segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Carne artificial pode estar à venda no mercado dentro de cinco anos
Ainda ninguém provou o produto, mas daqui a cinco anos poderá estar à venda nos supermercados carne artificial. Ou seja: carne criada em laboratório, não proveniente de nenhum animal morto. Os defensores dos direitos dos animais já vieram saudar os resultados da investigação. Resta saber se a carne é saborosa.
Investigadores holandeses criaram um produto descrito como um pedaço húmido de carne de porco e estão agora a investigar outras maneiras de melhorar o tecido fibroso comestível que, no futuro, se espera que as pessoas venham a comprar.
Os cientistas extraíram células musculares de um porco vivo e colocaram-nas numa solução de produtos animais. As células multiplicaram-se e criaram tecido muscular. A partir deste resultado, é possível criar produtos semelhantes a bifes, caso seja possível desenvolver uma maneira de "exercitar" o músculo.
Os grupos vegetarianos louvaram a iniciativa, afirmando que não colocam qualquer "objecção ética" se a carne não tiver origem num animal morto, escreve o Telegraph.
A organização de defesa dos animais Peta - conhecida pelas suas campanhas contra o uso de peles de animais na confecção de roupas - já veio dizer que não levanta qualquer objecção.
A Vegetarian Society indicou, porém, que "a grande questão será garantir que as pessoas estão a comer carne artificial e não carne de animais que foram mortos". "Será muito difícil etiquetar e identificar a carne, de uma maneira que as pessoas se sintam seguras". Para já, disse Mark Post, professor de Fisiologia na Universidade de Eindhoven, ao Sunday Times, "aquilo que temos neste momento é um tecido muscular enfraquecido. Precisamos de encontrar uma maneira de o melhorar, esticando-o e moldando-o, mas nós chegaremos lá".
"Este produto será bom para o ambiente e irá reduzir o sofrimento animal. Parece mesmo carne, as pessoas irão comprá-lo. (...) É possível tirar a carne a um animal e criar o volume de carne anteriormente fornecido por um milhão de animais", esclareceu Mark Post.
O projecto é apoiado pelo Governo holandês e por uma marca de enchidos e surge depois da criação de filetes artificiais a partir de células musculares de peixes. A carne produzida em laboratório poderia evitar a emissão de gases de efeito de estufa para a atmosfera que resulta da criação de gado.
Estima-se que o consumo de carne e de produtos lácteos possa duplicar até 2015 e que o metano que se liberta durante as actividades relacionadas com a criação de gado seja responsável por 18 por cento dos gases de efeito de estufa lançados para a atmosfera.
in, Jornal "Público", 4/12/09
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
"Para mim, religião é algo a que você entrega todo o coração e a mente e o corpo, tudo o que você tem."
"Sabeis o que é religião? Não é cântico, não é execução de puja ou outro ritual, não é adoração de deuses de lata ou imagens de pedra; ela não se encontra nos templos e igrejas, nem na leitura da Bíblia ou do Gita; não é a repetição de um nome sagrado ou o seguir de qualquer outra superstição inventada pelos homens. Nada disso é religião.
Religião é o sentimento da bondade, daquele amor semelhante ao rio – que é um movimento rico eterno. Naquele estado, vereis chegar um momento em que não haverá busca de espécie alguma; e esse findar da busca é o começo de algo totalmente novo. A busca de Deus, da Verdade, o sentimento de se ser integralmente bom (não o cultivo da bondade, da humildade, porém o buscar, além das invenções e dos artifícios da mente, uma certa coisa – e isso significa ser sensível a essa coisa, viver nela, sê-la) isso é que é a verdadeira religião. A vida cuidará então de vós, de uma maneira surpreendente, pois, de vossa parte, nada haverá para cuidar. A vida, então, vos levará aonde lhe aprouver, porque sereis uma parte dela; não haverá mais problemas concernente à segurança ou ao que “os outros” digam ou não digam. E esta é que é a beleza da vida."
Krishnamurti, A Cultura e o Problema Humano , S. Paulo, Cultrix, 2ª edição, p. 133.
