quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Pura Alegria

As Três Graças - Pintura de Oleg Zhivetin
É vivendo que eu encontro o êxtase - a simples sensação de viver é pura alegria.
Emily Dickinson

A pura alegria é este céu que, doido, estendido em azul infinito, tocado pelas árvores altas, debaixo das quais a terra está a florir constantemente. Pura Alegria é a catedral dos olhos na Sé santa do subido olhar sobre a espessura criadora da Terra. Terra debaixo e no interior da qual, na irrupção do momento eterno, a pedra e o ouro nos falam em sílabas e sopros de sons e de música. Pura alegria é a alma de todas as coisas, é todas as coisas terem alma no corpo. Em nós, humanos, a pura Alegria é a participação em toda esta dança: a dança dos elementos na dança do nosso ritmo singular. Eu sou. Não para mim, não em mim, não para o outro, mas no outro. Eu sou tu. Esta é a alegria. Que velada, ou real, parece ausente na instante Presença, e é presença pura na Ausência; sombra ou luz, afinada corda, ou dissonante nota. Isso é pura alegria de achar, não de procurar. Pura alegria é um jardim ser, todo ele uma fala limpa, uma cegueira extrema.
Cantar uma canção é reconhecer o rosto desfeito da claridade, ou o escuro medo de um verbo: lâmina afiada na face fina da lua. No seu contorno nítido e brilhante. Espectro de mim, é esse avesso e direito do coração colado ao céu-da-boca. E isto é Saudade e Amor. Saudade da silente presença do que existe no deserto do coração. Amor por ser na vibração de cada átomo, em cada fibra do ser, o “milagre” da existência do mundo e a Saudade de o não haver; a quietude que não é a da montanha na paisagem, senão a interior paisagem na montanha da alma. Alma que não é a do jardim deserto, que não é só a do homem na gruta do seu coração; nem é apenas a divina centelha fora de nós, de dentro. Pura alegria é ser ébrio de tudo, na Natureza de nós. Saudade de entre a Natureza e o Homem não haver cisão, mas ligação profunda, às vezes velada, e em seus véus descoberta e despertada; pura alegria é achá-la sem a procurar, por encontrar no milagre do canto a voz de deus saudosa a murmurar. Pura alegria é aquilo que é, para lá do visível. Isso é a pura alegria! Prisma de todas as cores, no movimento que em branco néctar as mistura a todas e as faz desaparecer no olho vesica de um infinito olhar.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A noite inventou as fortalezas e os muros que nos protegem contra o mistério tenebroso, a selva escura e os monstros mitológicos.

O esquecimento é que nos salva e nos conforma com a vida actual e nos submete às leis humanas.
O esquecimento é irmão da noite. Não nos atrevemos nas trevas; tacteamos, deixamo-nos guiar...
A noite inventou as fortalezas e os muros que nos protegem contra o mistério tenebroso, a selva escura e os monstros mitológicos.

A noite mete-nos na ordem e fecha-nos a porta do curral. A tempestade ruge, lá fora. Clarões sanguíneos penetram pelas frinchas do postigo. São os demónios que nos olham através dos buracos das paredes; farejam, inquietos e famintos. Encostamo-nos uns aos outros, trémulos de medo... Nem uma palavra mais alta, nem um gesto! Ordem e paz...

Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, pp.50-51

Dos muros como pontes

Há que descobrir que os aparentes muros das identidades - pessoais, culturais, religiosas, nacionais - são na verdade pontes que devido ao medo se desconhecem.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Manifesto "Refundar Portugal", Serpente Emplumada e Revista "Entre" - Por uma Vida Outra



Para quem sentir que Portugal é sinónimo de universalidade e que deve ser recriado de acordo com as grandes exigências e desafios planetários do século XXI, exortamos a que leia, reflicta e comente o Manifesto "Refundar Portugal", já com quase meio milhar de adesões no grupo de discussão para já criado no Facebook e no final deste post republicado. O Manifesto actualiza e concretiza o espírito presente no Manifesto da Revista "Nova Águia" e assume-se na continuidade das grandes propostas de reforma mental, cultural, social e política que tem sido apresentadas em Portugal desde o final do século XIX.

