quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Uma das mais gratas e comoventes recordações que guardo de Vergílio Ferreira é a seriedade do seu desejo de encontrar um Real mais profundo"

"Diálogo Inacabado", de Maria Beatriz Serpa Branco

Recordar um amigo é como contemplar uma paisagem que guardamos viva, para lá do ilusório tempo da memória.
Nessa paisagem, Vergílio Ferreira aparece como um companheiro de viagem: a viagem de Édipo que como todo o ser humano repetimos, quando aceitamos enfrentar o desafio da Esfinge, relativamente à nossa condição.
Tal como Édipo, escutávamos a questão posta pela Esfinge. Mas, diferentemente dele, não tínhamos a resposta, segregada por certo pelos deuses, para que se cumprisse um destino já traçado. Restava-nos tactear no escuro, onde o diálogo por vezes iluminava as sombras...
Uma das mais gratas e comoventes recordações que guardo de Vergílio Ferreira é a seriedade do seu desejo de encontrar um Real mais profundo, que pressentia para além da superficialidade em que geralmente gastamos e destruímos as nossas vidas. E igualmente comovente para mim era a sua angústia velada perante um «espelho» que lhe não mostrava o Real que procurava, e em que parecia não ser capaz de penetrar."
[...]
O Vergílio gostava de repensar connosco algumas das modernas correntes do pensamento Ocidental. As minhas propostas de reflexão eram menos abstractas e mais vivenciais. Estavam sobretudo ligadas a uma Filosofia a que Aldous Huxley deu o nome, hoje consagrado de Filosofia Perene - uma sageza intemporal perpetuada quase sempre anonimamente por homens e mulheres em vários lugares da Terra e representada, por exemplo, por notáveis filósofos gregos (Pitágoras, Sócrates, Platão e outros), pela antiquíssima sageza conhecida como Theo-Sophia, por sages e místicos, ditos budistas, tauistas, hinduístas, judeus, cristãos, muçulmanos, etc, mas todos libertos de fronteiras, de dogmas e credos separando os homens.
Uma sageza - ensinamento nascido do autoconhecimento e da afeição - procurando libertar os seres humanos da ignorância de si mesmos que os acorrenta ao sofrimento.
Nos nossos dias, essa sageza adquire uma expressão particular com o filósofo-educador J. Krishnamurti, a cujo ensinamento Aldous Huxley se refere como «o que de mais impressionante já ouvi». E Henry Miller convida-nos também a «escutar» Krishnamurti, considerando-o como «um mestre da realidade».
Não só escritores e intelectuais de renome, mas também cientistas eminentes chamam a atenção para esta nova expressão, completamente independente e original, da Filosofia Perene, interessando-se vivamente pela investigação na consciência, realizada por Krishnamurti. Uma investigação que vai à raiz dos problemas humanos - a mente do homem. Uma mente com potencialidades imensas mas que está aprisionada numa rede de condicionamentos socioculturais que a tornam mecânica, insensibilizada, deformada - pelo hábito, o egoísmo, os preconceitos raciais, nacionalistas, etc. - o que causa enormes sofrimentos, miséria extrema, conflitos cada vez mais destruidores.
Daí a necessidade de uma revolução psicológica radical pelo autoconhecimento que, libertando a mente, a pode levar a funcionar numa dimensão totalmente diferente.
O físico Fritjof Capra, um dos cientistas interessados nesta pesquisa, diz: «Não posso deixar de reconhecer a influência decisiva que o ensinamento de Krishnamurti exerceu sobre mim». E outro desses cientistas, David Bohm, um dos grandes inovadores da Física moderna, salienta: «A obra de Krishnamurti está permeada por aquilo a que se pode chamar a essência da abordagem científica, quando esta é considerada na sua forma mais elevada e pura (...) A Proposta fundamental que ele apresenta é que todo o sofrimento e a enorme infelicidade que vemos existir por toda a parte têm a sua raiz num facto: a ignorância que temos de nós mesmos, da natureza dos nossos próprios processos de pensar».
A minha própria constatação desta realidade era a base da reflexão que gostava sempre de intriduzir no diálogo com o Vergílio, em face das sombras que frequentemente lhe habitavam o olhar. Sombras a que por vezes chamava de «dissonâncias» [...]
Devido à presença dessas sombras e para aprofundar a nossa reflexão no sentido de um percurso que poderia ser libertador, já alguns anos antes dos nossos últimos diálogos, lhe tinha dado para ler um livro de Krishnamurti - talvez A Primeira e Última Liberdade ou Libertar-se do Conhecido (no original, respectivamente, The First and Last Freedom e Freedom from the Known).
Era um proposta de uma surpreendente viagem interior, fora dos habituais padrões de pensamento em relação a nós mesmos. Uma viagem desafiando-nos à descoberta de uma nova dimensão da consciência, abandonando o fardo do passado, a «segurança» do conhecimento acumulado.
Mas o Vergílio, nesse tempo, estava ainda muito reticente à viagem. Ainda muito preso ao «conhecido», achou o livro tão fora dos trajectos de pensamento a que estava habituado e por isso tão «incómodo», que mo devolveu pouco depois, sem lhe ter dado verdadeira atenção. Sentia-se mais seguro preso às sombras, que lhe eram bem mais familiares...
Mas o desafio à viagem , pela qual, no fundo de si mesmo ansiava, estava apenas adiado... E abriu caminho por onde menos se poderá esperar...
Num dos nossos últimos encontros de Verão, fui encontrar o Vergílio e a Regina muito interessados em leituras sobre a Física moderna. Cientistas bem conhecidos como Jean Charon, Olivier Beauregard, além de Fritjof Capra, David Bohm e outros tinham considerado importante conceder entrevistas e escrever livros para o público interessado, informando sobre os novos horizontes da Física contemporânea.
Tratava-se de um assunto que também me era muito grato. Nesse Verão, eu tinha acabado de regressar de umas visitas que costumava fazer a uma das Escolas experimentais fundadas por Krishnamurti e também de conhecer o físico David Bohm (nessa altura Professor na Universidade de Londres).
Vários cientistas conhecidos participavam com Krishnamurti em seminários nessa Escola, altamente interessados na inovadora investigação na consciência que ele realizava. Além de físicos como David Bohm e Fritjof Capra, estavam presentes nesses seminários cientistas de renome como Rupert Sheldrake, Karl Pribam, Maurice Willkins, Jonas Salk (o criador da vacina contra a poliomielite) e outros.
