sábado, 28 de julho de 2012


Quando a árvore descansa
Da tempestade.
Meu homem sai para o mar
Salga seu corpo
floresce  em mim


Na vila onde nasci, os pescadores cantavam enquanto puxavam a rede.
No equinócio de Março, o mar dançava todos os dias. As sereias descansavam e os homens ficavam a salvo. As esposas agradecidas, bordavam as ondas até o sol cansar e deixar a noite tomar seu lugar.
Nas noites quentes os filhos eram semeados com amor. Do mar vinha o peixe, do campo, o arroz a decorar o prato. Da vizinha do lado, o sorriso e um bom dia a dar conta da vida.
Na vila onde nasci, os olhos viam na noite escura. Abrigavam no corpo todos os corpos. Abraçavam até que o coração encontrasse o de todos e desenhasse um sorriso no rosto.
Na vila onde nasci, um dia,  um homem  perdido de dor, incendiou-nos o corpo.
Nada restou, do lugar, onde vivi, senão a canção que a eternizou.

Venho de longe, de um mar que desconheço
Onde o homem mata tudo que nasce
Os beijos são veneno
E os abraços faca afiada

Que febre é a tua, amor
Que não te reconheço

Venho de uma terra perdida
Morta de morte matada
Seca, sem água
Vermelha de sangue

Que febre é atua , amor
Que te perco

Os meninos vivem na rua
Abandonados,
Os homens
Sozinhos, sem casa
Morrem de frio e fome
O sangue desenha o chão
Do animal assassinado.
Venho de uma terra perdida
Que me envenenou a vida

Na vila onde nasci,
um homem perdido de dor,
 incendiou a vida.


Na cidade onde vivo,
há listas negras
de pobres endividados.
Ninguém vê na noite escura.
Nem semeia o amor suado.
Nesta cidade de luto,
os homens do povo
Vagueiam perdidos na rua.
De dia e noite, reza o  verbo
Do débito e do crédito
E por mais que se pague
Continuamos devendo.

De onde vens amor
Que te perco!

Quando a tempestade
Seguir caminho
E a árvore puder descansar
Vou deixar que o homem
Salgue meu corpo
Até que ele seja de novo semente

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sonhar que se voa

"Sonhei que era uma borboleta, voando no céu; então despertei. Agora pergunto, sou um homem que sonhou ser uma borboleta ou uma borboleta que sonha ser um homem?"
- Chuang Tzu


Muitas vezes sonhamos que voamos. Tudo começa por estarmos a caminhar e, por vezes espontaneamente, outras mediante um pequeno impulso, começamos a flutuar ou levitar e erguemo-nos acima do solo, começando a ver o mundo, as pessoas e as coisas a partir de cima, numa visão cada vez mais ampla e abrangente à medida que nos elevamos. Há experiências em que somos arrebatados para cima ou para baixo e a custo conseguimos controlar e dirigir o movimento. Há outras em que desde o início sentimos que podemos ir para onde quisermos, inclinando ligeiramente a cabeça e o corpo na direcção pretendida ou estendendo e unindo os braços e as mãos à nossa frente e apontando-os no sentido visado. Por vezes basta pensar num determinado lugar ou pessoa para nos encontrarmos imediatamente nele ou na sua presença, como se viajássemos vertiginosamente através do tempo e do espaço. Acontece atravessarmos paredes e obstáculos aparentemente sólidos, como se fôssemos absolutamente imateriais, apesar de mantermos uma certa percepção da nossa forma física. Sucede percorrermos vastas regiões desertas e luminosas ou nocturnas, vendo oceanos, rios, florestas e montanhas a partir do céu, como uma águia, ou então pairar acima de grandes cidades adormecidas, muito acima dos seus mais elevados edifícios. Por vezes vemos claramente as pessoas e tentamos descer, tocar-lhes e interagir com elas, mas não o conseguimos, como se estas não nos vissem e sentissem, como se as nossas mãos passassem através dos seus corpos. Outras vezes, menos frequentes, as pessoas parecem sentir-nos ou ver-nos e assustam-se e fogem. Seja como for, na sua grande maioria são experiências extremamente nítidas, poderosas e gratificantes, que oferecem uma sensação de liberdade quase infinita e que, ao acordar, recordamos demoradamente com saudade, sentindo o seu fim e privação como um limite infeliz das possibilidades do nosso ser, regressado à normalidade da vida quotidiana. O que é surpreendente é a frequência com que as sentimos tão ou mais reais do que aquilo que neste preciso momento percepcionamos e experienciamos.

