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sábado, 4 de agosto de 2012

Para uma cultura da profunda idade

Ou da profundidade.
Partamos do mais baixo, o tapete.
Sacudamo-lo para que se liberte do pó que por debaixo lhe escondem.
Liberta-se o tapete do pó e sacode-se à janela a poeira.
Já está mais perto de ser um tapete voador. Basta uma mais forte aragem.
Mas lá está o estore, o guarda da saída que não lhe permite altos voos.
Conforma-se o tapete à entrada ou à saída.
Sonha-se voador, como nas estampas das histórias da infância. Também teve infância, o tapete.
Como a vassoura, quando voava sob bruxas.
É curioso este padrão do imaginário de culturas aparentemente opostas, como são a ocidental e a oriental, para pôr a voar os que no chão têm o destino ou a vocação. Vassoura e tapete.
Voadores exímios.
Quando no chão, varre a vassoura o tapete e às vezes para debaixo dele. Porque os objetos são comandados pelas mãos.
Afundo-me então nas mãos. Olho o tapete à janela e imagino mãos pequenas, magras, franzinas, talvez sujas, operando nos fios. Homens, mulheres, crianças, agachados sobre um chão sem tapetes tecem o tapete que agora sonha voar, talvez pela memória dos pequenos artesãos tecendo e sonhando com tapetes voadores.
Que longe estamos desta realidade? A exploração de uns pelos outros é coisa de países subdesenvolvidos? Que memória fraca temos! Que olhar de superfície adotámos!
Aprofundemos o olhar no chão, para lá do tapete, mais fundo, muito mais fundo, e ver-nos-emos.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Tradução da pedra

                                           foto R

Banhada pelo sol
olhas sobre
a direita
exemplificas a equidade
o direito.
Para o caso de ter de ser
a espada
desembainhada pronta avisa
que sob
pequeno tecto
apenas
se abriga,
imperfeito.
O destino é dança fiel
em balança
ponta de espada
que brada aos céus
ao arrepio de Deus.

domingo, 1 de agosto de 2010

O verdadeiro milagre...

... é a vida. Fogueira que se acende, fogueira que se extingue. O verdadeiro milagre é a flor que desabrocha e depois se transforma no grau zero do perfume.
O verdadeiro milagre não é o fenómeno, nem a vida é um circo. O milagre é respirar e integrar o ar na fogueira e na flor.
Milagre é sentir ainda em cada fogueira extinta a respiração quente dos avós sentados ou acocorados junto ao lume do calor, da transformação e da protecção. O milagre é reproduzir esse gesto e sentir na nuca o amor antigo dos que já partiram mas continuam a velar para que o fogo permaneça intenso e vivo. Como possibilidade. Acima ou sob todas as fogueiras extintas, existe um lume eterno cujo nome cada um guarda no coração como o único e precioso fósforo. De ouro.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Apresentação do livro: Uma Visão Armilar do Mundo, de Paulo Borges




Uno e verso
                                                                                                                          Risoleta C Pinto Pedro
11 de Maio 2010
Escola de Medicina Tradicional Chinesa
Palácio Estefânia