O Manifesto visa sair do mundo virtual e apresentar publicamente um conjunto de ideias urgentes para um Outro Portugal, que sirvam de plataforma a um movimento de intervenção cívica e cultural:

http://www.facebook.com/group.php?gid=161502509390&ref=ts

Quem desejar um blogue livre e louco, participe no Serpente Emplumada:

serpenteemplumada.blogspot.com

Quem quiser conhecer e participar num blogue dedicado ao diálogo entre tradições, culturas e civilizações, embrião de uma nova revista em parceria com a Associação Agostinho da Silva e com o movimento do Manifesto "Refundar Portugal", a lançar no início de 2010, visite e colabore na ENTRE:

arevistaentre.blogspot.com

Manifesto "Refundar Portugal"

2010 é o ano em que passa um século sobre a implantação da República em Portugal e no início de 2011 realizar-se-ão eleições presidenciais. Independentemente da questão do regime, 2010 impõe-se como um marco fundamental para lançar uma reflexão pública sobre o país e o mundo que temos e queremos. Reflexão tanto mais urgente quanto há sinais cada vez mais evidentes do crescente divórcio entre o Estado e a sociedade, traduzido em eleições onde a abstenção triunfa sistematicamente, fruto do descrédito galopante da classe política, da própria política e do deserto de ideias em que vivemos, mas também do comodismo e indiferentismo dos portugueses, que muito criticam, mas dificilmente buscam conceber alternativas e pô-las em prática.

Aqui se apresenta a proposta de um cidadão português que, no decurso da sua docência universitária, obra publicada e intervenção cultural, tem seguido com interesse e preocupação os rumos recentes de Portugal e do mundo. Convicto de que urge refundar Portugal, eis uma lista de prioridades para o país e o mundo melhor a que temos direito e que todos temos o dever de construir. Agradecem-se os contributos críticos, de modo a que a proposta se aperfeiçoe e complete e sirva de plataforma para a discussão pública e a intervenção cultural e cívica que visa, pelos meios que se verificarem ser os mais oportunos.

I – Portugal é uma nação que, pela diáspora planetária da sua história e cultura, pela situação geográfica e pela língua, com 240 milhões de falantes em toda a comunidade lusófona, tem a potencialidade de ser uma nação cosmopolita, uma nação de todo o mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações. Este perfil vocaciona-nos para o cultivo dos valores mais universalistas, promovendo o diálogo com todas as culturas mundiais. Os valores mais universalistas são aqueles que promovam o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, visando não apenas o bem da espécie humana, mas também a preservação da natureza e do bem-estar de todas as formas de vida animal, como condição da própria qualidade e dignidade da vida humana.

II – O nosso potencial universalista tem sido sistematicamente ignorado pelas nossas orientações governativas, desde a época dos Descobrimentos até hoje. Se no passado predominou a pretensão de dilatar a Fé e o Império, hoje predomina a sujeição da nação aos novos senhores do mundo, as grandes esferas de interesses político-económicos. Portugal está ao serviço da globalização de um paradigma de desenvolvimento económico-tecnológico que explora desenfreadamente os recursos naturais e instrumentaliza homens e animais, donde resulta um enorme sofrimento, um fosso crescente entre homens, classes, povos e nações, a redução da biodiversidade e o arrastar do planeta para uma crise sem precedentes.

III – A assunção do nosso potencial universalista implica uma reforma das mentalidades, com plena expressão ética, cultural, social, política e económica. Nesse sentido se propõem as seguintes medidas urgentes, que visam implementar entre nós um novo paradigma, convergente com as melhores aspirações humanas e com os grandes desafios deste início do século XXI:

1 – Portugal deve dar prioridade absoluta a um desenvolvimento económico sustentado, que salvaguarde a harmonia ecológica e o bem-estar da população humana e animal. A Constituição da República Portuguesa deve consagrar a senciência dos animais – a sua capacidade de sentir dor e prazer - e o seu direito à vida e ao bem-estar. Portugal deve aprender com a legislação das nações europeias mais evoluídas neste domínio, adaptando-a à realidade nacional.

2 – Portugal deve ensaiar modelos de desenvolvimento alternativos, que preservem e promovam a diversidade cultural, biológica e ecoregional. Há que promover a sustentabilidade económica do país, desenvolvendo as economias locais. Devem-se substituir quanto possível as energias não-renováveis (petróleo, carvão, gás natural, energia nuclear), por energias renováveis e alternativas (solar, eólica, hidráulica, marmotriz, etc.), superando o paradigma, a vulnerabilidade e as dependências de uma economia baseada no petróleo e nos hidrocarbonetos. Deve-se particularmente explorar as potencialidades energéticas dos nossos mais de 900 km de costa.

