto de Europa



Ticiano, O rapto de Europa

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal”

- Fernando Pessoa, “O dos Castelos”, Mensagem.

É com este poema que Fernando Pessoa abre a Mensagem, cujo nome cifra o dizer latino: Mens ag(itat) (mol)em – o pensamento/a inteligência/a mente impele/põe em movimento a massa(matéria)/multidão. O presente poema deve pois ser considerado como o primeiro momento disso que todo o livro pretende e anuncia ser: mover e orientar numa determinada direcção a massa passiva e inconsciente das coisas e/ou da mole humana, o que supõe nesta a potencialidade de deixar de o ser, despertando do sono que a equipara à matéria e pondo-se a caminho de um estado superior de consciência.

De quem fala o poema e o que diz? O poema fala da Europa, figurada, de acordo com as sugestões do seu mapa, como um ser, decerto feminino, que “de Oriente a Ocidente” se deita, apoiado “nos cotovelos”, “fitando”, ou seja, olhando fixamente para um alvo diante de si. Um dos cotovelos pousa na Itália e o outro na Inglaterra, sendo este que sustenta a mão “em que se apoia o rosto”, onde a moldura romântica dos cabelos evoca “olhos gregos”. Esse rosto, “o rosto com que fita”, “é Portugal”, o finistérreo extremo-ocidente europeu, voltado para o Oceano.

Recordemos a mitologia acerca de Europa, mulher fenícia de Tiro, cujo nome, do grego, sugere etimologicamente a imagem de um rosto ou visão amplos (ευρυ-, largo, amplo, e οπ-, olho(s), rosto). Nas duas versões acerca do seu destino, na mais conhecida é seduzida por Zeus transformado em touro, o qual, após haver conquistado a sua confiança, subitamente a rapta e leva pelo mar para Creta, onde se une com ela. Dessa união nascerá o rei Minos. Noutra versão, narrada por Heródoto, Europa é sequestrada pelos minóicos e levada igualmente para Creta.

Notemos que a Europa é, curiosamente, uma figura não indo-europeia, pois os fenícios, segundo Heródoto, provêm do Oceano Índico, enquanto que, segundo a moderna historiografia, procedem de uma região entre o Mar Morto e o Mar Vermelho. O seu nome significa em grego “vermelho” e pode provir da cor da sua pele (Agostinho da Silva refere-os como os “pele-vermelhas”. Foram uma grande potência marítima, um povo de viajantes, que fez um trânsito de Oriente para Ocidente. Quanto ao mito do rapto de Europa, sugere-nos a essência do seu destino como o de ser seduzida, descentrada, arrebatada ao seu lugar original por uma potência divina que a fecunda. Isto em Creta, lugar de mediação entre Oriente e Ocidente, entre as raízes arcaicas, matriarcais e não indo-europeias da futura cultura europeia, e o seu futuro bélico prefigurado nos invasores aqueus indo-europeus. Creta, lugar perigoso do labirinto, da errância por várias possibilidades de destino, mas com uma única saída salvadora. Lugar do risco de se ser devorado pelo Minotauro e da possibilidade de saída libertadora pelo encontro do fio de Ariana.

Portugal, com a sua larga costa voltada para o Oceano, sugerindo um perfil contemplando o infinito, é assim na verdade não apenas o rosto da Europa, mas esse mesmo “rosto” ou “visão” amplos que diz o nome Europa. Portugal é a essência da Europa, a essência que em si contêm e encerra as complexas possibilidades que no mito se entrecruzam e entremostram: a ponte e mediação entre Oriente e Ocidente, entre o arcaico e o novo, a sedução pela alteridade, o rapto, o arrebatamento e a fecundação pelo divino, a labiríntica errância entre perdição e salvação e o rosto/visão ampla que é, simultaneamente, limite e limiar, limite que se pode converter em limiar.

