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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Ética cristã e ética cósmica






“O amor pela criatura em geral, pelos animais, plantas, minerais, pela terra e pelas estrelas, não foi de todo desenvolvido na ética cristã. É um problema de ética cósmica e tem de ser ainda formulado”; “A consciência cristã não desenvolveu ainda uma relação moral com os animais e a natureza em geral. A sua atitude para com a natureza foi demasiado a de indiferença espiritual. E todavia o olhar nos olhos de um animal indefeso dá-nos uma experiência moral e metafísica de prodigiosa profundidade” [1].
[1] Nicolas Berdiaev, The Destiny of Man, tradução do russo de Natalie Duddington, New York, Harper & Brothers, 1960, pp.188 e 193.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"A severidade e a gravidade da vida, a tomada de consciência da morte, a queda de ilusões do mundo externo e a perda de coisas que escravizam o espírito - tudo isto apela à vivência de Deus e da espiritualidade." - N. Berdiaev

A revolução [bolchevique] trouxe danos graves à Rússia dos quais dificilmente recuperará. Por outro lado, a revolução teve consequências positivas no renascimento que houve da Igreja e da Vida religiosa na Rússia. A revolução despoletou um aprofundamento da religiosidade do povo. Muita mentira e hipocrisia se acumularam na nossa vida religiosa. Em muitos de nós predominava uma relação superficial e utilitário-egoísta com a Igreja Ortodoxa. Tornava-se necessário destruir a autoridade da Ortodoxia inerte. No topo das camadas sociais - a nobreza e a burguesia - a religiosidade não era profunda e o cristianismo era vivido futilmente. A religiosidade dos Saduceus tem um carácter oficial e nela, as perspectivas da vida temporal sobrepõem-se às perspectivas da vida eterna. Sinais de necrose obscureciam a nossa vida religiosa. A revolução dissipou a atmosfera falaciosa da Igreja e lavrou o solo sobre o qual resplandece a luz religiosa. Com a revolução, ninguém necessita de se fingir de Ortodoxo, ninguém beneficia materialmente com a Igreja e a religiosidade de Estado deixa de existir. No princípio, a revolução tinha um carácter anti-religioso e anti-cristão. O Cristianismo é perseguido, e é-o de forma horrível. Contudo, as perseguições nunca foram assustadoras para o Cristianismo. É melhor para a Igreja a perseguição do que a protecção coerciva. Durante as perseguições, o Cristianismo cresce e fortalece-se. O Cristianismo é a religião da verdade crucificada. Durante a revolução, as perseguições religiosas tiveram como consequência uma selecção qualitativa. A Igreja perde em quantidade mas ganha em qualidade. O sacrifício é novamente exigido aos filhos fiéis cristãos, o qual foi manifestado com a revolução. Os padres ortodoxos russos, no melhor de si, mantiveram-se fiéis ao seu santuário, corajosamente defenderam a Ortodoxia, corajosamente foram de encontro com o fuzilamento. Os Cristãos mostraram que sabiam morrer. A Igreja Ortodoxa demonstrou que, a nível interno, a sua unidade, a sua luz interior e a sua mística são perenes, mesmo depois da destruição da Igreja a nível exterior. Na Rússia deu-se, sem dúvidas, um aprofundamento religioso. Os Russos, apesar de terem sofrido grandes provações, vivem um ambiente religioso intenso. A severidade e a gravidade da vida, a tomada de consciência da morte, a queda de ilusões do mundo externo e a perda de coisas que escravizam o espírito - tudo isto apela à vivência de Deus e da espiritualidade.

Nicolai Berdiaev, in Reflexão sobre a Revolução Russa, 1923 
http://krotov.info/library/02_b/berdyaev/1924_21.html

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Toska - Saudade - Duhkha

"Se eu escrevesse um diário, registaria constantemente as seguintes palavras: «Tudo me é estranho, sinto-me fragmentado, sempre, sempre aquela "тоска" pelo outro, pelo que me transcende.» Toda a minha existência é "тоска" pelo transcendente." - Nicolai Berdiaev

Tоска, em cirílico - Toska, em latim, é uma palavra de origem eslava e significa dor, tristeza, inquietação, limitação, restrinção, inquietação. Talvez, de alguma forma, "toska" esteja relacionada com "saudade". Segundo Berdiaev, toska é um sentimento direccionado para o mundo transcendente e é acompanhado por um sentimento de vazio, insignificância, perecibilidade do mundo em que nos encontramos. Toska erradia a solidão sentida pelo homem face ao transcendente, solidão essa derivada da experiência da ausência do divino. Toska é um sentimento Entre pois jaz entre o abismo do não-ser (nada niilista) e o transcendente divino. Assim, se toska é desespero, toska também é esperança, salvação.