Muitas explicações existem para este fenómeno, procurando reduzir o desconhecido ao que julgamos conhecer, como as teorias de inspiração psicanalítica e freudiana que falam destes sonhos como uma realização simbólica e sublimada de desejos que não se logram realizar na vida suposta real. Tradições antigas, como a do Yoga do Sonho tibetano, consideram estas experiências como a vivência de dimensões mais subtis e profundas do nosso ser e da nossa consciência, em que estamos mais despertos do sono da vida comum e recuperamos uma liberdade primordial, anterior à fixação num corpo de matéria aparentemente densa. Tal como nos voos chamânicos ou na experiência pós-morte, nesse intervalo ou espaço indeterminado entre uma existência e outra que em tibetano se designa como bar-do (entre-dois). Nesta perspectiva, tudo é um bar-do, pois estamos sempre em viagem, a meio-caminho entre uma coisa e outra, seja na vida, na morte, na meditação ou no sonho. Todavia, segundo esta tradição, para que estas experiências possam ser libertadoras há que tomar consciência, ao sonhar, de que sonhamos, o que é um despertar para as suas plenas possibilidades, mas sem acordar, pois nesta visão aquilo a que chamamos acordar é afinal adormecer num sonho mais denso e ilusório… Para que isto se torne possível há que nos treinarmos, em cada momento desta vida de vigília, supostamente real, a vê-la como um sonho. O que tem, aliás, a vantagem de sabermos que nele tudo é transitório e se pode modificar. Basta percepcioná-lo de outro modo e agir em conformidade, com evidentes vantagens espirituais e sociais.

Bons sonhos!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

"Paulo Borges e a ética libertária" - entrevista ao jornal "A Batalha" conduzida por António Cândido Franco


1. João Freire, no livro de memórias que publicou em 2007, Pessoa Comum no seu Tempo (p. 437), cita-te ao lado do Carlos Fabião (hoje arqueólogo e prof. da Faculdade de Letras de Lisboa) como um dos jovens que apareciam por volta de 1975 na antiga sede do jornal A Batalha, na rua Angelina Vidal, no bairro da Graça, em Lisboa, e que foi a primeira que o periódico teve depois da Revolução dos Cravos. Queres recordar em poucas palavras a tua actividade desse tempo?

Foram bons tempos, que recordo com saudade. Tinha 15 anos e despertei de um sentimento de solidariedade com todos os povos oprimidos – que remonta à minha infância, em particular a respeito dos índios norte-americanos – para uma perfeita identificação com a visão da anarquia como a expressão suprema da ordem, numa sociedade livre de poder coercivo. Saíamos do Liceu Gil Vicente e íamos para a sede de A Batalha, fascinados por conhecer as histórias dos anarco-sindicalistas que combateram Salazar e os “comunistas” autoritários do PCP: o Emídio Santana, o Custódio e tantos outros… Foi aí que, com o Fabião e outros amigos, criámos o jornal “Não!”, órgão do Comité Anarquista Revolucionário Malatesta e integrámos a Associação de Grupos Autónomos Anarquistas. Montávamos bancas nas ruas, distribuíamos panfletos, organizávamos manifestações e comícios. Vivemos intensamente o frenesim de tudo ser possível, da política como meio de transformar a vida e a civilização, mas também o desencanto perante o conformismo e o medo que rapidamente domesticaram os portugueses. Incluindo nós próprios e os anarquistas, como mais tarde compreendi, pois queríamos mudar tudo sem primeiro nos mudarmos a nós próprios, como da sua juventude disse também Antero de Quental.

2. Em 2010 fundaste com Luiz Pires dos Reyes a revista Cultura ENTRE Culturas, que publicou até hoje quatro números. A publicação tem como objectivo a criação e o desenvolvimento de um novo paradigma cultural e civilizacional. Queres explicar que novo paradigma é esse?

Um paradigma holístico, que assuma a realidade como uma totalidade orgânica complexa, em que tudo está interconectado e não há seres isolados, mas entre-seres, feixes de relações e processos dinâmicos em constante mutação e simbiose. Um paradigma que sobreponha ao crescimento económico e tecnológico a expansão da consciência, a felicidade de todos os seres, humanos e não-humanos, e a harmonia ecológica. Um paradigma universalista, que promova o diálogo fraterno entre povos, nações, culturas e religiões, mas também entre religiosos, ateus e agnósticos. Um paradigma não-violento e libertador, que promova alternativas éticas e saudáveis em todas as áreas do conhecimento e da actividade humanos.
Interessa-nos promover este paradigma na cultura portuguesa e lusófona, cultivando as suas melhores tendências neste sentido.