3 - Devem-se ensaiar formas de organização económica cujo objectivo fundamental não seja apenas o lucro financeiro. Deve-se assegurar o predomínio da ética e da política sobre a economia, de modo a que a produção e distribuição da riqueza vise o bem comum do ecossistema e dos seres vivos, a satisfação das necessidades básicas dos homens e a melhoria geral da sua qualidade de vida, bem como o acesso de todos à educação e à cultura.

4 - Deve-se investir num programa pedagógico de redução das necessidades artificiais que permita oferecer alternativas ao produtivismo e consumismo, fazendo do trabalho e do desenvolvimento económico não um fim em si, com o inevitável dano da harmonia ecológica, da biodiversidade e do bem-estar de homens e animais, mas um mero meio para a fruição de um crescente tempo livre de modo mais gratificante e criativo. Deve-se fiscalizar mais rigorosamente o crédito ao consumo, de forma a evitar o crescente endividamento das famílias.

5 – Há que criar um serviço público de saúde eficiente e acessível a todos, que inclua a possibilidade de optar por medicinas e terapias alternativas, de qualidade e eficácia comprovada, como a homeopatia, a acupunctura, a osteopatia, o shiatsu, o yoga, a meditação, etc. Estas opções, bem como os medicamentos naturais e alternativos, devem ser igualmente comparticipadas pelo Estado.

6 – Importa informar e sensibilizar a população para os efeitos nocivos de vários hábitos alimentares - nomeadamente o consumo excessivo de carne - , para o meio ambiente, a saúde pública e o bem-estar de homens e animais. Sendo uma das principais causas do aquecimento global, do esgotamento dos recursos naturais e do sofrimento dos animais, há que restringir e criar alternativas à agropecuária intensiva. Deve-se divulgar a possibilidade de se viver saudavelmente com uma alimentação não-carnívora, vegetariana ou vegan e devem-se reduzir os impostos sobre os produtos de origem natural e biológica.

7 - Portugal, a par do desenvolvimento económico sustentado, deve investir sobretudo nos domínios da saúde, da educação e da cultura, não só tecnológica, mas filosófica, literária, artística e científica. O Orçamento do Estado deve reflectir isso, reduzindo os gastos com a Defesa, o Exército e as obras públicas de fachada. Urge moralizar e reduzir os salários e reformas de presidentes, ministros, deputados e detentores de cargos na administração pública e privada, a par do aumento dos impostos sobre os grandes rendimentos.

8 - Redignificar, com exigência, os professores e todos os profissionais ligados à educação e à cultura. A educação e a cultura não devem estar dependentes de critérios economicistas e das flutuações do mercado de emprego. Os vários níveis de ensino visarão a formação integral da pessoa, não a sacrificando a uma mera funcionalização profissional. A par disto, há que sensibilizar as famílias para não abandonarem as crianças em frente dos computadores e dos maus programas de televisão. A televisão pública deve melhorar o seu nível, investindo mais em programas de informação e formação.
Nos vários níveis de ensino deve ser introduzida uma disciplina que sensibilize para o respeito pela natureza, a vida humana e a vida animal, bem como outra que informe sobre a diversidade de paradigmas culturais, morais e religiosos coexistentes nas sociedades contemporâneas. Nos mesmos níveis de ensino deve estar presente a cultura portuguesa e lusófona, bem como as várias culturas planetárias. Um português culto e bem formado deve ter uma consciência lusófona e universal, não apenas europeia-ocidental.
A meditação, com benefícios científicamente reconhecidos - quanto ao equilíbrio e saúde psicofisiológicos, ao aumento da concentração e da memória, à melhoria na aprendizagem, à maior eficiência no trabalho e à harmonia nas relações humanas - , deve ser facultada em todos os níveis dos currículos escolares, em termos puramente laicos, sem qualquer componente religiosa.

9 - Portugal deve assumir-se na primeira linha da defesa dos direitos humanos e dos seres vivos em todos os pontos do planeta em que sejam violados, sem obedecer a pressões políticas ou económicas internacionais. Portugal deve ser um lugar de bom acolhimento para todos os emigrantes e estrangeiros que o procurem para trabalhar e viver.

10 – Portugal deve aprofundar as relações culturais, económicas e políticas com as nações de língua portuguesa, incluindo a região da Galiza, Goa, Damão, Diu, Macau e os outros lugares da nossa diáspora onde se fala o português, sensibilizando a comunidade lusófona para as causas universais, ambientais, humanitárias e animais.