O que fita então esse rosto-Portugal/Europa e como o fitam os seus “olhos gregos”, que agora supomos serem cretenses? O seu “olhar esfíngico e fatal” fita “o Ocidente, futuro do passado”. Uma esfinge é um monstro, com um corpo misto de vários animais e rosto humano, como no Egipto e na Grécia, enquanto um “olhar esfíngico e fatal” é um olhar que expressa um enigma sempre letal, pois estrangula (sphingo) e devora quem não o decifrar, ao mesmo tempo que se suicida caso a decifração aconteça, como no Édipo Rei, de Sófocles. A mulher fenícia é então uma Esfinge e Portugal o rosto humano desse monstro, que se estende de Oriente a Ocidente contemplando fixamente o Ocidente/Oceano. O Ocidente, do latim occidens, entis, é o particípio presente do verbo occidere, o qual, se for intransitivo, significa morrer e, se for transitivo, significa matar. O Ocidente é assim o lugar onde se morre ou se é morto, como acontece com o sol que aparentemente aí declina e desaparece. Esse lugar é também o Oceano, o Okeanos que os gregos visionavam como o grande rio caótico e turbilhonante que corria circularmente em torno do mundo. Em qualquer dos casos, o Ocidente e o Oceano, para além da sua determinação geográfica, assinalam o aparente limite da terra firme do conhecimento e da vida, figurado na linha igualmente aparente do horizonte, cuja etimologia grega (orizón) designa “o que limita”. É isso o “futuro do passado” e é isso que a Europa-Esfinge, que “jaz […] / De Oriente a Ocidente”, amplamente “fita” com o rosto-Portugal.

Este confronto configura uma situação-limite, na qual uma das instâncias do confronto – Portugal, rosto-essência da Europa, e o Ocidente/Oceano, “futuro do passado” – não pode sobreviver. O rosto-Portugal fita, ou seja, foca unidireccionadamente, concentrando toda a energia do desejo numa visão intensa, isso que está diante de si, esse Ocidente/Oceano/Horizonte ignoto que é o “futuro” desse “passado”-Europa que Portugal ainda é, porém já na condição anfíbia de finistérrea ponta extrema, lançada para o alvo da alteridade absoluta, irredutível a qualquer identidade europeia, ocidental ou outra. Rosto humano da monstruosa Esfinge-Europa, que aqui pode figurar todo o próprio “passado” euroasiático da história do mundo, ou tudo o que ela mesma aspira a ultra-passar em si, Portugal figura o descentramento da história, da vida e da consciência europeia, e/ou da própria consciência, para o desenlace crucial do morrer ou matar que no Oceano/Ocidente se simboliza. Portugal incarna, no rosto/visão amplos descentrados para a alteridade infinita, a própria essência da Europa, ou seja, a sua sedução, rapto e arrebatamento jamais terminados e apaziguados, a própria condição da sua divina fecundação e criatividade.

Não esqueçamos que neste quadro da Europa que abre a Mensagem se destacam explícita e implicitamente os quatro momentos-figuras histórico-civilizacionais que Pessoa identifica nos quatro impérios “passados” e perecíveis cuja superação o Quinto Império simboliza: “E assim, passados os quatro / Tempos do ser que sonhou, / A terra será teatro / Do dia claro, que no atro / Da erma noite começou. // Grécia, Roma, Cristandade, / Europa – os quatro se vão / para onde vai toda idade. / Quem vem viver a verdade / Que morreu D. Sebastião?” (“O Quinto Império”). No poema inaugural da Mensagem, a Grécia está representada pelos “olhos gregos”, Roma e a Cristandade pela Itália e a Europa por si mesma e pela Inglaterra, que personifica o quarto império noutros textos, em prosa, de Pessoa.

O mais fundo enigma reside, contudo, no facto de Portugal ser o “rosto”-“olhar esfíngico e fatal” com que a Europa fita o Ocidente. O que quer dizer que o enigma mortal não está propriamente diante, no Ocidente/Oceano, mas antes nesse que os fita. Portugal, como rosto-essência da Europa, é o próprio esfíngico enigma que, numa inesperada inversão da situação aparente, é suposto ser também contemplado pelo Ocidente/Oceano. Quem levará quem à morte? Paralisará e devorará Portugal, rosto-essência da Europa, o Ocidente/Oceano, caso este não decifre o enigma que transporta? Porá Portugal, rosto-essência da Europa, fim à vida, caso o Ocidente-Oceano o decifre? Morrerá o futuro e a alteridade às mãos do passado e do mesmo ou serão antes estes a perecer perante aqueles?