Como eu regressara havia pouco tempo dessa Escola, o Vergílio mostrou muito interesse em saber algo sobre os seminários.
Os cientistas que procuravam Krishnamurti apreciavam muito o seu desafio à investigação e à descoberta.
Quer falasse para cientistas e intelectuais quer para o «homem comum», Krishnamurti abordava sempre com a mesma profunda simplicidade, a necessidade e também a dinâmica da transformação da mente - uma transformação que poderá trazer a urgente transformação da sociedade: porque a sociedade somos nós.
Dado que esse problema e a sua solução estão em nós, ele suscitava a autodescoberta, pondo-nos em face de nós mesmos, observando connosco a nossa realidade quotidiana: o sofrimento e o prazer, o conflito, o ciúme, o medo, a ambição, etc... E convidava-nos a olharmo-nos no espelho do nosso relacionamento (com as pessoas, com a Natureza, as coisas e as ideias) para que encontremos, por nós mesmos, uma compreensão do que realmente somos. Os cientistas estavam também particularmente interessados na pesquisa que ele fazia sobre a natureza do pensamento e seus limites - o que introduz o problema de descobrir se haverá algo para além dos limitados perímetros do pensamento e da linguagem. E aqui era particularmente relevante a investigação sobre a acção da inteligência e do insight (a percepção imediata e holística) na mutação da mente humana.
A intensidade desta pesquisa propiciava um percebimento do sentido da vida e da morte, da profundidade do silêncio, da meditação, da beleza, do Amor.
O Vergílio mostrou-se verdadeiramente tocado pela profundidade desta abordagem e também pelo interesse que os cientistas tinham por ela. Apercebia-se da grande convergência desta investigação com as suas leituras sobre a Física moderna.
Os cientistas que participavam nestes seminários com Krishnamurti caracterizavam-se, tal como ele, por uma visão holística. Assim, para eles, a compreensão do funcionamento da mente do homem é considerada indispensável para o estudo e a compreensão do Universo, dado que a mente é o «instrumento» fundamental para esse estudo e essa compreensão.
O físico Fritjof Capra diz-nos: «O físico, penetrando em estratos cada vez mais fundos da matéria, toma consciência da unidade essencial de todos os fenómenos e acontecimentos (...) aprende que ele próprio e a sua consciência são uma parte integrante desta Unidade».
Outros físicos, como Olivier Beauregard e Jean Charon mostram também que a Física mais avançada está em nítida convergência com as propostas da antiga Sageza, ao considerar o Universo, nas palavras de um deles, «uma totalidade orgânica, formando uma espécie de corpo cósmico que não é senão o nosso corpo, cuja realidade mais profunda, essencial, é de natureza espiritual». E talvez essa Realidade essencial, além de tudo, seja «o Intemporal», «o Imenso», a que alguns chamam Deus...
Apronfundámos assim a nossa reflexão sobre a Filosofia Perene que aponta para a Unidade de toda a Vida, considerando cada ser humano uma parte inseparável dessa Totalidade. Daí a percepção do carácter ilusório de um «eu» separado do resto do Universo. E, desta ilusão, desta ignorância da nossa verdadeira natureza, nasce a sensação e a angústia do isolamento, o egoísmo, o conflito, o medo, o sofrimento do homem.
Urgente se mostra portanto uma libertação da consciência, pela compreensão do que realmente somos e da nossa relação com o mundo.
Da necessidade dessa libertação se ia apercebendo o Vergílio. A sua sensibilidade acolhia agora menos hesitantemente o desafio proposto pela Filosofia Perene. Compreendia que não se tratava de um sistema de pensamento ou de crença, mas de um verdadeiro aprofundamento da consciência. Via também que a nossa pesquisa, com os dados científicos de que tínhamos conhecimento, poderia ser libertadora, dando-lhe pistas em relação às suas dúvidas e inquietações. E acima de tudo respondia à sua sede de transcendência, desbloqueando finalmente uma vivência nova, uma inocência reencontrada muito depois da infância... Aproximava-o da desejada passagem para lá do «espelho», que lhe mostrava apenas o lado de fora desta realidade - um conhecimento dos olhos que precisa de fundir-se com a sageza do coração...
E assim, naquela tarde, a última em que nos encontrámos, vimos no nosso amigo, num sorriso breve, quase feliz, uma aceitação de um outro norte, um abandonar das velhas conclusões que não traziam afinal qualquer resposta aos seus fundos problemas.
E não pude deixar de lhe dizer, saudando essa clareira na sua floresta de sombras, mas lamentando também o retardar da tranquilidade possível:
- Oh Vergílio, tudo afinal tão próximo da compreensão procurada... Se tivesse aceitado mais cedo o desafio da viagem, teria podido evitar tanta amargura, tanta inquietação...
E ele respondeu, com um sorriso entre humilde e afectuoso:
- Então eu não me posso enganar?...
Todos ficámos em silêncio.
O aroma dos pinheiros permeava a casa. Lá fora o Sol esmorecia...
Senti como que um halo de quietude a envolver-nos a todos.
Naquele reconhecimento do «engano» havia já uma viragem, uma promessa de aprofundamento do diálogo, numa abertura a novas «descobertas».
Mas o diálogo iria para sempre ficar inacabado... E não haveria mais necessidade de interrogações e de respostas...
Uma leve brisa, entrando pela janela entreaberta, trazia o som dos longes, afinal tão perto... Tão perto como a vida, tão perto como a morte, tão perto como o Amor.
E o pensamento, naturalmente aquietado, abria espaço a uma profundidade que desconhecíamos...
Nesse estado meditativo, desperto, nesse silêncio do pensamento e das palavras, todos nos sentíamos mais próximos...
Quando nos levantámos para nos despedir, podíamos sentir no amigo uma paz nova sublinhando o olhar...
Já com sérios problemas de saúde, a ideia da morte parecia não o atormentar. A ponto de, como diz a nossa amiga Regina, «ele se ter deixado morrer com um sorriso de verdadeira beatitude»...
Depois... só o Silêncio - que em nós fica habitando, além da onda regressada ao Mar...