11 - Portugal deve promover a Lusofonia e os valores universalistas da cultura portuguesa e lusófona no mundo, dando o seu melhor exemplo e contributo para converter a sociedade planetária na possível comunidade ético-cultural e ecuménica visada entre nós por Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Portugal deve assumir-se como um espaço multicultural e de convivência com a diversidade, um espaço privilegiado para o tão actual desafio do diálogo intercultural e inter-religioso, alargado ao diálogo entre crentes e descrentes. Deve precaver-se contudo de tentações neo-imperialistas e de qualquer nacionalismo lusófono ou lusocêntrico. A Lusofonia não deve abafar outras línguas e culturas que existam no seu espaço.

12 - Verifica-se haver em Portugal e na Europa em geral uma grave crise de representação eleitoral, patente na elevada abstenção e descrédito dos políticos, dos partidos e da política, os quais, segundo a opinião geral, apenas promovem o acesso ao poder de indivíduos e grupos que sacrificam o bem comum a interesses pessoais e particulares, com destaque para os das grandes forças económicas. As eleições são assim sistematicamente ganhas por representantes de minorias, relativamente à totalidade dos cidadãos eleitores, que governam isolados da maioria real das populações, que os consideram com alheamento, desconfiança e desprezo, tornando-se vítimas passivas das suas políticas. O actual sistema eleitoral também não promove a melhor justiça representativa, não facilitando a representação de uma maior diversidade de forças políticas e limitando-a às organizações partidárias, o que contribui para a instrumentalização do aparelho de Estado, dos lugares de decisão político-económica e da comunicação social pelos grandes partidos.
Esta é uma situação que compromete seriamente a democracia e que a história ensina anteceder todas as tentativas de soluções ditatoriais. Há que regenerar a democracia em Portugal, reformando o estado e o sistema eleitoral segundo modelos que fomentem a mais ampla participação e intervenção política da sociedade civil, facilitando a representação de novas forças políticas e possibilitando que cidadãos independentes concorram às eleições. Deve-se recuperar a tradição municipalista portuguesa e promover uma regionalização e descentralização administrativa equilibradas, assegurando mecanismos de prevenção e controlo dos despotismos locais.
Há que colocar a política ao serviço da ética e da cultura e mobilizar a população para a intervenção cívica e política em torno dos desafios fundamentais do nosso tempo, com destaque para a protecção da natureza, o bem-estar dos seres vivos e uma nova consciência planetária. Há que mobilizar os cidadãos indiferentes e descrentes da vida política, a enorme percentagem de abstencionistas e todos aqueles que se limitam a votar, para a responsabilidade de reflectirem, discutirem e criarem o melhor destino a dar à nação. Há que, dentro dos quadros democráticos e legais, promover formas alternativas de intervenção cultural, social e cívica, que permitam antecipar tanto quanto possível a realidade desejada, sem depender dos poderes instituídos.

Convicto de que estas medidas permitirão que Portugal recupere o pioneirismo e criatividade que o caracterizou no impulso dos Descobrimentos, mas agora sem escravizar e explorar outros povos, apelo a que todos dêem o vosso contributo para a discussão, aperfeiçoamento e divulgação deste Manifesto. De todos nós depende que ele se constitua na plataforma de um movimento cívico e cultural de reflexão e acção, que nos arranque ao comodismo e passividade em que estamos instalados.

Vamos Refundar Portugal!

Saudações fraternas

Paulo Borges
pauloaeborges@gmail.com
Lisboa, 20 de Outubro de 2009

Entre o céu e o chão


A mão sobre a porta pintada de céu indica o chão. O mais firme caminho para a elevação.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Entre II

“No seio do sentido grego de devir desenvolvem-se, pois, tanto a Tradição do Ocidente, como a Civilização de Técnica, tanto a epistéme como a sua destruição. O gigantesco processo em que consiste a nossa civilização e cuja configuração actual domina agora sobre toda a Terra é, portanto, possível graças ao que os gregos pensaram acerca do ser e do nada e da passagem das coisas do ser para o nada e do nada para o ser. E não só: a vontade do remédio e de salvação que atravessa toda a civilização ocidental é uma consequência da convicção de que as coisas oscilam no devir entre o ser e o nada. Nesta oscilação, o devir manifesta-se como a extrema ameaça e leva, portanto, à procura do remédio extremo (e, por fim, à destruição do remédio epistémico). A vontade de encontrar um remédio e uma salvação pertence à essência da vontade de poder. O Remédio contra a ameaça do devir consiste hoje em nos apoderarmos e nos identificarmos através da ciência e da técnica, com fonte do devir.
Chegados a este ponto, fica por discutir aquilo, que nunca foi discutido e que está na base de tudo aquilo a que nos, habitantes do Ocidente, somos e sabemos. Fica por discutir aquilo que foi sempre tido como indiscutível ou acerca do qual apenas foram discutidas as formas aparentes: o sentido grego do devir. É apenas deste modo que o sentido da nossa civilização – a civilização do Remédio – pode ser revelado.”