Toda a lógica e intencionalidade da Mensagem e do pensamento pessoano apontam para a segunda possibilidade. E tudo se esclarece se considerarmos que em Portugal se figura a impossível coexistência das duas figuras e a encruzilhada crucial na qual uma tem de ser sacrificada. Talvez seja precisamente esse o enigma. Tudo depende do que vai predominar em Portugal - que Pessoa vê como a quinta-essência do complexo de possibilidades que é a própria Europa - e, a um nível mais fundo, na possibilidade universal do homem e da consciência que Portugal aqui figura (como Israel, a Cristandade ou o Islão nas respectivas culturas): ou a asfixia e deglutição da adveniente alteridade pela monstruosa mesmidade passada ou o autocolapso desta no desentranhamento e desvendamento do secreto fito a que no mais íntimo aspira - morrer e devir, autotranscender-se trespassando a linha do horizonte e revelando a sua mera aparência, converter e revelar o limite como limiar. Ou o quarto ou o Quinto Império, como consumação do íntimo fito da consciência europeia e da própria consciência, tanto mais comprovado quanto mais aparente e visceralmente o rejeita: ser, agora e sempre, divinamente seduzida, raptada, arrebatada e enfim fecundada.

Labirinto que é, talvez só nesse rapto, só nesse abandono e entrega à alteridade absoluta, possa encontrar o fio de Ariana que a resgate de morrer devorada pelo Minotauro, ou seja, autodevorada pelo próprio medo e desejo de segurança agressivos que este, tal como a Esfinge, personificam.

(texto em elaboração)

criança


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

"O mundo é mais cheio de pranto do que tu és capaz de entender" - William Yeats



The Stolen Child - WB Yeats (Poem No. 1) from Lainy Voom on Vimeo.

Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.

William Yeats, de "The Stolen Child"


(Dedico a Maria Sarmento, Isabel Santiago, Luiza Dunas e Inês Borges, quatro seres que este mundo desconhece, crianças roubadas de algum mágico lugar.)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

o argonauta das sensações verdadeiras

'...com a qual choro o homem que foi para mim,como virá a ser para mais que muitos, o revelador da realidade, ou, como elle mesmo disse, « o argonauta das sensações verdadeiras» - o grande libertador, que nos restituiu, cantando, ao nada luminoso que somos; que nos arrancou á morte e á vida, deixando-nos entre as simples coisas, que nada conhecem, em seu decurso, de viver nem de morrer; que nos livrou da esperança e da desesperança, para que não nos consolemos sem razão nem nos entristeçamos sem causa; convivas com elle, sem pensar, da fatalidade objectiva do universo.
...

alegrae-vos, todos vós que choraes na maior das doenças da história!'

ricardo reis, in prefácio a alberto caeiro

à luta, porque a luta é a destruíção desta realidade.

EnTre os pioneiros de uma Filosofia da Saudade

"Os Portugueses são mais saudosos que outros povos, o que permite um sentimento único de Amor e Ausência - os pais da Saudade."
D. Francisco Manuel de Melo

"A saudade provém do coração, não provém do entendimento. É um bem que se padece e um mal que se deseja. Amarga e doce, triste e alegre. Na saudade fundem-se os contrários."
D. Duarte

combate mítico do herói consigo mesmo


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Edmund Dulac's Tanglewood Tales














O Palácio do Xarajibe.

Eia! Saúda os meus lares, em Silves, ó Abu Becre
E pergunta-lhes se conservam memória de mim, como penso.
Saúda o Palácio do Xarajibe da parte dum donzel
Que perpetuamente suspira por esse palácio.
Morada de leões e de brancas gazelas
que ora parece um covil, ora um gineceu!
Quantas noites não passei, à sua sombra, divertindo-me
com mulheres de largas ancas e cintura delicada,
brancas e morenas que faziam na minha alma
o efeito de espadas refulgentes e de lanças escuras!
E a noite, deliciosamente passada, junto do açude do rio
Com a donzela cuja pulseira semelhava a curva da corrente…
Ela continuamente me embriagava, ora com o vinho dos seus olhares,
Ora com o da sua taça, ora com o dos seus lábios.
As cordas do seu alaúde, feridas pelo plectro, faziam-me estremecer
Como se ouvisse melodias de espadas nos tendões do colo inimigo.
Ao deixar cair o manto, descobria seu corpo, ramo de salgueiro
Brilhante, como quando do botão surge a flor
!