-Maria Beatriz Serpa Branco, "Diálogo Inacabado", in In Memoriam de Vergílio Ferreira, Maria Joaquina Nobre Júlio (org.), Lisboa, Bertrand, 2003.

"Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"

"Um homem novo recria-se-me na transparência do seu ser. Sinto-o leve e lúcido, instantâneo e incandescente, por entre as cinzas que o fogo deixou. Frente à noite que submergiu os homens e as coisas, frente à anulação da vida transaccionável e plausível, na recuperação deste início do mundo, o homem primordial que em mim sobe tem a face atónita de uma primeira interrogação.
[...]

A invenção de um novo mundo não é uma invenção de ninguém. Não está na nossa mão criá-lo; está só, quando muito, ajudar ao seu parto. E todavia - sabemo-lo bem - é em nós que ele se gera; mas tão longe donde estamos, que só já quando irrevogável o sabemos. Um mundo acontece na escolha indeterminável de nós. Assim pois, testemunhas apenas à superfície desse acto de criação, instrumentos que se ignoram para a grande obra invisível, anterior à obra visível, nós cumprimos sempre as ordens que ninguém deu e não as pudemos pois discutir. [...]

[...] Frente ao grande sono dos homens que o esqueceram, na atenção inexorável ao sem limite de mim, a minha vigília arde como um fogo assassino. É um fogo alto e poderoso. Lume breve na minha intimidade, na brevidade de um pequeno ser, eu, anónimo e avulso, ocasional e frágil - eu. E todavia, esse lume vibra de vigor, brilha único e intenso contra o assalto da noite. Trago em mim a força monstruosa de interrogar, mais força que a força de uma pergunta. Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"

- Vergílio Ferreira, Invocação ao Meu Corpo, Lisboa, Bertrand, 1994, 3ª edição, pp.13-15.

Entre

Entretanto, Zaratustra olhava a multidão, e assombrava-se. Depois falava assim:
“O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.
[...]
Sucedeu, porém, qualquer coisa que fez emudecer todas as bocas e atraiu todos os olhares.
Entrementes pusera-se a trabalhar o volteador; saíra de uma pequena porta e andava pela maroma presa a duas torres sobre a praça pública e a multidão.
Quando estava justamente na metade do caminho abriu-se outra vez a portinhola, donde saltou o segundo acrobata que parecia um palhaço com as suas mil cores, o qual seguiu rapidamente o primeiro. “Depressa, bailarino! — gritou a sua horrível voz. — “Depressa, mandrião, manhoso, cara deslavada! Olha que te piso os calcanhares!
Que fazes aqui entre estas torres? Na torre devias tu estar metido; obstrues o caminho a outro mais ágil do que tu!” E a cada palavra se aproximava mais, mas, quando se encontrou a um passo, sucedeu essa coisa terrível que fez calar todas as bocas e atraiu todos os Olhares; lançou um grito diabólico e saltou por cima do que lhe interceptava o caminho.
Este, ao ver o rival vitorioso, perdeu a cabeça e a maroma, largou o balancim e precipitou-se no abismo como um remoinho de braços e pernas. A praça pública e a multidão pareciam o mar quando se desencadeia a tormenta. Todos fugiram atropeladamente, em especial do sítio onde deveria cair o corpo.
Zaratustra permaneceu imóvel, e junto dele caiu justamente o corpo, destroçado, mas vivo ainda. Passado um momento o ferido recuperou os sentidos e viu Zaratustra ajoelhado junto de si. “Que fazes aqui? — lhe disse. Já há tempo que eu sabia que o diabo me havia de derrubar. Agora arrasta-me para o inferno. Queres impedi-lo?”
“Amigo — respondeu Zaratustra — palavra de honra que tudo isso de que falas não existe, não há diabo nem inferno. A tua alma ainda há de morrer mais depressa do que o teu corpo; nada temas”.
O homem olhou receioso. “Se dizes a verdade — respondeu — nada perco ao perder a vida. Não passo de uma besta que foi ensinada a dançar a poder de pancadas e de fome”.
“Não — disse Zaratustra — fizeste do perigo o teu ofício, coisa que não é para desprezar.
Agora por causa do teu ofício sucumbes e atendendo a isso vou enterrar-te por minha própria mão”.
O moribundo já não respondeu, mas moveu a mão como se procurasse a de Zaratustra para lhe agradecer.

vidamorte

A morte vive no corpo em modo de inspiração psíquica
e a vida morre na alma em modo de eco que o corpo continuamente propaga.

Alentejo



                                                     (foto R)

Algures no Além do Rio
depois da areia
a meio do amarelo

abrem-se subitamente
uma porta e uma janela.
Não é verdade que apenas quando uma porta se fecha uma janela se abra,
não é verdade o contrário
ambas as crenças são tijolos inconsistentes da arquitectura da mentira.
Na realidade das coisas do mundo
desde antiga
mente
portas e janelas abem-se
simultaneamente
para o profundo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Três médicos e um funeral

Summer Night de Liang Feng
O imperador da China encontrava-se à beira da morte. Os sábios e médicos da corte procuravam uma solução mas o homem piorava. A situação era políticamente instável e alguns ministros tomaram a decisão de procurar um médico fora dos muros da corte. Decisão muito arriscada mas que foi necessária dada a difícil situação que atravessava a nação.

Pouco depois os espiões do reino chegavam com a informação de que um escuro médico de um bairro da cidade de Pekim podia ser o homem que precisavam.

- Que venha imediatamente- disse o primeiro ministro. Já tinha que estar aqui!
E aí podéis ver um homem de mediana idade, de cabelos grisalhos, aspeito singelo e modos naturais, sem afectação alguma. Era como se a presença na corte o intimidasse mas, ao meso tempo, não lhe causasse impressão. Estranho paradoxo que tem uma explicação: ao seu lado os homens pareciam vulgares e isso avergonhava-o. Era como se interiormente disesse:
- Desculpem, não foi ideia minha o de estar aqui. Não quero incomodar os seus assuntos.

Por outro lado podia sentir a inveja e a expectação malevolente dos cortesãos.
Bem, o caso é que o médico achegou-se ao imperador e deu-lhe a beber uma poção, que renovou durante três dias.

O imperador curou totalmente. E foi uma felicidade mesmo para os invejosos que viram que as suas cadeiras já não perigavam.
O imperador falou para o médico:

- Que notável que um homem do teu talento só seja conhecido num pequeno bairro de Pekim. Poderias explicar a que se deve a tua discreção?

- Veréis, majestade- disse o médico. Eu só sou o mais pequeno de três irmãos. E todos somos médicos.

- Quem são então os teus famosos irmãos?-disse o imperador.
- Majestade, desculpe, mas não está a compreender o que lhe estou tentando dizer. Os meus irmãos, dos que eu aprendi, são menos conhecidos do que eu. O do meio só é conhecido na nossa rua. E o mais velho, o verdadeiro sábio, só é conhecido na nossa casa. Fora da nossa casa ninguém pensa que saiba nada de medicina. Assim é a nossa vida.
O imperador deu ordem de que trouxessem a esse médico desconhecido e oculto para o seu palácio. Queria tê-lo ali ao seu serviço para sempre.