Tal como "toska", a "saudade" não tem origem nas línguas indo-europeias. Talvez a palavra sânscrita que mais se assemelhe a "toska" e a "saudade" seja "duhkha" que significa impermanência, transitório, dor física, insatisfação, medo, mal-estar, medo de perder, insegurança, estar dividido, partido ao meio, separado de algo.

O homem sente-se separado, fragmentado, só, angustiado, dividido. É a condição humana que toma consciência da sua perecibilidade. A morte. Todavia, esta consciência pode ser um catalizador para uma busca escatológica - Sehnsucht - a busca do Ser. Como buscar? Como encontrar um caminho para trilhar? Podem a religião, a arte, a ciência ou a filosofia encontrar soluções que apaziguem o sofrimento inerente à condição humana? Devemos crer ou ter fé? Devemos acreditar ou experenciar essa Saúde obscurecida que jaz em todos nós? Devemos saber ou saborear?

Crente é pouco sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus
- Agostinho da Silva

domingo, 2 de janeiro de 2011

A face de Deus virou-se para o mundo criado e este, fitando-a, apenas pode ver mistério.

Nicolai Berdiaev (1874-1948)
Antes de tudo, há que estabelecer uma distinção basilar entre mística e magia. Estas áreas, completamente diferentes entre si, facilmente se diluem. Se a natureza da mística é espiritual, a da magia é naturalista. Se a mística é uma comunhão com Deus, a magia é comunhão com os espíritos e as forças elementares da natureza. Se o misticismo é esfera de liberdade, a magia é esfera de necessidade. A mística é isolada e contemplativa; a magia é activa e agressiva. A magia transmite ensinamentos sobre as forças ocultas da natureza humana e cósmica sem, contudo, se aprofundar com o fundamento divino do mundo. A vivência mística é uma libertação espiritual da magia do mundo natural. Vivemos agrilhoados à magia da natureza e, na maior parte das vezes, inconscientemente. A tecnologia científica possui uma natureza e origem mágicas, por detrás das quais joga a psicologia mágica das forças naturais. Por princípio, a magia distingue-se e é, inclusivamente, contrária à religião, embora dentro desta seja possível introduzir elementos mágicos. É mágico uma compreensão profunda da natureza. As energias mágicas circulam por todo o mundo. Mas o misticismo mágico - a associação da mística com a magia - é falacioso. Há dois tipos de mística falaciosa - a mística naturalista (associada à natureza) e a mística psicológica (associada à mente). Devido ao carácter circuscrito, limitado, tanto da natureza como da mente, ambos os tipos não alcançam a profundidade real da vivência mística. A verdadeira mística é espiritual. A mística autêntica supera a magia e a psicologia falaciosas. Apenas nas profundezas da vivência espritual, o homem comunica com Deus, saindo este dos limites do mundo natural e mental. Todavia, o misticismo não pode simplesmente circunscrever-se à vida espiritual pois esta é mais vasta no seu todo. O misticismo apenas pode ser denominado como o âmago e o cume da vida espiritual. Neste âmago e cume, o homem comunica com o derradeiro mistério. A mística envolve sigilo, isto é, o inefável inesgotável e profundamente insondável; contudo, também sugere a possibilidade de uma ligação viva com este mistério, habitando nele e com ele. A negação do misticismo é o reconhecimento, por parte do homem, da existência do mistério e a recusa de vivência com ele. Spencer reconhece que na base do ser há o incogniscível, isto é, um certo misticismo; todavia, sendo positivista e não um místico, o incogniscível para ele é apenas um transbordar para o negativismo. O segredo do misticismo não é incogniscível e tão pouco significa agnosticismo. A pessoa que comunica com o segredo místico da vida não se encontra numa dimensão gnoseológica - apenas liga-se ao incogniscível, ao mistério da própria vida, da experiência, da comunicação. O mistério não é nem uma categoria negativista nem um limite. O mistério é uma plenitude infindável positiva e profunda da vida. Por vezes, o mistério morre, tornando todas as coisas planas, limitadas, carecedoras de sentido de profundidade. O mistério atrai a pessoa, desvelando-lhe a possibilidade de se ambientar e de comunicar com ele. A face de Deus virou-se para o mundo criado e este, fitando-a, apenas pode ver mistério.