Emanuele Severino, A Filosofia Contemporânea, edições 70, 1987, p. 270

sábado, 7 de novembro de 2009

A Pintura é um olho cego que continua a ver, que vê o que o cega



Bram Van Velde, Sans titre, 1936/1941
Guache sobre cartão, 125,8 x 75,8 cm
Doação de Samuel Beckett, 1982
Centro Georges Pompidou
(imagem do Google)

Pintar é acercar-se do nada. Pinto a impossibilidade de pintar. [...] o importante é não ser nada[...]. A Pintura é um olho cego que continua a ver, que vê o que o cega [...]. Para ser autêntico é necessário submergir-se, tocar o fundo [...]. Dizer o nada [...]. Não ser nada, simplesmente nada [...]. A arte é um esforço para o impossível, o desconhecido [...]. É necessário tratar de ver onde ver já não é possível ou onde já não há visibilidade [...]. Não assino as minhas telas. Não se pode pôr um nome no que ultrapassa o indivíduo [...]. Para chegar a certo algo, é necessário não ser nada [...]. Importa avançar sem saber nada, inclusive sem saber aonde se vai [...]. Tal é o que me permite fazer visível o invisível [...]. A pintura é o abismar-se, a imersão [...]. Quanto mais se está perdido, mais se é empurrado para a raiz, a profundidade [...]. O que sai de mim é sempre desconhecido. Tal é a razão de viver neste perpétuo assombro [...]. É terrivelmente difícil aproximar-se do nada.

- Charles Juliet, Rencontres avec Bram van Velde, Fata Morgana, 1978.

"... quando mais perdida a via, na sua mesma perda se ganhava" - Luis de Camões




Depois de ter perdido o sentimento,
de humano um só desejo me ficava
em que toda a razão se convertia;
mas não sei quem no peito me bradava
que por tão alto e doce pensamento,
com razão, a razão se me perdia.
Assim que quando mais perdida a via,
na sua mesma perda se ganhava;
em doce paz estava
com seu contrário próprio num sujeito.
Oh! caso estranho e novo!
Por alta, certamente, e grande, aprovo
a causa donde vem tamanho efeito
que faz num coração
que um desejo sem ser seja razão.


Luís de Camões, Canção VII (na ed. 1616),
in “Rimas”, Atlântida Editora, Coimbra, 1973, pág. 410


(A todos aqueles que - largando rufos e máscaras que assinalam apenas os limites desta vida - amam o sabor de o saberem, e nisso saberem amar, isto é, saberem voar o amor...)

GRIMM'S FAIRY TALES






Da obra Snowdrop & other tales (1920), dos irmãos Grimm ilustrada por Arthur Rackham.
Arthur Rackham (1867 – 1939) foi um criativo ilustrador de livros ingleses.