Mas não houve sorte, pois o imperador foi informado de que o médico oculto acabava de falecer.


Todos olharam para o irmão, ainda presente. Este falou:
- Agora compreendo as palavras do meu irmão quando dizia que na verdadeira medicina era o médico o que pagava.

Poesia do Olhar

Na densa névoa
Que está a ser gritado
Entre colina e barco?

Haiku (Yugen)

Os nossos olhos só vêem
o enfolar das ondas
e não a força que as eleva.

Raça infeliz
de memória perdida
no imenso cone do tempo.

(Maria Sarmento, Memória das Naus, Arion, 1999)

"Cosmo a cosmo, nascemos em cada coisa" - Maria Bueno


na brisa o que a leva
silêncio que fica
tudo flore e fenece 




A Razão é outra e é Louca

- António Maria Lisboa

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Ter pai é ser-se abandonado" - Natália Correia


Salvador Dali, "The transparent simulacrum of the feigned image", 1938  

No sítio em que os Transparentes dão o nome de Terra à estrela cadente dos répteis repartida em calafrios pedestres, a árvore genealógica dá frutos de crianças estranguladas. Descender é transportar um cobarde adiamento que em nós se faz o deserto de poros que não deixa passar a vida. Os pais pagam as lições aos filhos para eles aprenderem a não ser deuses. Mas quando o filho descobre que o professor é o pai a espreitá-lo atrás de um cacto de dentes canibais, bate com o pé e as batidas formam as sílabas do seu corpo sem peso. Porque a força da gravidade é a certeza antiga dos sáurios não poderem voar nos descendentes.[…] 
Descender, descenda quem servir de escadote à autofixação dos cartazes que anunciam a sua vida. A minha vida não me foi anunciada. Comi-a até achar o seu sabor. Porque o sabor é a certeza daquilo que convém a cada um. Os que tudo envenenam com a sua vida amarga não têm paladar. São torres abandonadas pelos ascendentes que a elas pontualmente regressam para celebrar o baile anual dos morcegos. Acabo de vos descrever o historiador. Reproduzo-me, por isso, ao arrepio do tempo. Tudo começa no fim como o rio na foz que exige a nascente para que os passos sonâmbulos da água que se sonha um rio se despenhem nas passadas insones de um mar por sua vez modeladas por um outro fim que precisa desse andamento. 
Natália Correia, “A mosca iluminada”, in “Poesia Completa”, Publ. Dom Quixote, Lisboa, 2000, pág. 311.

(In) Dilucidações do Real

Fonte: Imagen do Google

Tal como o real não é linguagem, nem tem linguagem, é, portanto, uma “existência de grau zero”; uma evidência pura e terrível, para o nosso olhar, assim a leitura do real é a criação mesma da linguagem, múltipla na sua aparente fisicidade e peso. O verbo revisitado, sempre disponível para novas e múltiplas leituras e para a construção de novos reais, aproxima-se e afasta-se do real, volteando sempre, como ave solta, sobre o firmamento do real. O Real está para além do espaço e do tempo, como a linguagem está para além e para lá dos nomes. Pode e deve a linguagem ser ponte suspensa sobre a compreensão do outro, como realidade simultânea e coexistente. Pode a compreensão do mundo passar sem o real? Ultrapassar a linguagem?
O real pode ser (e é) uma inifinidade de “inexistências” reais, uma rede fina e infinita de leituras para o olhar que o tenta, em vão, apreender, como um jogo de ilusórias e caóticas redes presentificadas e equilibradas em diferentes pontos que não vemos. O real é. Para lá da linguagem e do desejo da limitação e da apreensão. O real não é só relação, como a linguagem não é só possibilidade da poesia se manter desejo. A linguagem deixa de ser representação do mundo, quando, não o nomeando, nem o descrevendo, esse tal real é instante que fulgura ou desaparece quando não é olhado pelo olho, sempre “plástico” da linguagem; sempre que toca o infinito do não dito, do não-nome que brilha e fulgura em todo o real. Ou seja, só há real para a fuga da palavra, quando o poema é mudo. O real, então, fala, ou ausenta-se como a Saudade. O real é como o paraíso. Original fonte de ser que ultrapassa e dissemina tudo em todas as direcções, tornando-se o abissal Nada. O Real é o Nada?
O real é uma mudez gritada. Como uma existência que, sendo exterior, necessita de uma linguagem que a adentre, que a penetre, assim a linguagem tem o olhar cego que busca o lugar da compreensão do real e da sua absorção. Consubstanciando-se nele, ou dele se ausentando, como no caso dos loucos às voltas com a liguagem sem real, e o pensamento em delírio, sem referente, como em alguma Poesia lemos. A Realidade não precisa da linguagem para existir, mas pouco ou nada é sem o olhar que a encontre, ou desencontre, ou a ele se furte.
O olhar é talvez a forma da solidão mais devastadora, que a poetas e outros artistas se revela como abismo. O olhar é uma ausência que nos visita. A linguagem de pouco serve sem o "mar" mutável do Real. Seremos como os “fala-sós” quando olhamos o abismo da própria linguagem, essa ausência presente que se molda à nossa sensibilidade, à imaterialidade superior de uma religação profunda com o verbo que para sempre nos falta, e sempre se insinua como o mistério do Real. O seu instante irruptivo, ou o hialino não ser da linguagem. A brancura da neve que nos silencia e nos cala, por ausência de referente para essa presença pura, inapreensível. Por isso dizemos que a linguagem é canto e sopro, e nada mais dizemos que valha a pena ao olhar. A realidade é um multiplo espelho sem separação, onde nos vemos naturalmente de todos os ângulos e em tudo nos vemos semelhantes e diferentes, na relação, no desenho dos múltiplos reais impressos nos nossos sentidos, como relação e participação, como presentificação. Mas, sobretudo, como religação e saída do labirinto, deixando tombar as babélicas torres para abrir as pontes, sobrevoando-as. O real e a linguagem são, pois, como certos jogos em que, para cobrir um espaço deixamos outro sem ocupação, cego o olhar nesse jogo interminável onde multiformes, múltiplos e multifacetados peixes voadores que se são escapando pelas malhas, véus, de um labirintado abismo, imenso caleidoscópio que sempre nos interroga o olhar. Direi então como ouvi dizer da poesia: se um dia me perder do real, sigo o rasto da palavra: "Verbo escuro" sem altura nem fundo.