"E eu me pergunto que papel representa a religião na vida daqueles que estão aqui. Por religião, eu agora me refiro a uma coisa completamente diferente, algo que é tão importante - se não muito mais importante - do que ganhar o pão de cada dia. Para mim, religião é algo a que você entrega todo o coração e a mente e o corpo, tudo o que você tem. Não é algo a que você se volta como passatempo, ou para adotar quando estiver velho, com um pé na cova, por não ter nada melhor que fazer, mas sim algo que se torna vitalmente importante, algo intensamente necessário, como um completo modo de vida, a partir do momento em que você acorda até o momento em que vai dormir, de modo que cada pensamento, cada ato, cada movimento do seu sentimento é observado, considerado, ponderado. Para mim, a religião abrange o todo da vida. Ela não está reservada aos especialistas, aos ricos ou aos pobres, à elite ou ao intelectual. Ela é como pão, algo que você precisa ter. E eu me pergunto quantos de nós a levam a sério desse modo - o que não significa ser briguento, dogmático, excludente, sectário, ou alguém muito especial. A religião exige, não conhecimento ou crença, mas uma extraordinária inteligência, e, para o homem religioso, tem de haver liberdade, completa liberdade."
Krihsnamurti, Palestras em Saanen (1963), http://www.krishnamurti.org.br
"Estar enraízado na ausência de lugar" ou da desterritorialização de Portugal
A cidade dá o sentimento de estar em casa.
Assumir o sentimento de estar em casa no exílio.
Estar enraízado na ausência de lugar"
- Simone Weil, La pesanteur et la grâce, Presses Pocket, 1991, p.50.
Novalis escreveu que a filosofia não era senão saudade de estar em todo o mundo em sua casa. Penso ser essa a maior aspiração dos portugueses. Há que desterritorializar o nosso sentimento de Portugal, que na verdade, pelo menos desde os Descobrimentos, não é propriamente um território, mas antes um estado de espírito, um estado de universalidade. Essa é a verdadeira Pátria, que apenas indirecta e relativamente se expressa numa terra, numa língua, numa cultura e numa história. Não perceber isso é não perceber Portugal, cuja identidade é o próprio universo.
umoutroportugal.blogspot.com
"Ser orgulhoso é esquecer que se é Deus..."
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Música Escarlate
Assim estou profundamente grata a todos, e prossigam na Demand`A seja Ela qual f`Or…
Sedutor desígnio.
quem me meteu neste sedutor desígnio foste tu. Sem a tua presença, no rol de colaboradores, a minha deixa de ter qualquer sentido. Por isso, peço muito respeitosamente a quem de direito, que, a partir de hoje, elimine o meu nome do astro magnífico de colaboradores que o Entre-finisterreno tem.
Ao seu mentor e a todos os demais, deixo o meu fraternal abraço.
P. A.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
"Cada religião é a única verdadeira..."
- Simone Weil, Cahier VI, Oeuvres, Paris, Gallimard, 1999, p.848.
Não posso deixar de fazer deste reparo um reparo às tendências sincretistas de algum Fernando Pessoa e de algum Agostinho da Silva, que passa a meio caminho entre elas e o fundamentalismo dogmático da crença numa única religião verdadeira. Não parece possível seguir uma qualquer via religiosa ou mesmo espiritual sem uma dedicação e concentração totais, sabendo e aceitando ao mesmo tempo que outros podem e devem fazer o mesmo com outras vias religiosas e espirituais. Isto é algo a não esquecer no actual diálogo inter-religioso, que muitas vezes tende aos sincretismos fáceis e moles.
O Desterrado

«Não me procuraríeis se não me tivésseis encontrado já...»