A primeira vez

Às vezes a realidade é um cenário

Vibra com as emanações do íntimo

Até as pedras assumem um semblante

Cheio de sentimento e contrário

À ideia que formamos de que as pedras

Estão petrificadas para sempre

O amor transfigura tudo

Talvez por não ser mais que o nosso estado primitivo

Nada surge separado

É umbilical a distância que une todas as coisas

É abissal a treva de termos nascido

O encontro nada mais é do que abrirmos os olhos

E vermos que sempre estivemos no terreiro da infância

Sempre fomos em unidade e afastamento

Porque o universo está em expansão

Mesmo do lado de dentro

Mesmo que nos consideremos pequenos

Na ínfima majestade que o infinito em nós assume

Por isso uma vida alada se resume

A pouco mais que um momento de contemplação

Lume breve sopro sem de onde

Festiva excedência

En-t-re Labirintos



Fonte da imagem: arquivo do Google
Com as sandálias e a espada de seu pai, Teseu caminhou todo o dia e toda a noite, e todos os dias
e todas as noites, até chegar ao labirinto do tempo, onde se fecha e abre a porta sem porta de onde nunca se regressa. O labirinto é um nó que se desata só com os pés descalços. As sandálias de Teseu não tinham asas e a espada não cortava o medo. Uma espada é uma lâmina para abrir a fina flor da teia. A teia era uma estrela na árvore. O leitor leu que as velas pretas para a partida seriam o luto com que o branco manto de Ariadne haveria de cobrir-lhe o rosto. Os espelhos no labirinto eram as águas dos lagos. E os pássaros eram mudos como suspenso tempo. Entre as árvores a brisa calada trazia para a luz o silêncio dos peixes a deslizar nas águas. O som da água entre o corpo escorregadio e rápido dos peixes era como brilhos coloridos na profunda altura da luz. Não havia nenhuma gruta onde esconder o diadema. Os versos estavam seguros por um fio que escorregou das mãos de Ariadne. As sandálias do deus correram a agarrá-lo. As mãos de Ariadne voltaram a segurar o fio de lã. O oiro brilhava como uma luz que lhe saia das mãos, como uma seda amarela. A seda cobria o caminho por onde o oiro do fio passava. Ariadne entrou no labirinto por um caminho que lhe tinham ensinado os flamingos. Os flamingos levantaram voo, enquanto o deus chorava dentro de uma rocha aberta no mar. Essa rocha falava e cantava como se fosse uma ilha em forma de sereia. Uma sereia como uma ilha. Teseu trocou as velas brancas pelas velas pretas e o navio foi tocado pela ira, mergulhou no mar com o som de muita água a bater no fundo Oceano que o salvou. O mesmo que o haveria de esperar depois. O castelo de lume é um imenso labirinto onde os pés vão descalços sem deixar qualquer vestígio ou sinal. O labirinto tem à entrada a cabeça de um touro. Dentro do labirinto há borboletas que voam em círculo, asfixiadas de luz. A voz do Oráculo calou-se. Ariadne segurava o fio e a espada levantou o punho como que para abrir a tela do tempo. A tela do tempo era um desenho em espiral, como um imenso labirinto em forma de ilha, em forma de castelo onde Dionísio costumava plantar a vinha. Ao ver a beleza de Ariadne coroa o seu amor em ouro e pedras. Tornada rainha do eterno abandono sobe aos céus para sempre entre a Serpente e o poderoso Hércules.Ariadne adormece entre as sedas pretas e brancas dos navios que se movem sobre a cabeça coroada do tempo que a visita em Saudade, como o dia se afunda na profunda noite e a noite emerge e arde no altar do dia.

En(T)re

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"Não queiras mais que a gratuita lucidez / do instante sem caminho"

Não queiras mais que a gratuita lucidez
do instante sem caminho Não julgues que ele é mais
do que a casual aragem de não ser mais nada
do que o voluptuoso fluir de um puro vazio

Em distraído vagar como uma leve nuvem
torna-te vago também deixa ascender em ti
essa torre ténue que quer a transparência
e a graça flexível de pertencer ao ar

Não queiras conhecer o que há por trás desse fulgor puro
se é que há algo por trás Aceita a sua dádiva gratuita
porque ele é preciosamente nulo
e tão essencial como o ar que se respira

- António Ramos Rosa, As Palavras, Porto, Campo das Letras, 2001,p.32.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

De uma mesma luz


Em Göreme, a velha Maçam,

a Carikli Klise,

ficou pegada da sandália no percurso do judeu

e sombra do turbante luminoso do neto de Ismael

sobre o amigo da última casa de David,

a partilhar o deus da terra,

a partilhar o deus do céu

com um chamam.

Predicavam os anjos no frescor da igreja alheia

o som do meio-dia,

o paraíso

na cor diversa

com olhares múltiplos

de uma mesma luz.

Hakuin Zenji: Canção do Zazen

Poema do Dharma, por Hakuin Ekaku [1685 – 1768]

(Traduzido a partir da versão em inglês de Robert Aitken Roshi - Diamond Sangha Zen Buddhist Society, pela Delegação do Porto da UBP)

Todos os seres por natureza são Buda,
tal como o gelo por natureza é água;
à parte da água não há gelo,
à parte dos seres não há Buda.
Que pena as pessoas ignorarem o que está próximo
e procurarem a verdade no longínquo,
como alguém mergulhado na água
lamentando-se com sede,
ou uma criança de uma casa abastada
vagueando entre os pobres.
Perdidos nos caminhos sombrios da ignorância
vagueamos através dos seis mundos,
de caminho sombrio em caminho sombrio vagueamos,
quando estaremos livres do nascimento e da morte?
É por isto que o zazen do Mahayana
merece o mais alto apreço:
oferendas, preceitos, paramitas,
Nembutsu, expiação, prática –
as muitas outras virtudes –
todas brotam dentro do zazen.
Aqueles que tentam o zazen ainda que uma vez
limpam imensuráveis crimes –
onde estão então todos os caminhos sombrios?
A própria Terra Pura está próxima.
Aqueles que ouvem esta verdade ainda que uma vez
e a recebem com um coração grato,
estimando-a, venerando-a,
ganham bênçãos sem fim.
Quanto mais se tu te viras
e confirmas a tua própria natureza –
essa natureza é não natureza –
estás muito para lá de meros argumentos.
A unidade de causa e efeito é clara,
não dois, não três, o caminho é correctamente estabelecido;
com forma que é não forma,
indo e vindo – nunca perdido,
com o pensamento que é não pensamento,
cantar e dançar é a voz da Lei.
Ilimitado e livre é o céu do samadhi!
Brilhante a lua cheia da sabedoria!
Faltará porventura agora alguma coisa?
O nirvana é aqui, perante os teus olhos,
este próprio lugar é a Terra do Lótus,
este próprio corpo o Buda.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mudar o mundo


