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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Da rectidão louca

Como deverás ser recto? Isso deve-se entender de duas maneiras, segundo as palavras do profeta que diz: «Mas, ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho» (Gl 4,4). A plenitude do tempo existe de duas maneiras. Pois uma coisa é plena quando ela chegou ao seu fim, assim como o dia é pleno com a sua noite. Por isso o tempo será pleno, quando o todo o tempo se desprender de ti. A segunda maneira é quando o tempo chega ao seu fim, o que quer dizer: à eternidade; pois aí todo o tempo tem um fim, porque aí não existe nem antes em depois. Aí, tudo o que é, é presente e novo, e ai tens numa contemplação presente o que sempre aconteceu e acontecerá. Aí não há antes nem depois, tudo aí é presente; e nessa contemplação presente eu conservo todas as coisas em minha posse. Isso é a plenitude do tempo, e assim serei recto, e assim sou verdadeiramente o filho único e Cristo.
Que Deus nos ajude a alcançarmos essa plenitude do tempo. Ámen.

Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p.240

domingo, 1 de agosto de 2010

O verdadeiro milagre...

... é a vida. Fogueira que se acende, fogueira que se extingue. O verdadeiro milagre é a flor que desabrocha e depois se transforma no grau zero do perfume.
O verdadeiro milagre não é o fenómeno, nem a vida é um circo. O milagre é respirar e integrar o ar na fogueira e na flor.
Milagre é sentir ainda em cada fogueira extinta a respiração quente dos avós sentados ou acocorados junto ao lume do calor, da transformação e da protecção. O milagre é reproduzir esse gesto e sentir na nuca o amor antigo dos que já partiram mas continuam a velar para que o fogo permaneça intenso e vivo. Como possibilidade. Acima ou sob todas as fogueiras extintas, existe um lume eterno cujo nome cada um guarda no coração como o único e precioso fósforo. De ouro.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A criança, o jogo e a abolição do tempo

"Aquilo que distingue realmente uma criança de todo o resto que é vivo no Universo é a capacidade enorme de sua absorção no jogo. A capacidade enorme de imaginar que as coisas efectivamente estão surgindo como ao toque mágico de uma vara de fada e fazer que perante isso o tempo não exista. O milagre que uma criança faz quotidianamente no mundo é aquele milagre de conseguir que o tempo desapareça de sua vida na realidade. Aquela historieta que se conta do monge da Idade Média que esteve trezentos anos ouvindo um rouxinol cantar e teve por aí a ideia do que deve ser a eternidade, esse milagre de monge medieval é repetido realmente pela criança todos os dias quando brinca. Tempo para ela desaparece, e é o adulto que vem impor-lhe normas de tempo; o adulto existe no mundo da criança para interromper a cada momento a história do monge e do rouxinol"

– Agostinho da Silva, "Baden Powell, Pedagogia e Personalidade" [1961], in Textos Pedagógicos II, p.24.