Muito próximo do muito ruído, o silêncio custa-se a ouvir o que é para ser ouvido; coberta por véus e véus e camadas sobre camadas de ilusões e de folhas mortas, a fonte esconde-se e tapa a água que jorra. O vulto insinuado de escuro, vindo da noite, névoa cristalizada, caminhando na noite, não mostra o corpo. A treva o cobre e lhe cobre de solidão os andrajos. Não se distingue o buraco da noite e o buraco do fato rasgado. Aquele que regressa abre, com o Silencio e Ausência, a boca de cena de uma tragédia transfigurada. Não se distingue dela. A esfínge cega! O vulto não tardará a fundir-se no mistério e voltaremos inevitavelmente a esquecer em breve espaço de tempo que havia e houve esse vulto. Somos “Intervalo”, às vezes ouvem-se as vozes da tragédia. O coro.Há-de mostrar-se-nos esse vulto, esse mistério e esse “ocultamento” de diferentes modos de se “desocultar”. Pode até ser o “Nada”, mas é um Nada com Sentido: um Pleno Nada. Pode tomar as múltiplas formas do mundo e da realidade. Pode ser um texto, um rosto, uma chuva discreta na janela; um horizonte verde debaixo de um céu claro de Verão. Pode ser tudo e nada. Pode ser o nada de tudo. Mas já esteve cá e ainda cá está. Pode ser uma Saudade de ser!Mas o que no imo de nós procura rasgar os véus e abrir à luz a palavra. Isso é como um fruto que a nossa fome já saboreou ou/e é o desejo de o saborear uma vez mais, ignorando que já nele comemos o sentido. A sua forma, sempre mutável, não é forma nenhuma, é tão só o vulto que queremos apreender ou apenas com-ferir. É um vulto já fundido na paisagem uma pele uma carne; um corpo e uma alma: espírito e espírito, alma de alma. A sua voz é o Silêncio mais vibrante, esse que lá está e que Há. Esse que é memória e ânsia e eterno rumorejar de fonte. Esse que de véus se cobre e com folhas sobre folhas secas se despe, como árvores de jardim. Esse chão que é o caminho que limpamos, como se espelho sujo, espelho do ser, para ver o que no seu interior está, para ver o brilho ali deixado pelo que “cá” e “lá” está e habita o desabitado lar. Para ver o Encoberto, esse de quem se diz que nunca regressa. Esse que nunca regressa. Esse que é o errante e desterrado, filho da lonjura e da Saudade. Esse neto da Ausência e do Eterno. É esse o que tanto procuro! E esse O Desejado” O Desterrado de Si, O desterrado do seu coração.
Agostinho da Silva, um adepto da "Escola Nova"

O Professor Agostinho da Silva foi uma das grandes figuras da cultura Portuguesa do século XX. O interesse manifestado pela sua obra nestes 15 anos que sucederam à sua morte, são disso um bom testemunho.
Tivemos o privilégio de conhecer o Professor. Estivemos algumas vezes em sua casa a escutar os seus ensinamentos e trocámos com ele alguma correspondência escrita, à semelhança do que aconteceu com muitos outros. O Professor tinha criado o hábito de escrever cartas aos amigos e receber em sua casa gente que se prestasse à conversa.
Foi a conselho de uma amiga que decidimos ir a sua casa. Mas quis o destino que para lá chegar tivéssemos de passar primeiro pelo Brasil. Fomos encontrar uns amigos seus ligados à Universidade da Baía, numa viagem que fizemos a São Salvador, que nos tornaram portadores de algumas lembranças para o Professor: uma delas, um livro de poesia da autoria de um desses amigos, Epaminondas da Costa Lima, que contém um poema muito bonito que lhe é dedicado, de seu título “Portugal”.
Também Agostinho da Silva, em determinada altura da sua vida, teve de partir para o Brasil, corria o ano de 1944, só que dessa vez foi uma partida forçada. Expulso do Liceu Nacional de Aveiro, onde era Professor, e mais tarde preso por discordâncias políticas com o regime que então vigorava em Portugal, vai para o Brasil, donde só regressará em 1969.
Nas suas divergências com as ideias políticas dominantes na época, em Portugal, muitas foram as discordâncias que também manifestou com as metodologias tradicionais então instituídas no ensino, como revelam as suas simpatias para com as novas correntes pedagógicas que desde o início do século tinham galgado os Pirineus. A série de biografias que nos deixou sobre alguns dos autores do Movimento da “Escola Nova, onde encontramos as obras de Pestalozzi, Montessori, Sanderson, Winnetka, Dalton, por ele escritas e publicadas nos Cadernos de Iniciação Cultural, são um bom testemunho das preferências sobre quais as reformas a introduzir no sistema educativo do país.