domingo, 25 de outubro de 2009

Shibumi


Li uma vez, há muitos anos, um livro com o título Shibumi. Era de um autor do qual nunca ouvira falar e que dava pelo estranho nome de Trevanian. O personagem principal, Nicholai Hel, órfão, é educado por um general japonês e costumavam jogar Go juntos (um jogo japonês de estratégia). Quando finalmente, passados anos, Nicholai ganha ao general, ele decide mandá-lo completar a sua instrução com um famoso professor de Go, chamado Otake-san. E informa Nicholai de que o futuro mestre possui a qualidade do shibumi. Nicholai, estranho ao conceito, pergunta ao general o que é o shibumi e então o general explica, e aqui cito o livro: “… o shibumi tem a ver com um grande requinte subjacente a aparências vulgares. É uma afirmação tão exacta, que não é ousada, tão vibrante que não precisa de ser bela, tão verdadeira que não tem de ser real. … Um silêncio eloquente. Na conduta, trata-se de humildade sem modéstia. Na arte, onde o shibumi assume a forma de sabi, quer dizer uma simplicidade elegante, uma parcimónia articulada. Na filosofia, onde o shibumi aparece como wabi, significa uma tranquilidade espiritual que não é passiva; trata-se de existir sem a ansiedade da vivência. E na personalidade de um indivíduo é… autoridade sem domínio.”
No final, o general oferece a Nicholai uma caixa de sândalo embrulhada num pano cru e Nicholai “fez uma vénia de agradecimento e pegou no embrulho com grande ternura; não expressou a sua gratidão com palavras inúteis. Era o seu primeiro acto consciente de shibumi.
Apresento de seguida algumas imagens do Japão que, para mim, representam o shibumi. O shibumi é visível na natureza, à superfície do caos, e tem a qualidade de nos alegrar o coração quando o descobrimos. O shibumi existe também, por vezes, nas relações humanas, nas mais marcantes obras de arte, num rosto que dorme, nos arranjos florais do Ikebana, no sussurrar do vento nos bambús ou na preparação de uma refeição. Na realidade, podemos ir ao encontro do shibumi em todo o lado.


Fotografia de Sylvester Adams

Fotografia de Frank Carter

Fotografia de Frank Carter

"Olhar é desaparecer" - António Maria Lisboa *



"Tal como os querubins e os serafins, será o solitário apenas olhar"
Abba Bessarion **



  
  *   "Poesia de António Maria Lisboa", Assírio e Alvim, Lisboa, 1977, pág. 124. 
* *  "Paroles des Anciens - Apophtegmes des Pères du Désert", Éditions du Seuil, Paris,1976, pág.45

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Que significa a visão e enigma de Zaratustra?

Liberto do anão que lhe pesava sobre os ombros, o qual, proclama, não conhece e não pode suportar o seu “pensamento abissal (abgründlichen Gedanken)”, Zaratustra detém-se junto de um portal (Torweg, que também significa literalmente “portão louco”), em cujo frontão está inscrito o nome “instante”, onde “se reúnem dois caminhos” frontalmente opostos, que ninguém ainda seguiu “até ao fim”: um estende-se para trás, o outro para diante e ambos duram uma eternidade. Formula então perguntas que simultaneamente se respondem: “Se alguém, todavia, seguisse por um destes caminhos, sem parar e até ao fim, julgas […] que […] se oporiam sempre?”. Contemplando o caminho eterno que se estende para trás, não deverá tudo o que é capaz de correr já o haver percorrido pelo menos uma vez? E não deverá tudo o que pode suceder já haver assim sucedido? Se tudo já foi, não devem também aquele portal, a aranha que rasteja ao luar, o luar, Zaratustra e o anão já haver existido? E não estará tudo tão intimamente interligado que aquele instante não arraste atrás de si todas as coisas futuras, incluindo a si mesmo? Não deverá tudo o que pode correr ter de percorrer uma vez mais o longo caminho que se estende para diante? Não será assim necessário que Zaratustra, o anão e todos percorram esse “longo e temível” caminho futuro e do passado regressem àquele instante?

Ao dizer isto, Zaratustra falava “em voz cada vez mais baixa”, com medo dos seus “próprios pensamentos e da sua oculta intenção”, quando ouve uivar um cão. Tudo se desvanece e encontra-se só perante um jovem pastor que se contorce, com o rosto desfigurado pela repugnância e pelo terror, pois uma forte cobra negra se lhe introduziu na boca, mordendo-lhe a garganta. Começa a puxar pela serpente, sem sucesso, até que uma voz grita pela sua boca: “Morde! Morde! / Arranca-lhe a cabeça! Morde!”. Ao gritar, “espanto, ódio, nojo, piedade”, tudo o que em si “trazia de melhor e de pior”, de si jorrava “num único grito”. Aqui Zaratustra interrompe a narrativa para pedir a todos, “exploradores” e “aventureiros” ou não, que lhe decifrem o enigma daquela visão” que é simultaneamente “previsão”: “Que vi então em imagem? E qual é o que deve chegar um dia?”; “Quem é o homem em cuja garganta se introduzirá assim o que há de mais negro e de mais pesado no mundo?”

Retomando a narrativa, o pastor morde firmemente a cabeça da serpente e cospe-a para longe, levantando-se “com um salto”. Já não é então pastor nem homem: “transformado, transfigurado (iluminado?), ria”, ria como nenhum homem o fez na terra. E o capítulo termina com a confissão:

“Ó meus irmãos! Ouvi um riso que não era um riso humano, e agora devora-me uma sede, uma saudade (Sehnsucht) que nada aplacará.
A minha saudade (Sehnsucht) daquele riso devora-me; oh!, como posso tolerar ainda a vida! E como tolerar agora a morte!”

- Fragmento da comunicação "O Eterno Retorno em Friedrich Nietzsche e Raul Proença", a apresentar no dia 29 de Outubro, no Colóquio "Proença, Cortesão, Sérgio e o grupo "Seara Nova"", que decorre de 28-30 de Outubro no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A todas os navegantes e saudosos do oceano cósmico, que nos é ventre e firmamento




                                            Atlante idade

Fica entre os continentes que jamais conhecerei, quais pulmões
de mim, faca líquida que delimita o aqui e o lá.