3. No blogue da revista Cultura ENTRE Culturas está escrita a seguinte frase: O estado não-violento ideal será uma anarquia ordenada. (entrada de 8 de Maio de 2011). É assinada por Mahatma Gandhi. Queres comentar?

A realidade é an-árquica e caósmica, no sentido de ser uma totalidade autogerida que desconhece qualquer princípio exterior e absoluto e se apresenta como um dinamismo criador com todas as possibilidades a cada instante em aberto. A violência começa na sempre frustrada tentativa humana de domesticar o real mediante a ciência e a política, que determinaram a orientação predominante da razão grega, matriz da cultura ocidental. A não-violência a que aspiramos só é possível quando as comunidades humanas redescobrirem a ordem natural e imanente do mundo, livre de dominadores e dominados. Mas isto só é possível mediante uma profunda transformação da consciência e da ética, pela qual o homem se liberte da ficção da dualidade e seja capaz de reconhecer o mundo e todos os seres vivos como inseparáveis de si mesmo, agindo em consequência.

4. Qual o papel do património libertário e sobretudo da sua ética de vida – entre nós pode servir de referência uma figura como A. Gonçalves Correia (1886-1967), discípulo do neo-franciscanismo de Tolstói – no novo paradigma civilizacional a que te referes?

O património libertário, quando se liberta do antropocentrismo e se torna verdadeiramente libertador, é fundamental. Vejo figuras como Gonçalves Correia, autor da conferência e opúsculo A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, como exemplos desse paradigma intemporal e futuro. Ser vegetariano, desviar a bicicleta para não esmagar as formigas, esperar que elas saíssem da bacia para lavar a cara, são exemplos dessa ética do respeito integral por todas as formas de vida de que carecemos urgentemente num planeta em que, devido às acções humanas, mais de 300 espécies animais e vegetais se extinguem diariamente. Com elas é uma parte de nós que a cada dia também morre. Não faz sentido proclamar-se libertário e defensor da igualdade sem estender esse igualitarismo a todos os seres. Sem isso, ficamos reféns da discriminação especista, afim ao racismo, ao sexismo e ao esclavagismo. Na cultura portuguesa, vejo outros ilustres exemplos do novo paradigma em Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, José Marinho e Agostinho da Silva, entre outros.

5. Em 2009 fundaste o Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) e és hoje o seu principal animador. Tens consciência das limitações da vida política numa democracia condicionada pelos interesses clientelares dos partidos ou acreditas que os partidos políticos são a melhor e a mais apurada expressão da participação popular na vida pública?

Tenho plena consciência dessas limitações e na verdade é para mim num certo sentido paradoxal ter colaborado na fundação de um partido e ser hoje o seu presidente, quando sempre fui crítico do sectarismo partidário e da partidocracia. A questão é que eu e a maioria dos seus membros e apoiantes vemos precisamente o PAN como um partido diferente, o partido daqueles que tomam partido pelo todo e não pela parte, um partido não partido, integral e global, “pelo bem de tudo e de todos”, como gostamos de dizer. Um partido não em busca do poder, mas de lutar por causas éticas e justas, sobretudo aquelas que são silenciadas ou desprezadas pelos governos, pelos outros partidos e pela própria sociedade. Um partido que não se foca só nos homens, mas que estende a consideração ética a todos os seres vivos e à Terra. Um partido que se dirige fundamentalmente aos que não se revêem no actual sistema político-partidário e que se abstêm ou votam branco ou nulo.

6. O PAN concorreu às eleições legislativas de 2011 obtendo mais de cinquenta mil votos, ficando perto de eleger um representante por Lisboa; mais recentemente, nas regionais da Madeira, elegeu um representante e foi mais votado que o Bloco de Esquerda. É previsível que o grupo – aceitando que ele tem possibilidades de ocupar o espaço do ecologismo que nunca teve entre nós representação política autónoma – venha a ter um lugar institucional importante. Que novidade poderá trazer o PAN à política portuguesa e sobretudo ao desenvolvimento dum novo comportamento social que se mostre uma alternativa ao actual paradigma civilizacional?