Como dissemos, Agostinho da Silva vai deixar o Brasil em 1969, regressando definitivamente a Portugal, tendo por lá deixado uma obra notável, sendo de destacar a sua participação em várias Universidades por todo o país (Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraíba, Baía, Goiás e Santa Catarina), mais a fundação de dois importantes Centros de Estudos: o Centro de Estudos Afro-Orientais, na Universidade de São Salvador da Baía, e o Centro de Estudos Portugueses, na Universidade de Brasília.
Regressando a Portugal, dizíamos, Agostinho da Silva vai continuar a obra que já tinha iniciado, no nosso país, sobre a “Educação Nova”. Ele que, nos primeiros anos da década de quarenta, tinha tido uma importância decisiva na resistência deste movimento ao Estado Novo, de novo sem recuar perante a política conservadora que o tinha expulso do país, vai escrever “Educação de Portugal”, em 1970, um livro onde recupera os ideais daquele movimento pedagógico, livro que, no entanto, por falta de editor, só viria a ser publicado em 1989.
Mas a sua produção escrita, neste período, sobre a “Educação Nova”, não se resumiria à “Educação de Portugal”. Durante os dois anos seguintes, 1971 e 1972, vai coordenar e escrever temas sobre educação na Revista Mundial, onde novamente vai abordar a temática revelando o autor, mais uma vez, uma certa militância com esse Movimento.
Num dos números dessa revista, com o título de Fontes e Pontes do Futuro e subtítulo Escola Nova, dizia Agostinho da Silva, e passo a citar, que a Escola Nova definindo uma época nova de actividades educacionais, não tem como centro um professor que sabe e ensina, mas um grupo em que todos aprendem e, tendo aprendido, ensinam; não se limita a uma determinada idade, antes se alarga à vida inteira; desaba as paredes que a separam da vida, não funcionando separada dos trabalhos industriais ou dos campos. Esta Escola Nova que está vindo em números cada vez maiores depois das tentativas isoladas de um Pestalozzi, de um Tolstoi, de um Sanderson, de um Neil, a demonstrar que a marca real do homem é o seu espírito de criatividade na ciência ou na política, no sonho ou na arte, na religião ou na técnica.
Mas é no seu livro “Educação de Portugal” que Agostinho da Silva desenvolve as linhas gerais de um projecto educacional para o país. Recorrendo à insubstituível prosa de Agostinho da Silva, aqui fica uma breve citação que ilustra muito bem algumas das ideias por ele propostas. Passo a citar, “Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora que nascemos estrelas de ímpar brilho: Nada na vida vale o homem que somos; homem algum pode substituir a outro homem. (...) Não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho um dever que é o de ajudá-lo a ser ele próprio. (...) Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor, penso que a educação, em todos os seus níveis, formas e processos, não tem sido mais que o sistema pelo qual esta fraternidade se transforma em domínio (...) Pelos tempos fora, temos querido que a escola, seja fundamentalmente uma fábrica de fortes para vencermos na vida. O grave de tudo isto é que nos lembramos sempre da criança que fomos e que por nossas mãos matamos.”
Nota: Este textinho é um excerto de uma comunicação feita na Escola Superior de Educação de Setúbal, em Maio de 2009.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Fernando Pessoa: Grandes mistérios habitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.
São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.
Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.
Fernando Pessoa, in Cancioneiro

Infinita fenda
como o não
ter?
É por aqui
que fogem os filhos às mães
é por aqui que correm todos os rios que alguma vez secaram
é daqui que nascem os universos
e se incendeiam as estrelas.
É ainda aqui
que a forma das nuvens se separa
e o amor se repara.
É aqui que nasce
o sopro
a aragem.
Como não ter...
... coragem?!