Quando nos rimos, algo dentro de nós muda. E quando nós mudamos, o mundo muda.


Madan Kataria

Leões e cordeiros

Defender não é o mesmo que atacar. Quando vês um cordeiro a perseguir e atacar um leão, é porque não é um cordeiro, mas apenas outro leão disfarçado de cordeiro. Pode ser pequeno, até fraco, provavelmente pouco inteligente (depende do tamanho do leão que persegue), mas não deixa de ser um leão.














terça-feira, 3 de novembro de 2009

"Happiest of all is that her gentle spirit / commits itself to yours" - William Shakespeare



Imagens: Oleg Zhivetin
I would not be ambitious in my wish,
To wish myself much better; yet, for you
I would be trebled twenty times myself;
A thousand times more fair, ten thousand times more rich;
That only to stand high in your account,
I might in virtue, beauties, livings, friends,
Exceed account; but the full sum of me
Is sum of something, which, to term in gross,
Is an unlesson'd girl, unschool'd, unpractised;
Happy in this, she is not yet so old
But she may learn; happier than this,
She is not bred so dull but she can learn;
Happiest of all is that her gentle spirit
Commits itself to yours to be directed.
As from her lord, her governor, her king.
William Shakespeare, 
O Mercador de Veneza”, terceiro acto, cena II

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Uma corda por cima do Real - Presenças saudosas

No jardim entra-se por um fio de luz. Uma corda por cima do abismo há-de achar-nos o rosto: uma feição acima da nossa mesma altura. Há-de haver pássaros, porque os havia antes, entre as dobras do tempo. Abro essa seda e essa sede que, desdobrada, é um mar acetinado e azul, chão e céu da nossa insaciávlel sede de voar. Fecho todos os buracos da luz com um grito escuro. Escrevo na folha do jardim as viagens que a lua faz, empurrada pelas nuvens, a quererem sair da moldura, como o cavalo do pintor. O Poeta leva consigo as penas para lá do rio, para lá da montanha, entre margens onde dormem as luas, e as brisas são puros cristais na noite da saudação.Lugares de sombras adormecidas, à espera do corpo de luz. Cansados olhos de sonhar. O futuro é o passado que amanhece - oiço o Poeta dizer. E dou um salto que me entreolha de nenhum lugar. Sobe-se ao céu por uma escada de luz. As fogueiras ardem para lá do tempo que está e do que foi. Em Saudade, olho, como se cegasse, a copa das árvores e os anjos que sobrevoam o Real. Espectros ardem enquanto o trapezista vestido de Arlequim, deixa cair uma bola na relva do jardim. No jardim perde-se o olhar e a nudez no gesto de varrer as folhas, a alma curvada das paisagens que correm do distante bosque para a pérola dos olhos. A tristeza é um dédalo a tecer as asas dos cisnes. O cisne é a morte cantada, a visão orante dos flamingos, no coração da densa selva. África é uma oração, um nódulo no peito, lusa paixão do oiro. A argonauta lembrança de um jardim mais-que-perfeito. Percorro o jardim e, ao centro dos olhos chego, ali onde a tristeza é um dédalo a tecer as asas dos cisnes. Na mão seguro o livro sagrado: um verbo em sombra: um livro de novas Saudades: ... vagueio ao luar no meu jardim. Um jardim de Saudade. Ergo – tal como o poeta do Marão - no ar o cálice da Realidade e levanto-a em sonho, para que se desfaça nos olhos do Poeta. Disse-o nas palavras que me ferem o peito em pranto: Que foi a minha vida? Um facho que acendi, nas trevas, para ver a morte! E morro aos pés desta verdade como se Cristo fosse última corda por cima do abismo onde toda a humanidade se revê. Como se não houvesse amanhã ajoelho e choro, lembro o poeta e acendo uma luz, qual facho ardente a limpar todas as sombras coladas ao muro e ao limoeiro reverdecido do olhar. E o meu canto aclara os medos. Como se o colo da Mãe fosse um novo e vivo oceano onde se miram os rostos perdidos dos futuros argonautas. Havia um jardim como um sonho, aberto às luas de diferentes faces na mesma face da chuva. Como quem lavra e semeia o que foi semente que se bebe no futuro: invertida campânula, derramando deus na infinita presença do mundo.
A Deus só pertence o meu fantasma. Vivo nele em Saudade.