Os livros são, também eles, uma espécie de alimento. E há de tudo, como na mercearia, como na farmácia. A mercearia pode ser uma farmácia. Há alimentos que matam, há alimentos que curam. Do hamburger do Mc Donald ao mais requintado  prato.
Se fosse alimento (e é), este livro seria um misto de prato mediterrânico temperado com azeite e coentros, com o requinte de um prato francês, o exotismo de uma sobremesa marroquina, um toque de especiarias: cravinho e canela, e uma pitada das cinzas douradas de um mestre tibetano. Para não ir mais longe.
Para mim, ler estas palavras é como saborear um bombom, algo que delicia, uma guloseima para a alma. Porque aqui concentra e oferece em taça de cristal o que de melhor saboreei  na literatura e no pensamento Português, de Camões a Agostinho da Silva, para abreviar.
A minha alma alimenta-se, refresca-se, aprofunda-se e eleva-se nesta leitura, que é pão para o meu espírito.
A criança que sou alegra-se e sente-se resgatada por séculos de injúrias.  Encontro aqui todos os ingredientes que curam sem amargar.
Reencontrei aqui os autores que me têm acompanhado  como avós de espírito; é sempre reconfortante reencontrar uma família.
Quando digo “este livro”, quero dizer “este pensamento”, porque é uma expressão de um pensamento  tão antigo e original quanto novo, um pensamento do autor captado no ar, no álbum de pensamentos de um povo, de uma civilização temperada pela saudade da canela, digo, do perfumado Espírito Universal, de onde a Natureza não pode ser excluída, porque isso já experimentámos, com os resultados que todos conhecemos e ainda resta saber o que para aí virá… ou não. De nós depende.
Não poderei dizer-vos o que diz este livro, mas apenas o que eu li nele. O que pode não ser a mesma coisa.
A esfera armilar, como símbolo de totalidade, como refere o autor, vejo-a como uma espécie de mandala a pelo menos, ou por enquanto,  V dimensões, que é a dimensão do Homem de Vitrúvio quando se põe a rodar pelo mundo e se funde em veneração com a natureza.
É muito difícil falar sobre um pensamento que tão bem se diz a si mesmo. Este é um livro amplo e ao mesmo tempo simples.
É matéria complexa de tão simples, por isso tive de escrever, por isso prefiro ler o que escrevi.
Como estrutura, Paulo Borges parte do sentido iniciático da obra de alguns autores, passando por uma reflexão própria e culminando no manifesto Refundar Portugal.
Aqui se fala do real e do símbolo, das viagens e das tantas aventuras do povo português. Não vou explicar o que cada um terá de sentir no seu coração, que é por aí que se lê este livro, mas destacarei alguns aspectos que falaram à leitora que sou. Tal como o Paulo Borges fez em relação aos autores que aqui trouxe.    
Assim como traz também a crítica a alguns aspectos da contemporaneidade em contraponto com o Ser que, e assumo a responsabilidade do baptismo, eu designaria como o já referido Homem de Vitrúvio. Pois não é ele a perfeição, plenitude, totalidade e infinidade? Ou, diria eu: Portugal no seu melhor, Portugal armilar. E brincando: arma e lar, depois das armas, o regresso ao lar.
A mensagem ainda algo revolucionária para os que estão presos ás ilusões que nos têm comprimido, é a “interconexão dinâmica de todos os seres e coisas”; mas uma criança percebe isto muito bem, sabe tratar com a mesma dignidade e igualdade, um gato, um sapato, uma pessoa ou uma formiga, um estrangeiro ou um familiar. Antes de ser contaminada. É por isso que é importante refrescar a ideia do V Império, o dos inocentes. Aqueles para quem não é impossível “ser tudo de todas as maneiras” ou transformar-se “o amador na cousa amada”. Esta leitura poética parece ser ao autor, no que concordo com ele, a mais profunda que podemos fazer da história.
Somos inicialmente conduzidos para uma leitura de Camões; e nesta leitura o amor é a chave, não teórica, mas operativa, a nossa leitura é, ela mesma, se sincera, um ritual de iniciação à viagem amorosa pelo interior intemporal do universo, porque o Império é muito mais grandioso que as belas mas limitadas fronteiras territoriais, do tempo e do Ego. O Império globaliza-se através do amor universal. É a aparentemente louca, mas mais realista que qualquer outra, aspiração ao Paraíso.
Daqui se fala de cabala, lírica, platonismo e neo-platonismo  e dos inúmeros mitos e representações da tradição simbólica e cultural que me abstenho de referir, portanto vou directamente ao assunto.
Numa  viagem pela mitologia revisitada a uma nova luz, partindo de uma ilha de utopia, a de Camões (que passou a ser nossa, ou talvez já o fosse antes de o ser) chega-se à democratização e à globalização do divino, se tal ousadia me é permitido verbalizar. Trazer a utopia ao Lugar, o topos,  se aparentemente a nega, porque ela é o não lugar e passa, a esta luz, a ser o topos, faz que a ilusão deixe de ser a utopia, e a utopia tome o lugar dela, isto é, do medo, do ego e de todo o tipo de limitação, enviando-os para  o momento da não-existência.
Os mais loucos sonhos assumem possibilidade real, como a união dos opostos, numa leitura para lá da superfície onde se tocam a Terra e o Céu e onde outros antiquíssimos desejos se nos afiguram tremendamente realizáveis no nosso destino.
Ideias que desvelam ou revelam com desvelo os pensamentos dos seres particularmente despertos que foram (são?) Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa,  A. da Silva: em síntese, a ideia de um Império de transcendência reconstruído  sobre o amor e a abundância.
Aqui se fala de história, mas como metáfora e símbolo; nessa perspectiva, o próprio Antero é citado. Pensamentos proféticos de totalidade e inclusão, Santidade, Graça e Luz,  o nada e o tudo, sempre presentes numa ideia comum.
Ideias por enquanto escandalosas para um pensamento ainda a sacudir o pó do positivismo, mas, mesmo sem saber, determinado a abrir novos focos de atenção.
É curioso que em cada um dos ensaios  que este livro inclui sobre os autores referidos, todos os outros acabam por ser citados, como membros de uma família ou faces do mesmo poliedro, em que um não existe sem os outros. Para lá do tempo.
É claro que tudo isto assim sistematizado,  constitui uma ruptura radical com o pensamento convencional: a vida na morte, o futuro no passado, o eu no outro,  o todo no nada… e os seus contrários.
E pela pena de Pascoaes somos lembrados que é na aproximação ao eu no aparente  outro que cabe a incontornável reaproximação do oriente, tanto tempo esquecido. É no outro que nos reconhecemos.
Também as religiões aqui são repensadas numa tenda de reunião onde caibam até as não-religiões: crentes, gnósticos, não-crentes. Um novo conceito de religião, um novo conceito de política, onde a Polis se eleva, mas abraça a natureza. Uma nova forma de estar vivo, inclusiva e abrangente, metafísica, política, poética, estética, ética, em expansão, mas não em afastamento,  a partir de um mesmo centro.