Na verdade, poucos meses após a nossa formalização, sem qualquer experiência, sem recursos, numa circunstância política adversa e silenciados pela comunicação social, obtivemos quase 58 000 votos e eu estive à beira de ser eleito por Lisboa. Pouco depois conseguimos eleger o Rui Almeida na Madeira e sentimos que temos todas as condições para crescer e conseguir em breve mais deputados. Creio que o PAN já é a grande novidade na política portuguesa desde o 25 de Abril de 1974, na medida em que trouxe para a agenda da discussão pública grandes questões do mundo contemporâneo a que as demais forças políticas têm estado alheias, como os direitos dos animais, o impacto ambiental do consumo de carne, a insustentabilidade do actual modelo de crescimento económico, a crise de valores como a causa da crise económico-financeira, a necessidade de substituir o Produto Interno Bruto pela Felicidade Interna Bruta, etc. Vejo o PAN como um catalisador de alternativas mais éticas, justas e saudáveis em todos os domínios: transitar da democracia representativa para uma democracia mais participativa ou directa, transitar da economia de mercado para uma economia baseada em recursos, promover a descentralização e a produção e consumo locais, incentivar a agricultura biológica e a permacultura, promover uma consciência ética global e as técnicas de atenção plena nos vários níveis de ensino, integrar as medicinas alternativas ou terapias não convencionais no Sistema Nacional de Saúde, rever o sistema eleitoral e assegurar a possibilidade de concorrerem listas de cidadãos independentes, consagrar a senciência dos animais na Constituição da República e no Código Civil, etc. Vejo o PAN como a voz política do espírito libertário e libertador de muitos dos movimentos de cidadãos que hoje proliferam, mas que se arriscam a perder impacto se não se unirem e coordenarem. Há que fazer convergir todos aqueles que, defendendo os homens, os animais ou a Terra, estão já a criar um Mundo Novo.

- Entrevista conduzida por António Cândido Franco, em 2 de Maio de 2012, e publicada no jornal A Batalha, nº 250, VI Série, Ano XXXVIII, editado pelo Centro de Estudos Libertários.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

"É preciso termos um ideal. “Prende o teu destino a uma estrela”, dizia Emerson. Queiramos pensar, sentir e agir como homens, embarcar na terra para algo mais alto"

“[…] já Lamarck dizia em 1809: «A experiência mostra que os indivíduos que têm a inteligência mais desenvolvida e que reúnem mais luz, compõem em todos os tempos uma minoria extremamente pequena». O nosso futuro depende da produção desta elite levantada, generosa, cheia de coragem e abnegação, cheia de ideias, que faça esquecer esse falso escol que para aí está supondo-se glorioso e imortal. É preciso termos um ideal. “Prende o teu destino a uma estrela”, dizia Emerson. Queiramos pensar, sentir e agir como homens, embarcar na terra para algo mais alto. Não há nada mais prático do que dar aos espíritos esta comoção, esta ânsia, esta religiosidade fervorosa. O ensino prático não é só o ensino que faz caixeiros, guarda-livros e condutores de obras – é aquele que faz homens, capazes de sentir um Ideal e de compreender o preço da vida” - Raul Proença, “Alguns vícios da educação do nosso país - II”, in “Alma Nacional” [1910].

"[...] os políticos não são melhores nem piores do que o permitem as condições gerais da mentalidade portuguesa"

[Sobre a "Seara Nova"] "Não comunga ela no sofisma de que são os políticos os únicos culpados da nossa situação. A verdade é que os políticos não são melhores nem piores do que o permitem as condições gerais da mentalidade portuguesa. Todo o país tem de aceitar a responsabilidade que lhe cabe; todo o país, e em especial a sua élite. A vida política duma nação é, em grande parte, o reflexo da sua vida intelectual, dos seus movimentos de ideias, das aspirações mais profundas do seu escol" - Raul Proença, "Apresentação da «Seara Nova»"

O objectivo do verdadeiro político [...] é tornar a política desnecessária, e cada vez mais necessária a arte"

"O fim, em meu entender, é instaurar uma sociedade em que tudo seja arte, e nada seja política. O objectivo do verdadeiro político (se não estou em erro) é tornar a política desnecessária, e cada vez mais necessária a arte" - António Sérgio

terça-feira, 10 de julho de 2012

“Quando dás a volta à Terra a cada hora e meia reconheces que a tua identidade não tem que ver com um lugar concreto, mas está antes ligada à totalidade do planeta"