Nicolai Berdiaev, in Filosofia do Espírito Livre
http://www.vehi.net/berdyaev/fsduha/07.html

sábado, 1 de janeiro de 2011

"O místico autêntico é apenas aquele que vê a realidade e a distingue de fantasmas." - Nicolai Berdiaev

Nicolai Berdiaev
 Se a palavra "mística" deriva da palavra "mistério", o misticismo deve ser considerado a base da religião e fonte de movimento criador dentro da prórpiareligião. A partir do contacto directo e vivo com o mistério derradeiro nasce a experiência religiosa. A necrose da vida religiosa é superada e dá-se o seu renascimento, de face voltada para o  mistério derradeiro do ser, isto é, para o misticismo. No misticismo, a vida religiosa é ardente, inextinguível e não ossificada. Todos os grandes fundadores e criadores da vida religiosa tiveram uma primeira experiência mística através de uma união mística com Deus e o divino. Numa experiência mística ardente, o apóstolo Paulo revelou a essência do cristianismo. O misticismo é um solo fértil religioso e a religião esgota-se quando esta se rompe com este solo. Mas na História, as relações que existiram entre misticismo e religião foram sempre muito complicadas e confusas. A religião tinha medo do misticismo, vendo-o muitas vezes como fonte de heresia. A mística não ajudava o trabalho organizativo da religião e ameaçava derrubar as leis religiosas. Todavia, a religião precisava da mistica e institucionalizava sempre a sua forma de misticismo como o cume da sua própria vida, como sua cor. Existe oficialmente o misticismo ortodoxo, permitido e recomendado, o misticismo católico e o misticismo das religiões não cristãs. A fé religiosa tenta sempre subjugar com as suas leis religiosas os elementos, muitas vezes violentos, da mística. Assim, as relações são complexas entre misticismo e religião, complexidade essa que tem aumentado actualmente pelo facto do misticismo se ter tornado moda, usando-se esta palavra de uma forma muito incerta, vaga e irresponsável. A adopção do misticismo na literatura contemporânea trouxe consequências fatais. Tentou-se fazer da mística algo pertencente a uma cultura refinada e sofisticada. O misticismo não é um psicologismo refinado ou um conjunto de experiências irracionais nem simplesmente música de alma. E a religião cristã com razão é contra tal sentido místico. Também a psicologia do final do século XIX/início do século XX é contrária ao sentido místico, assim como é contrária a todos os sentidos. Contudo, se tomarmos em conta, não a literatura contemporânea mas sim as imagens místicas clássicas e eternas, então devemos reconhecer que é o espírito e não a alma, é o "pneuma" e não a psicologia, a natureza do misticismo. Na experiência mística, a pessoa sai do seu "eu" e entra em contacto com o Ser primordial espiritual, com a realidade divina. Ao contrário dos protestantes, que preferem atribuir à mística um carácter individualista e identificá-la com individualismo religioso, devemos afirmar que a mística é a superação do individualismo, da condição de indivíduo. A mística é a profundeza e o cume da vida espiritual, é uma forma de vida espiritual autêntica. A mística é íntima e secreta mas não é individualista. Windelband expressou o que lhe parecia uma contradição do misticismo alemão da seguinte forma: a mística tem como fonte a individualidade e ao mesmo tempo reconhece esta como pecado. Se isto é um paradoxo no plano mental, deixa de o ser no plano espiritual. É preciso insistir que a mística não é um estado subjectivo mas antes  uma saída da própria contradição entre subjectivo e objectivo.  O misticismo não é um romantismo subjectivo. A mística não é um sonho de experiências subjectivas. A mística é altamente realista, sóbria no reconhecimento e desvelamento da realidade. O místico autêntico é apenas aquele que vê a realidade e a distingue de fantasmas.

Nicolai Berdiaev, in Filosofia do Espírito Livre
fonte: http://www.vehi.net/berdyaev/fsduha/07.html