Aquém, onde espelha o que não sou, há uma aquátil película
que inunda a superfície de meu fôlego: sou o que não é ainda…

Além, na extensão sem lonjura que me é remo, sou o que em mim é
o que hei-de ser: hei-de ser o que sou já…

É peixe alado o que em mim nada, ou navegue. Ignoro náutico o voo
dos atlantes que não houve: tenho meu leme na lemúria.

Seres sem idade habitam a profundura que não hei. Sem nome e com silêncio,
o ponderar medito dos recifes em que a alma desencalho, a gaguejar. 




A obra em 4 volumes “Le morte Darthur; the book of King Arthur and of his noble Knights of the Round table” (A Morte do Rei Artur; o livro do Rei Artur e dos Seus Nobres Cavaleiros da Mesa Redonda ), escrito por Sir Thomas Mallory e ilustrado com 48 estampas por William Russell Flint, numa edição de 1921, é um registo digno da nossa atenção. Sir William Russell Flint (1880 - 1969) foi um artista escocês que adquiriu renome pelas suas pinturas com aguarelas. Foi presidente da Real Sociedade da Gran Bretanha de Pintores de Aguarelas (actualmente a "Real Sociedade de Aguarela") de 1936 a 1956, e foi nomeado cavaleiro em 1947. Os seus primeiros trabalhos foram ilustrações para "el Illustrated London News", de 1903 a 1907 de acontecimientos da época. O primeiro livro que ilustrou foi “As minas do rei Salomão” em 1905, seguido da obra “A Imitação de Cristo” em 1908, posteriormente dois volumes de “As Operas de Saboia” e “Marco Aurelio” em 1909 e 1910, e entre 1910 e 1911 a obra mencionada acima em 4 tomos. Continuou com “Os Contos de Canterbury” em 1913 e “A Odisseia” em 1914, apesar deste ultimo devido à 1.ª Guerra Mundial ser editado em 1924.

presente perpétuo

Devemos considerar o estado presente do universo como um efeito do seu estado anterior e como causa daquele que se há-de seguir. Uma inteligência que pudesse compreender todas as forças que animam a natureza e a situação respectiva dos seres que a compõem — uma inteligência suficientemente vasta para submeter todos esses dados a uma análise — englobaria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do mais pequeno átomo; para ela, nada seria incerto e o futuro, tal como o passado, seriam presente aos seus olhos.
LAPLACE, Ensaio Filosófico sobre as Probabilidades
.
O Indício perpétuo, do último ponto indeterminável, que para ainda além do infindo, ultrapassa a origem, elevando-a a eterno presente.

Edmond Jabès: Sobre o deserto


Não se pode falar do deserto como de uma paisagem, pois ele é, apesar da sua variedade, ausência de paisagem. Essa ausência concede-lhe a sua realidade. Não se pode falar do deserto como de um lugar; pois ele é, também, um não lugar; o não-lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar. Não se pode pretender que o deserto seja uma distância, porque ele é, ao mesmo tempo, real distância e não-distância absoluta por causa da sua ausência de marcas. Ele tem, como limites, os quatro horizontes, sendo o que os liga e os separa. Ele é a sua própria separação onde se torna lugar aberto; abertura do lugar. Não se pode pretender que o deserto seja o vazio, o nada. Não se pode, tampouco, pretender que ele seja o fim, uma vez que ele é, igualmente, o começo.

Edmond Jabès in Un étranger, avec, sous le bras, un livre de petit format, Paris, Editions Gallimard, 1989, p. 107-8

Fotografia National Geographic: padrões de erosão no deserto entre o Nilo e o Mar Vermelho.

"Vamos para o silêncio do mar ou da montanha, porque o ruído altera todas as relações do homem com verdade" - Leonardo Coimbra



 Herbert Draper, "A Water Baby"

Grande é o homem que conserva sempre em si a luz das primeiras horas; é água à boca da fonte, fogo interior aflorando em jeito de afeiçoar a Terra.
O Universo vai para o Uno da Graça, vindo do Uno do Caos.
É Caos, multiplicidade dispersa, multiplicidade amorosa. E é-o contemporaneamente. Não há uma evolução rectilínea que do caos leve à luz; há, agora e sempre, identidade da origem, pluralidade de seres, identificação final pela penetração amorosa.
As primeiras horas são de Alegria inocente, anterior ao pecado original.
Impropriamente se chama original ao pecado das criaturas. Este é a absolutização de cada criatura, esquecida a origem, tentando uma ilusória unidade pelo aniquilamento do Universo, pela absorção dos outros, pela omnipotência da palavra volvida em todo.
A criança é anterior ao pecado das criaturas.
Ela é a promessa infinita, o homem a exígua realização.

Leonardo Coimbra, “A Alegria, a Dor e a Graça”, Livraria Tavares Martins, Porto, 1956, pág. 26.

sábado, 24 de outubro de 2009

Não deixa de ser uma enorme vaidade



Não deixa de ser uma enorme vaidade imaginar que estamos despertos no meio dos que dormem. A nossa vaidade leva-nos a inventar estrelas ardentes que atiramos aos outros, sabendo que entre eles não há um único capaz de segurar uma estrela com a ponta do dedo mindinho. Imaginamos que estamos despertos, mas nenhum de nós tem um sorriso na cara, aquele sorriso mistura de dentes e riso, amor e humildade, dos que enterrados na carne chegaram finalmente à raíz e dela beberam a primeira água-luz perfumada e limpa. Se nem o sorriso temos, muito menos temos asas ou sabemos criar estrelas, nem tratámos de quebrar os ossos, rasgar veias e artérias, dilacerar órgãos e romper a carne e trepar pela raíz acima, desfeitos e nús, em pleno vôo, nem parámos a meio, por compaixão, nem mesmo nos sentámos então de pernas cruzadas a rir, de nós e dos outros. E se mesmo assim, algum de entre nós tivesse passado por tudo isto, teria fingido dormir de novo, com um só olho aberto, à espera dos seus irmãos?