“Quando dás a volta à Terra a cada hora e meia reconheces que a tua identidade não tem que ver com um lugar concreto, mas está antes ligada à totalidade do planeta, o que, implica, necessariamente, uma transformação. Quando olhas para baixo não percepcionas nenhum tipo de fronteiras […]. Centenas de pessoas matando-se uns aos outros por uma linha imaginária que nem sequer podes chegar a percepcionar. Visto daqui o planeta é uma totalidade tão bela que desejarias pegar pela mão a todos os indivíduos, um por um, e dizer-lhes: «Olha-o daqui. Dá-te conta do que é realmente importante!» […] Pensas no que estás a experimentar e questionas-te o que fizeste para merecer esta fantástica experiência. Por acaso fizeste algo para experimentá-la? Foste eleito por Deus para desfrutar de uma experiência especial à qual os demais não podem aceder? Sabes que a resposta é não, que não és especialmente merecedor do que está a ocorrer. Isto não é algo especial para ti. Nesse momento estás muito consciente de seres uma espécie de sensor de todo o género humano. Contemplas então a superfície do globo sobre o qual viveste até esse momento e tomas consciência de todas as pessoas que vivem aí. Eles não são diferentes de ti, és igual a eles, representa-los. Não és mais do que o elemento sensível […]. De algum modo tomas consciência de que és a vanguarda da vida e que deves regressar renovado a ela. Esta experiência torna-te mais responsável da tua relação com isso a que chamamos vida. Houve uma mudança que transforma, a partir desse momento, a tua relação com o mundo. Esta experiência excepcional modifica a relação que mantinhas, até então, com este planeta e com todas as suas formas de vida” - Rusty Schweickart, astronauta, falando da experiência de contemplar a Terra a partir da Apolo 9.

domingo, 8 de julho de 2012

”Chamo «cultura», no sentido absoluto, à faculdade de nos desprendermos do nosso ser biológico, do eu individual, acanhado, restrito"

”Chamo «cultura», no sentido absoluto, à faculdade de nos desprendermos do nosso ser biológico, do eu individual, acanhado, restrito, de todos os limites que tendem sempre a impor-nos as condições particulares de espaço e de tempo, do «aqui» e do «agora», - e dos acidentes de classe, de partido, de nação, de raça; ao dom de dessubjectivarmos a nossa vida psíquica, o nosso pensar espontâneo; ao de tendermos para um nível de racionalidade perfeita, - para o nível do divino, se acharem assim preferível, - na maneira de julgar e de actuar no mundo. É em suma o equivalente, no pensar racional, do que chamam os místicos a «união com deus»; é o processo de divinização do ser anímico; é a completa efectuação daquele dizer do Evangelho: «todo o que procura salvar a sua vida» (isto é: o que se ativer ao âmbito da vida individual limitada, essa mesma que está presa ao nosso condicionamento biológico) «perdê-la-á; e todo o que a perder, salvá-la-á» (isto é: poderá constituir, por tal desprendimento, a sua personalidade racional, - a que é absoluta, desenleada, sobrepairante, una, sendo, por isso mesmo, livre). Ser culto é, ao cabo de contas, o pensarmos sub species aeternitatis, de que falou na Ética o Espinosa. Estou eu em crer que seremos cultos na medida exacta em que formos largos, compreensivos, liberais, amantes; […]” - António Sérgio, Cartas do Terceiro Homem, in Democracia, Lisboa, Sá da Costa, 1974, p.354.

sexta-feira, 6 de julho de 2012



Se todas as verdades estivessem no fundo mar
E todos os poemas fossem filhos dos nossos filhos
Se todas as estradas fossem os dedos das mãos
E o romantismo atordoasse os pássaros
Se o desejo se derramasse pelos homens abandonados
E o amor fosse a vasilha de sol que procuramos

Se o coração estivesse rodeado de armadilhas
E as gaivotas fossem apenas íntimos delírios
Se as plantas ao crescer desenhassem pensamentos
E todas as dúvidas adormecessem pela manhã
Se as águas aprisionassem a dor dos animais
E o lume por bondade nos matasse a sede.




Sou um liberal de velho estilo para quem todos os males vêm ao mundo da ordem e da organização" - José Marinho

"Sou um liberal de velho estilo para quem todos os males vêm ao mundo da ordem e da organização. O espírito repudia a ordem que existe para as coisas e a organização que é só própria dos seres vivos" - José Marinho