sábado, 24 de outubro de 2009

"Um corpo de saudade com alma de espuma" (atman e anatman) - estados de consciência, meditação, saudade e libertação

"PROSA DE FÉRIAS"

"A praia pequena, formando uma baía pequeníssima, excluída do mundo por dois promontórios em miniatura, era, naquelas férias de três dias, o meu retiro de mim mesmo. Descia-se para a praia por uma escada tosca, que começava, em cima, em escada de madeira, e a meio se tornava em recorte de degraus na rocha, com corrimão de ferro ferrugento. E, sempre que eu descia a escada velha, e sobretudo da pedra aos pés para baixo, saía da minha própria existência, encontrando-me.
Dizem os ocultistas, ou alguns deles, que há momentos supremos da alma em que ela recorda, com a emoção ou com parte da memória, um momento, ou um aspecto, ou uma sombra, de uma encarnação anterior. E então, como regressa a um tempo que está mais próximo que o seu presente da origem e do começo das coisas, sente, em certo modo, uma infância e uma libertação.
Dir-se-ia que, descendo aquela escada pouco usada agora, e entrando lentamente na praia pequena sempre deserta, eu empregava um processo mágico para me encontrar mais próximo da mónada que sou. Certos modos e feições da minha vida quotidiana - representados no meu ser constante por desejos, repugnâncias, preocupações - sumiam-se de mim como emboscados da ronda, apagavam-se nas sombras até se não perceber o que eram, e eu atingia um estado de distância íntima em que se me tornava difícil lembrar-me de ontem, ou conhecer como meu o ser que em mim está vivo todos os dias. As minhas emoções de constantemente, os meus hábitos regularmente irregulares, as minhas falas com outros, as minhas adaptações à constituição social do mundo - tudo isto me parecia coisas lidas algures, páginas inertes de uma biografia impressa, pormenores de um romance qualquer, naqueles capítulos intervalares que lemos pensando em outra coisa, e o fio da narrativa se esbambeia até cobrejar pelo chão.
Então, na praia rumorosa só das ondas próprias, ou do vento que passava alto, como um grande avião inexistente, entregava-me a uma espécie de sonhos - coisas informes e suaves, maravilhas da impressão profunda, sem imagens, sem emoções, limpas como o céu e as águas, e soando, como as volutas desrendando-se do mar alçante do fundo de uma grande verdade; tremulamente de um azul oblíquo ao longe, esverdeando na chegada com transparências de outros tons verde-sujos, e, depois de quebrar, chiando, os mil braços desfeitos, e os desalongar em areia amorenada e espuma desbabada, congregando em si todas as ressacas, os regressos à liberdade de origem, as saudades divinas, as memórias, como esta que informemente me não doía, de um estado anterior, ou feliz por bom ou por outro, um corpo de saudade com alma de espuma, o repouso, a morte, o tudo ou nada que cerca como um grande mar a ilha de náufragos que é a vida.
E eu dormia sem sono, desviado já do que via sentir, crepúsculo de mim mesmo, som de água entre árvores, calma dos grandes rios, frescura das tardes tristes, lento arfar do peito branco do sono de infância da contemplação."

-Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim (2006), pp.188-189.

O real é linguagem?

"O real não tem linguagem, nós é que o lemos através da diversidade de modos por que esta se configura, para fazê-lo presente, ainda que em ausência desse algo que nos visite ou se nos furte"

Importa questionar o que é ou pode ser linguagem e o que ocorre quando consideramos ser desta ou daquela forma ou melhor quando estamos nessa consideração.

Se preferirmos a dualidade, a presença e ausência, a separação entre linguagem e real, por várias razões dialécticas e poéticas tiramos prazer de relembrar essas voltas criativas do dizer que depois se lembra do que estava ausente, (embora interdependentemente presente ou virtualmente); essa visão dos dois lados, um e depois o outro e ambos, será isso a linguagem, o devir que ocorre nesse sábio vir à presença, será essa diferença, o criativo, real? Sim.

E se o real for linguagem, o que não é?
E o que é?
Se for, o relativo não está separado do absoluto, então tudo é perfeito?! Parece que sim embora um pouco como na fisica quântica ou na linguística de Saussure; só vemos uma concretização, ilusão das condições contextuais, mas as outras, infinitas possibilidades, estão ali. A linguagem é inevitavelmente construção e encontro do ponto paradoxal onde as sensibilizações dadas pela concretização aparente se abrem espontaneamente às outras possibilidades e as tornam mundo. Considera-la simultâneamente o contingente e o último leva-nos à relação infinita, sem pontos de apoio, a interrogação que é pura resposta (vazia, existencial); o relativo pode ser visto e isso é a realização do absoluto.
(henrique)

"Este quase-nada efervescente"

Observa então os objectos que advêm no exterior.
Mais enganadores que falsas aparências,
São, como a água de uma miragem,
Evidentemente um sonho, uma alucinação mágica,
Semelhante ao reflexo da lua na água, semelhante ao arco-íris.