Escultura: Sleeping Muse, de Constantin Brancusi (1876 - 1957), Roménia


"Um corpo de saudade com alma de espuma" (atman e anatman) - estados de consciência, meditação, saudade e libertação

"PROSA DE FÉRIAS"

"A praia pequena, formando uma baía pequeníssima, excluída do mundo por dois promontórios em miniatura, era, naquelas férias de três dias, o meu retiro de mim mesmo. Descia-se para a praia por uma escada tosca, que começava, em cima, em escada de madeira, e a meio se tornava em recorte de degraus na rocha, com corrimão de ferro ferrugento. E, sempre que eu descia a escada velha, e sobretudo da pedra aos pés para baixo, saía da minha própria existência, encontrando-me.
Dizem os ocultistas, ou alguns deles, que há momentos supremos da alma em que ela recorda, com a emoção ou com parte da memória, um momento, ou um aspecto, ou uma sombra, de uma encarnação anterior. E então, como regressa a um tempo que está mais próximo que o seu presente da origem e do começo das coisas, sente, em certo modo, uma infância e uma libertação.
Dir-se-ia que, descendo aquela escada pouco usada agora, e entrando lentamente na praia pequena sempre deserta, eu empregava um processo mágico para me encontrar mais próximo da mónada que sou. Certos modos e feições da minha vida quotidiana - representados no meu ser constante por desejos, repugnâncias, preocupações - sumiam-se de mim como emboscados da ronda, apagavam-se nas sombras até se não perceber o que eram, e eu atingia um estado de distância íntima em que se me tornava difícil lembrar-me de ontem, ou conhecer como meu o ser que em mim está vivo todos os dias. As minhas emoções de constantemente, os meus hábitos regularmente irregulares, as minhas falas com outros, as minhas adaptações à constituição social do mundo - tudo isto me parecia coisas lidas algures, páginas inertes de uma biografia impressa, pormenores de um romance qualquer, naqueles capítulos intervalares que lemos pensando em outra coisa, e o fio da narrativa se esbambeia até cobrejar pelo chão.
Então, na praia rumorosa só das ondas próprias, ou do vento que passava alto, como um grande avião inexistente, entregava-me a uma espécie de sonhos - coisas informes e suaves, maravilhas da impressão profunda, sem imagens, sem emoções, limpas como o céu e as águas, e soando, como as volutas desrendando-se do mar alçante do fundo de uma grande verdade; tremulamente de um azul oblíquo ao longe, esverdeando na chegada com transparências de outros tons verde-sujos, e, depois de quebrar, chiando, os mil braços desfeitos, e os desalongar em areia amorenada e espuma desbabada, congregando em si todas as ressacas, os regressos à liberdade de origem, as saudades divinas, as memórias, como esta que informemente me não doía, de um estado anterior, ou feliz por bom ou por outro, um corpo de saudade com alma de espuma, o repouso, a morte, o tudo ou nada que cerca como um grande mar a ilha de náufragos que é a vida.
E eu dormia sem sono, desviado já do que via sentir, crepúsculo de mim mesmo, som de água entre árvores, calma dos grandes rios, frescura das tardes tristes, lento arfar do peito branco do sono de infância da contemplação."

-Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim (2006), pp.188-189.

O real é linguagem?

"O real não tem linguagem, nós é que o lemos através da diversidade de modos por que esta se configura, para fazê-lo presente, ainda que em ausência desse algo que nos visite ou se nos furte"

Importa questionar o que é ou pode ser linguagem e o que ocorre quando consideramos ser desta ou daquela forma ou melhor quando estamos nessa consideração.

Se preferirmos a dualidade, a presença e ausência, a separação entre linguagem e real, por várias razões dialécticas e poéticas tiramos prazer de relembrar essas voltas criativas do dizer que depois se lembra do que estava ausente, (embora interdependentemente presente ou virtualmente); essa visão dos dois lados, um e depois o outro e ambos, será isso a linguagem, o devir que ocorre nesse sábio vir à presença, será essa diferença, o criativo, real? Sim.

E se o real for linguagem, o que não é?
E o que é?
Se for, o relativo não está separado do absoluto, então tudo é perfeito?! Parece que sim embora um pouco como na fisica quântica ou na linguística de Saussure; só vemos uma concretização, ilusão das condições contextuais, mas as outras, infinitas possibilidades, estão ali. A linguagem é inevitavelmente construção e encontro do ponto paradoxal onde as sensibilizações dadas pela concretização aparente se abrem espontaneamente às outras possibilidades e as tornam mundo. Considera-la simultâneamente o contingente e o último leva-nos à relação infinita, sem pontos de apoio, a interrogação que é pura resposta (vazia, existencial); o relativo pode ser visto e isso é a realização do absoluto.
(henrique)

"Este quase-nada efervescente"

Observa então os objectos que advêm no exterior.
Mais enganadores que falsas aparências,
São, como a água de uma miragem,
Evidentemente um sonho, uma alucinação mágica,
Semelhante ao reflexo da lua na água, semelhante ao arco-íris.

No interior, observa a tua mente:
Mesmo que capte a atenção quando não cuidamos,
Examinando-a, a sua “própria natureza” não se pode encontrar;
Um nada que se faz passar por alguma coisa, vazio e transparente;
Não se o pode definir dizendo: “é isso !”,
Este quase-nada efervescente.

Contempla o que se mostra
Em cada um dos dez orientes:
Qualquer que seja o aspecto,
A Realidade, sua essência,
É a vacuidade, espírito do abismo.

Sendo todas as coisas da natureza do vazio,
Visto ser o vazio que observa o vazio,
Quem esvaziará o que há a esvaziar ?

A ilusão mágica é testemunha da ilusão mágica,
E o extravio observa o extravio:
A partir daí que fazer das numerosas categorias
Tais “vazio” e “não-vazio” ?

[...]

“Dualidade”, “não dualidade” e assim por diante,
Todos estes quadros, ficções extremistas,
Deixa-os, como os remoinhos de um rio,
Apagarem-se naturalmente em si mesmos.

- Nyoshül Khen Rinpoche [Tibete, 1932-1999), "O espelho das chaves” [excertos], Le Chant de l'Illusion et autres poèmes, traduzido do tibetano, apresentado e anotado por Stéphane Arguillère, Paris, Gallimard, 2000, pp.87-88.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Arte do verbal, do olhar - O Insustentável Peso da Matéria