[Poema de al-Mu’tamid dirigido a Ibn Ammar, falando-lhe da bela Silves, em que este último residia, e onde viveram as suas juventudes livres e apaixonadas, como qualquer jovem vive ou sonha viver. Por enquanto, a amizade e o amor que existia entre um e o outro, era um elo difícil de fazer quebrar. Já o tempo, essa invariável linha de nascimento, se encarregou de o destruir, e as suas existências acabaram tão tragicamente como os momentos que as levantaram.]

Ponte 25

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Espelho


Pintura de Watterhouse
(Para Donis, de quem se diz que é Rey de seu mesmo reinar. EnTre-tantos Lugares...)
Plantámos uma vara no mar. No silêncio a regamos. Afundamos no lago os remos e deixamos seguir, na corrente, o espelho de argêntea vida, o belo rosto da mulher do lago. Uma flor de lótus, branca de sal no bordado manto. Uma gota de sangue no cristal do espelho: mercurianas vozes, sonhos de alguém debaixo de húmidas pétalas!
Quando vierem as primeiras chuvas, a água doce fará florir a cana de uma tal e tão subtil índia, como em sonho a sonhamos. Uma ferida, flor à cor da tarde que se estende em caminhos de ouro, sobre os verdes reflexos da água, dará dormida às aves, como uma gruta no rochedo, dentro do abismo do mar! Azul aberto! O sangue será o nódulo do peito a descer. Subido o rio ouve-se o murmuro canto da tristeza; o filho da Saudade entrado no castelo. Olha a flor que se afasta, trazendo dentro dela a voz de uma nova raiz, de um novo espelho. Essa vara florida, essa canção, será da cor da prata, e, repetida, repercutida no espaço e em todos os pontos do universo, a levará, a barca da lua, em seu arco de luz, em sua horizontal forma de silêncio.
Porque a lua lhe dará reflexos de poema e canto de encantado rio, ao tear de finos fios e penas e bicos de gaivotas, sobre o manto da terra, sobre as ondas do mar, se chegarão as criaturas de asas, as sementes de arroz e as bagas de romã. Sorriremos da tarde trazer essas vozes, essas figuras, para próximo dos brilhos das janelas do alto da casa das sombras e do choro de pedra das gaivotas. Cantaremos, então, como anjos em consertados, afinados e acertados cantos. Dizem que a sua voz, a voz da vara florida, será sopro, será texto e nome. Porque vibra em corda alta de sentido um nome para cada coisa, e nomear é cantar, ouvir do interior da semente, a voz da folha, o ramo que trará a pomba de regresso. A pomba que, em fios de várias cores, pelas noites entre paredes, vem poisar no vestido da dama de olhos cor de pasto de sal. Olhos vendados, cega, olhando o espelho, picando-se no espinho da rosa florescida no bordado do jardim.
Será um canto claro, em coração de bosque, verde e florido chão de nova e florida voz. O nome desse canto ensurdece. O seu nome dará no chão reflexo de espelho vivo, entornada voz! Não estranharemos os sons que ouvirmos no caminho. Vão por caminhos que são as suas asas, os ses cantos e as suas brisas, as asas e as brasas. Debaixo desse canavial salgado, que é o rio, uma corrente levará a voz numa barca para as paredes do castelo. Lê-se nos olhos vendados da jovem dama do lago. Será aí que uma espada levantará a luz de uma pátria sem definições, mais livre de emparedadas vozes; mais liberta de si, mais sem razão.
Ouve-se o eco da voz, na voz sem tempo de um aberto lugar, como uma estrela na fronte do rosto virado a ocidente, fitando o rio e o destino do mar.
Talvez seja por isso que o olhar se ergue ao céu, quando a lua crescente, como um barco, voga no escuro mar do vasto firmamento. Fitamos a lua e, por trás da escuridão, ouvimos a voz, o lamento da Senhora do lago da lua, a olhar-se no espelho branco do mar. Não chegámos a virar o olhar para Camelot, mas na torre mais alta do castelo que ainda hoje lá está, o pano bordado tece-se novas cores, novos sons acordam, e a vida tecida nesses fios será de lua e rosa e sangue, cristal e lágrima. Será conto e canto. Canto da distância, contos de acorde em lá. Lanças retiradas da pedra de moer distâncias, de fiar o linho, de plantar esperanças!

(des)organização

'a única saída dos homens está no devir-revolucionário, o único a poder conjurar a vergonha ou responder ao intolerável'

g. deleuze

por uma nova forma de organização revolucionária, por uma resposta directa ao acontecimento. não esperemos ordens!!!