No interior, observa a tua mente:
Mesmo que capte a atenção quando não cuidamos,
Examinando-a, a sua “própria natureza” não se pode encontrar;
Um nada que se faz passar por alguma coisa, vazio e transparente;
Não se o pode definir dizendo: “é isso !”,
Este quase-nada efervescente.

Contempla o que se mostra
Em cada um dos dez orientes:
Qualquer que seja o aspecto,
A Realidade, sua essência,
É a vacuidade, espírito do abismo.

Sendo todas as coisas da natureza do vazio,
Visto ser o vazio que observa o vazio,
Quem esvaziará o que há a esvaziar ?

A ilusão mágica é testemunha da ilusão mágica,
E o extravio observa o extravio:
A partir daí que fazer das numerosas categorias
Tais “vazio” e “não-vazio” ?

[...]

“Dualidade”, “não dualidade” e assim por diante,
Todos estes quadros, ficções extremistas,
Deixa-os, como os remoinhos de um rio,
Apagarem-se naturalmente em si mesmos.

- Nyoshül Khen Rinpoche [Tibete, 1932-1999), "O espelho das chaves” [excertos], Le Chant de l'Illusion et autres poèmes, traduzido do tibetano, apresentado e anotado por Stéphane Arguillère, Paris, Gallimard, 2000, pp.87-88.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Arte do verbal, do olhar - O Insustentável Peso da Matéria

Rafal Olbinski

Desloca-se sobre o verde da terra. Gira, lenta e vagarosa sobre si mesma, a geodésica de sal e ar. As nuvens coladas ao algodão da paisagem sobem em espiral para fora de dentro do espaço com torres e arcos arredondados. As torres são a geometria de uma levitação. A fundura espiralada de uma maçã de Magritte, lembrada na proporção clara de um azul-mais-que-perfeito. A profundidade sobe ao cimo. A vertical surrealidade da árvore é um píncaro, uma agulha que sombreia a horizontal e deitada mancha no solo. Florirá o caduceu, a vara de Moisés, até a flor de Alexandria sobre os montes onde dorme a geografia do corpo dos homens. A montanha por onde o sol penetra até à lisura de uma polida pedra. A fragilidade do cristal e a gota do orvalho que reflecte a lua e as águas pantanosas da chuva.
Olharás o Norte com os pés serpentinados no horizonte de pedra que sombreia a montanha azul; olharás por dentro do olho em fogo do Egipto a oblíqua deliquescência das rosas e da flor da claridade. A montanha azul é atravessada por gritos. Atravessa-se o grito por um buraco na curvatura da terra. Caímos de nós próprios. As raízes são pés de tamarineira e flor de olhos. As estátuas engolem o abismo, já os limoeiros e a hortelã refrescam os botões das rosas germinadas do sol, entre círcudos concêntricos e excêntricos. Atravessa-se a montanha para se chegar ao lugar do regresso. Estará fixo ao colar da deusa um diadema de lata. O mercuriano metal dos espelhos e dos lagos. Partirás do lugar de todos os lugares equidistante do mundo; de dentro e de fora dele; e nascerás aos olhos de deus como uma luz que gira; um olho cego do sol, lugar onde a raiz é folha e o espelho do olhar se demora ternamente na semente que vai entrando na terra como dela saem as asas entre duas montanhas a eterna espiral cai na inércia dos dias pisados. Como se houvesse tempo e tudo não tivesse acabado tão jovem em tudo o que germina. Gira sobre a roda dos dias a ausência do Real finistindo-se em canto.

“Como se pintar fosse um acto religioso, como se a pintura fosse concebida como memória, como se a memória fosse um manifesto poético” - Maria Gil, sobre a arte de José Ralha


Lembrando José Ralha, 
um dos que aqui está, ainda que nos não veja.



Fernando de Pessoa”, de José Ralha (1985)

Ainda a vida       

            A José Ralha,
poeta do, olhando, olhar alma 

In’pressiona, digi’tal, a bravura da grã
cerimónia à flor do elmo e d’armadura
– entre portas segredadas da alma
e aquela antimónia janela do corpo
que é véspera intérmina da batalha.