Nesta leitura, Portugal, na sua forma sentimento, quando interioriza torna-se demasiado grande para ser só ele, ele é ele e é o mundo , e nele cabe o mundo,  o todo já está na parte, como nas imagens dos fractais. Como os poetas tão bem souberam, antes dos cientistas.
O cosmopolitismo, assim entendido, será um tributo à essência do próprio conceito: no cosmos a polis, na polis o cosmos.

Este livro é uma oportunidade de aprofundamento do processo de consciência acerca do que significa ser humano, ser vivo, ser adulto ou ser criança. Com o apoio do pensamento de A. da Silva, uma reflexão sobre esta barbárie a que chamamos civilização. Edgar Morin também já o vem dizendo há muito, mas delicia-me recordar a frescura de Agostinho que este livro me vem recordar, e o quanto é doloroso reconhecer o “contributo” que os sistemas escolares têm dado para esta “queda” civilizacional. João dos Santos também o denunciou, muito solitariamente.
Onde estão a alegria, a espontaneidade, a liberdade a abundância para que cada ser, sem excepção, nasceu?
Apenas haverá futuro com a resolução do conflito que cada um vive dentro de si entre a “realidade” dessacralizante e consumista e a não dual natureza profunda de tudo o que existe. Neste novo mapa do mundo, a técnica deverá ser um instrumento de libertação do humano para que este possa ser, finalmente, aquilo para que nasceu: divino.
A minha tentação, mais do que falar-vos da minha leitura, foi, em diversas ocasiões, encher de citações estas minhas notas, ou simplesmente, ler-vos páginas do livro, mas sabendo que ia haver leituras, era preciso que eu falasse. O que faço obscuramente. ´É sempre obscuramente que se consegue falar de um pensamento tão claro. E, como já disse, ao mesmo tempo contemporâneo, e tão do fundo dos tempos. Trazendo novamente o Espírito Santo pela mão. Um Espírito Santo cada vez  mais revisitado pela evidência de que ou está nas nossas vidas ou não haverá vidas. A fraternidade, a liberdade e o Amor acima dos estafados vícios das disciplinas e sacrifícios. Que tiveram o seu tempo e função, mas que estão para nós como os dinossauros estiveram para os primeiros homens.
Uma ampla rede de informação se foi criando muito antes da internet; Joaquin de Fiori, Bandarra, D. Dinis e a poesia amorosa medieval, o culto popular do Paráclito e o franciscanismo no seu amor pelos seres não humanos.
Há séculos, há milénios, que sabemos que o futuro ou será a Inocência, o Império da Criança, ou não será. Que será a Liberdade, ou não se sobreviverá. Que será a igualdade na abundância, ou não existirá. Se quiserem, uma religião sem deuses ou onde todos são deuses, numa existência de expansão das potencialidades de totalidade, criatividade e encontro com tudo.