Brevíssima
reclamo (anúncio de mim mesmo)
Amanhã nada disto existirá
A bailar no veio translúcido do instante
A insuportável exsurgência da manhã
A distante evanescência das quimeras
De ter sido na imponderabilidade do vento
Nada disto consiste em querer ou ter ou poder
Uma fome alada que resiste
Na planície úbere do não ser
E viro a página
Estar vivo é só a possibilidade de perdição
E em ondas de luz que de cima me revelam
Só o que ficou o resto da alba que não houve
Tudo se precipita em abismos de lume
Na alvorada nova do esquecimento
O cheiro a creolina no charco de ter nascido
O aqui envolto em turvação
Ganha pé o mais ambárico dos vinhos
Não são de fiar as coisas demasiado perfeitas
Tudo vem de fábrica plastificado
E esterilizado
Já nada se gasta só por ser usado
A não ser a habituação a nós
Torna-se espessa e ganha um corpo subtil
De cave fechada repleta de inutilidade
Em fundo uma música quase ignorada
Dos codeine velvet club torna desculpável a decisão
De desfazer os baús na feira da ladra
Da escrita
domingo, 29 de novembro de 2009
sábado, 28 de novembro de 2009
o poema: inspira, expira
os coelhos nos seus regressos a casa,
a dona maria a sacudir as passadeiras
os pássaros bocejando visões
as gruas
os automóveis azuis
as árvores a chuva e o milho
Mas mais que gruas que levam homens ao céu
inspira-me as luzes que cegam os mortos
O sol umbilicalmente aos dias
nas marquises
nos frutos
nas formigas a construirem suas pátrias
É você aí desse lado que me inspira
a descobrir que o silêncio é um bosque
a somar à dor de parto com que fico
Depois
expiro a casa que guarda o nome e os ossos dos meus avós
a criança na sua dicotomia de crescimento
este deus hipócrita partido em quatro
mas que eu amo
E se tiver tudo isto tenho amor
tenho Obra
e manjedoura
e Nath King Cole a dar voz às manhãs
Ó mar faz de mim um bonito cadáver!
Portugal, Europa e Ocidente: o enigma do "olhar esfíngico e fatal" e o rapto de Europa

Ticiano, O rapto de Europa
“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal”
- Fernando Pessoa, “O dos Castelos”, Mensagem.
É com este poema que Fernando Pessoa abre a Mensagem, cujo nome cifra o dizer latino: Mens ag(itat) (mol)em – o pensamento/a inteligência/a mente impele/põe em movimento a massa(matéria)/multidão. O presente poema deve pois ser considerado como o primeiro momento disso que todo o livro pretende e anuncia ser: mover e orientar numa determinada direcção a massa passiva e inconsciente das coisas e/ou da mole humana, o que supõe nesta a potencialidade de deixar de o ser, despertando do sono que a equipara à matéria e pondo-se a caminho de um estado superior de consciência.
De quem fala o poema e o que diz? O poema fala da Europa, figurada, de acordo com as sugestões do seu mapa, como um ser, decerto feminino, que “de Oriente a Ocidente” se deita, apoiado “nos cotovelos”, “fitando”, ou seja, olhando fixamente para um alvo diante de si. Um dos cotovelos pousa na Itália e o outro na Inglaterra, sendo este que sustenta a mão “em que se apoia o rosto”, onde a moldura romântica dos cabelos evoca “olhos gregos”. Esse rosto, “o rosto com que fita”, “é Portugal”, o finistérreo extremo-ocidente europeu, voltado para o Oceano.
Recordemos a mitologia acerca de Europa, mulher fenícia de Tiro, cujo nome, do grego, sugere etimologicamente a imagem de um rosto ou visão amplos (ευρυ-, largo, amplo, e οπ-, olho(s), rosto). Nas duas versões acerca do seu destino, na mais conhecida é seduzida por Zeus transformado em touro, o qual, após haver conquistado a sua confiança, subitamente a rapta e leva pelo mar para Creta, onde se une com ela. Dessa união nascerá o rei Minos. Noutra versão, narrada por Heródoto, Europa é sequestrada pelos minóicos e levada igualmente para Creta.