Alquímica, mercuriando a arte dos filósofos
plasma o artista nas cores, elementos
curiais de Amor, seu Senhor:
ofício maior da vida (morgano fado)
fechado a sete chaves por Maria.

Esperante do régio princípio
no retábulo da Pátria, o príncipe
de todos beija o todo em cada um
que sonha que não sonha: qual
metálica vigia do carro do triunfo.

Ao céu aberto da serrania do mundo,
no monte da lua, Cintra beija
ao fogo do secreto gotejo,
em amor perfeito, a tristeza álacre
e sacral do magno mistério -
Portugal: cerimonial de ciprestes d’algo.

* Poema inscrito no Livro de Honra por Donis de Frol Guilhade, aquando da exposição de José Ralha na Galeria Hexalfa, patente entre 4 de Maio e 5 de Junho de 2000, mostra subordinada ao tema “Da Divina Proporção”.


Até já, Mano!

"Inocente, como se apenas tivesse sido criado sem ter que nascer" - María Zambrano, "Claros del Bosque" (1977)

Da "pseudo-universalidade" do "reino do uniforme" como principal obstáculo ao "diálogo entre culturas"

"[...] vejo hoje o pensamento estranhamente desprovido perante o reino do uniforme que, pelo facto de atingir doravante os limites do planeta, estabelece a sua lei - lei da força oculta e não do direito; e que, para além do sentimento de perda, nostalgicamente experimentado mas culpabilizando-se a si mesmo por não saber harmonizar-se com a nova dimensão das coisas, este colectivo atolamento no uniforme não é na verdade criticado: que a sua pseudo-universalidade não é claramente analisada. Ora, é no entanto precisamente aí, creio, que o desejado diálogo entre culturas encontra o seu principal obstáculo; como também a sua maior utilidade. Pois, tomando a uniformização ambiente pelo universal, falha-se ao mesmo tempo o recurso - que não seja somente conservatório ou museológico - da diversidade das culturas; assim como o plano - que não seja somente de imitação ou de assimilação - sobre o qual elas poderiam encontrar-se"

- François Jullien, De l'universel, de l'uniforme, du commun et du dialogue entre les cultures, Paris, Fayard, 2008, p.37.

"O nosso conhecimento conduziu-nos aqui: a nenhures. E provou uma coisa: nada" - John Brockman

Se a ciência subalterna consiste em saber sem compreender, a intermitente semi-gnose do instante consistiria antes em compreender sem saber, isto é, em adivinhar, pois o instante só é incompreensível em si mesmo para quem, tratando-o como se fosse um intervalo, espera nele apreender uma estrutura. Chamemos, pois, mistério àquilo que não pode ser conhecido, mas que pode, em fragmentos e clarões espasmódicos, ser por vezes compreendido ou, ao menos, surpreendido: compreendido na sua efectividade incognoscível e desconhecido na sua natureza. [...] Compreender é sempre captar o instante, seja ele o fiat da decisão ou o fit da mutação.
Vladimir Jankélévitch,
Philosophie Prémière”, P.U.F., Paris, pág. 163 e seg.

A interculturalidade

"A interculturalidade não é nem folclore para descansar nem turismo para entreter. De facto, o encontro de culturas remonta aos alvores da história. Tem porém as suas dificuldades, sobretudo quando uma cultura se crê superior a outra - como tantas vezes sucedeu e não só nos nossos dias. Cada cultura é uma galáxia com vida própria. É portanto metodologicamente inadequado, ainda que por vezes possa resultar uma violação fecunda, aproximarmo-nos a uma cultura com as categorias de outra. Comove e aterra darmo-nos conta da confiança enorme que o Ocidente ainda tem nos seus instrumentos. É a força do mito. Porém os acontecimentos do mundo, depois da Primeira e sobretudo da Segunda Guerra mundial (que ainda designamos assim), estão a fazer perder ao "Primeiro Mundo" a confiança nos seus mitos e preparam-no para aproximar-se a outras civilizações com modos distintos dos da "missão", da "colonização" e do "desenvolvimento", ainda que seja apenas uma minoria sem força política a que clama que os velhos modelos já não servem para o entendimento, a paz e nem sequer para o bem-estar pessoal. São muitos porém, ainda, os que imaginam, por exemplo, que os direitos humanos, tal como "nós" os formulámos, são universais; e agora, com a melhor intenção, os querem ampliar a uma "ética global", quiçá porque ainda cremos que o mundo é redondo - e nós o seu centro"

- Raimon Pannikar, La experiencia filosófica de la India, Madrid, Trotta, 2000 [1997], p.13.