Neste livro se fala, reunindo o melhor e mais requintado dos pensadores e poetas já referidos, (mas não só, refiro por exemplo S. João da Cruz), do tudo e do nada, da dor e do êxtase (a dor não é mais do que a resistência ao êxtase), de como tudo é a mesma coisa e de como o fio da navalha não existe e é infinito e de como a consciência transformada  tudo transforma.

Um dos aspectos importantes que me parece ver neste livro é a atenção aos riscos a que pode levar, e tem levado, no seio deste pensamento, um “excesso de paixão lusocêntrica”  ou o “patriotismo ensimesmado” que conduziu e conduz aos nacionalismos estéreis em detrimento de uma visão não totalitarista mas total, solidária e realmente cósmica. Ou, como aqui se diz, um “ nacionalismo trans-patriótico e universalista”.

Os últimos quatro capítulos são uma meditação própria, mas não alheia aos estudos anteriores sobre o pensamento português e os caminhos a que este pode conduzir-nos no sentido da profundidade do Ser  e a Universalidade desse mesmo novo Ser que é ao mesmo tempo indivíduo, Pátria e Mundo. Do motor visível ao motor oculto de um povo, que é afinal, não um país, mas o próprio mundo, onde a humanidade, para crescer, tem de aprender a abraçar.
Outro importante tópico a reter desta leitura são os conceitos, já não exclusivos da mística, mas também da ciência, de interdependência e impermanência, da transcendência da ilusão da bipolarização do eu e do outro, e do equívoco da crença na transformação do mundo sem a prévia e radical transformação da mente que percepciona esse mesmo mundo.
Finalmente, o Manifesto Refundar Portugal, corolário coerente destas reflexões que de certo modo o fundamentam.
Com um passado de expansão geográfica, Portugal é mostrado como um país privilegiadamente preparado para criar pontes de comunicação entre “povos, culturas e civilizações”. Num momento em que o paradigma é ainda o do consumo e da exploração humana, animal e da natureza em geral, este documento propõe uma profunda reforma das mentes, baseada numa ética global que se estenda aos animais e a todo o planeta, universalista e multicultural, baseada nos valores mais sagrados que vêm sendo perpetuados quer por uma tradição popular, quer por alguns poetas e pensadores que ao longo dos séculos foram dando voz a um sentimento presente,  mas nem sempre consciente.
Inclusividade em expansão, pois assim como o Universo está em expansão, assim está a consciência universal deste povo, já não para ocupar e explorar, mas para ligar e reunir no respeito por todas as diversidades.
A forma de o fazer também tem de ser inovadora, já não se trata de uma questão geográfica, mas um processo de interiorização após o qual, apenas, será possível implantar fora o que já se consegue imaginar. Porque tudo é da natureza da luz.
 Já singrámos por terra, pela água, pelo ar, e  com o fogo das espingardas. Agora, o fogo é outro, é aquele que “arde sem se ver”, e os caminhos são os da cada vez mais incontornável Luz.
À qual estamos inapelavelmente condenados. Apesar de nós.  Graças à Luz. Que somos Nós.
Grata ao Paulo Borges por ter proporcionado à minha criança feliz esta leitura que é um bálsamo para os ferimentos dos joelhos das muitas quedas. Grata pela criança inocente que sei que sou, grata por todas as crianças inocentes que sei que somos. Apesar de todas as histórias editadas pela Culpa, uma editora decadente, felizmente em vias de extinção.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