Rafal Olbinski

Desloca-se sobre o verde da terra. Gira, lenta e vagarosa sobre si mesma, a geodésica de sal e ar. As nuvens coladas ao algodão da paisagem sobem em espiral para fora de dentro do espaço com torres e arcos arredondados. As torres são a geometria de uma levitação. A fundura espiralada de uma maçã de Magritte, lembrada na proporção clara de um azul-mais-que-perfeito. A profundidade sobe ao cimo. A vertical surrealidade da árvore é um píncaro, uma agulha que sombreia a horizontal e deitada mancha no solo. Florirá o caduceu, a vara de Moisés, até a flor de Alexandria sobre os montes onde dorme a geografia do corpo dos homens. A montanha por onde o sol penetra até à lisura de uma polida pedra. A fragilidade do cristal e a gota do orvalho que reflecte a lua e as águas pantanosas da chuva.
Olharás o Norte com os pés serpentinados no horizonte de pedra que sombreia a montanha azul; olharás por dentro do olho em fogo do Egipto a oblíqua deliquescência das rosas e da flor da claridade. A montanha azul é atravessada por gritos. Atravessa-se o grito por um buraco na curvatura da terra. Caímos de nós próprios. As raízes são pés de tamarineira e flor de olhos. As estátuas engolem o abismo, já os limoeiros e a hortelã refrescam os botões das rosas germinadas do sol, entre círcudos concêntricos e excêntricos. Atravessa-se a montanha para se chegar ao lugar do regresso. Estará fixo ao colar da deusa um diadema de lata. O mercuriano metal dos espelhos e dos lagos. Partirás do lugar de todos os lugares equidistante do mundo; de dentro e de fora dele; e nascerás aos olhos de deus como uma luz que gira; um olho cego do sol, lugar onde a raiz é folha e o espelho do olhar se demora ternamente na semente que vai entrando na terra como dela saem as asas entre duas montanhas a eterna espiral cai na inércia dos dias pisados. Como se houvesse tempo e tudo não tivesse acabado tão jovem em tudo o que germina. Gira sobre a roda dos dias a ausência do Real finistindo-se em canto.

“Como se pintar fosse um acto religioso, como se a pintura fosse concebida como memória, como se a memória fosse um manifesto poético” - Maria Gil, sobre a arte de José Ralha


Lembrando José Ralha, 
um dos que aqui está, ainda que nos não veja.



Fernando de Pessoa”, de José Ralha (1985)

Ainda a vida       

            A José Ralha,
poeta do, olhando, olhar alma 

In’pressiona, digi’tal, a bravura da grã
cerimónia à flor do elmo e d’armadura
– entre portas segredadas da alma
e aquela antimónia janela do corpo
que é véspera intérmina da batalha.

Alquímica, mercuriando a arte dos filósofos
plasma o artista nas cores, elementos
curiais de Amor, seu Senhor:
ofício maior da vida (morgano fado)
fechado a sete chaves por Maria.

Esperante do régio princípio
no retábulo da Pátria, o príncipe
de todos beija o todo em cada um
que sonha que não sonha: qual
metálica vigia do carro do triunfo.

Ao céu aberto da serrania do mundo,
no monte da lua, Cintra beija
ao fogo do secreto gotejo,
em amor perfeito, a tristeza álacre
e sacral do magno mistério -
Portugal: cerimonial de ciprestes d’algo.

* Poema inscrito no Livro de Honra por Donis de Frol Guilhade, aquando da exposição de José Ralha na Galeria Hexalfa, patente entre 4 de Maio e 5 de Junho de 2000, mostra subordinada ao tema “Da Divina Proporção”.


Até já, Mano!

"Inocente, como se apenas tivesse sido criado sem ter que nascer" - María Zambrano, "Claros del Bosque" (1977)

Da "pseudo-universalidade" do "reino do uniforme" como principal obstáculo ao "diálogo entre culturas"

"[...] vejo hoje o pensamento estranhamente desprovido perante o reino do uniforme que, pelo facto de atingir doravante os limites do planeta, estabelece a sua lei - lei da força oculta e não do direito; e que, para além do sentimento de perda, nostalgicamente experimentado mas culpabilizando-se a si mesmo por não saber harmonizar-se com a nova dimensão das coisas, este colectivo atolamento no uniforme não é na verdade criticado: que a sua pseudo-universalidade não é claramente analisada. Ora, é no entanto precisamente aí, creio, que o desejado diálogo entre culturas encontra o seu principal obstáculo; como também a sua maior utilidade. Pois, tomando a uniformização ambiente pelo universal, falha-se ao mesmo tempo o recurso - que não seja somente conservatório ou museológico - da diversidade das culturas; assim como o plano - que não seja somente de imitação ou de assimilação - sobre o qual elas poderiam encontrar-se"

- François Jullien, De l'universel, de l'uniforme, du commun et du dialogue entre les cultures, Paris, Fayard, 2008, p.37.

"O nosso conhecimento conduziu-nos aqui: a nenhures. E provou uma coisa: nada" - John Brockman

Se a ciência subalterna consiste em saber sem compreender, a intermitente semi-gnose do instante consistiria antes em compreender sem saber, isto é, em adivinhar, pois o instante só é incompreensível em si mesmo para quem, tratando-o como se fosse um intervalo, espera nele apreender uma estrutura. Chamemos, pois, mistério àquilo que não pode ser conhecido, mas que pode, em fragmentos e clarões espasmódicos, ser por vezes compreendido ou, ao menos, surpreendido: compreendido na sua efectividade incognoscível e desconhecido na sua natureza. [...] Compreender é sempre captar o instante, seja ele o fiat da decisão ou o fit da mutação.
Vladimir Jankélévitch,
Philosophie Prémière”, P.U.F., Paris, pág. 163 e seg.

A interculturalidade

"A interculturalidade não é nem folclore para descansar nem turismo para entreter. De facto, o encontro de culturas remonta aos alvores da história. Tem porém as suas dificuldades, sobretudo quando uma cultura se crê superior a outra - como tantas vezes sucedeu e não só nos nossos dias. Cada cultura é uma galáxia com vida própria. É portanto metodologicamente inadequado, ainda que por vezes possa resultar uma violação fecunda, aproximarmo-nos a uma cultura com as categorias de outra. Comove e aterra darmo-nos conta da confiança enorme que o Ocidente ainda tem nos seus instrumentos. É a força do mito. Porém os acontecimentos do mundo, depois da Primeira e sobretudo da Segunda Guerra mundial (que ainda designamos assim), estão a fazer perder ao "Primeiro Mundo" a confiança nos seus mitos e preparam-no para aproximar-se a outras civilizações com modos distintos dos da "missão", da "colonização" e do "desenvolvimento", ainda que seja apenas uma minoria sem força política a que clama que os velhos modelos já não servem para o entendimento, a paz e nem sequer para o bem-estar pessoal. São muitos porém, ainda, os que imaginam, por exemplo, que os direitos humanos, tal como "nós" os formulámos, são universais; e agora, com a melhor intenção, os querem ampliar a uma "ética global", quiçá porque ainda cremos que o mundo é redondo - e nós o seu centro"

- Raimon Pannikar, La experiencia filosófica de la India, Madrid, Trotta, 2000 [1997], p.13.