Notemos que a Europa é, curiosamente, uma figura não indo-europeia, pois os fenícios, segundo Heródoto, provêm do Oceano Índico, enquanto que, segundo a moderna historiografia, procedem de uma região entre o Mar Morto e o Mar Vermelho. O seu nome significa em grego “vermelho” e pode provir da cor da sua pele (Agostinho da Silva refere-os como os “pele-vermelhas”. Foram uma grande potência marítima, um povo de viajantes, que fez um trânsito de Oriente para Ocidente. Quanto ao mito do rapto de Europa, sugere-nos a essência do seu destino como o de ser seduzida, descentrada, arrebatada ao seu lugar original por uma potência divina que a fecunda. Isto em Creta, lugar de mediação entre Oriente e Ocidente, entre as raízes arcaicas, matriarcais e não indo-europeias da futura cultura europeia, e o seu futuro bélico prefigurado nos invasores aqueus indo-europeus. Creta, lugar perigoso do labirinto, da errância por várias possibilidades de destino, mas com uma única saída salvadora. Lugar do risco de se ser devorado pelo Minotauro e da possibilidade de saída libertadora pelo encontro do fio de Ariana.
Portugal, com a sua larga costa voltada para o Oceano, sugerindo um perfil contemplando o infinito, é assim na verdade não apenas o rosto da Europa, mas esse mesmo “rosto” ou “visão” amplos que diz o nome Europa. Portugal é a essência da Europa, a essência que em si contêm e encerra as complexas possibilidades que no mito se entrecruzam e entremostram: a ponte e mediação entre Oriente e Ocidente, entre o arcaico e o novo, a sedução pela alteridade, o rapto, o arrebatamento e a fecundação pelo divino, a labiríntica errância entre perdição e salvação e o rosto/visão ampla que é, simultaneamente, limite e limiar, limite que se pode converter em limiar.
O que fita então esse rosto-Portugal/Europa e como o fitam os seus “olhos gregos”, que agora supomos serem cretenses? O seu “olhar esfíngico e fatal” fita “o Ocidente, futuro do passado”. Uma esfinge é um monstro, com um corpo misto de vários animais e rosto humano, como no Egipto e na Grécia, enquanto um “olhar esfíngico e fatal” é um olhar que expressa um enigma sempre letal, pois estrangula (sphingo) e devora quem não o decifrar, ao mesmo tempo que se suicida caso a decifração aconteça, como no Édipo Rei, de Sófocles. A mulher fenícia é então uma Esfinge e Portugal o rosto humano desse monstro, que se estende de Oriente a Ocidente contemplando fixamente o Ocidente/Oceano. O Ocidente, do latim occidens, entis, é o particípio presente do verbo occidere, o qual, se for intransitivo, significa morrer e, se for transitivo, significa matar. O Ocidente é assim o lugar onde se morre ou se é morto, como acontece com o sol que aparentemente aí declina e desaparece. Esse lugar é também o Oceano, o Okeanos que os gregos visionavam como o grande rio caótico e turbilhonante que corria circularmente em torno do mundo. Em qualquer dos casos, o Ocidente e o Oceano, para além da sua determinação geográfica, assinalam o aparente limite da terra firme do conhecimento e da vida, figurado na linha igualmente aparente do horizonte, cuja etimologia grega (orizón) designa “o que limita”. É isso o “futuro do passado” e é isso que a Europa-Esfinge, que “jaz […] / De Oriente a Ocidente”, amplamente “fita” com o rosto-Portugal.
Este confronto configura uma situação-limite, na qual uma das instâncias do confronto – Portugal, rosto-essência da Europa, e o Ocidente/Oceano, “futuro do passado” – não pode sobreviver. O rosto-Portugal fita, ou seja, foca unidireccionadamente, concentrando toda a energia do desejo numa visão intensa, isso que está diante de si, esse Ocidente/Oceano/Horizonte ignoto que é o “futuro” desse “passado”-Europa que Portugal ainda é, porém já na condição anfíbia de finistérrea ponta extrema, lançada para o alvo da alteridade absoluta, irredutível a qualquer identidade europeia, ocidental ou outra. Rosto humano da monstruosa Esfinge-Europa, que aqui pode figurar todo o próprio “passado” euroasiático da história do mundo, ou tudo o que ela mesma aspira a ultra-passar em si, Portugal figura o descentramento da história, da vida e da consciência europeia, e/ou da própria consciência, para o desenlace crucial do morrer ou matar que no Oceano/Ocidente se simboliza. Portugal incarna, no rosto/visão amplos descentrados para a alteridade infinita, a própria essência da Europa, ou seja, a sua sedução, rapto e arrebatamento jamais terminados e apaziguados, a própria condição da sua divina fecundação e criatividade.