A propósito da Páscoa


Num tempo em que as ressurreições já não são espectaculares como no tempo de Jesus, porque também as crucificações já não o são, é preciso, cada vez mais, procurar no céu, os sinais.
E tal como são os pássaros os que melhor nos podem observar na terra, é da terra que melhor se observam os sinais no céu.
Os anjos partiram com os deuses, os pássaros têm a vista cansada e os astros já não são o que eram, cansados do mau ambiente que criámos para eles.
Todos nos abandonam nesta tarefa de olhar o céu.
Mas como fazê-lo sem implantar bem os pés na terra, este imenso hangar?
E como fazê-lo se não aprendemos ainda a soletrar a mais básica linguagem da terra com seu elementar alfabeto de apenas quatro letras?
Quando a terra, a água, o ar e o fogo significarem, para nós, a estabilidade, a mudança, a inteligência e o amor, quando no fruto que mordermos soubermos ler sem hesitações esta cartilha maternal, quando a escrita das nuvens se tornar eloquente como um anúncio de televisão, quando os braços abertos de todos os Cristos nos falarem de abraços e os pés na cruz nos lembrarem o abandono a que temos votado os nossos próprios pilares, bem podem passar Páscoas pelos nossos cabelos cada vez mais embranquecidos, continuaremos a ser os pilatos que lavam as mãos na água cada vez mais suja.
Mas desconfio que o tempo dos olhos fechados e dos pés ignorados está para acabar. Segreda-mo um Cristo que acaba de passar. Tão rápido, que apenas ficou na fotografia a nuvem que o seguia.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Instalação


nem sempre invenção é arte
mas sempre é criar
inventar
um inventário
pau tronco plástico cartão
tecido
junto ao mar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

E subitamente...

... saí de um pintura de um artista romeno.


Não sei qual das mulheres sou.
Estou obcecada pelas pinturas esbatidas nas paredes do quadro.
Este quadro não está numa parede, as paredes estão nele e nelas outros quadros que uma mulher que está fora de todos estes mundos
(eu)
olha (olho)
com olhar
comum.
Conheço os lenços
(as mulheres da minha infância)
conheço as cores
(os mesmos tons dos sonhos)
conheço as poses
(as fotos antigas).
Contudo
não são
daqui.
Serei eu de
onde?
De que hoje?
De que antes?
Fascina-me
de uma
o olhar
desta
a pose
de outra
o colar.
De todas
o apenas
ali
estar.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Infinita fenda


Medo:
como o não
ter?
É por aqui
que fogem os filhos às mães
é por aqui que correm todos os rios que alguma vez secaram
é daqui que nascem os universos
e se incendeiam as estrelas.
É ainda aqui
que a forma das nuvens se separa
e o amor se repara.
É aqui que nasce
o sopro
a aragem.
Como não ter...
... coragem?!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Entre o céu e o chão


A mão sobre a porta pintada de céu indica o chão. O mais firme caminho para a elevação.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Alentejo



                                                     (foto R)

Algures no Além do Rio
depois da areia
a meio do amarelo

abrem-se subitamente
uma porta e uma janela.
Não é verdade que apenas quando uma porta se fecha uma janela se abra,
não é verdade o contrário
ambas as crenças são tijolos inconsistentes da arquitectura da mentira.
Na realidade das coisas do mundo
desde antiga
mente
portas e janelas abem-se
simultaneamente
para o profundo.