"Nasci no dia eleito da Saudade" - Homenagem a Teixeira de Pascoaes






"Nasci no dia eleito da Saudade,
Quando o vulto espectral da Eternidade,
Diante de nós, quimérico, se eleva,
Com estrelas a rir na máscara de treva.
E tem gestos absortos
Para os brancos sepulcros pensativos,
Onde a tristeza, em lágrimas, dos vivos
Beija a alegria, toda em flor, dos mortos.

[...]

Nasci ao pôr do sol dum dia de Novembro.
O meu berço o crepúsculo embalou...
E até parece, às vezes, que me lembro,
Porque essa tarde triste, em mim, ficou"

- Teixeira de Pascoaes, "A Minha História", Terra Proibida.

Por opção simbólica, consagrada em todas as biografias, Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 2 de Novembro de 1877 (terá nascido, realmente, às 17 h do dia 8). Nasceu assim no dia de Finados, que hoje se comemora, um dos homens mais despertos e inquietantes que veio a este mundo de gente morta, sonâmbula e aborrecida.

Em comovida homenagem ao Irmão espiritual, reproduzo o que escrevi, em nome da Direcção, no Editorial do 4º número da Nova Águia, a ele dedicado:

"Pascoaes [...] é um poeta e um pensador maior europeu e mundial. Isto porque, na obra que se estende de Embriões (1895) até ao póstumo A Minha Cartilha (1954), assistimos a um dos mais apaixonantes confrontos do espírito humano – seja pelo rasgo visionário, pela suspensão meditativa, pela interrogação crucial ou pela inspiração lírica – com os abismos do divino e do demoníaco, da realidade, da vida e da existência, num debate explícito e implícito com as mais polifónicas vozes da tradição e da cultura humana, europeia e universal.

Em Pascoaes a multiforme tradição planetária encontra um recriador que transfigura tudo em que toca, desde os clássicos greco-latinos até à leitura gnóstico-trágica do universo bíblico, temperada pela ironia da ilusão védica a convergir com a descoberta da física quântica. Pontífice neoreligioso do Ocidente e do Oriente profundos, do antiquíssimo e do novíssimo, do tradicional e do moderno, Pascoaes não separou também, no ser lusitano e português, o mais particular e imanente do mais universal e transcendente. Como escreve, na conclusão do mais extenso ensaio consagrado à questão: “Estudemos o homem transcendente, o além homem, que o Português encerra. // Estudemos o Português do Cosmos, oculto no Português do extremo ocidental da Ibéria” (1913). Essa a descoberta da “Índia Ideal”, a suprema realização da aventura náutica da nação, sob o signo da Saudade lírico-metafísica, jamais divorciada da solidariedade com os movimentos de libertação social, pois “a pena é irmã da enxada”. Em Pascoaes reside a origem do mitema das “Índias espirituais”, celebrado com Pessoa, como em Pascoaes avulta um sentido da Ibéria e de Portugal como o outro da Europa de matriz helénica, capaz de lhe apontar um rumo alternativo à razão intelectual crescentemente comercial, industrial e bélica.

Fundo e referência maior contra os quais se constitui Pessoa, traduzido em vida em múltiplas línguas europeias, objecto da constituição de círculos na Suíça para o estudo da sua obra, comparado por Berdiaev a Dante e Milton, Pascoaes foi esse “ser terrível” (José Marinho) que era visto a chispar fogo dos cabelos (Mário Cesariny) e que, afectando a vida de muitos portugueses e europeus, conheceu o silenciamento que cada terra sempre reserva aos seus maiores profetas. Nada expressará jamais, e tão comoventemente, a sua grandeza quanto o relato do soldado alemão que, “agonizando no campo de batalha, deixa a um companheiro o seguinte recado: “Diz ao poeta Teixeira de Pascoaes que morri a pensar nele”” (Mário Cesariny).

Nós "vivemos" a esquecê-lo...