Não esqueçamos que neste quadro da Europa que abre a Mensagem se destacam explícita e implicitamente os quatro momentos-figuras histórico-civilizacionais que Pessoa identifica nos quatro impérios “passados” e perecíveis cuja superação o Quinto Império simboliza: “E assim, passados os quatro / Tempos do ser que sonhou, / A terra será teatro / Do dia claro, que no atro / Da erma noite começou. // Grécia, Roma, Cristandade, / Europa – os quatro se vão / para onde vai toda idade. / Quem vem viver a verdade / Que morreu D. Sebastião?” (“O Quinto Império”). No poema inaugural da Mensagem, a Grécia está representada pelos “olhos gregos”, Roma e a Cristandade pela Itália e a Europa por si mesma e pela Inglaterra, que personifica o quarto império noutros textos, em prosa, de Pessoa.
O mais fundo enigma reside, contudo, no facto de Portugal ser o “rosto”-“olhar esfíngico e fatal” com que a Europa fita o Ocidente. O que quer dizer que o enigma mortal não está propriamente diante, no Ocidente/Oceano, mas antes nesse que os fita. Portugal, como rosto-essência da Europa, é o próprio esfíngico enigma que, numa inesperada inversão da situação aparente, é suposto ser também contemplado pelo Ocidente/Oceano. Quem levará quem à morte? Paralisará e devorará Portugal, rosto-essência da Europa, o Ocidente/Oceano, caso este não decifre o enigma que transporta? Porá Portugal, rosto-essência da Europa, fim à vida, caso o Ocidente-Oceano o decifre? Morrerá o futuro e a alteridade às mãos do passado e do mesmo ou serão antes estes a perecer perante aqueles?
Toda a lógica e intencionalidade da Mensagem e do pensamento pessoano apontam para a segunda possibilidade. E tudo se esclarece se considerarmos que em Portugal se figura a impossível coexistência das duas figuras e a encruzilhada crucial na qual uma tem de ser sacrificada. Talvez seja precisamente esse o enigma. Tudo depende do que vai predominar em Portugal - que Pessoa vê como a quinta-essência do complexo de possibilidades que é a própria Europa - e, a um nível mais fundo, na possibilidade universal do homem e da consciência que Portugal aqui figura (como Israel, a Cristandade ou o Islão nas respectivas culturas): ou a asfixia e deglutição da adveniente alteridade pela monstruosa mesmidade passada ou o autocolapso desta no desentranhamento e desvendamento do secreto fito a que no mais íntimo aspira - morrer e devir, autotranscender-se trespassando a linha do horizonte e revelando a sua mera aparência, converter e revelar o limite como limiar. Ou o quarto ou o Quinto Império, como consumação do íntimo fito da consciência europeia e da própria consciência, tanto mais comprovado quanto mais aparente e visceralmente o rejeita: ser, agora e sempre, divinamente seduzida, raptada, arrebatada e enfim fecundada.
Labirinto que é, talvez só nesse rapto, só nesse abandono e entrega à alteridade absoluta, possa encontrar o fio de Ariana que a resgate de morrer devorada pelo Minotauro, ou seja, autodevorada pelo próprio medo e desejo de segurança agressivos que este, tal como a Esfinge, personificam.
(texto em elaboração)
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
"O mundo é mais cheio de pranto do que tu és capaz de entender" - William Yeats
The Stolen Child - WB Yeats (Poem No. 1) from Lainy Voom on Vimeo.
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.



